Janelas voltadas para a lua

 

 

 

 

 

Era assim que Marc gostava de adormecer. Com duas janelas pousadas sobre o olhar e as mãos caídas sobre o peito. Como de fitasse o sono. Como se a noite lhe pesasse nas pálpebras e o embalasse num silêncio vago por entre as sombras.  Deitava-se sobre os contornos do entardecer e respirava assim os estilhaços de uma claridade soturna que lhe invadia o quarto, azulada, lunar, causticada pelo frio.  Olhava o tecto como se desenhasse nele um firmamento, ensaiava já o sonho à flor da pele. Um semi-sorriso. Deixava cair um gesto, procurava misturar-se com o vento citadino que se insinuava por entre as frestas da madeira estalada. Mergulhava então num torpor de palavras angustiadas. Tinha ainda pedaços de ausência largados sobre as cadeiras, como pedaços de roupa largados ao cair da noite. Marc despia-se defronte das duas janelas gémeas através das quais olhava a cidade, sete andares abaixo. Olhava a hora tardia, inquietava-se no eco das horas passadas. Procura uma agitação, um qualquer som que lhe abraçasse as costelas magras, um resto de ópio que lhe inebriasse os sentidos... Despia-se de encontro à vertigem, e olhava-se reflectido nas janelas, vazio como todas as ruas.  Tacteava ainda a sua própria pele, pressentindo o pijama azul caído aos seus pés. Permanecia assim, vago e distante, até que a madrugada sombria o resgatasse. Por vezes via-a passar na rua, sete andares abaixo. Como se os seus pés não tocassem o chão, como se simulasse valsas com o andar. Suspirava o nome que lhe inventara e apertava as mãos contra a vidraça. Fingia tocar-lhe os cabelos. Uma vez ela olhara para cima, como se procurasse uma gota de chuva perdida. Encontrou dois olhos tristes, arregalados, como duas janelas voltadas para a lua.

 

 

 

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