Prelúdios

 

 

 

 

A canção da Monólito

 

 

Teria que dizer que eu própria sou uma fortaleza. Invado-me e destruo-me, evado-me e lambo as feridas. Uma bola de negro, essência pura do preto no âmago de mim, torna-me dura e amarga. Eu sou talvez a voz do meu próprio Minotauro, enraivecido, enjaulado, ainda recusando as correntes, debatendo-se contra tudo e contra todos, agitando-se para gritar bem alto a sua fúria. E sinto cada embate, cada golpe, inflijo-os em mim própria quando deixo o medo entrar. O medo ataca-me e o Minotauro escapa-se, persegue-me em todos os cantos da escuridão, até que percebo que sou eu própria, a minha sombra, e o peso que transporto é apenas o meu. Sou a voz do desespero ainda cru que não sangra nem chora, simplesmente porque está vazio de qualquer humanidade.

 

 

 

 

 

 

Mundos cheios de negro


Venho aqui arrastando a sombra do meu próprio ser, muito certa do seu peso que me verga a vontade. Já não sou propriamente um corpo, sou apenas opacidade conclusiva, fuga e resto, um breve eco de um mau pretexto para existir. Nada tenho em mim que palpite, tudo apenas pulsa escuridão e negro, abismo e vazio, em tudo me perco, de todos os montes caio, sou um fantasma preso dentro de mim mesma gritando para rasgar a pele e morrer muitas vezes até ser suficiente. Sou preto. Tenho em mim tanto negro como nunca julguei ser possível, e agora tenho-o todo a subir-me na garganta para que não me esqueça que me esqueci da minha própria regra, quando deixei o medo entrar. E o medo corrói-me as entranhas, as da alma essencialmente, até ao cume da solidão, fazendo-me para sempre acreditar que sou tão zero como a impossibilidade de sorrir quando me vejo ao espelho.

 

 

 

 

 

 

 

 

O preto

 

 

Dou um passo antes de saber quem sou. É como se alguém me acordasse de um sonho. Melhor, é como se alguém me tivesse retirado de um pesadelo. Estranho mundo que venho a conhecer... Enfrento um vento fria na margem do abismo, enquanto o céu se fecha em sombras carregadas de peso, núcleo de preto a absorver a imensidão do vazio, engolindo toda a voz da noite. Tudo são objectos estranhos a que estou alheio, mas sinto que nasce de dentro de mim uma força que me projecta contra o infinito do escuro e se alimenta sempre da falta, todas as vezes da falta, e sempre uma vez mais da falta... O medo. Essencialmente o medo. Vim de um poço pantanoso de desastre, onde o silêncio é tão espesso como o grito, e corta através de nós como a mais dilacerante das realidades. Venho eu da profundidade do preto espalhá-lo como uma bola de fogo negro, sem calor nem chama, apenas objecto que cresce e implode dentro do peito, tomando todos os territórios como seus e arrasando à sua volta todas as velhas réstias de azul... Denso o ar, é sempre o pesadelo que agita a nossa consciência que tenta dormir. Mas o preto não deixa. Nunca deixa dormir. Desassossego. Quebra e queda. Queda, sempre, mais uma vez queda. Cair sem fundo. Sem anestesia, empurrados para o preto mais preto do que todos os que julgávamos ter visto. Vem quando estamos sozinhos, ataca-nos deslealmente, infligindo um golpe exímio no âmago do ponto mais fraco, como se nos enterrassem a mão no peito e a cru nos arrancassem as entranhas. E é mesmo tudo negro. Nem o sangue é quente, simplesmente deixou de existir, porque é tudo substância do medo. Abismo profundo que se desenha em tal embriaguez que mais nenhuma realidade existe para nós que não seja o desequilíbrio. O medo transforma-se em vontade de cair. O preto puxa-nos e tem sempre mais força. Não queremos, não queremos, quase nos recordamos de como se diz "não", mas o peso que aprendemos a transportar dentro de nós exige-nos que o alimentemos, e então cedemos esperando que esteja o monstro acalmado e não nos torture por um milésimo de tempo que seja. Não há nenhum outro percurso a escolher, a guerra trava-se e nós meros espectadores esperamos apenas que acabe. Sonhamos com a vitória dos sonhos que já não controlamos. Que já não são nossos. tentamos ainda esboçar um grito, ajuda, mas uma mão demasiado veemente prende-nos até a intenção. E o negro, todo o negro que nunca sequer julgamos existir ecoa então dentro de nós, assanha-se e torna-se corpulento, ocupa todo o espaço até que nos doa toda a existência, comprimindo essencialmente a solidão. Sim, porque o abismo é acima de tudo medo e solidão. Olho para trás e sei que vim projectada. Dormira toda uma eternidade e finalmente fora acordada. É como a chama ao vento. Desperta-se o terror e ele transforma-se em nós. Obriga-nos a oferecer-lhe a paz de espírito. Em troca da loucura apenas. Inventa-nos futuros e destinos e arrepia-nos até ao medula como se o fim fosse a única realidade possível. Vivemos dentro do medo, da esfera do medo. E mais ninguém vê o preto senão quando olhamos para dentro de nós, por isso esmaga-nos necessariamente a solidão. E tudo porque não somos suficientemente fortes. Porque somos ludibriados pela tristeza. Deixamos que ela se instale e nunca nos apercebemos da subtileza do preto que cresce. Abraçamos a Dor antes de a reconhecer e depois ela morde-nos o pescoço. Vive em nós para sempre, em cada segundo de cada dia. Dilacerando sempre mais e mais tecido, secando sempre mais e mais sopros de vida... Até que carne e pele perdem a cor, a cor que intuímos, e tudo é pálido, sem temperatura, e extremamente opaco. Sou um ser opaco. Nada passa através de mim e tudo o que me rodeia se funde em desastre. Sou sombra, sombra espessa e sólida. Não sei, talvez haja ainda quem veja luz através de mim quando eu não deixo que ela se aproxime. E bem sei que do meu berço se recusa a morrer a esperança que eu volte a adormecer. E então pela primeira vez eu penso em dar uma trégua. Recolher-me e deixar que o azul volte a surgir um pouco. E calhar até consigo calar-me para sempre. Não sei. Deixei que ela percebesse que o abismo só existe porque ela o teme. O medo molda sempre a realidade. Se o medo não existe, a solidão também nem. Nem o preto. E ela começa a acreditar nisso. e eu sinto-me mais cinzento. Quase pronto a adormecer...

 

 

 

 

 

 

 

A queda

 

 

Hoje decidi aparecer e aqui e pensar numas quantas coisas. Já que não está aqui ninguém aproveito para estar mais à vontade. Assim se calhar até é melhor, não me sinto constrangida, não preciso de falar entredentes e posso dizer quantas barbaridades me apetecer. Não puxo a cadeira para o pé da janela porque fico mais perto da chuva e até a pele se me arrepia. De todos os negros, o mais perverso é certamente a chuva, nem eu consigo disfarçar-lhe um certo temor. Sinto-lhe o cheiro ao acordar e logo um murro no estômago me coloca o sabor amargo na boca de mais um dia de sombras opacas. Sempre o mesmo peso sobre os olhos, o mesmo peso arrastando o corpo, arrastando-se a si próprio, dolorosamente arrastando memórias... Deu-me para pensar porquê. Porque é por vezes o mar se abre em dois e nos engole de todos os lados, vencendo-nos em todas a frentes, e do céu já nada espelha a não ser queda, trovão e preto. Penso porquê a perda de tempo e a perda de partes de mim, desperdiçando o pouco que me resta aqui neste espaço vazio, onde todas as palavras me são devolvidas entre embates, quando morrem nas paredes. Estou aqui num quarto escuro e sinto medo. Medo de ter medo, essencialmente. Penso que de facto não há qualquer fonte já que jorre algum prazer, e nada ganho em atirar moedas para um poço sem fundo. É um monólito a tornar-se baço, sem luz nem treva, apenas sentado a pensar a sua existência. Fumaria um pensativo cigarro se restasse alguma ínfima vontade de pensar. Mas não, tudo isto são apenas balbucios de alguém que se sente sozinho e aproveita a distância para atirar letras ao abismo. Qualquer voz é mais doce que a voz que me diz para avançar para onde não vejo e entrevejo a queda.

 

 

 

 

 

 

 

No silêncio, um outro sonho...

 

 

Pois ora bem... eu já devia saber que o silêncio é a melhor opção... mas algo não se cala em mim... e não é uma voz impetuosa, é simplesmente uma fraqueza de já não conseguir deixar de me encolher quando o vento sopra.. Tenho sempre tanto medo...

Esta noite a noite mais escura da alma, de ruídos tumultuosos, vozes ensurdecedoras que não se calavam dentro de mim... Julguei ir ver o fim da noite antes de adormecer, pensei que nem o cansaço estava a conseguir vencer a angústia... O que eu desejei foi um silêncio imenso. Paz de espírito. Mas nem quando os olhos se fecham as vozes deixam de me atormentar... Eu e o meu amor dentro de água. Eu não consigo nadar, os braços pesam-me toneladas. Arrasto-me como se o meu corpo fosse mais pesado do que a Terra, sufoco para tirar um braço fora da água... Até que desisto de tentar. Mergulho num azul profundo que é silêncio total, paz total, nada total... É um vazio azul que não me dói, a água fria no meu corpo quente.... E eu bem no fundo sem desejar regressar à superfície... Respiro como se aquele fosse o meu lugar. Ponho todo o mundo à prova deixando-me estar mais um momento. E acordo antes de saber se o meu amor me teria resgatado do vazio... A anestesia é uma espécie de morte... mas não resolve as dores da alma.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Sono e a Vontade

 

 

Quando ultrapassa aquela hora em que geralmente o corpo quebra, coisas estranhas sucedem. Porque o normal é adormecermos quando isso se dá. Mas e quando não adormecemos? O corpo desacelera talvez, mas o cérebro ganha uma nova vitalidade, dentro da exaustão. Não somos capazes de analisar o que dizemos ou pensamos tão objectivamente por um lado, mas por outro creio que conseguimos dizer e pensar melhor. É o abrandamento do pré-consciente. Dizem que o sono faz descer barreiras, faz cair as defesas. Todos nós nos defendemos instintivamente do que sentimos e pensamos. O que acontece quando não estamos capazes de nos defendermos? Quando nos mostramos tal como somos? Quando estamos tão vulneráveis que poderíamos ceder a tudo? O sono inebria-nos e torna-nos mais tontos, mas mais genuínos. É quando nos sentimos capaz de dizer que amamos alguém. Por isso é que é bom contrariar o sono por vezes e levantarmo-nos dos lençóis quentinhos para escrever algo que nos passou pela cabeça. Mais tarde, ou não nos lembra-mos ou já não temos coragem para o dizer. Por isso, aqui fica... És a pessoa mais linda que alguma vez conheci. Amo-te em toda a tua maldade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Interlúdios

 

 

 

 

Ómega

 

 

Eu falo-te da Lua. Sem poesia. Ironicamente, dirás tu. Se era lua cheia ou crescente, pouco me lembro. O luar é que era fortíssimo naquela noite terrivelmente fria de Inverno. Caminhávamos junto ao mar, e a um céu muito negro. E depois paramos um pouco. Vi-o pelo primeira vez à luz da Lua. Foi o momento em que me doeu. Apaixonei-me num instante de luz e sombra num rosto...Mas agora faz-se tarde e nunca mais houve noites de luar, nem sombras a realçar a luz. Apenas um vermelho muito fundo a gritar estridente ao meu ouvido a eventualidade da queda.

 

 

 

 

 

 

 

Entre “morrer” e “não viver”

 

 

Curiosamente o que me dói mais nesta vontade de não existir é precisamente a impossibilidade do suicídio... Porque o meu desejo seria talvez desaparecer, evaporar-me deste mundo, volatilizar-me, talvez... Mas nunca seria capaz de morrer. Ainda não. Já estive muito perto de o querer o suficiente para o fazer, mas há sempre uma mão que me segura e me detém. E curiosamente essa mão é minha, vem de dentro de mim. Não é alguém que me diz "pára!" no caminho que me faz retroceder São as minhas próprias vozes que me chamam. Queria tanto poder morrer.... Morrer hoje, não falhar, não hesitar... Escapar a todo este sofrimento atroz que eu sei que nunca me abandonará, por muitos dias de Sol que venham ainda... É estranho o que uma partilha nos pode fazer... Como uma entrega nos pode destruir tão cruelmente como nenhuma mão humana seria capaz... Não sei, se calhar compreendo quem não hesita nem falha. Não são cobardes, penso eu. Mas eu não posso fugir. Porque sei que nunca poderia deixar a falta que deixaria atrás de mim em alguns corações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Viver e sobreviver

 

 

Como é possível que por todos os lados esteja rodeada de Dor? Terá sido um desastre nuclear em que a radioactividade em vez de transportar moléculas nocivas de urânio transporte moléculas ultra-destrutivas de... Dor?
Actualmente apenas sobrevivo, porque não tenho energias suficientes para viver... E parece que todo o mundo está contagiado por esta crueldade de existir sem propósito, caminhando sempre em desertos negros feitos de grandes vales abismais, sempre no fundo de eternas quedas... Olho à volta e só vejo sombras nos olhares, como se todo o brilho tivesse esmorecido, tal como uma onda morre ao chegar à praia... Tenho medo dessa Dor, não quero afundar-me nela... E é tão difícil nadar quando não se sabe para que lado é a Terra...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O sorriso

 

 

Não, o sorriso será talvez o argumento definitivo e supremo do Amor. Na sua plenitude total, sem barreiras. Aquele Amor que é luz intensa que nos invade como se nos sentíssemos por breves instantes estar em comunhão com tudo o que existe. Sorrimos quando estamos felizes, e a felicidade transparece no sorriso. A felicidade é plenitude inexplicável, êxtase indizível, e num sorriso estão todas essas coisas, mostrando como brilhamos por dentro... Também o meu amor me disse que quando eu sorria era algo mágico... o problema é que eu deixei de sorrir... e para ele foi como se eu tivesse morrido. A magia deixou de existir e ele nunca mais se veio aquecer junto a mim...

 

 

 

 

 

 

 

 

Balbuciando um amor morto

 

 

Quando o meu amor morreu.... bem... morreu? Morte? morte... matei-te... não, mataste-me... sim, morri, mataste-me. Amor morto. frio. está frio lá fora e essencialmente frio aqui dentro. Cobertura de gelo, estala... Doem-me os dedos de esgravatar à superfície. Quando o meu amor morreu... não me lembro ainda... Tenho ainda as pálpebras cerradas. Doem-me os dedos, já tinha dito? Dói. Dor, dor. Dói muito... Tudo dói, nenhum alívio. Álcool em ferida aberta, um peito aberto ao mundo, escancarado aos demónios. Não há ódio, nem raiva. Muita vontade de sorrir um dia... Muita vontade de ter calma.. Muitos sonhos ainda recusando-se a morrer. Não, esses não os deixo morrer. Mas dói. A tristeza dói. Tanto que não sou capaz de abrir a porta e dançar furiosamente com ninguém. Tanto que só queria que o mundo acabasse e me levasse com ele. Tanto... o amor morreu tanto que dói calmo...dói morto que tanto acalmou...dói tanto que morre calmo... Morte, morte, morte... fim e queda. Medo. Muitos desertos para atravessar. E eu espero. Nenhum mundo é concebível se não esperar por ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vertigem, para o meu amor...

 

 

Todos temos uma transcendência, por muito que tentemos escapar-lhe. E o mais curioso é que nem sei até que ponto é que o próprio ateísmo pode excluir essa transcendência... Falando de um ateísmo absoluto e radical, não deveria existir um único sentimento "cósmico" que nos comovesse, certo? Nem Deus, nem Universo, nem Céu, nem Inferno... Mas há algo mais que nos escapa sempre.. Quanto mais não seja a magnificência do estarmos aqui e agora... Porquê, porquê? A simples comoção das imagens que nos trouxeste fala por si. Há algo tão maior do que nós à nossa volta que borbulham lágrimas dentro de nós sem que saibamos como as sentir, como as jorrar... Mas há um sentimento de felicidade plena que todos experimentamos por vezes espontaneamente, puro êxtase de existir, e isso só pode provir da nossa transcendência... Quando morrermos, é bem possível que seja para nós o fim definitivo. Talvez deixemos de pensar antes de termos tempo de pensar "morri, deixei de pensar"... Mas algo ficará para sempre. O pó que deixamos nos sítios por onde passamos. O Universo é grande e velho, lembrar-se-á certamente de nós... E nós poderemos dar as mão do outro lado, amor....

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diálogos

 

 

Eu estou à espera de alguém que tenha coragem de sentar-se ao meu lado. E que tenha coragem para não se levantar quando o meu vulcão explodir dentro do meu peito.

 

Pensa assim... não há forma alguma de segurar a lava dentro de um vulcão... Em toda a nossa força humana, não há um ínfimo poder que tenhamos contra as forças da Natureza. E esse Amor recolhido no mais fundo de nós é um vulcão em actividade latente, nada podemos fazer para evitar as suas erupções. O que podemos é começar a antever-lhe a chegada, e a preparamo-nos para uma defesa sucessivamente mais resistente. Eu não acredito que o meu vulcão alguma vez se extinga. Nunca há-de depender de uma escolha ou palavra minha sossegá-lo, fazê-lo arrefecer, mas é claro que sonho que um dia ele me dê descanso. Percebes o que te quero dizer? É natural precipitarmo-nos porque achamos sempre que uma vitória é uma vitória definitiva, mas volto a repetir que o Amor é como as forças da Natureza: indomável. Não o podemos "organizar" de forma a conseguirmos continuar as nossas vidas. Uma vez que a Dor se instala em nós é impossível libertarmo-nos dela, ela torna-se parte de nós, mas o que podemos é enfrentá-la de forma a que aprendamos a conviver com ela sem deixar que ela nos perturbe. E é isso que neste momento estou em processo de digerir.. Que a Dor de um "amor morto" veio e nunca se irá embora. E o máximo que posso fazer é aprender a renovar-me. Vencer não é possível.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fortalezas

 

 

Vou falar-te de fortalezas, essencialmente. Fortalezas de aço e fortalezas de cristal.

Assim são as minhas, de cristal. São translúcidas, ainda muito frágeis, não escondem o que guardam, e vibram apenas com um subtil toque... Escusado será dizer tilintam e estalam a cada abalo mais forte, mas pelo menos tenho consciência de que há sempre um brilho que se expande da luz que absorvo, e que no fundo de qualquer camada embaciada, estará sempre a mesma essência cristalina que reflecte luminosidade, vontade de brilhar...

Depois são as do meu amor. Fortalezas de aço blindado... Com múltiplas capas e camadas revestidas e isoladas. Hermeticamente fechadas, implacáveis, intransponíveis... escondem tudo, tudo... Nunca sequer permitem um vislumbre daquilo que guardam e qualquer morte ou vida que ocorra no seu interior nunca será conhecida... São desconhecidos todos os efeitos dos abalos mais fortes... apenas se vê a fortaleza intacta, blindada contra todo o mundo, impenetrável, impermeável a qualquer rasgo de luz. Lá dentro só pode mesmo estar muito escuro. É uma fortaleza opaca, que há muito deixou de ter a capacidade de brilhar... O meu amor já não conhece a luz, habituou-se ao frio...

Eu trigo, ele joio, eu fraca, ele forte. Um perante o outro, sei que nunca o conseguiria vencer. A minha fragilidade faz-me encolher-me perante a impermeabilidade dele. Mas no fim, vejamos... Eu é que continuo a sonhar, eu é que ainda acredito no Amor, eu é que ainda espero ser feliz... Ele apenas espera. O que quer que venha. Espera, resigna-se, aceita. Recusa e aceita. Mas nunca se preocupa. Simplesmente já não quer saber. Sinceramente, é como se já estivesse a morrer há muito...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A fúria e a calma

 

 

Eu conheço a tarefa de juntar os segundos, até arrastar cada hora, mas sinto-me impotente agora... Não consigo prender-me a nenhuma tarefa que chegue a durar um segundo. Torna-se tudo demasiado doloroso, e então ando eu de quarto em quarto sempre na mesma busca absurda de algo que me preencha. Mas Leonor, tenta compreender-me... eu não encontro ódio nem fúria em lado nenhum... nem quero! A minha raiva é uma raiva muito sossegada, vai-se movendo por baixo de uma camada muito fina, para que quase não a veja nem a sinta... Sinto raiva, muita raiva, mas se a deixo gritar pela minha boca ela traz-me todo o Inferno à margem dos sentidos... A fúria a mim não me ajuda, Leonor... Não, porque nem sequer consigo odiá-lo a "ele" nem ao mundo que me rodeia. Continuo a gostar de tudo. Tenho apenas saudades de casa, mas a revolta não serena nada. Apenas me traz ainda mais tristeza, e a tristeza já me dói demasiado.

Não quero, não posso sequer permitir-me... tenho o corpo e o espírito demasiado cansados para poder dar-me ao luxo de chorar como antes. É claro que choro, em momentos meus.. Mas choro essencialmente por dentro. Com um nó constante na garganta que por vezes solta mas lágrimas. Mas estou a tentar essencialmente reaprender a sorrir. Porque eu nunca me contentarei com um encontro casual ao fim de 6 meses e conversas sobre artigos de jornal... Eu preciso do meu amigo ao meu lado. Do meu melhor amigo ao meu lado. Preciso. E só quando for capaz de sorrir para ele e sentir que é muito bom gostar de uma pessoa assim, que é tão má, é que poderei perceber porquê... Percebes, Leonor?

Temos sempre que descobrir um porquê... quanto mais não seja para perceber porque vale a pena atravessarmos tamanhos desertos de Dor e Angústia. Eu quero poder um dia abraçar o meu amor e dizer-lhe "obrigada por teres estado ao meu lado e por me preparares para o que a vida me trouxe a seguir"... Quero poder um dia sentir-me feliz por tê-lo amado. E para isso preciso de calma... Paz de espírito... A fúria só a chamo em último recuso. Se estiver mesmo no mais fundo do chão e tiver que erguer-me para lutar. Mas de resto não a quero. Porque ela só aparece quando penso que o meu amor é um monstro cruel e insensível. E eu sei que ele não é.. Não pode ser.

Quero acreditar que há-de vir alguém à minha procura. E quero estar cá para a receber. Quero amar novamente com toda a minha força, quero poder de novo sentir-me VIVA... E sim, sei que só chegarei lá aos poucos...

 

 

 

 

 

 

 

 

Falling

 

 

É como se chama a música do tema de Twin Peaks. Volto lá tantas vezes que já devia ter aprendido que é um canto escuro onde não devia entrar. A música leva-me sempre de volta àquele caminho sombrio das pedras, onde vou descendo lentamente até à vertigem. Sempre. Toca-me não sei em que profundidade da alma, que me consegue arrebatar da minha própria vontade. É o cantinho onde a Dor é mais amarga. Onde o Desespero é mais negro. Onde a angústia não tem fim. Mas é ao menos a dor que já conheço. O que eu temo não é nunca voltar a este canto escuro... É antes o de ser empurrada para a escuridão que não conheço, essa que se desenha à minha frente... Não quero que me engula....

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fogo e o gelo

 

 

Não sei... É claro que a minha Dor diria prontamente que não, nunca poderia jamais existir sem "ele". Eu não sei. Não sei mesmo. Na verdade, já não imagino a minha vida sem o ter conhecido. Quer dizer, mesmo distante, o nosso breve encontro fez-me subir para onde me vejo melhor e mais alto... Isso valeu a pena. Não, talvez não pudesse existir sem ele. Mas pelo menos sei que ele está algures... talvez não pense em mim, mas penso eu o suficiente pelos dois.

Não, nunca senti tanto medo como agora. Nunca tive tanto medo. Nunca nada me pareceu tão irremediável.

Tenho medo de arder nas fogueiras e congelar nos frios que me rodeiam, sim. Tenho medo de tudo.
Qualquer Deus que exista merece certamente um julgamento. Recuso-me a ser um ser menor, sujeita à vontade sádica de quem quer que seja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Puppet love

 

 

Falaste-me da miséria de amar, Leonor... E somos todos estúpidas marionetas apenas desejando que os fios não se quebrem. O amor a que temos acesso é apenas uma espécie de voodoo, dançamos em transe como bonecos até que comecem a espetar-nos os alfinetes. E aí caímos para o lado e morremos de dor. Foi assim com a minha menina voodoo... A Monólito morreu de vez. Tanto preto engoliu-a até às entranhas, até que se evaporou. Morreu definhada pela sua própria Dor, na acidez da sua própria angústia. Ela sabia o que queriam dizer as tuas palavras. Mas foi tarde demais. Morreu porque o medo já não existe. Agora é mesmo o abismo real. Já caminho lá dentro. E ele nunca mais voltará a suspirar porque a incerteza já não a alimenta. Neste momento, até tenho saudades dela... Porque ao menos ela permitia-me ver que, no outro canto, estava a luz. Agora, não vejo nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ilusões à espera de um Inferno

 

 

Acredito no que acredito. Não tenho provas de nada. Ninguém me disse como devia existir. Ninguém me ensinou a ser. Nasci já a acreditar naquilo que acredito. Sou feita de uma matéria que me molda a vontade e me faz sentir necessariamente umas coisas e não outras. Sem conhecer sequer qualquer porquê da minha existência, penso no que conheço de mim e digo "eu sou assim". Feita de sonhos, por exemplo. E para quê deveria eu alguma vez querer convencer-me de que os meus sonhos estão errados? Agarro-me com força a todos os meus sonhos e esse é o mundo em que vivo. É por isso que acordo todos os dias e decido continuar. Porque acredito neles, ainda e sempre. Podem ser ilusões, meras ilusões à espera de um Inferno, mas que importa? Vale a pena viver desde o início o desespero? Vale a pena antecipar a queda, enquanto ainda podemos andar? Nem pensar! Deixem-me acreditar que posso ser feliz, enquanto posso...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pulsar

 

 

Curiosamente, sinto mesmo que as coisas se tornaram demasiado pequenas. Todas as coisas serão sempre infinitamente pequenas enquanto não conseguirmos olhar para elas como se a sua existência tivesse alguma importância. Geralmente estamos dispostos a trocar grande parte do nosso mundo por um restinho da felicidade com que sonhamos (e cada um sonha-a à sua maneira), e por isso necessariamente certas coisas vão perdendo importância para nós. Mas estranhamente eu própria já me sinto pequena. Já quase nem tenho medo de morrer, de tão ínfima que me sinto perante o que fui. Aliás, penso mais é no que não fui, naquilo que poderia ter sido. E claro, essencialmente naquilo em que me tornei. Não sei se o serei para sempre, nem sei até que ponto é que sou alguma coisa neste momento, apenas sei que onde estou não quero ficar. Já não me chega o Tempo nem o Universo nem as supernovas nem os quasares nem todos os Sóis magníficos que fazem girar mundos à sua volta... Toda a vertigem de existir no meio de tanta Eternidade , de tanta Beleza, parece desvanecer-se. O único encontro que espero já é mesmo com o Amor. Por momentos decidi tornar-me crente. Crente de que há algo à minha espera. e que tenho uma razão para estar aqui e que mesmo quando tudo parece pequeno, há em mim algo infinitamente grande, que é a partilha do pulsar da Terra... Quando eu desaparecer, há-de ficar certamente algo de mim. E isso é uma espécie de conforto. A Terra guardar algo da minha existência. Quanto mais não seja o buraco que deixar quando me tornar ausente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Humming... o adeus aos barcos

 

 

Isto é suposto ser só um suspiro. Daqueles que são breves, que duram um instante sonoro, mas que ecoam infinitamente dentro do nosso peito. Talvez todos os suspiros sejam assim, afinal, e sê-lo-ão certamente. Um grunhido que resume todo um aperto que não saberíamos verbalizar. Só queria falar um pouco como se alguém me ouvisse, para libertar este peso que me constrange há tanto tempo. É como a Leonor diz, as palavras pronunciadas têm um poder incomensurável, e eu espero encontrar nelas alguma força libertadora... Estou farta de ter medo, farta de espiar atrás de portas e debaixo das camas à procura de monstros e fantasmas, de tremer à passagem da minha sombra - como se me perseguisse, de hesitar cada passo antevendo uma queda... Estou farta. Farta de encolher-me. Encolher-me dentro de mim com medo de me erguer e olhar de frente o frio. dizem-me que sofro porque não acreditei ainda na possibilidade de caminhar sozinha. E eu talvez já compreenda porque é que só quando sentirmos que já não precisamos de ninguém é que seremos capazes de compreender a entrega. Entrega não implica abdicação, ou não deve implicar. E o abismo precipita-se cada vez que pressente que se está prestes a abdicar até de existir... Vejam, esta época festiva revolve muitas emoções cá dentro, supostamente tão bem arrumadinhas durante o ano. É uma luta entre o que deveria ser e o que não é. E a escolha entre a resignação ao que é ou a desistência. Fins de ano são sempre deprimentes. E no meu caso, até depressivos. Enquanto toda a gente ri e canta eu só me sinto gritar e chorar por dentro, como se rebentasse. Preciso de uns momentos só para mim, para engolir as doses sucessivas de amargura. Compreendem a angústia que me assalta nestes momentos? Eu nunca a consigo localizar, antecipar de onde virá, em que momento se instalará... Tem-me apanhado sempre de surpresa, a angústia... E eu vejo-me assim ontem à tarde, sozinha em casa. Na apatia de domingo de chuva, com a agravante de sentir falta dos 10 anos que tenho a mais. E a tarde transformou-se em noite e houve um certo brilho especial em estar onde estava. Apesar do temporal, a minha pele eriçou-se em arrepios com a sinfonia belíssima vinda do porto, da doca... Imaginem que dezenas de barcos fizeram soar os seus "apitos" simultaneamente, numa amálgama de timbres e tons, nota acima nota abaixo, um verdadeiro canto de sereias vindo das águas poluídas, mas que teriam naquele momento toda a magia que quiséssemos... O canto dos barcos encheu-me de uma emoção tardia que me veio aquecer um pouco a alma. Adormeci quase sossegada, com esperança no dia de hoje. Havia uma respiração serena ao meu lado que me permitiu sorrir e sonhar, e não recear sequer o fim do mundo que viesse antes de acordar. Estaria certamente demasiado feliz para me importar com isso. Hoje estou naquele limbo que hesita entre a tristeza e o sorriso... Chamo-lhe nostalgia, porque o sintoma é o mesmo. Mas poder-lhe-ia chamar feliz comoção. Sabem... quando querem que tudo esteja bem mas tudo vos enternece e comove, mesmo os bigodes dos gatinhos, e só vos apetece chorar agarrada a uma almofada e dizer "oh, estou tão feliz!"... Neste momento apetece-me chorar muito. Porque tenho anos e anos de amargura acumulada dentro do peito, que só um "choro higiénico" provavelmente limparia. Teria certamente que ser um choro que durasse 3 dias ininterruptos... Aquilo que nos habituamos a ser tem quase sempre mais força do que aquilo que gostaríamos de fazer de nós. Mas quando nos colocam a espada sobre a cabeça e sabemos que não temos saída, as coisas assumem outra perspectiva. Já nem nos importamos se estamos sozinhos em casa no primeiro dia do século XXI. É importante é lutar... Vencer a preguiça. Saber aquilo que queremos e o que não queremos destruir. E assim as nossas mãos crispam-se em vontade e em vez de destruírem castelos de areia penosamente, apenas reciclam os grão húmidos para fazer novas construções, acreditando que poderão ser mais sólidas... Já não me parece uma desgraça que a vida não me proporcione aquilo com que sonhei. Tenho aquilo que de mais especial desejei, um bem precioso, fiozinho de vida, folhinha de cristal reluzente, que guardo em cofres de veludo e seda dentro do meu peito... E isso deve certamente compensar todas as faltas. Desde que acredite. Desde que não seja suficientemente egoísta para atirar ao vento a felicidade. Por medo. Por falta de coragem para me levantar.  Mas tu não sabias disto e mataste-me sem pena, amor....

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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