Pilar era uma mulher velha. De rosto encarquilhado pelo tempo
implacável, endurecidas as rugas como os veios da rocha, a pele estalada pela
amargura. Tinha dois olhos negros que eram como dois globos monolíticos, dois
grandes olhos de pedra fria que só muito raramente se moviam à procura do mundo
á sua volta. Pilar era cega. Uma mulher rancorosa. E foi sempre o mais cómodo
possível atribuir-se à cegueira as culpas do seu amargo rancor. Mas tacteava o
mundo com as pontas dos dedos frenéticos, e movia-se com uma rapidez de
serpente, como se a escuridão permanente em que vivia lhe tornasse mais nítidos
os contornos das coisas. E Pilar tacteava em busca do rosto de alguém, o rosto
de um desconhecido a quem pudesse dizer «tens têmporas amaldiçoadas, serás
infeliz e perderás todos aqueles que amas». Que sorriso rejuvenescia Pilar ao
afastar-se no seu caminho de um desconhecido desconcertado? Ninguém já se
lembra se alguma vez fora ela uma mulher doce. «Coitadinha da cega, não lhe
liguem que a pobre é tão infeliz...» e ninguém se lembra já, porque ninguém
vê, mais cegos que a cega, que Pilar procura no cair da noite os recantos
sombrios, para se esconder entre becos e ruelas... É noite de natal e Pilar
está sozinha. Chora baixinho, sem soluços e quase sem lágrimas. Não está
ninguém que pudesse lembrar-se que Pilar nascera já amargurada pelo dom da
lucidez. Arrancara os próprios olhos para não ver.
Bruno acordara a meio da noite com um sobressalto. Imagem típica
de filme de fraco suspense. Não conseguia recordar-se sequer de um
pesadelo que o tivesse sufocado à superfície do sono, lembrava-se inclusive de
ter adormecido tranquilo, ainda com a aparelhagem ligada a entoar a voz de Lisa
Ekdahl. Faltavam três dias para o Natal, ia oferecer o CD à irmã, que andava na
escola de jazz a ter aulas de canto. Estremeceu ao pousar a mão sobre o rosto e
sentir-se encharcado de suor. Tinha a cama húmida e quente, e no entanto
sentia-se pavorosamente frio. Gelaram-lhe as pontas dos dedos, enquanto
ordenava ao seu coração que se dignasse a subir dos pés para o peito. Ouvia o
nome dela a latejar-lhe nas têmporas, cada vez mais alto, cada vez mais
estridente, cada vez mais perto. Tentou arrancá-la da memória com um gesto
furioso que o arremessou contra o chão. «Estás morta, vai-te embora! Porque
não me deixas sossegar?» Quis lavar o rosto, tomar um banho para recuperar
o sono perdido. A porta da casa-de-banho estava entreaberta, a torneira da água
quente a correr. Encontrou-a deitada na banheira, pálida e translúcida, à sua
espera. O sabor do suor pareceu-lhe metálico e vermelho. Olhou-se ao espelho e
não se viu. Não sabe dizer em que momento o seu corpo enrijeceu e caiu no chão
estilhaçado em mil fragmentos de pedra ferida.
Bárbara conhecera Jan numa daquelas galas de beneficência de
qualquer coisa, uma daquelas coisas em nome da caridade. Estava desgrenhado e
olheirento, envergando um fato desfraldado, encostado à laje da entrada
principal como se dormitasse. Parece que era o artista homenageado na gala.
Tinha pintado durante semanas a fio para doar os seus quadros a um ricaço de
bom coração que os iria leiloar em favor de uma qualquer instituição, para
ajudar os meninos mais desfavorecidos a terem também um Natal feliz. Não estou
a zombar da miséria alheia - simplesmente a miséria não é relevante para a
nossa história. Bárbara caminhava ao ar livre com os sapatos na mão, arrastando
o vestido comprido pelas folhas caídas dos ulmeiros, à procura das vozes
nocturnas, do canto suave de uma noite de luar límpido. Jan agarrou-lhe um
tornozelo. «Por este tornozelo iria roubar-te ao Inferno, se fosse preciso».
Bárbara não mais entrou na festa. Sentou-se na mesma laje fria ao lado do pintor,
e foi onde permaneceu até hoje, quando a encontramos. Tudo o que se soube
proveio de rumores incertos e pouco precisos. Dizem que os viram correr nus ao
longo da estrada desafiando a vertigem. Disse-se também que Bárbara dançara
descalça para ele e que subitamente o luar se tornou demasiado ofuscante para
que se percebesse em que momento desapareceram. Nada de concreto existe senão
uma jura de amor eterno cravada com um canivete no tronco robusto de um
ulmeiro. Esta noite encontramos Bárbara, despida, sobre a laje junto á entrada
principal, roxa e sem vida. Não se lhe encontrou causa de morte. De Jan nunca
mais houve notícias.