Hoje fechei-me no quarto. Sinto a vertigem da espiral que
se aproxima. Fechei-me no quarto para escapar à vertigem, mas mesmo aqui ela
encontra-me e torce-me os pensamentos como se me apertasse as têmporas até
fazer sangue. Já não me lembro há quanto tempo é que isto começou. Foi há
demasiado tempo, talvez, num tempo ainda antes de mim. Pareço ter envelhecido
séculos nos últimos sete meses. Sete. 7. SETE. A obsessão pelo número. 7 meses.
Uma tão perfeita ausência... Lembro-me ainda vagamente de ter tido uma vida
qualquer antes de ter entrado por este túnel horrendo do vício. Talvez eu tenha
tido um corpo, um rosto, talvez até tivesse um nome, um ser... Hoje não tenho
nada a não ser pele queimada de sucessivos incêndios em combustão espontânea,
pontas dos dedos em ferida de tentar arrancar as unhas com os dentes. Gostaria
de dizer que sou uma morta-viva, mas não encontro já em mim partícula nenhuma
que viva. Tudo se arrastou comigo para dentro deste inferno deserto onde a
noite me engole hora após hora, virando-me do avesso como se tivesse alguma
alma para vomitar... Se a tenho, não sei por onde anda. Há muito que me
abandonou nesta latrina a que chamam corpo. Estou cheia de merda dentro da
cabeça. Tenho o juízo completamente fodido, e só muito vagamente me recordo de
ter tido uma mente brilhante.
A noite passada fui atacada outra vez inesperadamente.
Aconteceu quando me preparava para dormir. Ele geralmente sabe que nessa altura
me encontro mais vulnerável, e investe com toda a violência. Mas não me recordava
já de tão brutal ataque. A médica dizia-me que devia anotar sempre estes
acontecimentos, para aprender a dominá-los. Mas onde anda a médica agora? É
apenas mais uma outra parte distante do mundo. O monstro que me habita voltou a
acordar esta noite. Acordou furioso e irado, e começou a cravar os punhos nas
paredes do meu peito até o seu eco se fazer sentir num nó na minha garganta.
Todo o meu abdómen se contorce em cólicas e espasmos, como se estivesse
possessa. Há quase dois anos que estou possessa. Malditas sejam as noites de
luar que abrem os olhares para uma luz que os revela como livros abertos...
Quando ele acorda, é como um vulcão adormecido há séculos que irrompe em toda a
sua fúria. Cobre-me o corpo de lava até me fazer gritar de horror. Todo o
inferno me sobre à garganta.
O silêncio torna-se ensurdecedor, e todos os sons me
embatem no cérebro como estilhaços de vidros a partirem-se dentro do meu corpo.
Ontem à noite entrei num choro convulsivo de que já não me lembrava à muito.
Cravou-me novamente olheiras profundas no rosto. Não como há 3 dias, e tenho
passado o tempo quase todo a dormir. Hoje de manhã acordei com a bruma cinzenta
e fechei-me no quarto numa ânsia de sobreviver. O vício está a tomar conta de
mim, a apoderar-se do que quer que seja que resta do meu ser, aos poucos vai
devastando tudo e deixando apenas ruínas incineradas. Cheguei a ponderar a
hipótese de uma overdose, mas uma voz arrancou-me desse poço sem fundo e
arrastou-me inconsciente para a margem do abismo. Forçou-me a abrir os olhos e
a olhar as estrelas. Como é que poderia deixar um céu inteiro para trás? Chorei
as tripas, vomitei as entranhas. Suor e sangue escorrendo-me de cada poro. As
estrelas desenhavam o nome, sempre o nome dele.
Estou a arder, P., estou a arder! E dói, dói tanto... dói
como nunca imaginei, dói mais que qualquer horror que alguma vez imaginei.
Fechei-me no quarto e engoli a chave a seco, para não me tentar a sair
novamente e causar um desastre. Tenho que forçar-me a permanecer aqui. Tenho
que confinar o espaço do meu demónio, subjugá-lo dentro destas quatro paredes,
para que me deixe depois a mim adormecer em paz. Tenho que aguentar a dor da
suas investidas, tenho que suportar as feridas que ele me inflige, tenho que
dominar o horror de ser atirada contra as paredes. Tenho que suportar as chamas
que de mim brotam, e não vacilar quando me sentir consumida por elas. Terei que
aguentar até á cinza se for preciso. Este será o meu último combate, não terei
forças para mais. Ou saio deste quarto vitoriosa, ou morro aqui dentro para
sempre. Mas não mais o medo me fará olhar para dentro do deserto e me fará
sentir o frio a nascer-me nos ossos. Tenho alguns segundos de aparente
serenidade. Vejo-o no outro canto do quarto, a olhar-me enraivecido. Prepara
nova investida. Tenho os braços em carne viva, e um buraco no peito. É a
cratera do vulcão. Estendo as mãos para a frente e vejo ainda as chamas a
queimarem-me por dentro. Este calor é insuportável, não sei quanto tempo mais
conseguirei aguentar. Acabo por gritar desesperadamente para calar as vozes que
me atormentam, e corro desenfreadamente como se fugisse de uma besta.
Cravo as unhas na parede e começo a esgravatar um túnel.
Pelo menos esta noite estarei sossegada.
Foi
uma noite do mais absoluto e puro horror. Não era este sossego que eu
imaginava. Estive face a face com a visão inexorável do meu inferno, deste meu
exílio sem fim. Estou fechada dentro do meu quarto e estou fechada dentro de
mim e estou fechada dentro de todas as coisas. Estou a arde, P., consegues
ver-me a arder? Diziam-me que me viam ao longe na distância, no fundo da
escuridão, porque eu estava cheia de luz. Conseguem ver que estou a arder? Que
a minha luz me devora, que as estrelas me incendeiam os cabelos e me lançam a
alma como cinzas ao vento?
Aprendi
esta noite que ele ataca quando menos se espera, quando simula uma trégua.
Julguei silenciar os seus gritos escavando as paredes, desfazendo o estuque com
as unhas, chorando a acidez das feridas em cada lasca de tinta que se me
entalava no sabugo, e extingui-me em suor e lágrimas a uma velocidade
alarmante... Não consegui escavar um túnel por onde pudesse fugir, mas abri um
buraco suficientemente grande para que me pudesse enfiar lá dentro, com o corpo
encolhido. Morreu-me a respiração antes de alcançar a garganta. Bati com os
punhos no peito com toda a orça de que me senti capaz, e mesmo assim o ar não
passava, tornou-se uma bola de fogo a queimar-me mais uma vez as entranhas.
Foi
nesse momento que caí para fora do meu ninho improvisado, caí convulsiva no
chão de soalho, com os olhos arregalados a caírem-me para dentro. As dores
atingiram cada milímetro do corpo. Senti a náusea o a urgência do vómito, e
toda a minha boca a tingir-se de vermelho, e mesmo assim me encontrei inerte,
incapaz de me mover. Estou toda fodida, toda fodida... Talvez não reste assim
tanto de mim que valha a pena salvar. Esta ressaca está a ser bastante pior do
que alguma vez pude imaginar. A espera, a espera é o mais desesperante de todos
os horrores. Não consigo ver, não consigo ver nada, tudo está cheio da presença
deste monstro impiedoso que me esventra a alma de qualquer sopro de vida.
Tenho
vergonha, P., tenho tanta vergonha! Estás aí? Consegues ouvir-me, P.? Por
favor, vem para o pé de mim, embala-me o adormecer... Ajuda-me a morrer.
Dia 3
O quarto está cheio de cães. Uivam às janelas fechadas e abocanham-me o corpo
magro, arrancando-me pedaços de pele e carne. Estou cheia de feridas em carne
viva. São cães furiosos. Porque me atacam eles? Que mal lhes fiz eu? Estão a
vir outra vez. Olham-me do outro canto do quarto onde me encolho. Têm um brilho
sádico. Ainda seguram parte do meu braço nas mandíbulas. Daqui a pouco
arrancar-me-ão o pescoço e ainda verei o meu próprio coração deixar de bater...
Porque ladram os cães? Porque me odeiam?! Deixem-me em paz! Deixem-me em paz...
só quero ficar em paz... Tento espetar os dedos na vidraça, vejo que chove lá
fora. Ninguém me arranca daqui, ouço os uivos cada vez mais próximos. Tremo,
tremo, tremo, tremo, tremo, tremo, tremo... Sete, sete, sete, sete, sete, sete,
7... Os números já dançam à minha volta. Doem-me as cãibras. O vermelho tem um
odor ácido. Estou sem cabelo, caiu-me o cabelo!!! P., onde estás???
Incendeiam-se-me as mãos outra vez... Ouço o silêncio. Ouço o silêncio. A noite
vomitou a lua para dentro de mim.
...
Não
tenho qualquer memória do dia anterior. Tudo é apenas uma mancha branca ou
preta, desfocada e difusa, que se contrai e s distende perante os meus olhos.
Não sei por que lugares andei, não imagino que coisas me tenham acontecido.
Lembro-me vagamente de ter caído em êxtase de loucura horas antes de o dia
começar. Lembro-me de me ter desagregado do mundo. Como se me tivessem cortado
o cordão umbilical que me ligava à terra. Mas de resto nada mais recordo.
Parece que se abriu um buraco na minha vida, e os dias do horror caíram lá para
dentro. Porque na verdade não sei quantos dias se terão passado desde que caí
neste esquecimento, não faço ideia quanto tempo terá passado desde que a minha
consciência adormeceu. Não faço ideia que dia é hoje. Não sei em que ano
estaremos.
Presumo apenas que está próximo o início do
Outono, porque vejo a natureza dourar-se do lado de fora da minha janela. Paira
no ar um aroma de fim de Verão. Reconheço-o porque foi dentro dele que nasci.
Um vento suave embala as árvores numa melodia de matizes crepusculares. É a
hora vespertina, disso tenho a certeza. Há uma estranha calma que me envolve,
como se o pesadelo já tivesse passado. Na verdade, é mesmo isso que encontro
escrito nas paredes deste meu quarto fechado. O monstro voltou a adormecer
dentro de mim. Abandonei o centro do vulcão e encontro-me agora sobre uma
cratera adormecida. Tenho cinzas nos cabelos e os olhos enevoados. O corpo
ainda contorcido em dor, marcado ainda das feridas gravadas pela lava. Mas
estou encolhida a um canto e não vejo a face do medo. Recolheu-se dentro de
mim.
Lembro-me
de ter aberto os olhos e não ter sentido o frio agreste do vento furioso.
Recordo um silêncio puro e uma serenidade limpa. Como se pela primeira vez na
minha vida respirasse uma manhã azul. À minha volta estavam espalhados os
destroços da última erupção, o meu quarto havia-se transformado numa ruína.
Levantei-me e senti que me custava erguer os joelhos. Caminhei cambaleante até
à janela e toquei com os dedos na vidraça. Estava morna, a transparência. Estava
voltada para sul. À minha esquerda, estendia-se o rio pelo Nascente. À minha
direita, desdobrava-se o mar inteiro pelo Poente. Fechei os olhos e inalei o
odor da maresia, como se a liquidez do azul me entrasse nas veias e arrefecesse
os últimos vestígios das chamas que brotavam da minha pele. Abri a janela e
senti a brisa nocturna a aproximar-se. As memórias dos dias anteriores
começavam a apagar-se, dando apenas lugar a um espaço infinito de páginas
brancas ávidas de serem preenchidas.
Engoli
a última acidez que me entalava ainda a garganta e consegui sorrir. Sentia à
minha volta um abraço morno que me arrepiava os braços.
Finalmente
vieste, P. Estás agora aqui comigo e sinto-te pousar a mão sobre o meu ombro.
Vejo
a tua boca como um gomo de vermelho enquanto dormes, e ensaio um beijo.
Deito-me
ao teu lado, enrosco-me no teu corpo, e espero contigo a eternidade.