(...)
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Pode puxar a cadeira e sentar-se, por favor.
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Aqui?
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Sim, aí mesmo. Sente-se no centro do foco luminoso.
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É um pouco desconfortável, sabe? Sinto-me no cimo de um palco, que abomino, e
ainda por cima não lhe vejo o rosto...
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Não se preocupe. Quer começar?
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Sim, mas... começo por onde?
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Pela morte dele.
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Não posso falar-lhe disso.
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Não pode? Então não foi para isso que se sentou? Não era essa a ferida que
ainda sangrava?
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Sim, sim, e ainda sangra, na verdade... Veja... repare como por baixo da gaze o
corte parece uma fonte inesgotável. Tem estado assim desde Janeiro, já lá vão
11 meses. E não estanca. Não acha curioso?
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Sim, sim, mas... não seja tão esquiva. Retomando o assunto...
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Não posso falar-lhe da morte dele porque ele não está morto.
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O que diz?
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Não está. Se estivesse, não crê que a ferida já teria cicatrizado?
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Não sei, menina... Tem feito o que lhe disseram? usa compressas esterilizadas?
Tem tratado disso convenientemente.
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Obviamente.
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E são 11 meses, disse-me?
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Sim.
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Hmmm...
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Percebe o que lhe digo? Se ele tivesse morrido, eu já teria morrido com ele.
Desapareceu, é certo, e deixou-me este buraco no peito... mas sinto-o algures
por aí ainda, a vaguear como um fantasma, talvez como um animal ferido.
Pressinto que talvez queira inclusive regressar a casa. mas não sabe o caminho.
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E acredita que ele volte?
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...
-
...
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Não sei.
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Deseja que ele volte?
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Também não sei.
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Sabe... suspeito que talvez tenha razão. Já o tem procurado? Chamado por ele,
talvez...
-
Não faço outra coisa. Por vezes, quando adormeço, sinto que lanço um grito
contra a noite. nesses momentos sinto que ele me ouve, e é como se estivesse
presente ali comigo, no lugar vazio do meu corpo. Depois desaparece tudo muito
depressa. Acordo envolta em pânico e a ferida começa a latejar. Sangra mais.
Chamo o nome dele mas sinto o eco embater nas paredes do silêncio.
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Curioso. Mas acha que ele se aproxima efectivamente de si enquanto está
desprotegida? Ou crê que seja apenas um delírio do sono?
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Não posso precisar, não tenho outro argumento senão a intuição do meu
sentimento... Acredito que ele se aproxima de mim para me observar quando sabe
que não poderei correr atrás dele.
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Ah... julga então que ele se esconde por medo?
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De forma alguma. Nem se esconde nem tem medo. Recolhe-se nalgum lugar mais
seguro, apenas isso. Não se engane. nem toda a gente foge de alguma coisa - há
quem apenas escolha um momento sozinho.
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Não lhe dói, isso?
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Dói, dói-me bastante. Como ter permanentemente o corpo em carne viva. Sabe... é
como estar em brasas por baixo da pele.
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Sabe... não era isto que esperava. De facto, esta sessão desviou-se
completamente do nosso objectivo. mas confesso que fiquei angustiado. Agora não
sei se a devo deixar ir...
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De qualquer forma, repare que a plateia já está vazia. Não há mais público para
este palco. Se eu tivesse consciência, já me teria retirado há muito tempo.
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Mas está ainda aqui há escassos minutos...
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Não se engane. Estão já 11 horas passadas. O tempo, aqui dentro, deforma-se e
perturba-se estranhamente. Aparenta correr nos seus trilhos habituais, mas na
verdade é quase impossível saber... repare... eu envelheci 11 anos desde que
aqui estou. Se não me engano nas contas, terei já mais um século quando
conseguir sair daqui. Se é que saio.
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É assustadora essa permanência do número 11 na sua vida...
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É. É a medida do tempo exacto. Foi quanto durou o amor. E foi quanto durou o
exílio até este preciso momento. E foi quando o descobri...
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Por favor... vá, por favor, tente recompor-se. Não tenho muito jeito para lidar
com as lágrimas.
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...o prelúdio da ausência...
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Como diz?
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As lágrimas.
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...
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Não se preocupe. À ausência já eu me acostumei. Faço o que sempre fiz.
Encolho-me à espera, como se não esperasse. procuro pressenti-lo passeando os
dedos pelas paredes. Sabia que também se ouve com o tacto? Eu ouço... E sinto-o
por vezes tão perto que é como se a pele em volta da ferida se rasgasse ainda
mais e tentasse ir atrás dele. Acredite... este buraco que tenho no peito um
dia irá engolir-me.
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Não diga isso.
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Digo. Não há corpo que consiga repousar no túmulo de um amor morto.
Para
P.