Se abro as mãos,
florescem em rosa
Dedos pálidos, vadios
em prosa
E comendo as pétalas
secas, estalam
Em melancólicos
suspiros me embalam
Num céu nocturno que
esvazia as praias
Das marés onde numa
vaga ensaias
Gestos de aridez e
secura estrangeira
Desenhando rosas na
areia
E do vermelho ao preto
caem os meus braços
De rosas murchas
tingindo o calor do vento.
Fecho
entre os meus braços um claustro
Balaustradas
se pedra e pele
Círculo
vazio de jardins suspensos
Vagos
esboços de flores já murchas
E
é nesse frio que te abraço o ventre
Ainda
húmido da queda
Vertigem
do espaço que rodopia
Entre
os beijos e as feridas
Caio
sobre o teu corpo e as tuas mãos são uma espada
Tingindo
de vermelho o chão seco
Atravessando-me
a boca de saudade
E
todos os jardins do mundo
Estão
fechados nos meus braços mortos
Sou
um corpo inerte junto das rosas pretas
E
pouco a pouco a noite consome-me
Como
se me devorassem legiões de formigas.
Contemplo no azul um
jardim suspenso
E esta coroa é um
claustro ideal
Nos teus olhos o
universo aberto
E se num brilho de
prata
Como espada enterrada
na rocha
Os teus olhos me
beijam o sorriso
Todo o mundo está nas
minhas mãos
Que te ofereço, e toda
a beleza poderia ser apenas
Uma formiga que me
percorre os braços.
«Nas nossas ruas, ao
anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam um desejo absurdo de sofrer.»
- Cesário Verde (primeiros 4 verssos de 'O Sentimento de Um Ocidental')
Ruas
de calçadas frias
São
as nossas ruas de suspiros íntimos
Cinzentos
de pedra e sombra que dançam
Enquanto
torço os dedos ao silêncio
Ruas
estreitas com ecos subtis
Ecos
dos teus passos mortos
E
toco com os lábios as paredes sujas
Sentindo
no brilho da Lua
Um
vermelho de gritos enterrados no escuro
E
é tal a melancolia, tanta soturnidade
Que
o vento me percorre as veias como lâminas
E
sinto assim uma vida estranha
Como
se não fora minha
Como
se o meu corpo penetrara a cidade
Furando
as entranhas do rio
Ondulando
cabelos ao ritmo das águas
E
há tal êxtase em sentir as vozes ocultas
Que
agitam abismos no meu peito
Que
dentro da noite toda a tristeza me parece perfeita
E
tudo me desperta um desejo absurdo de sofrer.
Um corpo fino sustentado pelo vento. Vento seco. Vento cortante.
Hirto, erecto. Vertical e sublime. Dentro de si todas as possibilidades do
mundo. Todas as palavras em esboço, e num desvio só, um deslize, uma vertigem.
Começa o corpo a dançar como se o vento lhe embalasse o ritmo, e dança como se
não tivesse corpo. Leve e agreste. Risca o chão. Passo atrás de passo, o corpo
procura fechar uma linha, completar um círculo. Sempre à procura, sempre à
procura, sempre à procura... Nunca pára. Todas as cartas que não te escrevi,
amor, estão dentro deste meu lápis roído pousado na secretária.
Procuro
a perfeição num gesto
Como
se pousasse no teu corpo uma mão
Morder
um ombro, um dedo
Imaginar
volúpias de noites azuis
De
ritmos e vagas entre o mais fino da pele
O
teu movimento sobre mim
Animalesco,
bruto
Erigindo
de tensão as veias
Sempre
em uníssono em cada sussurro gritado
Num
êxtase violento de sentir a vertigem
Procurar-te
em cada centímetro
Encontrar-te
no perfume do meu ventre
E
tão próximo da beleza
Esse
espasmo branco inquebrantável
Todas
as esferas em ecos assombrosos
Agitando
a mais húmida das misérias
E
nesse teu gesto, sobre mim
Coincidência
absoluta
Encontro
a perfeição de te amar.
Nuvens
Nos dias de nuvens interrogava-me a respeito
de ti. Eu era capaz de as apertar na mão e sentir a acidez contundente dos meus
sonhos, mas tu insistias em questões como acumulação de água em estado gasoso,
prestes prestes a chover sobre nós. E eu mordia o interior da boca em
desespero, até fazer ferida e sangrar, engolindo pequenos pedaços de pele, sentido
o sabor metálico do sangue, enquanto sustentava o peso das lágrimas iminentes
dentro dos olhos. Tu eras indiferentes às nuvens e forçavas-me a mim quedas
sucessivas. Eu sonhava em tocar com os dedos esse branco. Tu sonhavas que eu te
deixasse apenas dormir sossegado.
Recordações do
Azul
Fechaste a porta com cuidado, a velha madeira
húmida apodrecida nos cantos rangia, rangia como um velho barco que uivasse
face a um funeral em alto mar. Tiveste mesmo o cuidado de segurar o trinco para
não bater. O espaço era tão confinado que necessariamente sentíamos a
respiração um do outro. O carro estava quase encostado à parede, o carro que eu
odiava. E havia uma estranha luminosidade azul que eu não sei ainda de onde
escorria, mas que tornava todo o teu corpo um universo oceânico de eternidade,
e enquanto te movias sobre mim a única coisa que conseguia pensar era na
embriaguez desse azul intenso nos teus lábios entreabertos. Estávamos
envolvidos num abraço que era absolutamente indiferente do tempo que passava na
rua lá fora, indiferente ao ruído dos últimos autocarros da noite, indiferente
aos miúdos que corriam entre vãos de escadas, indiferente à velhota que dormia
no andar de cima... Rasgamos ali um embrulho de papel azul e mergulhamos de olhos
fechados no Amor, como quem brinca com cerejas numa tarde de Verão junto à
praia.
Sou um corpo perdido na praia. Um corpo estendido na areia. A maré vazia de ondas rebenta e arrasta-me. Num céu eternamente nocturno, risquei o teu nome e deixei as estrelas a sangrar. A lua é vermelha, escarlate, mas amargamente sombria. O espaço inteiro está vazio, sem vozes, todas as luzes são opacas, todo o silêncio é espesso como a água pantanosa de onde vim. Sou um corpo caído com indiferença, onde as piranhas já não me mordem. Arrancaram-me os olhos, dois buracos bem abertos contemplando a solidão. Uma fúria inerte. O corpo está pálido, tingido de um verde-náusea, de um roxo-morte... Branco, branco, branco, como só o desespero. Opaco. vazio. O corpo não está apenas morto, está também vazio por dentro. Toda a pele estalada, inchada de dias submersos por uma maré negra de limo podre e algas venenosas. Sou um corpo caído onde ninguém o procura. Toda a ausência, trouxe-a comigo numa mão fechada sobre o peito. O amor no sangue preto dos meus pulsos cortados.
O rio estende-se gelado através da corrente furiosa, qual correntes de aço. O rio é uma pedra cinzenta sobre o meu peito, áspera e dura. Seguro-a bem firme com a mão esquerda, até sentir os nós dos dedos estalarem. Toda a suavidade do mundo presa ali naquela dureza. A corrente arrasta-se e arrasta-me, e creio que se ouve ao longe o som pesado das correntes enferrujadas a riscarem o chão... Não tenho pele, creio. separou-se-me da carne e flutua agora junto ao lodo, deixando-me escamada, como virada do avesso. Sentir-me-ia feliz por saber que a minha pele alimenta os peixes, se tivesse alguma coisa em mim que sentisse ainda... Vaguei há dias sem conta debaixo deste lençol escuro de águas sombrias e de cheiro nauseabundo, onde o frio é incontável - como as profundezas do Inferno. Tenho as mãos amarradas com correntes, cruzadas sobre o peito. O resto do corpo também agrilhoado. Não me lembro de qual tenha sido o meu último dia de liberdade. Não me lembro qual tenha sido o meu último pensamento, antes de um ferro enferrujado me cortar os pulsos. Não me conheço. Sei apenas que dentro do meu peito há um buraco vazio, muito negro. Não sei quem amei, mas tenho ainda a marca dele eternamente gravada nos olhos fechados. Os olhos sem pálpebras. Olhos vazios, parados no infinito, eternamente abertos, raiados de sangue, como única memória de um último instante de horror. Sangue que deixou já de ser vermelho e endureceu preto, preto como a noite. O único tempo em que vivi, o único espaço que conheci - a noite. Sim, os meus olhos eram pretos como a noite cravada de estrelas. E é numa noite sem estrelas, de escuro absoluto até às entranhas, que o rio me devolve ao mundo. Flutuo como se voasse, num céu virado ao contrário. O rosto cai para o lado quando toca a margem. Sou mais uma vez nada mais que um corpo estendido. Corpo sem cor. Inchado como uma esponja cheia de água. Com algas no cabelo, limo em vez de pulseiras, tristeza em vez de alma... Sou um corpo esquecido, esquecido até pela noite. E então entro pela noite dentro como um cadáver se enterra a si próprio na terra.
Era um corredor escuro. Um centímetro de água a soar por baixo dos pés, fazendo inchar a madeira. As paredes velhas. Num quarto ao fundo da casa, de janelas abertas ao vento quente, um homem e uma mulher fornicavam. gemiam. Num canto, um vestido branco. Caído no chão. O corredor terminava numa luz vertical, suja e lânguida. Ouvia a tua voz chamar por mim mais uma vez, seguia nua à tua procura. Gritavas o meu nome. De braços estendidos, eu já precipitava o toque. Através da porta entreaberta, a luz cegou-me um instante antes de um grito abismal me eruptir do peito em direcção à boca. Sangue quase preto a escorrer dos teus pulsos e uma banheira a transbordar de água ferrugenta. As páginas do teu livro húmidas e desfeitas. Um segundo. E um sobressalto entre suor e lágrimas. Um quarto escuro. Uma janela aberta. 4h30 da madrugada.
O vento ecoa num estrondoso zunido do lado de fora da janela, e soa como se a morte viesse em tom de portas a bater, arrancando a vida às sombras e transportando-as a uma caverna sem fim onde o mundo não chega e as ramificações nervosas estremecem encostadas contra a rocha, ondulando ao ritmo da secura. Fecham-se os olhos e o vento penetra-nos o corpo.
Um
fim de tarde no quarto de P.
Era um quarto escurecido pela penumbra de fim de tarde.
De uma espessura fina e ténue, a luz escapava-se por entre centímetros não
escondidos pela janela, e iluminava-te sombriamente o rosto. Uma pulsação
demasiado próxima. O teu coração a bater dentro do meu peito. As palavras de
então, nunca pronunciadas, e os sons que a descrevem. Em círculos, rodeando-me
as lágrimas que viajaram séculos para me reencontrar. Nenhuma razão. O fim
precipitou-se como quem tropeça e cai pelas escadas, e estamos os dois agora em
margens opostas de uma fresta que se abriu na terra. Num quarto onde a noite se
anunciaria nossa, se eu tivesse ficado. Estavas junto a mim, com o teu aroma de
mar nocturno, de animal selvagem em fuga, rasgando um olhar em chamas para me
gritares o nome, aí adormecido desde a última noite. Ter-me-ias falado do amor,
eu sei. Mas partilhámos um silêncio mais duro. Junto a mim como se o teu corpo
me atravessasse. Tinha o teu beijo já nos meus lábios, só de olhar para ti.
Eras ainda tu, e sempre tu. E eu de mãos rendidas estendidas para o teu abraço,
oferecendo-te finalmente a rosa roxa que me morrera antecipadamente nas mãos.
Teria saltado do mundo para fora se me pedisses para viajar contigo. Apagaria o
meu nome das rochas e adormeceria contigo no fundo do mar. Um segundo depois
regresso ao quarto. Estás ainda tu, sentado ao meu lado, falando-me da tua
própria solidão. Relembro Pessoa. "Somos dois abismos: um poço fitando o
céu".
O
azul desta tarde
Esta tarde, teríamos trincado novamente as cerejas, se as houvessem. É sempre assim que o Tempo brinca connosco. Hoje caminhámos muito juntos dentro de um mesmo barquinho de azul, onde o vento era doce e olhava o mar ao longe. Estivemos no sítio de sempre. Obscurecendo palavras para ocultar o amor morto-vivo.
Foi enquanto caminhava descalça pela praia no início da manhã
que começou a chover. A areia tornou-se fria sob os meus pés, e os gritos das
gaivotas sobrevoaram-me. O cabelo ondulou atrás do vento, seco e áspero, num
arrepio que me fez molhar os pés na água salgada. Lembrei-me do cheiro das tuas
mãos. O perfume das noites quentes, do carro
e do jazz. Nunca mais nos encontramos. O céu tornou-se cinzento e
carregado, enquanto em silêncio eu gritava o teu nome. Tu não respondias. Do
outro lado, apenas choravas. Sem que eu soubesse. E foi assim que nos perdemos
um no outro, enquanto caminhávamos de costas voltadas.
Não encontrarão esta música em nenhum disco, em nenhuma discoteca, em nenhuma aparelhagem. Este é o som das mãos do meu amor. 7 longos minutos de solidão. Revisitada. Um quarto sempre escuro, embebido na penumbra melancólica das enxaquecas feridas pela luz gasta dos dias vazios. Um corpo sozinho, sentado, olhando os dedos roídos segurando cigarros depressivos. Um olhar pousado na distância, no fingido esquecimento daquilo que nunca morre. E é como se o víssemos deitado num sofá comprido, de olhos fechados, com um braço caído, como se não existisse chão por baixo de si. Vagueia. O pensamento foge-lhe para as ruas proibidas. Deixa-se embalar pelos ritmos da noite e adormece assim. Sozinho.
Foi apenas um instante antes, lembras-te? O esboço do fim,
insinuando-se por entre cada fresta das nossas despedidas. Como te poderia eu
pedir que não ficasses triste?, eu já estou triste, dizias tu... Já nos
tínhamos desencontrado há muito, ainda antes de a noite chegar ao seu termo,
como quem procura búzios na praia e acaba por encontrar-se apenas a si mesmo,
perdido. Não chegámos a dizer adeus. Separámo-nos com o som de vidros a
partirem sobre os meus ombros, com o som de um telefone interrompido no teu
ouvido. Peguntávamo-nos porque aqui dentro o coração se sentia tão mal,
lembras-te? No Reason, foi o que respondeste em tom de música.
Procurámos uma canção de embalar que nos carregasse aos dois onde o deserto
fosse menos agreste, mas o negro já se cravara irremediavelmente no teu peito.
Todos os sonhos foram feitos em papel queimado, deixando esvoaçar as cinzas
descompassadas que me escapavam das mãos. O nosso silêncio falou sempre então
do amor. De olhos afogados em lágrimas atadas na garganta, como é sempre que
não se percebe como o amor que não acaba simplesmente morre.
Lembro-me apenas de estar sentada no teu colo e escrever nos joelhos o teu nome já em tom de despedida. Abraçavas-me já perdida, e eu caía já pela noite dentro. Tristeza. Chuva. Gotas redondas que caíam das nuvens para os meus olhos. Melancolia pungente que me estilhaça o peito. Toda eu sou vidros partidos. Saudade do vazio. Resta-me adormecer sob o vento cortante de um deserto negro que me agarra e se mistura com o meu corpo. O teu nome, o teu nome. Sonho todas as horas com as tuas mãos ainda sobre mim. Vejo-te mover o olhar à minha procura mesmo quando não estás. Chove sempre, à entrada de um bar que tem a porta fechada. Não me posso esquecer de ti. Nunca tirámos os dedos de dentro um do outro, mantemos abertas as feridas. Até que possamos reencontrar um beijo ácido que una a minha carne à tua.