Faço o ar cair à minha volta.
O céu apaga-se.
O rádio estala como orquídeas de urânio.
Isto é para quando tiver ultrapassado as mil mortes.
Três sombras à minha espera.
Um lua despedaçada nas minhas mãos.
Sangue de pétalas espalhadas pelo chão.
O Inferno aproxima-se novamente.
Corto os pulsos e a garganta.
Uma mão, obra de arte esmagada.
Ardendo uma chama no interior.
Morcegos picam-me os olhos.
Há um sabor amargo no silêncio da noite.
Autocarros percorrem a cidade à procura de vítimas.
Eu vejo, vejo a morte um segundo antes.
Tudo é escuro e doce como uma laranja mecânica.
A vida não tem lugar no mundo.
Espírito.
O que falta.
II
Veludo, acabou-se o veludo e enterras as mãos
na terra seca. Entranha-se nas unhas e sentes a dor do pó infiltrar-se na
carne. Beijas o chão. Acontece qualquer coisa nas árvores que te vêem. è
inútil. Correm-se 1000 quilómetros que não terminam nunca. E quando os joelhos
vergam está-se finalmente dentro de um pântano. Ninguém consegue respirar debaixo
de água.
III
Nem a solidão tem limites nem a estupidez.
Como um verme que na ilusão de ser cego procura esconder a sua viscosidade
ignóbil. Não tens já mãos com que agarrar os anjos. Eles foram escavar
montanhas à procura do silêncio, o mundo está conspurcado de vozes. Enoja-me a
tua presença aqui, sabes? Enoja-me seguir-te onde quer que vás e encontrar-te
sempre colada aos meus pés. Repugna-me estar dentro de ti e querer sair. Sinto
náusea de olhar-te de olhos pretos e já sem expressão. Não vim cá para te ver.
Vim para falar com ele. Mas ele também já foi embora, não é?
IV
Sim, já não está ninguém aqui. Os que não
morreram simplesmente foram-se embora. Cansaram-se das vozes. Da loucura.
Também tu devias sair, não há nada aqui para ti. Não te encolhas nesse canto.
Fazes aquilo que quiseres, mas esperar é inútil. Esperas o quê? Novamente
espectros que te atravessam. Olha, agora até já voltaste a falar com os
espelhos... A cama está vazia e deve ter arrefecido, há incontáveis noites que
não dormes. O pesadelo está debaixo dos lençóis à tua espera. Dá-lhe a mão e
abraça a noite mais escura da alma.