Diário de Maria F.

 

 

 

 

 

Dia 1

 

Hoje fechei-me no quarto. Sinto a vertigem da espiral que se aproxima. Fechei-me no quarto para escapar à vertigem, mas mesmo aqui ela encontra-me e torce-me os pensamentos como se me apertasse as têmporas até fazer sangue. Já não me lembro há quanto tempo é que isto começou. Foi há demasiado tempo, talvez, num tempo ainda antes de mim. Pareço ter envelhecido séculos nos últimos sete meses. Sete. 7. SETE. A obsessão pelo número. 7 meses. Uma tão perfeita ausência... Lembro-me ainda vagamente de ter tido uma vida qualquer antes de ter entrado por este túnel horrendo do vício. Talvez eu tenha tido um corpo, um rosto, talvez até tivesse um nome, um ser... Hoje não tenho nada a não ser pele queimada de sucessivos incêndios em combustão espontânea, pontas dos dedos em ferida de tentar arrancar as unhas com os dentes. Gostaria de dizer que sou uma morta-viva, mas não encontro já em mim partícula nenhuma que viva. Tudo se arrastou comigo para dentro deste inferno deserto onde a noite me engole hora após hora, virando-me do avesso como se tivesse alguma alma para vomitar... Se a tenho, não sei por onde anda. Há muito que me abandonou nesta latrina a que chamam corpo. Estou cheia de merda dentro da cabeça. Tenho o juízo completamente fodido, e só muito vagamente me recordo de ter tido uma mente brilhante.

 

 

A noite passada fui atacada outra vez inesperadamente. Aconteceu quando me preparava para dormir. Ele geralmente sabe que nessa altura me encontro mais vulnerável, e investe com toda a violência. Mas não me recordava já de tão brutal ataque. A médica dizia-me que devia anotar sempre estes acontecimentos, para aprender a dominá-los. Mas onde anda a médica agora? É apenas mais uma outra parte distante do mundo. O monstro que me habita voltou a acordar esta noite. Acordou furioso e irado, e começou a cravar os punhos nas paredes do meu peito até o seu eco se fazer sentir num nó na minha garganta. Todo o meu abdómen se contorce em cólicas e espasmos, como se estivesse possessa. Há quase dois anos que estou possessa. Malditas sejam as noites de luar que abrem os olhares para uma luz que os revela como livros abertos... Quando ele acorda, é como um vulcão adormecido há séculos que irrompe em toda a sua fúria. Cobre-me o corpo de lava até me fazer gritar de horror. Todo o inferno me sobre à garganta.

 

 

O silêncio torna-se ensurdecedor, e todos os sons me embatem no cérebro como estilhaços de vidros a partirem-se dentro do meu corpo. Ontem à noite entrei num choro convulsivo de que já não me lembrava à muito. Cravou-me novamente olheiras profundas no rosto. Não como há 3 dias, e tenho passado o tempo quase todo a dormir. Hoje de manhã acordei com a bruma cinzenta e fechei-me no quarto numa ânsia de sobreviver. O vício está a tomar conta de mim, a apoderar-se do que quer que seja que resta do meu ser, aos poucos vai devastando tudo e deixando apenas ruínas incineradas. Cheguei a ponderar a hipótese de uma overdose, mas uma voz arrancou-me desse poço sem fundo e arrastou-me inconsciente para a margem do abismo. Forçou-me a abrir os olhos e a olhar as estrelas. Como é que poderia deixar um céu inteiro para trás? Chorei as tripas, vomitei as entranhas. Suor e sangue escorrendo-me de cada poro. As estrelas desenhavam o nome, sempre o nome dele.

 

 

Estou a arder, P., estou a arder! E dói, dói tanto... dói como nunca imaginei, dói mais que qualquer horror que alguma vez imaginei. Fechei-me no quarto e engoli a chave a seco, para não me tentar a sair novamente e causar um desastre. Tenho que forçar-me a permanecer aqui. Tenho que confinar o espaço do meu demónio, subjugá-lo dentro destas quatro paredes, para que me deixe depois a mim adormecer em paz. Tenho que aguentar a dor da suas investidas, tenho que suportar as feridas que ele me inflige, tenho que dominar o horror de ser atirada contra as paredes. Tenho que suportar as chamas que de mim brotam, e não vacilar quando me sentir consumida por elas. Terei que aguentar até á cinza se for preciso. Este será o meu último combate, não terei forças para mais. Ou saio deste quarto vitoriosa, ou morro aqui dentro para sempre. Mas não mais o medo me fará olhar para dentro do deserto e me fará sentir o frio a nascer-me nos ossos. Tenho alguns segundos de aparente serenidade. Vejo-o no outro canto do quarto, a olhar-me enraivecido. Prepara nova investida. Tenho os braços em carne viva, e um buraco no peito. É a cratera do vulcão. Estendo as mãos para a frente e vejo ainda as chamas a queimarem-me por dentro. Este calor é insuportável, não sei quanto tempo mais conseguirei aguentar. Acabo por gritar desesperadamente para calar as vozes que me atormentam, e corro desenfreadamente como se fugisse de uma besta.

 

Cravo as unhas na parede e começo a esgravatar um túnel. Pelo menos esta noite estarei sossegada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 2

 

 

Foi uma noite do mais absoluto e puro horror. Não era este sossego que eu imaginava. Estive face a face com a visão inexorável do meu inferno, deste meu exílio sem fim. Estou fechada dentro do meu quarto e estou fechada dentro de mim e estou fechada dentro de todas as coisas. Estou a arde, P., consegues ver-me a arder? Diziam-me que me viam ao longe na distância, no fundo da escuridão, porque eu estava cheia de luz. Conseguem ver que estou a arder? Que a minha luz me devora, que as estrelas me incendeiam os cabelos e me lançam a alma como cinzas ao vento?

 

 

Aprendi esta noite que ele ataca quando menos se espera, quando simula uma trégua. Julguei silenciar os seus gritos escavando as paredes, desfazendo o estuque com as unhas, chorando a acidez das feridas em cada lasca de tinta que se me entalava no sabugo, e extingui-me em suor e lágrimas a uma velocidade alarmante... Não consegui escavar um túnel por onde pudesse fugir, mas abri um buraco suficientemente grande para que me pudesse enfiar lá dentro, com o corpo encolhido. Morreu-me a respiração antes de alcançar a garganta. Bati com os punhos no peito com toda a orça de que me senti capaz, e mesmo assim o ar não passava, tornou-se uma bola de fogo a queimar-me mais uma vez as entranhas.

 

 

Foi nesse momento que caí para fora do meu ninho improvisado, caí convulsiva no chão de soalho, com os olhos arregalados a caírem-me para dentro. As dores atingiram cada milímetro do corpo. Senti a náusea o a urgência do vómito, e toda a minha boca a tingir-se de vermelho, e mesmo assim me encontrei inerte, incapaz de me mover. Estou toda fodida, toda fodida... Talvez não reste assim tanto de mim que valha a pena salvar. Esta ressaca está a ser bastante pior do que alguma vez pude imaginar. A espera, a espera é o mais desesperante de todos os horrores. Não consigo ver, não consigo ver nada, tudo está cheio da presença deste monstro impiedoso que me esventra a alma de qualquer sopro de vida.

 

 

Tenho vergonha, P., tenho tanta vergonha! Estás aí? Consegues ouvir-me, P.? Por favor, vem para o pé de mim, embala-me o adormecer... Ajuda-me a morrer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 3


O quarto está cheio de cães. Uivam às janelas fechadas e abocanham-me o corpo magro, arrancando-me pedaços de pele e carne. Estou cheia de feridas em carne viva. São cães furiosos. Porque me atacam eles? Que mal lhes fiz eu? Estão a vir outra vez. Olham-me do outro canto do quarto onde me encolho. Têm um brilho sádico. Ainda seguram parte do meu braço nas mandíbulas. Daqui a pouco arrancar-me-ão o pescoço e ainda verei o meu próprio coração deixar de bater... Porque ladram os cães? Porque me odeiam?! Deixem-me em paz! Deixem-me em paz... só quero ficar em paz... Tento espetar os dedos na vidraça, vejo que chove lá fora. Ninguém me arranca daqui, ouço os uivos cada vez mais próximos. Tremo, tremo, tremo, tremo, tremo, tremo, tremo... Sete, sete, sete, sete, sete, sete, 7... Os números já dançam à minha volta. Doem-me as cãibras. O vermelho tem um odor ácido. Estou sem cabelo, caiu-me o cabelo!!! P., onde estás??? Incendeiam-se-me as mãos outra vez... Ouço o silêncio. Ouço o silêncio. A noite vomitou a lua para dentro de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 4

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Dia 5

 

 

Não tenho qualquer memória do dia anterior. Tudo é apenas uma mancha branca ou preta, desfocada e difusa, que se contrai e s distende perante os meus olhos. Não sei por que lugares andei, não imagino que coisas me tenham acontecido. Lembro-me vagamente de ter caído em êxtase de loucura horas antes de o dia começar. Lembro-me de me ter desagregado do mundo. Como se me tivessem cortado o cordão umbilical que me ligava à terra. Mas de resto nada mais recordo. Parece que se abriu um buraco na minha vida, e os dias do horror caíram lá para dentro. Porque na verdade não sei quantos dias se terão passado desde que caí neste esquecimento, não faço ideia quanto tempo terá passado desde que a minha consciência adormeceu. Não faço ideia que dia é hoje. Não sei em que ano estaremos.

 

 

 Presumo apenas que está próximo o início do Outono, porque vejo a natureza dourar-se do lado de fora da minha janela. Paira no ar um aroma de fim de Verão. Reconheço-o porque foi dentro dele que nasci. Um vento suave embala as árvores numa melodia de matizes crepusculares. É a hora vespertina, disso tenho a certeza. Há uma estranha calma que me envolve, como se o pesadelo já tivesse passado. Na verdade, é mesmo isso que encontro escrito nas paredes deste meu quarto fechado. O monstro voltou a adormecer dentro de mim. Abandonei o centro do vulcão e encontro-me agora sobre uma cratera adormecida. Tenho cinzas nos cabelos e os olhos enevoados. O corpo ainda contorcido em dor, marcado ainda das feridas gravadas pela lava. Mas estou encolhida a um canto e não vejo a face do medo. Recolheu-se dentro de mim.

 

 

Lembro-me de ter aberto os olhos e não ter sentido o frio agreste do vento furioso. Recordo um silêncio puro e uma serenidade limpa. Como se pela primeira vez na minha vida respirasse uma manhã azul. À minha volta estavam espalhados os destroços da última erupção, o meu quarto havia-se transformado numa ruína. Levantei-me e senti que me custava erguer os joelhos. Caminhei cambaleante até à janela e toquei com os dedos na vidraça. Estava morna, a transparência. Estava voltada para sul. À minha esquerda, estendia-se o rio pelo Nascente. À minha direita, desdobrava-se o mar inteiro pelo Poente. Fechei os olhos e inalei o odor da maresia, como se a liquidez do azul me entrasse nas veias e arrefecesse os últimos vestígios das chamas que brotavam da minha pele. Abri a janela e senti a brisa nocturna a aproximar-se. As memórias dos dias anteriores começavam a apagar-se, dando apenas lugar a um espaço infinito de páginas brancas ávidas de serem preenchidas.

 

 

Engoli a última acidez que me entalava ainda a garganta e consegui sorrir. Sentia à minha volta um abraço morno que me arrepiava os braços.

Finalmente vieste, P. Estás agora aqui comigo e sinto-te pousar a mão sobre o meu ombro.

Vejo a tua boca como um gomo de vermelho enquanto dormes, e ensaio um beijo.

Deito-me ao teu lado, enrosco-me no teu corpo, e espero contigo a eternidade.

 

 

 

 

 

 

 

Para Ronny

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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