Canção de embalar

 

 

 

 

Era novamente Inverno. Ele já tinha perdido a conta aos Invernos que passaram, e era como se tivesse vivido no Inverno toda a sua vida. Em todos os momentos com o seu casaco cinzento de fazenda e os seus sapatos de ponta quadrada. Impecável aparência, como sempre. O fato cinzento da mais suave textura, a camisa de colarinhos sem botões, e a gravata que nunca destoava. Nunca se lhe viu um nó torcido. O cabelo milimetricamente penteado exibindo a fronte – ele tinha as mais belas têmporas de todas – e residia aí todo o início do seu charme.

Observando-o de longe, passando na rua, seria difícil apercebermo-nos logo da sua soturnidade. Era apenas um homem. Mais um homem na rua, entre todos os homens frenéticos da cidade. Mas era um homem diferente. Diferente de todos os outros, e sentia-se sempre observado, como se o olhassem de esguelha em cada esquina, e nunca sabia se o admiravam em respeito ou em desdém com vontade de lhe cuspir na cara.

O que é certo é que observando de longe os olhares que o cruzavam na rua, não seria difícil perceber a inveja que os roía por dentro. Era como se o charme dele tivesse um perfume muito muito subtil, que flutuava à sua volta como uma rede, inebriando os narizes mais sensíveis.

 

 

É inevitável dizer que ela começou a apaixonar-se ao mergulhar de olhos fechados nesse perfume, muito subtilmente misturado naquele outro que exalava cuidadosamente antes do limite do exagero na sua roupa bem tratada. Mas agora andava na rua e já não ligava sequer aos olhares, há muito que deixara de se preocupar com eles. Quando caminhava entre as pessoas, era como se estivesse num mundo só seu, longe de toda a mediocridade.

O único descuido na sua aparência era a barba que já não tinha paciência para cortar milimetricamente todos os dias. Desleixava-se um pouco, mas não se importava. Acreditava que não teria melhor aspecto de rosto limpo – as profundas olheiras negras cavavam-se ainda mais fundo à volta dos seus olhos, impossível de negar o seu sono eternamente desassossegado, a sua insónia dolorosa.

Nunca dormira bem, ou pelo menos já não conseguia lembrar-se de quando tinha um sono descansado. Sempre foi perturbado por uma espécie de demónios que se agitavam por baixo do nível da consciência, e que revolviam no seu peito o mais estranho dos ódios, permanentemente acordado, mantendo-o a ele também permanentemente acordado. Acreditava que a sua sensibilidade lhe tinha acabado por roubar tudo.

 

 

Olhava-se ao espelho quando se vestia impecavelmente para sair à noite e gostava do homem que era, mas numa fracção de segundo que por vezes ignorava propositadamente, sentia falta do rapaz que tinha sido. Não lamentava nada, e percorria todos os bolsos com um gesto rápido antes de sair para a madrugada citadina. Mas pensava nela muito frequentemente. Cada vez com mais frequência nos últimos tempos, o que o perturbava de alguma forma. Fora ele que provocara a ruptura, incitara a separação. Nunca soube como a tinha devastado, acreditou sempre na força que ela teria para sobreviver.

Mas ironicamente ela também nunca soube como o tinha devastado a ele. Cheia de lágrimas ácidas que lhe consumiam o corpo, cheia de angústias doridas que lhe consumiam o espírito, ela sempre se considerara a vítima, abandonada, traída de forma canalha, despertada por um ódio imenso, sentindo o peso de suportar a ausência em cada centímetro de cada lugar que percorria... E nunca soube que forma teriam as lágrimas ou as angústias dele.

 

Nunca se permitiram falar. Ergueu-se um muro de vidro entre os dois, e quando se olhavam já depois de tudo irremediavelmente arrefecido sabiam que não se podiam jamais tocar. A última coisa que ele se lembra é sempre a música que ouvira insistentemente, de forma tão premonitória, desde o momento em que soube que não continuariam juntos... Foi algo que entrou nele como uma fatalidade a que não pôde escapar, e então “fez o que tinha a fazer”, era uma frase que ele utilizava muito...

A última imagem dela é um instante antes de a ver entrar pela última vez no comboio, numa estação suja e velha que nunca mais partilhariam, num abraço precipitado e um último beijo em tom fatal de despedida. Beijo junto ao pescoço, que é como eles se querem, quando os olhares não podem jamais cruzar-se. As saudades que ele tinha desse momento por vezes surpreendiam-no. Se pudesse teria congelado esse instante para sempre dentro de si e tê-lo-ia guardado como a mais bela das fotografias. Ela tinha-se aguentado imperturbável apesar da revolta, da tristeza. E ele tinha-se mantido implacável apesar da mágoa.

E só agora, tanto tempo – tantos Invernos? – passado, se permite ele recordar com ternura a saudade, e deixar-se por vezes levar onde a memória o guia. Sentado a olhar para o vazio, talvez com um ecrã parado à sua frente, mas relembrando a doçura do toque dela ainda muito próximo.

 

 

Era uma menina, pensava sempre. Uma mulher menina. Que nunca tinha acreditado que ele se tinha apaixonado por ela, e que se encolhia sempre então num choro convulsivo de saudade e urgência. Mais uma vez, ela nunca soube como isso lhe doía a ele. Tanto que ele não suportou mais. Julgou que o amor o faria rebentar por dentro. Porque não sabia entregar-se de outra forma, não podia entregar-se de outra forma, nunca compreendeu porque era tão profundo o abismo do amor dela, e acabou por admitir a derrota. Desistiu.

E em todo este tempo passado, acompanha-o a sensação que inevitavelmente emerge de todas as desistência, a frustração do vazio, e a eterna tortura da fantasia que vagueia pelo “nunca mais”.

Está frequentemente em casa, parado assim a olhar para o vazio, nas horas mortas e secas, as mais frias do Inverno inteiro, e já não tem força nem vontade para afastar os pensamentos. Ela surge-lhe sempre quando menos espera. Recorda os seus gestos pequeninos, o seu olhar que brilhava quando estavam abraçados, o seu sorriso do tamanho do mundo, o seu êxtase de abelhinha tímida quando faziam amor... E sente saudades de tudo isso, uma ternura imensa por ela, sente saudades da mulher que passeou com ele à chuva no primeiro Inverno, de ter-lhe segurado na mão dentro do bolso, de lhe cantarolar as músicas da sua alma...

 

 

Esforça-se por ouvir todo o tipo de música, por ouvir coisas absurdamente diferentes de tudo, mas inevitavelmente acaba sempre por retornar aos sons em que sente presente a voz dela a chamar o seu nome. E nunca poderá esquecer a fúria criativa de que a perda o acometeu, minutos e minutos longos e intensos de sons sobrepostos, sempre a tentar transformar a alma em música. Nunca compusera nada tão forte, de que gostasse tanto.

Mas, já desde antes do adeus, tinha duas palavras a latejarem-lhe na cabeça, tão premonitórias como a música deve ser: “no reason”. Foi a música que ele nunca lhe ofereceu, mas que ela sempre soube que era para si. Ele imaginava que ela agora já não chamaria por si todas as noites como antes, e entre a ternura e a agonia pensava mais uma vez como ela nunca soubera de facto que também fora especial. Interrogava-se muitas vezes se teria sido ele incapaz de comunicar. Mas não, ela é que estava verdadeiramente incomunicável. Mesmo quando saía e ria, tinha a alma doente, presa a uma cama em soluços... Ele lamenta, ele lamenta tudo. Lamenta a sua vida e a ironia de não ter já sequer a fúria adolescente que o poderia levar a matar-se. Lamenta não ter podido escolher nada. Lamenta que não pudesse ter sido tudo diferente...

 

 

Em cada noite, vai sentindo com mais certeza a distância que os separa, e na sua lucidez característica sabe perfeitamente que a sua vida nunca mais encontrará a dela, e resigna-se com isso um passo antes de adormecer. Não sonha, nunca sonha. Quanto muito, permite-se divagar a meio caminho. Pensa como no fundo também teve medo. O medo dela sobrepôs-se a tudo, mas ele também o sentira. Medo de que ela o visse do avesso, tal como ele era nas entranhas. Na verdade, era ainda o mesmo medo de sempre, o único que se mantinha fiel dentro de si em todos os Invernos da sua vida - medo que ela já não gostasse dele. Nunca acreditara que fosse a pessoa certa para ela, por isso esse medo latejava com mais intensidade.

Sempre viveu o peso de uma profecia, de um fim inevitável para os dois. E nunca soube como permaneceu o homem da vida dela durante todo o tempo que passou. A única perfeição que tinha conhecido. Aprendera com ele o amor, e isso era como se o mundo começasse todo de novo para ela. Que também nunca soube como ele reaprendera com ela o amor, e como também um novo mundo nasceu para ele.

 

 

Não, eles não conseguiam falar-se. A ela doía-lhe demasiado a falta dele, pesava-lhe todo o negro do mundo, a ele pesava-lhe todo o esgotamento do mundo, e não podia dizer-lhe o que ela gostaria de ouvir. Olha frequentemente para os objectos oferecidos por ela, ela oferecia-lhe constantemente todo o tipo de coisas, tem-nas espalhadas pela casa... Nada continua a ser tão especial como o primeiro isqueiro rasca que lhe tirou. O isqueiro vermelho, que já não funciona, mas que guarda religiosamente. E o pequeno aviãozinho sobre a secretária, desde que ela descobriu a sua paixão pelo voo.

Nunca voaram juntos, como lhe tinha prometido, era essa uma das coisas que lamentava... E havia uma tensão muito particular em admirar a escultura que tinha surgido como presente de aniversário, uma figura que esboçava um gesto como um poema – sentia ali todo o amor dela. Não só o amor por si, mas sentia o amor dela pela vida. Era em pormenores assim que sabia que ela sobreviveria, que se aguentaria sempre contra tudo, por causa desta paixão intensa pelas coisas. E admirava o seu calor humano. Nunca tinha conhecido ninguém assim. Tão mulher, tão menina. Tinha sentido arrefecer a paixão, contudo. Já não vibrava quando ouvia o nome dela como antes, nem quando sentia o suave aroma do seu perfume. Por isso se afastara, talvez. Não teria conseguido conviver com ela sem vibrar com cada milesimal instante. Assim, à distância, na memória, ela permaneceria linda como numa fotografia, e poderia assim guardar o amor que ainda lhe tinha sem o peso a amargura.

 

 

Ironicamente, há a sensação de que se separou dela precisamente por causa do amor que lhe tinha – continuarem juntos tê-lo-ia destruído até às cinzas. Uma noite conversaram, depois de um longo deserto de ausência. Conversaram quase como se já estivessem do mesmo lado do vidro. Ela chorou todo o tempo sem que ele percebesse. Ele sorriu todo o tempo, sem que ela percebesse. Afinal de contas, ia tudo dar ao mesmo. Naquele momento, estavam felizes. Longe e felizes.

Ela tinha a certeza de amá-lo eternamente, cada vez mais, perdidamente. Ele, sempre menos lírico, apenas sorria ao amor, com saudade. Sim, também a amava ainda, de certa forma. Nenhum deles sabia se algum dia voltariam a encontrar-se. Mas isso deixou de importar.

Estava o mundo inteiro à espera, e era como se finalmente a fénix renascesse das cinzas. Ela abraçou os dias de sol que se seguiram acreditando como a vida é bela e como é fantástico estar vivo. Ele entregou-se novamente à rotina cinzenta de todos os dias, vestir o casaco cinzento, pegar nas chaves, não esquecer carteira, um último gesto rápido antes de sair de casa, impecavelmente apresentado, deliciosamente perfumado. A pensar como é fantástico ter amado uma pessoa assim.

 

 

 

 

 

 

 

Para Ronny

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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