Frasco de sonhos
Vou
contar-te uma história. Não, não era uma vez, talvez tenham sido muitas vezes,
vezes demais, vezes de menos... Era uma menina de cabelos cor de mar, caracóis
como estrelas de fogo que cintilavam ao sabor da brisa... brisa que respirava
com o ritmo das ondas. Onda, inspirar... Onda, expirar... Corria descalça e às
vezes creio que a ouvíamos rir. Um riso baixinho sussurrado em búzios, que nos
tocava sem sabermos se era um qualquer beijo da loucura. Ela ria e nós sonhávamos.
Sempre com novos mares e com novas meninas, com novas marés e as mesmas
estrelas cor de fogo... Lembras-te como o silêncio se foi perdendo, à medida
que o guardamos dentro de nós? Claro que não, esta era minha história... Mas
lembro-me eu de como a encontramos. Foi um dia em que o mar enegreceu e o céu
se dividiu a meio com um brutal ataque de Zeus... E também a minha alma
escureceu. Foi um dia em que a brisa deixou de cheirar a maresia, um dia em que
já não acreditava em sereias, um dia em que as estrelas do mar apodreceram
mortas na praia... Encontramo-la e ela já não ri. Tinha calado a sua voz de
búzios e já não nos fazia sonhar. Estava deitada apenas, ainda descalça, e
espalhados os cabelos cor de mar. Inerte. Areia e algas. Agora até o silêncio era
insuportável. E desapareceu. talvez não para sempre e espero que não para
sempre...
e conto-te então a história do meu sonho para que voltes a caminhar junto a mim
e acredites também reencontrá-la algures em paragens ainda não visitadas.