Poemário

 

 

 

 

 

I.

 

 

Mergulho as mãos nos teus cabelos
Bebo o sal da tua pele
Em redundâncias crescentes
Tocando-te o fervor do ventre
Onde guardas o meu último silêncio
De te beijar os olhos como oceanos
Escorrendo para os meus braços em lágrimas.
Hora rasgada
Madrugada tardia.


 

 





II.


Entro pela janela escurecida.

Sou um rasgo de vento.

Incendeia-se o horizonte à tua passagem.

Os meus braços são monumentos.

Na espera do teu refúgio.

A luz entardece.
Nocturna-se a música.






 

 

III.


Sulco os pés na rocha marítima
Ao largo da casa sobre o mar

Espalho na brisa memórias das ondas
Onde se enrolam dedos prateados de luar

Caminho sobre a água e excito o verde
Afogando o horror de te amar.



 

 

 



 

IV.

 


Desenha-se ao longe uma linha
rasto de uma maré tardia que se ensaia na praia
recortada em traços insulares
e é o horizonte que se espelha no entardecer
matizando a ilha de purpúreas sombras
e hesitam as ondas entre a morte e o regresso
viajando entre o alto e o silêncio dos passos
quebrando a vigília nocturna da ave
que ronda em círculos
gritando o seu voo ao farol
e é sob esse voo que mergulhas
ébrio de madrugadas
encontrando entre o sal e o frio um beijo
devolvido pela luz azul
em que construo o castelo do meu amor









V.


Vozes vespertinas
do vento despertam
ao som velho de violinos
quebrados e secos
ritmo sincopado
da aridez do deserto
em túnel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VI.

 

 

Descalço a madrugada e saio para a rua
Levo-a nas mãos como sandálias que pendem
Largadas esquecidas num escombro da noite
Fecho o corpo em concha
Caminho sobre as frestas do silêncio
Banhada de luz
Como se me desenhasse o perfil
São 7 segundos de passos
E procuro o teu nome no chão das cidades
Dispo-me de rios
E encontro-te entre as ruas
Onde habitam vozes
que me elevam às estrelas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VII.

 

 

Um cheiro a jasmim recorta as sombras

Invade os espaços por entre a claridade

E é apenas a luz que espreita

Numa vidraça escondida

E entre os meus dedos desenha um poema

Tardiamente

No refúgio de lençóis brancos

E uma vela ensaiando ritmos

Como se o vento dançasse

E o meu corpo viajasse

Embalado

Num cheiro a jasmim...

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