Caminhava pela rua já desde a noite anterior, sem saber que
horas eram. Abria-se uma claridade suja, numa madrugada de fim de Verão tingida
de neblina fria e cinzenta. Caminhava descalça e despenteada, trocando os
passos. Desequilibrava-se. Tropeçava nos seus próprios pensamentos até que caiu
realmente nas pedras frias do caminho. Uma dor muito fina percorria-lhe o
corpo, um sabor a vermelho na boca, o acre a descer-lhe pela garganta. Rasgada
a carne de um joelho, rasgavam-se também as entranhas da alma, e sangrava.
Sangrava. Um choro muito amargo a pingar sobre a sua sombra ténue. A náusea da
solidão e o seu vestido vermelho manchado de vergonha e tempestade. Há a
urgência de um vómito algures atravessado por baixo da pele, e um silêncio
ensurdecedor a ecoar dentro da sua cabeça. Lateja como o pulsar de um coração
moribundo, com pressa de fugir. São vermes a queimarem-lhe os dedos e um dedo
ainda vazio. Um dedo mais branco que os outros. Levanta-se e soergue o olhar.
Continua sozinha e a rua vazia. Há uma calma súbita que a constrange e lhe dói
nos pés descalços. Está perdida, finalmente percebe. Mais que o corpo, foi o
espírito que se perdeu no abismo da solidão. E então deixa de caminhar. Pára e
fica à espera. Talvez o mar. Talvez o vento. Talvez o fim. Talvez o amor de R.