Margens

 

 

 

 

Quero uma manhã limpa de regressos

mas não sou eu que a quero, o discurso flui-me indirecto

falo pela voz de outrem

como se ensaiasse ainda o dia de ontem.

 

Ondulo o corpo ao som do jazz

e pereço

entras as linhas que se dobram sobre o gesto

quando te alcanço

onde tu já não estás.

 

Conto dias ao som dos dedos

desfiando arestas

nas margens finas do tempo

recordo um sabor

adocicado de mel

ácido de morangos

e uma gargalhada cristalina com aroma de maresia.

 

Esta noite caminhei sobre as rochas que sonhei

onde vagueias

e joguei à cabra-cega com cada grão de areia

nas mãos transporto

as letras do teu nome

que escrevo

e reescrevo

e embalo as tardes até efervescer da noite

onde estou só.

 

Diluo-me nas sombras

nas incertezas

e não espero nada

regresso algum

quero apenas a próxima manhã

uma manhã qualquer

azul ou cinzenta

desde que me encontre de olhos abertos.

 

 

 

 

 

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