O Naufrágio

 

 

 

 

Tinham dado o primeiro passo dentro do navio quando ela subitamente tropeça no vestido. Nesse preciso momento uma gigantesca nuvem cinzenta precipitou-se sobre o Timão tornando-o uma mancha sombria nos olhos dos infelizes desembarcados. Elizabeth fechara-se no camarote com as mãos cerradas uma na outra, sentada na beira da cama como se estivesse na margem do mundo e uma vaga precipitasse a sua queda a qualquer momento. Escureceu em tons de azul. As escotilhas espalhavam brilhos redondos pelo convés, através das frestas por onde o luar se escapava até ao silêncio do alto mar. Bob bateu três vezes à porta antes de regressar pelo corredor em direcção ao exterior. Sentiu o eco de um trovão dentro do peito e o frio de um glaciar na ponta dos dedos. Tentou esticá-los e aterrorizou-se ao vê-los paralisados. Tinha três lances de escadas à sua frente e o seu último pensamento antes de perder os sentidos foi a vertigem de não conseguir alcançá-los. Um baque surdo ecoou pelos confins da noite. A queda de um pedaço de terra para dentro do mundo, como se um buraco no mar a engolisse. Elizabeth fechava os olhos sabendo o fim próximo. Vieram finalmente buscá-la. Olhou por breves instantes o abridor de cartas na secretária. Nesse momento, a tempestade irrompeu e agarrou-a com mãos tenazes, cuspindo-a depois para o vazio. Fora do navio, no sítio onde o mar acaba e não há mais terra, nem há mais mundo. No seu vestido carmim de prostituta amargurada, Elizabeth saboreou a morte de olhos abertos, no fascínio de permanecer com os olhos virados para dentro.

 

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