Maré
Negra
Mia era uma mulher considerada bonita. Daquela
beleza que não nasce da concordância dos homens, mas da perfeição da própria
Terra. Tinha um pescoço muito esguio, de uma pele banca de marfim, que fazia
parecer que andava realmente com a cabeça entre as estrelas.
Tinha dois olhos muito esbugalhados, escuros
como a noite, e carregados de um brilho sombrio que parecia transparecer a
angústia de os ter sempre dolorosamente abertos. Os lábios eram vivos como
carne em sangue, sempre húmidos de desejo, sempre entreabertos à espera de um
beijo. Todo o seu corpo era de uma beleza pungente, aquela que doía contemplar
na penumbra espessa de um quarto iluminado pelo ocaso. Movia-se serpenteando,
sempre esguia, sempre sibilina, e o som dos seus passos era quase inaudível,
assemelhando-se a um silvo sub-reptício. Mia era uma mulher que vivia
exclusivamente dentro do seu corpo, e poucas eram as coisas que compreendia do
mundo exterior. Olhava sempre para dentro, contemplando-se na sua estranheza
interior, mas nas ocasiões em que lançava um olhar distraído para o que a
rodeava achava tudo ainda mais estranho, mais absurdo, e sentia uma agonia tão
profunda de existir num sítio assim que se encolhia sobre si própria, fechava
os olhos e recolhia-se num sono profundo.
Apesar de tudo, Mia era uma mulher de paixões. Despertava-as
muito frequentemente nos outros, e vivia quase exclusivamente para as descobrir
dentro de si, revolvendo-se na lava quente que parecia correr-lhe nas veias.
Tinha vivido ao longo da sua vida com sete homens. Seis deles
eram talhantes. Carniceiros marcados pelo cheiro sebento do sangue dos animais
mortos, encrostado em camadas secas sobre um avental sujo, com as mãos de unhas
pretas banhadas em suor e sarro. Todos eles pareciam apenas meras
multiplicações uns dos outros, sempre variações de uma mesma pessoa, sempre um
mesmo homem encontrado em cubículos diferentes em diferentes cantos imundos das
cidades...
Todos eles viviam num quarto encenado nas águas-furtadas do
edifício onde possuíam o talho, sempre um mesmo quarto de paredes amarelecidas,
com vestígios de tinta estalada e marcas escuras de humidade e bolor. Todos os
quartos tinham uma janela virada a Poente, uma pequenina janela de folha dupla,
de pequenos vidros rachados em caixilhos de madeira velha e apodrecida pelas
traças. Dessa janela entrava a pouca luminosidade do quarto, uma luz já suja e
baça, gasta do fim do dia, e embebia todos os objectos numa penumbra
amarelenta.
Havia sempre uma lâmpada sem candeeiro pendurada sobre a cama,
que geralmente se acendia apenas quando a noite caía por completo. A cama de
ferro parecia vestir-se sempre dos mesmos lençóis sujos e rotos, sendo já
difícil descortinar a sua cor original. E era nessa cama que Mia se encolhia
horas a fio, voltada para a janela, esperando o apagar das luzes da cidade e a
entrada do fogo vermelho que tingia o céu do entardecer.
À sua volta não havia muito com que se distrair. Apenas uma
escrivaninha velha, sempre fechada à chave, onde os talhantes encerravam as
contas do dia, anotando tudo num caderninho preto de linhas desbotadas; havia
também uma mesinha de cabeceira com alguns objectos esparsos, distraidamente
esquecidos, mais que pousados. Uma jarra de vidro vermelho com algumas flores
já murchas, malmequeres de cabelos caídos, um velho relógio que despertava
religiosamente como uma sirene todas as madrugadas às 5h em ponto, uma caixinha
de madeira que nunca se dera ao trabalho de abrir, um frasco de perfume antigo,
quase esgotado, e algumas outras pequenas quinquilharias que se acumulavam e se
espalhavam descuidadamente até fora da mesinha de cabeceira.
Mas Mia não se entretinha muito com estas coisas, a maior parte
do seu dia era vivido na rua, vagueando, quase vagabundeando até onde o cheiro
do mar a levasse. O mar encontrava-se ainda bastante longe do subúrbio onde
vivia, mas Mia caminhava horas sem fim desde antes do nascer do sol até o
encontrar.
Quando alcançava finalmente a praia, tirava os sapatos e
largava-os perdidos em qualquer lado – por isso é que ao fim de alguns meses
deixou de usá-los, e caminhava sempre descalça. Tocava com os pés na areia no
preciso instante em que a luz do dia surgia no horizonte, imprimindo no seu
olhar o único brilho limpo de todos os dias – era a única hora do dia que Mia
suportava, a única em que a luz nascia limpa e imaculada, e os seus olhos eram
os primeiros a sentir a brisa fresca do azul puro que ia amarelecendo ao longo
do dia.
Ficava depois sentada na praia durante algumas horas, muito
quieta observando o mar, deixando os pensamentos flutuar ao ritmo melancólico
das ondas. O cheiro da maresia era a única coisa que fora de si a apaziguava.
Por vezes, chegava-se mais perto da água e mergulhava as mãos, para impregnar a
sua pele do aroma das algas salgadas. Depois regressava antes do pôr do sol.
E um dia, em vez de regressar a casa, partia na direcção oposta.
Fora assim durante vários anos, sempre viajando de cidade em
cidade, sempre abandonando o mar para o encontrar mais tarde numa outra praia,
percorrendo cidades diferentes mas sempre, estranhamente, acabando por habitar
o mesmo quarto do mesmo talhante obsceno com cheiro a sangue de animais mortos.
Não sabe quantos anos passaram.
Recorda-se apenas do outro homem da sua vida, o único de que se
lembra o nome – P.F. Fora sempre assim que o conhecera, desde que o vira um dia
na praia a desenhar as duas iniciais na areia. A sua imaginação delirante supôs
imediatamente que o desconhecido escrevia um sufocado “POR FAVOR”, e
aproximou-se, como se trouxesse no seu olhar esgazeado a salvação.
Tinha abandonado a última cidade há sete dias, e chegara à
praia perto do entardecer. Todo o céu parecia uma gigantesca labareda azul, que
culminava numa coroa vermelha onde o Sol era suavemente engolido pelo mar. O
rosto de Mia assumia contornos mais vivos, e era como se a sua expressão se
transfigurasse, retendo no seu olhar toda a tristeza do mundo. Estava de braços
apertados à volta do corpo, sobre a cintura, num arrepio de frio e incerteza.
À sua frente, o mar estendia-se intensamente azul, como
que adormecido, como se as próprias ondas se tivessem esquecido de viajar. Ao
fundo, não muito distante, Mia conseguia ver o início de uma outra praia, como
que numa ilha. Avançou para a água e molhou os pés no azul salgado. Sentiu-se
em casa. Começou distraidamente a caminhar, navegando de pés descalços.
Percebeu que em
breve alcançaria a outra praia, porque apesar das suas oscilações geológicas, o
chão nunca abandonou os seus pés, e a água nunca lhe chegou sequer aos ombros.
E de facto, alcançou aquele ponto fantástico em que não se sabe definir se se
está ainda a entrar pelo mar dentro, ou já a sair dele...
Sentiu a primeira onda varrer-lhe um arrepio pela espinha quando
a alcançou pelas costas. Foi nesse momento que voltou a ter a água pelos
joelhos e sentiu o vestido branco colado ao corpo, como uma segunda pele. A
onda morreu um instante depois à sua frente, na espuma branca enrolada na
areia, enquanto Mia saía da água.
A areia estava ainda morna. E era tão branca e tão fina como Mia
nunca tinha visto em nenhuma das outras praias. Abaixou-se por um momento,
enfiou a mão na areia e deixou-a escorrer lentamente por entre os dedos. Sentiu
vontade de a levar a boca.
Não se lembrava da última coisa que tinha comido. Lembrava-se
apenas como nunca tinha provado o sabor da carne de um animal. Levantou-se
novamente e olhou em volta. Inspirou fundo, e o próprio perfume marinho parecia
daquele lado mais intenso, mais inebriante, e Mia deixou que ele lhe penetrasse
no corpo e a envolvesse numa plena sensação de felicidade.
Daquele lado via-se também a Lua já no horizonte, crescente, num
céu já quase totalmente apagado, apenas embebido de uma luminosidade azul que
tingia as próprias sombras, como se lhes despertasse uma vida oculta.
A praia estendia-se imensa, e não era nenhuma ilha, mas apenas um
contorno distante de um outro lado da costa. Pouco se via da cidade escondida
ao fundo, também ela já embebida na escuridão do cair da noite.
Mia sentiu um ligeiro arrepio de frio, quando a brisa lhe
atravessou o vestido branco molhado de aromas de algas e corais. Foi nesse
momento que o viu. Estava abaixado sobre os joelhos, com um pequeno pau de
madeira na mão direita, desenhando grandes letras na areia: “P.F.”
Era um homem branco, muito branco. Absolutamente limpo e
silencioso, totalmente distante das vagas memórias de carniceiros sebosos e
fedorentos. Branco e triste, com os olhos cavados bem fundo na noite, como dois
poços secos, sem água. Não conseguia discernir-lhe a idade, não distinguia
sequer se era novo ou velho, mas na verdade
Mia não tinha qualquer noção da sua própria idade. Dentro do
corpo, a alma envelhece ou torna-se criança conforme lhe apetece, tão rapidamente
como um piscar de olhos ou tão lentamente como os séculos que passam. Por isso,
nunca se lembrou de contar a idade para saber dizê-la aos outros. E neste
pensamento, nesta angústia desolada de não saber decifrar o rosto do
desconhecido, foi que o sentiu imensamente próximo. Tão próximo que quando o
olhar dele se ergueu e cruzou o seu, sentiu-o entrar dentro de si.
Olharam-se longamente, como se se reconhecessem, como se há muito
caminhassem um para o outro e finalmente se encontrassem, como se ele tivesse
ficado pálido em longos séculos de espera e ela de olhos abertos em incontáveis
noites despertas. Mia apenas muito raramente dormia. Não se pode dizer que
sofresse de qualquer tipo de insónia, simplesmente os seus olhos permaneciam
arregalados noites e noites a fio...
Nesse instante miraculoso, sentiu uma urgente necessidade de
dormir, de se aconchegar naquelas mãos brancas trémulas de nostalgia.
E foi então que caminhou para ele.
«Vou contigo para onde fores e nunca mais te deixarei.»
Foi a única frase que pronunciou ao
ajoelhar-se à frente do desconhecido, com um brilho tão furioso nos olhos que
quase o cegou, e o forçou a baixar a cabeça. Contemplando a imensidão vazia de
todo um universo escondida na areia sempre morna, um nó atou-se-lhe apertado na
garganta e fê-lo segurar a mão dela com uma força brutal, pouco humana. Toda a
acidez se expandiu no seu peito e todo o inferno lhe veio à boca.
Uma frenética solidão assaltou-o de súbito, como
se estivesse irremediavelmente sozinho, perdido de tudo e de todos,
desencontrado do mundo. E nesta agonia voltou a contemplar o corpo húmido e
frio à sua frente, e tocou-lhe sem lhe tocar.
«Talvez sejas tu afinal o anjo por que tenho pedido, e
então serei eu que te seguirei para onde fores.»
Nesse momento, uma vida íntima despertou para
os dois. Foi um luar demorado e penoso que os cobriu nesse céu nocturno sob o
qual dormiram. Juntos, de rostos voltados um para o outro, segurando-se apenas
nas mãos. Toda a eternidade ali presente, na areia sempre morna.
O que Mia descobriu posteriormente, nas suas recorrentes viagens
à praia onde conheceu P., foi que a areia permanecia sempre morna, sempre à
mesma agradável temperatura de fim de tarde. Nunca arrefecia com a noite, nem
escaldava com o sol do meio-dia. Fechava os olhos, enterrava as mãos por entre
os grãos, e imaginava à sua volta a mesma luminosidade limpa do início das
manhãs.
Mia não sabia o que em si despertava essa ânsia urgente de pureza
e alvura da luz, mas acreditava seriamente que seria a única forma de se despir
da sujidade que lhe atravessara o corpo em tantos anos de partilha de camas
imundas em quartos bafientos, com homens a cheirar a gordura de porco. Mia
nunca soube o que a levou para junto desses homens, como também nunca soube o
que a levava a partir. Simplesmente sabia, sabia num determinado momento que
uma parte inexplorada de si a chamava para outras paragens.
«Afinal foi a ti que procurei este tempo todo...»
Chegada à praia da areia morna e branca, Mia
sentiu ter-se encontrado em casa – um outro sítio semelhante ao seu corpo, mas
que a acolhia do lado de fora, fazendo-a assim partilhar do mar e das estrelas
como se eles existissem de facto dentro de si. Dava com P. longos passeios pela
praia, pela beira da água, contornando todo o recorte da terra até ao ponto
onde a areia arrefecia e sabiam que estavam então já fora do seu espaço.
Caminhavam quase sempre silenciosos, raramente
proferindo uma palavra, e no entanto, quando se sentavam ao fim da tarde,
estavam extasiados como se tivessem partilhado tudo o que haveria para
partilhar. Eles comunicavam assim, através do silêncio.
Até que o olhar de P. se tornava vermelho e se
enchia de oceanos escondidos...
«Creio que morrerei no dia em que me abandonares.»
«Vim porque sabia que precisavas de mim. Não partirei
mais.»
«Vives dentro de mim, meu amor, mas eu vejo já o dia em que
partirás para sempre...»
Depois calavam-se e prolongavam o silêncio durante séculos.
Quanto a noite era totalmente preta, erguiam-se de mão dada e seguiam para
casa. A casa dele, que era um velho e pequeno apartamento, com o espaço
dividido entre um estúdio, onde estava encaixada a um canto uma pobre encenação
de uma cozinha, e um quarto sobre uma mezzanine.
O estúdio estava repleto da essência íntima de P. As paredes
profusamente cobertas de fotografias em cada espaço livre, mulheres de grandes
lábios vermelhos, tigres de olhos azuis, comboios atravessando montanhas, céus
incandescentes de fim de tarde, crianças brincando na rua, velhos candeeiros de
lâmpadas fundidas, muitas, muitas janelas, e sempre o mesmo mar azul da praia
da areia morna... A pouco e pouco, sem que nenhum dos dois se apercebesse
disso, as fotografias de Mia foram ocupando todos os espaços. Uma linha do
pescoço esguio, um gesto pousado gentilmente sobre o peito, um sorriso casual
no meio da praia, um pedido de amor num dedo sobre os lábios, um olhar cortante
de ser de outros mundos...
À parte disso, pouco mais existia no estúdio. Um sofá esverdeado
encostado a um canto, ao lado da aparelhagem de música onde Mia ouvia surgir
frequentemente Debussy. Havia uma secretária atulhada de cadernos cheios de
anotações, pilhas de papéis dactilografados encostados à velha máquina de escrever
– a relíquia Underwood com uns bons 30 anos de existência, livros
marcados em várias páginas com linhas assinaladas, e uma série de objectos que
a Mia não diziam muito. Algumas velas já gastas, cinzeiros com semanas de cinza
acumulada, dezenas de livros de páginas amarelecidas empilhados em todos os
cantos, uma campânula de vidro encerrando um barco, uma mala de couro preto
onde guardava a máquina fotográfica, uma grande chávena de café sempre
esquecida algures...
O mundo de P. era o mundo da escrita. E era
também o seu inferno. Conhecer as palavras trazia-lhe a angústia de conhecer os
nomes do seu desespero, e quanto mais palavras sentia a latejar dentro de si,
mais as sentia como demónios que precisava exorcizar.
Sentava-se por vezes na sua secretária durante
horas, com a cabeça pousada sobre as mãos, sentindo os odores silenciosos da
madrugada.
Mia dormia. P. chorava. Olhava-a estendida em
toda a sua brancura efémera, em todo o seu esplendor felino, e sentia-a já
perdida, já muito distante de si. Mesmo quando a ouvia gemer às 4h, acordando
de um pesadelo, descendo as escadas de caracol para surgir trémula junto de si
e se aconchegar no seu colo como um gato assustado. P. sussurrava-lhe baixinho
ao ouvido o esboço de uma canção de embalar. Cantava-lhe com a voz do coração.
You’re the night,
Lilah... a little girl lost in the woods…
I hope you’re waiting
for me ‘cause I can’t make it on my own…
Mia ouvia-o com a cabeça pousada sobre o seu
ombro, respirando-lhe o cheiro doce do pescoço, enquanto sentia a ténue
vibração da pele... Sentia-o grande como a Terra, e sentia-se escura como a
noite. Encolhia-se ainda mais sobre ele e pensava no bosque agreste que a
arranhava por vezes dentro do peito.
Só P. o sossegava. Só P. lhe dava a mão para a
fazer sair da escuridão e a devolvia da solidão das estrelas.
«Sou eu que tenho medo e tu tomas conta de mim, afinal.»
«Tudo o que existe dentro de mim é teu. Seguro-te para eu
próprio não cair.»
«Sou o teu amor.»
«És a minha vida. Quando desapareceres estarei morto.»
«És tonto.»
E beijava-o. Segurava-lhe o rosto com as duas
mãos e beijava-lhe o pescoço, as orelhas, os lábios, primeiro doce e
lentamente, depois freneticamente como se todo o tempo do mundo não chegasse
para o amar. Enterravam-se num abraço que confundia os seus corpos num só, e
beijavam-se desesperadamente, entregando as suas línguas como se do próprio
coração se tratasse, e era geralmente em momento assim dolorosos que faziam
amor, como se atirassem numa descida vertiginosa até ao fundo da alma, onde a
paixão lhes corroía as entranhas como um monstro que os devorava por dentro...
A necessidade que sentiam um do outro não
tinha lugar neste mundo. E por isso terminavam sempre de lágrimas misturadas,
num êxtase angustiado, cada vez mais perto do fim.
Da janela do estúdio via-se a praia. De facto parecia uma ilha
isolada do resto do mundo. Uma ilha onde a luz e a sombra eram mais limpas e
menos gastas, onde o silêncio era mais perfeito e mais redondo, onde os
perfumes do dia e da noite se misturavam num único aroma de maresia e luar...
E Mia recordava-se dos outros tempos, do lado de lá do mundo,
onde a luz era suja, gasta pelos olhares conspurcados de vícios das pessoas das
cidades, e onde as sombras eram sempre amarelentas e espessas, como se
estivessem apodrecidas e cheias de bolor, tingindo os recantos húmidos das ruas
de uma tonalidade escura, cheia de odores saturados de suores pegajosos e
doenças de alma.
Lembrava-se das frestas nas paredes dos quartos onde vivera, de
como desejara ser suficientemente pequenina para se enfiar dentro delas e
tornar-se apenas mais um centímetro quadrado de tinta velha, escondida pelas
teias de aranha. Lembrava-se de como, deitada sobre a cama de ferro, por vezes
via uma barata percorrer freneticamente os cantos do quarto, e não sabia se a
luz lhe deturpava a visão, mas a barata parecia-lhe sempre cada vez maior e
mais monstruosa, cada vez mais presente com o seu nojento corpo insectóide,
ouvindo cada vez mais perto de si o
restolho dos seus passos, e às vezes sentia que a barata se preparava para
assumir proporções gigantescas e vir dominar o espaço que seria certamente seu
há bastante mais tempo.
Ocorria-lhe então como era o talhante o verdadeiro inquilino e
ria-se. Ria-se muito, até que do outro lado da rua as pessoas assomavam às
janelas, abanando a cabeça em cínica piedade pela sua loucura.
E todas estas imagens sujavam-lhe a tal ponto a alma que Mia por
vezes parecia sufocar. Engasgava-se com a podridão da cidade, a imundície prostrava-a
e deixava-a num estado de tontura cambaleante, e acabava geralmente por
vomitar, na náusea de não mais suportar o ar onde não só não conseguia respirar
mas também não conseguia sequer mover-se. Por isso fugia para onde o odor do
mar a chamasse, para se limpar, para se libertar da crosta que se lhe acumulava
na pele em cada dia.
E agora, do outro lado, sentia o aroma de uma brisa marítima
fresca e pura em toda a parte por onde andava, e o brilho da luz era sempre
limpo como um cristal multifacetado, cheio de reflexos de azul... Um azul que
envolvia a terra toda como num abraço, misturando mar e céu, prolongando-se
interminável até à profundidade nocturna do olhar verde de P.
«Tu és um oceano inteiro, e eu uma estrela que mergulha em
ti.»
«Eu sou apenas um poço vazio, e tu és a luz que me
preenche.»
Depois da primeira noite que passaram na
praia, quando se conheceram, Mia e P. acordaram ainda com os sons do crepúsculo
matutino. Eram sons quase inaudíveis, confundidos ainda com o vaivém das ondas
do mar, com o grito das primeiras gaivotas, com a brisa que arrastava a areia
para moldar as dunas, e com a voz de Mia a sibilar as cores da luminosidade
crescente no céu em chamas... P. olhou-a longamente ainda antes de se levantar,
e tentou esboçar uma palavra, mas a voz saiu-lhe tão rouca, tão baixa, que não
chegou realmente a perceber se se tinha feito ouvir.
«Amo-te.»
Levantaram-se precisamente quando o sol se erguia sobre as dunas.
Caminharam de mãos enlaçadas, como se se deixassem guiar pelo vento, e foi
então que entraram no apartamento de P. pela primeira vez. Mia percorreu todos
os centímetro do espaço com a ponta dos dedos, como se estivesse colada ás
paredes, tentando ouvir os pulsares do interior da casa. Ela estava tão cheia
da presença de P...
Fechou os olhos quando finalmente tocou o vidro da janela do
estúdio e sentiu lágrimas de comoção subirem-lhe da garganta até aos olhos. Foi
esse o primeiro momento em que P. escreveu sobre Mia, a primeira vez que lhe
tirou uma fotografia. Deitada sobre a cama a contemplar o vazio, distraidamente
pousado sobre o olhar de P.
Estás já tão longe, meu amor... Acabas de
chegar e estás já a partir, com as gaivotas, com as ondas, com o vento, com a
lua...
A visão do teu corpo
cravou-me unhas dentro do peito. Sente-las?
Começam a apertar-me ainda mais agora, que te vejo mais de
perto, que tento segurar-te, mas sentindo-te escapar-me das mãos como areia.
Cobriste-me de noite e loucura, e sinto que atravessei um
mundo inteiro durante séculos só para te encontrar, e sinto agora que regresso
já vagabundo a um canto vazio.
Sou já novamente fugitivo, mergulho em todas as águas onde
molhaste os pés.
Procuro-te em todos os rostos e estendo as mãos para a
frente como se pudesse ainda tocar-te.
Vejo-te aqui, frágil e adormecida, e sou eu que sou
inteiramente teu.
És tu que vives em mim, vives por mim, não tenho outra
respiração que não seja a tua.
Desencontrei-me de mim em todos os corpos cujos néctares
bebi até à exaustão, tornei-me velho e cansado, atravessei anos de insónias
entre cigarros queimando memórias, e tudo o que possuo está agora nas minhas
mãos vazias, que só servem para te tocar.
Reconheci-te, como se me tivesse reencontrado. Por
momentos, as feridas sossegaram, e apenas me assaltou a urgência de um beijo.
Uma ilusão fragmentária. O momento em que te senti próxima
foi logo o instante em que me senti perdido, e a ânsia de um beijo concentrava
todo o desespero de te perder a ti já, imediatamente, antes ainda de te beijar.
Vou
agora partir para o pé de ti, encolher-me junto ao teu corpo para adormecer na
noite que respiras, e abrir o peito para que amanses a fera que me devora.
Vamos
aprender a dormir ao mesmo ritmo, para nunca precisarmos de acordar
descompassados, e daremos longos passeios na praia.
Serei
um sombra debaixo dos teus pés.
E
não conheço outro nome para o amor... Mia.
P. já não se lembrava que vida tinha tido antes de Mia.
Lembrava-se vagamente de ser um fantasma, de vaguear sem rumo entre corpos e
rostos, tentando cortar o vazio com os dedos. Sentia que todo o tempo tinha
apenas vivido uma simulação de vida, estava preso numa semi-morte, deixando
partes de si em todos os cantos, esquecidas, abandonadas, até que não se
lembrava já delas e não tinha como as recuperar. Nem saberia onde procurá-las.
P. também já vivera do outro lado da praia da areia morna,
do lado da luz suja e pesada, das sombras amarelas, e das cidades bolorentas.
Também percorrera becos e ruas sombrias, também já estivera deitado no chão
engolindo o pó dos passos esquecidos, também já dormira sob lâmpadas fundidas
em quartos alugados, de onde se ouvia o ruído inumano dos carros e dos vícios,
encontrando por vezes corpos que não reconhecia deitados ao seu lado, e caía
numa acelerada descida no seu abismo, cada vez mais distante de tudo e de
todos.
Uma noite embebedara-se e fumara uns charros com
desconhecidos que nos bares se tratavam por amigos, e dentro da sua alucinação
sentiu a mais brutal lucidez de se ver oco como uma concha largada na praia,
sentiu-se já morto, e então correu para o mar decidindo finalmente suicidar-se.
Não sabe em que altura terá perdido os sentidos, nem sabe
de que forma permaneceu vivo. Apenas se recorda de acordar no dia seguinte, ao
nascer do sol, caído junto à rebentação das ondas, numa praia onde mesmo a
areia molhada estava confortavelmente morna. Desde então, nunca mais voltou a
sair deste lado da praia. Descobriu que apenas ali seria possível continuar a
fingir uma vida que não era realmente sua, mas que seria suportável se pudesse
olhar as coisas belas que o mundo deste lado não corrompera.
P. estava exilado. Do mundo e de si mesmo. Talvez por isso mesmo
acreditasse ter já perdido Mia, mesmo antes de a ter encontrado. E não era isso
que o faria, contudo, desejá-la menos, amá-la menos. Mais do que isso, queria
acima de tudo pertencer-lhe, queria que ela o levasse consigo quando partisse.
Era por vezes acometido de um desespero tão profundo que acordava a meio da
noite em convulsões e espasmos dolorosos, que o faziam contorcer todo o corpo
em agonia, sufocando gritos contra a almofada, sentido algo a romper-se, que o
fazia sangrar por dentro.
Tinha visões cruelmente insuportáveis. Imaginava-a longe dali,
numa cidade longínqua, caminhando despida nas ruas nocturnas com sangue a
escorrer-lhe da boca e entre as pernas, e finalmente a cair no meio do chão e
tornar-se subitamente branca, roxa, até estar ressequida como uma flor murcha,
e via-a de olhos sempre abertos, a ser devorada pelos abutres, morta, morta,
morta...
Era nesses momentos que se odiava por acordar sem Mia, por
quebrar o sono a duas vozes a que se tinham prometido, e que se sentava então
em frente à secretária, como se fosse escrever, mas apenas deixando a cabeça
caída sobre as mãos, e chorava. Por vezes ela vinha ter com ele, outras vezes
não. Por vezes ele regressava á cama, outras vezes deixava-se engolir pela
insónia e esperava que a luz inundasse lentamente o estúdio, através da janela
sem persianas, sem cortinas...
E um ou outro dia acordava e via uma parede escrita de uma ponta
à outra com tinta vermelha, sem nunca saber quando teria ela acordado sem que
ele tivesse dado conta...
Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P.
Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P.
Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P. Amo-te, P.
Amo-te, P. Amo-te, P...
Sentia-se enternecidamente despertado por um calor súbito que lhe
percorria as veias, e atirava-se a Mia num abraço despojado de tudo, no qual
esperava permanecer tempo suficiente para que a pele dos seus dois corpos
inevitavelmente começasse a unir-se, como se duas partes de uma ferida
finalmente se reconstruíssem.
Depois disso geravam-se normalmente silêncios intermináveis, de
dias inteiros, como se uma noite permanente se instalasse entre ambos.
Caminhavam de mãos dadas pela praia, sempre enterrando os pés nas
dunas de areia branca e morna, esgotando assim o dia até que no horizonte se
incendiavam as primeiras manchas do crepúsculo vespertino, e se sentavam então
a olhar o mar como se não existisse mais nada, deixando que o luar lhes caísse
sobre os ombros e os fizesse flutuar na embriaguez do amor que se concretizava
no perfume da escuridão indissolúvel, envolvida numa brisa sempre morna, cheia
de aromas de jazz...
Aos poucos, ambos foram-se apercebendo juntos que vivam um
permanente Verão. Não existe outra qualquer imagem de Mia que não seja no seu
vestido branco, exibindo os braços de marfim.
Mas houve um dia em que choveu. P. acordou e viu a chuva a
desenhar as bátegas no vidro da janela. Sentiu um arrepio que lhe percorreu
todo o corpo, e hesitou ainda antes de levantar-se, não conseguindo discernir
se teria realmente arrefecido dentro do quarto, ou se era simplesmente dentro
de si próprio que estava frio. Não viu Mia ao seu lado. Aliás, não a viu em
parte nenhuma da casa.
Esperou durante horas sentado na beira da cama, os joelhos
apertados pelos braços, cambaleando para a frente e para trás até às tonturas.
Esperou vê-la regressar da praia, dizer-lhe que tinha
experimentado passear sozinha para poder contar-lhe como tinha sido, para poder
incitá-lo a escrever as coisas que via através dos olhos dela...
Esperou embebido em desespero, acreditando que antes do cair da
noite a teria novamente nos braços e a ouviria na sua voz de sibila dizer entre
um sorriso...
«És tonto.»
Mas sabia perfeitamente que ela não voltaria. Sabia perfeitamente
que tinha chegado o momento em que Mia se tornara volátil e se extinguira.
Nesse instante, mais uma parte de si morreu definitivamente, e P.
sentiu-se pela última vez perdido. Quando saiu finalmente de casa, procurou-a
dias a fio, durante noites inteiras, vagueou como um miserável entre todos os
nichos, atravessou mesmo para o lado podre do mundo, procurou-a em cada corpo
estranho, em cada casa, em cada rua... Voltava sempre derrotado, cada vez mais
débil. Tornara-se definitivamente num fantasma transparente, estrangeiro, e
sentia-se mesmo assim pesado, tão pesado que lhe era quase insuportável
arrastar-se através do espaço.
Choveu durante sete dias seguidos, ininterruptamente. Durante os
dias em que P. procurou Mia. P. desejou que o mundo abrisse uma fresta na
treva, que o engolisse e lhe apagasse toda a existência. As feridas interiores
rasgavam-lhe já a pele para o exterior. E deixou-se finalmente cair de olhos
fechados na noite, esperando que o vazio o deixasse simplesmente apodrecer, ou
o misturasse com a areia da praia, com o mar e com as algas, com a alma de Mia
algures viajante...
E foi nessa noite que a encontrou. Um corpo caído na praia,
branco, roxo, ressequido como uma flor murcha, escorrendo-lhe sangue quase
preto da boca e entre as pernas. Tinha os pulsos cortados, sobre uma mancha
escurecida na areia, que tingira o mar de vermelho. Tinha os olhos
dolorosamente abertos, ainda esbugalhados contemplando o vazio, mas já
irremediavelmente apagados. Estava marcada de correntes, suja de ferrugem.
Morta. Morta. Morta...
P. deitou o seu corpo sobre o dela, inerte e silencioso. Os
gritos morreram-lhe na garganta, secos pela acidez das lágrimas que se tornaram
sólidas. Permaneceu assim deitado sobre Mia, sentindo a areia tornar-se fria,
gelada, e as águas começarem a cheirar a lodo.
Uma escuridão última penetrou no olhar de P., enquanto a dor o
atravessava como uma guilhotina que lhe desprendeu o amor do seu peso.
Assim enlaçados, foram os dois levados pelo vento até à maré que
os engoliu. Negra. Negra. Negra...