Jardim de anémonas azuis

 

 

 

 

Era uma praia pequenina, tão pequenina que quase se perdia dentro do olhar. Tão pequenina que era como se coubesse na palma de uma mão, agitando sonhos dentro de uma bolinha translúcida de cristal. Viera adormecida numa gaivota e acordara dentro desse mundo pequenino de cristal, a que uns chamam Vida e outros chamam apenas Utopia.

Aterrara na praiazinha pequenina a menina dos cabelos violetas, com a voz cheia de brisas e chuvas morninhas. Tinha os pés pequeninos, tão pequeninos como búzios, tão pequeninos que apenas salpicavam passos nesse espelho de areia branca, finíssima, tão leve que por vezes a víamos flutuar pelo ar como minúsculos pontinhos brilhantes bailando sobre o chão, como pequenas estrelinhas que desciam do céu para brindar a Terra e ver a menina dos cabelos violeta...

Cabelos feitos de algas de nácar, que lhe escorriam sobre os ombros pequeninos , desenrolando caracóis como restos de sonhos trazidos de outras paragens. E brilhava á sua volta um imenso mar de azul, tão azul, tão azul como ela nunca vira nenhum, e ela já vira todos os mares. Era como se o mar tivesse engolido o céu e deixasse apenas escapar um murmúrio que ouvido ao longe era como se as ondas se rissem baixinho quando se enrolavam nos seus vestidos de rendas de espuma branca.

 

E a menina ria também baixinho com elas, na praiazinha pequenina de sonhos de cristal. E corria então e dançava sobre o areal de matizes de marfim e prata sempre semi-atenta a um certo marulhar de segredos  atrás das rochas... Dançou, dançou, dançou, encantando Universos entre cada grão de areia, e por fim teve sono. Chamou então a sua gaivota. chamou uma e duas vezes e outras tantas mais. E não chamou mais.

Era o entardecer, e estrelas pequeninas insinuavam o seu brilho tímido sobre a noite, A atmosfera exalava então um certo aroma de maresia nocturna, como o mais belo dos perfumes vindos de portos longínquos, de viagens a cidades invisíveis...

 

E a menina dos cabelos violeta quis trazer para dentro de si essa maresia também pequenina como o seu piscar de olhos, e então caminhou um pouco. Os seus pezinhos pequeninos tocaram as águas frias e por fim mergulhou nela sem medo. Era o mar que se abria perante ela e lhe mostrava todos os seus tesouros, todas as suas preciosidades, todos os seus segredos e mistérios, como jóias multicores a nadarem junto a si, presenteando-a com vestidos de princesas sonhadas nos cantos das sereias... E o que de mais belo restou desse anoitecer foi a gargalhada cristalina da menina dos cabelos violeta, ao ver abrir-se perante si um mundo maravilhoso de flores que não eram da Terra, como se fosse o mar um fabuloso jardim de anémonas azuis...

 

 

 

 

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