Ela chegou a uma sala ampla e absolutamente escura, tão escura e
tão ampla que não lhe conseguia discernir os limites. Mas parecia-lhe grande,
assustadoramente grande. Subitamente, acendeu-se um holofote que iluminou o
centro da sala, e ela hesitou em dar mais algum passo... Ficou quieta à espera
do que surgiria. Da penumbra viu sobressair a silhueta de um homem
relativamente novo, mas de rosto envelhecido. devia ter os 30 anos, mas as
sombras impediam-na se perceber se a figura era agradável ou não. Ele
ordenou-lhe que pegasse numa cadeira e se sentasse, encaminhando-a para o
centro do foco luminoso. Ela mostrou-se um pouco relutante, sentiu-se
constrangida e agorafóbica, como se estivesse num palco de um velho teatro
abandonado para representar um papel que lhe era ainda desconhecido. Sentou-se
e percebeu que não conseguia senão vislumbrar um vulto esboçado na escuridão.
Aumentou-lhe o constrangimento, juntamente com uma sucessão de arrepios na
espinha - não conseguia ver o rosto do público, a sensação de vazio aumentava.
A primeira coisa que ele lhe perguntou foi sobre o seu coração.
Ela sofria de um mal profundamente incomum, por isso mesmo encarado com
estranheza e horror... há cerca de onze meses, ela tinha acordado a meio da
noite sem coração - tinha apenas um grande buraco no peito em seu lugar. O
pânico instalou-se-lhe por baixo da pele e por baixo das unhas, não tanto pelo
facto de se ver sem coração, mas antes pelo facto de estar viva sem ele. Tinha
os lençóis completamente inundados de sangue. Não conseguia sequer fazer o
esforço de respirar sem sentir que as paredes da ferida se rasgavam ainda mais
e aumentavam o tamanho do buraco. Desde essa noite, viveu sempre com um buraco
vazio no peito no lugar do coração, com uma ferida que nunca cicatrizou e que
ocasionalmente inflamava e a fazia estalar de dor ao sentir a carne viva a
sangrar.
Muitas suposições se fizeram sobre tão estranho acontecimento,
mas a verdade é que toda a maior parte das pessoas nunca se apercebeu sequer da
sua falta de coração. Olhavam-na e achavam-na talvez mais magra, de cara mais
enfiada, [i]«não deves andar a alimentar-te bem... tens dormido?»[/i]... mas
nunca suspeitavam que no seu peito batia apenas o ritmo da ausência de um
coração que se tinha escapulido pela noite dentro. Nunca mais soube do seu
paradeiro desde então. Calculou, obviamente, que lho tivessem levado quando a
apanharam desprevenida pelo cansaço. O homem de 30 anos supôs que o coração
tivesse morrido. De desgosto, talvez. Ela continuava segura de que não poderia
ter morrido. Como poderia o seu coração ter morrido sem ela? Não, nem pensar.
Se ele tivesse efectivamente morrido, ela teria também morrido com ele.
Acredita então que ele fugiu, fugiu da dor latente, do pesadelo iminente... mas
pressente-o a vaguear perto de si muitas vezes, pressente que por vezes procura
regressar, mas é como se já não encontrasse o seu caminho de volta ao peito que
o albergara durante tantos anos... Então ela chama por ele, noite após noite,
inventa-lhe rostos nas matizes do silêncio, descobre-lhe um nome à flor da sua
própria pele... Chama-o e por vezes sente-o tão perto que quase se imagina
tocar-lhe, acariciá-lo e cuidadosamente devolvê-lo ao seu receptáculo
amargurado e ferido.
A verdade é que ela tem consciência que definha dia após dia,
cada vez mais fraca em cada momento. Sabe que quanto mais tempo viver sem
coração mais o buraco no seu peito irá aumentar, a tal ponto que um dia a
engolirá. Por isso sonha, sonha bastante, como se o procurasse também dentro do
sono. mantém acesa a esperança. Na escuridão opaca como um monólito, ela
vislumbra ainda milhões de pontos luminosos, como estrelas, à sua espera.
Procura manter-se em contacto com esse pequeno enxame de luz, que lhe lembra o
céu de Agosto ao som de uma canção de embalar, esticando as pontas dos dedos
para o vazio.
O entrevistador não dá pelo tempo que passa. É absorvido pela
conversa enquanto ela divaga sobre a dor do seu coração vagabundo que lhe
abandonou o peito e foge de si como um animal ferido. Mesmo nós, perdemos já de
vista o propósito desta história. Tudo se desenrola ao contrário. A partir de
um certo momento, é como se a luz amarelecesse e ele sentisse que lhe sujava o
olhar. Sente a sala mais vazia do que nunca. Consegue distinguir um subtil
contorno do homem que expele o fumo azulado de um cigarro moribundo. Prepara-se
para sair, mesmo quando ele insiste para que se converse mais. Vê-se aflito
perante a comoção dela... procura confortá-la enquanto observa uma minúscula
gotinha de sangue atravessar-lhe o vestido, do lado esquerdo do peito. Ela
volta-lhe o rosto enquanto deixa cair as suas lágrimas para o chão. Quer ir-se
embora, está farta de falar com aquele homem. Estranhamente, a presença de
outros é-lhe agora perfeitamente insuportável. Imagina que sejam as sequelas de
tanto tempo passado dentro de um túnel onde o tempo brinca às escondidas, e faz
passar anos em meses, horas em dias...
O homem não acredita que já conversam há onze horas. Ela também não se
esforça por convencê-lo. Quer apenas sair dali. Está amarga e triste. Desolada.
O homem procura novamente reconfortá-la, mas já ela está a bater com a pesada
porta da saída... Percebe finalmente porque ficou sem coração - ele foi atrás
do seu amor, do amor que se perdeu há anos atrás, sem o qual o seu frágil
coraçãozinho não consegue viver... ele foi atrás do seu amor e não voltará para
casa enquanto não o encontrar. mas ela espera-o, espera-o sempre. Mesmo
enquanto segura a mão de encontro ao peito em jeito de lápide. Quando dá o primeiro
passo na rua e sente o frio invernoso de Dezembro, inaugura na sua ferida
latejante um túmulo em brasa para um amor morto...