O mundo dos meus pensamentos. Aquilo que gosto de ler, aquilo que me faz reflectir, aquilo que faz o meu esp�rito desabrochar... Aqui est�o revelados alguns dos meus autores preferidos e os motivos porque me fascinam. Boa viagem pelos outros mundos que vos proponho. :)
Milan Kundera


�Depois, disse para consigo: um dia, quando o assalto da fealade se tiver tornado completamente insuport�vel, comprar� numa florista um mios�tis, um �nico mios�tis, com a sua delicada hastezinha encimada pela flor em miniatura, e sair� com ele para a rua mantendo-o diante do rosto, com os olhos fitos nele a fim de n�o ver mais nada a n�o ser o belo pontinho azul, derradeira imagem que quer conservar de um mundo que deixou de amar. Ir� assim pelas ruas de Paris...�

in
A Imortalidade


Gabriel Garc�a M�rquez


�A cela era ampla, de paredes �speras e tectos muito altos, com marcas de caruncho na madeira trabalhada. Junto � �nica porta havia uma janela de corpo inteiro, com um travess�o de ferro. Na parede do fundo, que dava para o mar, havia outra janela alta fechada com grades de madeira. [...] Havia um banco de pedra para se sentar e uma mesa de trabalho que servia simultaneamente de altar e de lavat�rio, com um crucifixo solit�rio pendurado na parede. Ali deixaram Sierva maria, ansopada at� � tran�a e tiritando de medo, ao cuidado de uma guarda preparada para ganhar a guerra milen�ria contra o dem�nio. [...]
Ouviu o bater das �guas, o vento do mar e os primeiros trov�es da esta��o, cada vez mais pr�xima. Ao amanhecer do dia seguinte, quando a criada voltou com o pequeno-almo�o, encontrou-a a dormir sobre a palha do colch�o que tinha rasgado com as unhas e com os dentes.�

in
Do Amor e Outros Dem�nios
Fernando Pessoa


�N�o sou nada.
Nunca serei nada.
N�o posso querer ser nada.
� parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.�

in
Tabacaria, �lvaro de Campos


�� dolorosa luz das grandes l�mpadas el�ctricas da f�brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
� rodas, � engrenagens,
r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f�ria!
Em f�ria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora com o que eu sinto!
Tenho os l�bios secos, � grandes ru�dos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabe�a de vos querer cantar com um excesso
De express�o de todas as minhas sensa��es,
Com um excesso contempor�neo de v�s, � m�quinas![...]�

in,
Ode Triunfal, �lvaro de Campos
Florbela Espanca


Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de vol�pia, noites quentes
Onde h� risos de virgens desmaiadas...

Oi�o olaias em flor �s gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
S�o peda�os de prata plas estradas...

Os meus l�bios s�o brancos como lagos...
Os meus bra�os s�o leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e misteriosa,
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
� meu poeta, o Beijo que procuras!

in
Horas Rubras
Sugest�es de Leitura:


A Imortalidade, Milan Kundera
A Insustent�vel Leveza do Ser,
Milan Kundera
Cem Anos de Solid�o,
Gabriel Garc�a M�rquez
O Amor nos Tempos de C�lera,
Gabriel Grac�a M�rquez
O Perfume,
Patrick Suskind
Une Femme,
Anne Delb�e
A Metamorfose,
Franz Kafka
Memorial do Convento,
Jos� Sarmago
Ensaio Sobre a Cegueira,
Jos� Saramago
Pensar,
Verg�lio Ferreira
O Livro do Desassossego,
Bernardo Soares
Os Vers�culos Sat�nicos,
Salman Rushdie
O Sentimento de Si,
Ant�nio Dam�sio
Os Cadernos do Subterr�neo,
Fiodor Dostoievski
As Cidades Invis�veis,
Italo Calvino
O Principezinho,
Antoine de Saint-�xupery
A Menina do Mar,
Sophia de Mello Breyner
Antologia Po�tica,
Ant�nio Maria Lisboa
Antologia Po�tica,
Sophia de Mello Breyner Andresen
� Tudo, Marguerite Duras
O Amor,
Marguerite Duras
Na Berma de Nenhuma Estrada, Mia Couto
A Pluma Caprichosa, Clara Ferreira Alves
Antologia de P�ginas �ntimas, Franz kafka
A Paix�o segundo G.H., Clarice Lispector
O Medo, Al Berto
Hiroshima, Meu Amor, Marguerite Duras
Lun�rio, Al Berto
Explica��es de Portugu�s, Miguel Esteves Cardoso
Que Farei Quando Tudo Arde,
Ant�nio Lobo Antunes
Livro de Dan�a, Gon�alo M. Tavares
O Lado Esquerdo da Alma, M�rio de S� Carneiro
A Noite Mais Escura da Alma, Ana Teresa Pereira
Antologia Po�tica, Juan Ramon J�menez
O �ltimo Voo do Flamingo, Mia Couto
Antologia Po�tica, Frederico Garcia Lorca
A Lentid�o, Milan Kundera
HOME
Sophia de Mello Breyner Andresen


�N�o te chamo para te conhecer
Conhe�o tudo � for�a de n�o ser

Pe�o-te que venhas e me d�s
Um pouco de ti mesmo onde eu habite.�

in,
No Tempo Divido: Poemas de um Livro Destru�do



�� o teu rosto ainda que eu procuro
Atrav�s do terror e da dist�ncia
Para a reconstru��o de um mundo puro.�

in,
Mar Novo
Marguerite Duras


�Quando se escutou o corpo, diria o desejo, enfim, o que � imperioso dentro de n�s, quando se escutou at� que ponto o corpo pode gritar ou silenciar tudo ao seu redor, levar a vida inteira, as noites, toda a actividade se n�o conhecemos a paix�o que assume esta forma, a paix�o f�sica, n�o conehcemos nada.[...]
N�o existe presente.
Existe um passado assombrado pelo futuro e
um futuro esquartejado pelo presente.[...]
Quis dizer-lhe
que o amava.
Grit�-lo.
� tudo.�

in,
� Tudo
Al Berto


�A cidade e anoite s�o o meu cora��o do medo.
E nada me salvar�.
Sozinha, estou sozinha, irremediavelmente sozinha.[...]
A noite est� calma. N�o me refiro � noite onde os outros, os vivos, se movem; refiro-me �quela noite terr�vel onde o meu cora��o bate desordenadamente.[...]
Dentro de pouco tempo n�o sentirei mais o meu corpo, e tudo me ser� permitido, mesmo a morte, ou a simula��o da vida.
As m�os, aqui est�o as minhas m�os, secas e despojadas como um deserto. Para que ter�o servido as minhas m�os?[...]
Grito e sussurro para dentro de mim, para me magoar, e ningu�m me ouve. S� o sangue aquece repentinamente.
Branco. Sou a mancha que flutua � beira deste abismo.
[meu amor] Estou a arder.�

in,
Lun�rio
Mia Couto


N�o saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
s� os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
s� n�s n�o podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

N�o � este sossego
que eu queria,
este ex�lio de tudo,
esta solid�o de todos

Agora
n�o resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem � boca

Nenhuma palavra
alcan�a o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo�

in,
Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Quest�es
Mia Couto


�No jejum do cora��o, quem emagrece � a alma. At� que o c�u perde o cheiro, o tempo n�o tem sabores e a vida se descolora.
(...)

A espera � uma tecedura, a gente cria presen�as com materiais de aus�ncia.�


in,
Na Berma de Nenhuma Estrada
Nietzsche



� noite. Ouve-se com mais for�a o canto das fontes que jorram. E a minha alma � tamb�m uma fonte que canta.[...]
Existe em mim um desejo insaciado e insaci�vel que pretende fazer ouvir a sua voz. Existe em mim um desejo de amor que fala na pr�pria linguagem do amor.
Sou luz: ah, porque n�o serei eu noite! Mas a minha solid�o � estar cingido de luz.[...]
Mas vivo na minha pr�pria luz e devoro as chamas que de mim brotam.
Ignoro a felicidade daquele que recebe; e quantas vezes eu sonhei que roubar ainda deveria dar mais felicidade do que receber.
A minha pobreza � que a minha m�o nunca cessa de dar; o que invejo s�o os olhos cheios de esperan�a e as noites iluminadas de desejo.


in,
O Nocturno, Assim Falava Zaratustra.
Juan Ramon J�menez


(�par d�licatsse, j'ai perdu ma vie�, A. Rimbaud)

[...]Eu vou morto pela luz
agreste das ruas; chamo
com todo o meu corpo a vida;
quero que me queiram; falo
a quantos me emudeceram,
e logo estou solu�ando,
rubro de amor este sangue
desdenhoso de meus l�bios.[...]�

in,
Jardines Lejanos
Al Berto


�[...]mas gosto da noite e do riso e das cinzas. gosto do deserto, e dio acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora��o, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.


a dor de todas as ruas vazias.[...]�


in,
Horto de Inc�ndio
Franz Kafka


�Sofri muito em pensamento.
Fui acordado em sobressalto de um profundo sono. No meio do quarto estava sentado � mesinha, iluminada por uma candeia, um homem estranho. Sentado no claro-escuro, amplo e pesado, op seu sobretudo de Inverno desabotoado fazia-o parecer ainda mais amplo.

Para meditar melhor: [...]

� ineg�vel que h� uma certa felicidade em poder escrever tranquilamente: �O horror da asfixia � inconceb�vel.� Inconceb�vel, sem d�vida, de maneira que tudo se passa como se eu nada tivesse escrito.[...]

Foi, no decurso da semana passada, um desmoronamento total como s� ocorreu nessa noite �nica, h� dois anos, exceptuada a qual n�o vivi nada semelhante. Tudo parecia acabado ainda e hoje n�o me parecem as coisas em estado realmente diferente. Pode compreender-se isso de duas maneiras diferentes e podemos faz�-lo de duas maneiras ao mesmo tempo. Primeiramente: desmoronamento, impossibilidade de dormir, impossibilidade de velar, impossibilidade de suportar a vida ou mais exactamente a continuidade da vida. Os rel�gios n�o concordam, o rel�gio �ntimo corre de uma maneira diab�lica, demon�aca, em todo o caso inumana, o exterior prossegue com um ritmo habitual a sua marcha ordin�ria. Que poder� aconetcer, sen�o que os dois diferentes mundos se separem ou pelo menos se arranquem um ao outro de maneira t�o terr�vel?�

in,
Antologia de P�ginas �ntimas
Dostoievski


�Quarenta anos a fio ele ruminar� at� �s �ltimas, at� ao mais escabrosos pormenores, [...]e, de cada vez, h�-de acrescentar-lhe outros pormenores ainda mais vergonhosos, nutrindo-se da sua raiva maldosa e escarnecendo de si mesmo com a sua pr�pria fantasia.[...]
E h� hora da morte h�-de o rato lembrar-se de tudo mais uma vez ainda, com juros acumulados, e a�... Mas � neste p�trido, neste glacial meio de desespero e meia esperan�a, nests quarenta anos de subterr�neo e sepultamento em vida, consciente de si, sob a carga da desgra�a;neste atoleiro de uma situa��o expressamente criada mas mesmo assim eivada de certa d�vida; em todo este veneno de impregnados desejos insatisfeitos; em toda esta febre de vacila��es, de decis�es tomadas para sempre mas com os remorsos  que logo surgem no minuto seguinte - em tudo isto consiste o sumo desse estranho gozo de que vos falei�


in,
O Subterr�neo, Cadernos do Subterr�neo
Sophia de Mello Breyner Andresen


�Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha r�pida noite meu sil�ncio
Minha p�rola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do para�so

C� fora � luz sem v�u do dia duro
Sem os espelho vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.�


in,
Livro Sexto: A Estrela
Eug�nio de Andrade


�Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
l� dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrernaquele sorriso.�


in,
Sorriso
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