(versão censurada)
Gostaria de falar-vos do meu pesadelo. Pesa como um monólito sobre o meu ser desde que me lembro. É uma sombra espessa e opaca que me acompanha desde nascença e que pesa sobre mim como a impermeabilidade implacável da solidão. Gostavam de chamar-lhe melancolia, na convicção de que a nuvem dissipar-se-ia com a chegada de uma nova luz.
Mas pelo contrário, a sombra absorveu subtilmente toda a luz que ousou brilhar
à minha volta, alimentou-se dela, tornou-se corpulenta e obstinada, gerou
vontade própria até que um dia se tornou negra, essência do Preto - que mais se
pode dizer do preto senão que é um bloco frio impenetrável, no qual apenas se
agita o pior dos Infernos - o Vazio?
Um dia percebi que o monólito me acompanhava sempre, e a melancolia passou a
não ter vergonha de ser tristeza permanente. Um dia chamaram-lhe depressão.
Tanto preto dentro de um só corpo teria certamente que ser já um mal clínico.
Apercebi-me que o monólito crescia de dia para dia alimentando-se de cada
suspiro meu, e que começava já a dominar-me, a substituir a minha vontade pela
sua. Em breve começou a dirigir os meus passos e a agitar a minha voz, incitou
o desespero e acordou em mim toda a negatividade há muito adormecida. Chamou de
novo os meus fantasmas e revestiu-os de um poder demoníaco de me atormentar sem
descanso, entre sono e vigília.
Não sei exactamente quando deixei de ser eu, mas apenas recordo alguns momentos
em que me observei do lado de fora sem força para gritar. Foram meses de
tortura que uma simples sombra engoliu, engolindo-me também para me tornar
também opaca e distante de tudo. Até que finalmente conseguiu o seu propósito
final - evocou o Medo. E ele veio, porque o Medo vem sempre que o chamam, vem
mesmo quando não o chamam, basta ter medo que ele venha...
Poderia falar-vos dos caminhos insondáveis do Medo, da negritude das suas
sombras, dos gritos vulcânicos dos seus espectros, dos seus intermináveis
corredores de portas fechadas, do frio glaciar das suas paredes vazias, do
preto contundente dos seus abismos, do inferno em que a solidão se antecipa...
Poderia falar-vos do Medo e nunca assim ainda conseguir explicar-vos o frio que
se instalou na minha alma... É incomensurável a destruição arrasadora do Medo.
Corrói as entranhas e dilacera a carne, fazendo gangrenar todas as feridas que
se encolhiam debaixo da pele. E nada se pode fazer. É como tentar segurar as
ondas do Mar. É impossível guardar o Infinito dentro de uma mão fechada.
E vagueei assim perdida tanto tempo, chorando e sangrando por dentro, estendendo
as mãos implorando que me levassem de regresso a casa... Andei à deriva como se
o meu coração já não tivesse casa, o Medo fechava-lhe todas as portas.
Sentia-me morrer, e morria mesmo. Aos poucos, muito lentamente... O Medo
começou a minha lenta destruição e nenhuma consciência é suficientemente forte
para fazer parar o tormento. O fogo só se extingue com a redução às cinzas. E
não houve complacência para com a minha fúria de viver, "hás-de arder
até ao fim!"
Cheguei ao ponto de atravessar cada dia com o corpo muito pesado, como se o
próprio ar se tornasse espesso e semi-sólido, tão presente como a minha Dor.
Imaginem o pesadelo como água turva dentro de um aquário que transborda... O
meu pesadelo invadiu o meu acordar, tomou conta de cada milímetro da minha
existência, e não creio ter havido maior suplício do que acordar para o mais
negro monólito de sempre, entre paredes vazias e amargas, percorrendo quartos
cheios de buracos marcados pela ausência do meu sonho azul, do meu anjo bom, e
eu percorri durante dias de Inferno intermináveis esses mesmos quartos sempre à
procura de algo que fizesse sentido, mas tudo estava quieto e morto, morno
ainda de um pulsar cruel das coisas que acabam de acabar...
Não tinha mais nada para fazer nos dias mais escuros do meus pesadelo senão
cavar ainda mais fundo através do negro. Arrastei-me através de cada segundo
como se me deixasse envelhecer um século à sua passagem, e senti mãos e joelhos
sangrarem de tanto rastejar para uma pontinha de luz, com vontade de ver os dias
seguintes... Todo o meu peito implodiu e se tornou oco, gerou-se dentro de mim
um vulcão que lateja permanentemente em Dor e Angústia... A lava agita-se e
mais nada posso fazer senão preparar-me o melhor possível para as suas
erupções. Vou subindo e descendo as paredes desses quartos despojados de tudo
para me esquecer de que todo o meu corpo me dói, volto a subir e descer, sempre
e mais uma vez, e outra, e outra... Percorro com os dedos cada centímetro
quadrado de cada parede, sentindo-lhe o silêncio, procurando sempre algo que já
não existe, esperando algo que nunca chegará. Não há música nem consolo, nem
nenhuma mão que me pudesse resgatar desse deserto.
Às vezes consigo já fingir que me esqueço do meu pesadelo... Viro-lhe as
costas, sei que ele não gosta de se sentir ignorado e que assim fraqueja um
pouco, mas sinto sempre a sua respiração bafienta por trás de mim. Ele mantém a
mão sobre o meu ombro para que não fuja. Há já algum tempo que planeio
escapar-lhe, mas tem que ser uma fuga subtil, muito lenta, para que seja ele a
aceitar deixar-me ir. É claro que nenhum sonho alivia o Inferno de segurar nos
braços o bloco de pedra da Solidão, mas sempre ocupa pequenos fragmentos de
tempo em que me esqueço do meu monólito e imagino que posso navegar em oceanos
de azul junto do meu amor...
Talvez o Medo tenha começado o seu caminho de regresso à sua caverna maldita e
me dê agora uma pequena trégua... Acredito que ele só tem poder enquanto nos
precipita para a margem do abismo. Depois da queda efectiva, ter medo de quê?
Já os joelhos estão rasgados, já os pulsos estão partidos, já os lábios
sangram... Já toda a Dor se instalou, não há mais Inferno nenhum a temer.
Talvez seja impossível libertarmo-nos da Dor uma vez que ela se instala em nós,
mas talvez seja mesmo possível aprendermos a conviver com ela sem que nos
perturbe. É isso que espero nestes dias que chegaram agora. Vou olhando muito
brevemente a minha Dor de frente e choro muito, um choro amargo e venenoso da
revolta, mas esperando que quando me cansar de subir e descer paredes em busca
da ausência que abre os buracos na minha alma e me encolher finalmente a um
canto para descansar, eu seja então capaz de não chorar mais.
Agora, grito um grito de um vermelho estridente tentando alcançar quem não
ouve, só para dizer que no fundo todo o negro é apenas tristeza de não saber
que fazer a tanto amor... O meu pesadelo são apenas lágrimas agridoces neste
momento, ecoando apenas saudade...
Ultimamente tenho caminhado sobre os trilhos ao longo da
estação. Caminhos sobre os carris da linha do comboio, nos dias seguintes às
grandes chuvadas. Estão ainda molhados, os passos escorregam-me por vezes, e o
coração salta-me à boca. Como quando vou a acelerar distraidamente na estrada e
aparece um carro à direita. Penso na probabilidade dos choques eléctricos. Já
nem sei exactamente de onde é que vem este medo, não tem razão de ser. Não
desde que deixei de temer a morte. É verdade, quando se perde tudo a morte já
não assusta tanto. O tecto está cinzento. Não é um tecto verdadeiro, é o céu,
mas está tão pesado que se tornou opaco, parece um tecto espesso de nuvens. Vou
caminhando sobre os carris e ainda não ouço comboios ao longe. Este silêncio é
o som da vertigem, quando tiver que dar um salto rápido para fora da linha,
assim que a locomotiva aparecer na curva. Faço este caminho muitas vezes,
equilibrando-me precariamente no desequilíbrio dos longos dedos de ferro,
imaginando que por um momento o mundo é todo meu. Vou até muito perto da curva
onde os comboios aprecem, fico a uns 5 metros talvez, e depois volto para trás.
Quando chego à estação, volto novamente a caminhar até à curva. Tem sido sempre
assim, depois da chuva. Vou sentir a electricidade. É o que ainda conheço da
luz. Às vezes até imagino que falo com alguém... Mas não. Quando volto a casa,
assim que começa a escurecer, estão lá as mesmas paredes vazias à minha espera.
Dispo o casaco e sento-me outra vez na solidão.
Vim aqui de propósito para me afundar outra vez. Vim consciente
da escuridão, e é precisamente nela que vim mergulhar. Vim despertar a dor, vim
acordar os demónios adormecidos, vim pedir-lhes que se agitem de novo em mim e
me encostem outra vez à loucura. Entro no quarto vazio e encosto-me às paredes
húmidas, negras de bolor, entre pingas que escorrem. Tacteio cada poro dessas
paredes com os dedos trémulos. Está tudo exactamente como estava, tudo como
tinha deixado desde a última vez que estive aqui. Sinto o odor dos gritos ainda
presente no ar espesso. Encosto-me mais à parede e tremo. À espera de ouvir
algo através do betão, tal como sempre esperei ver algo através do betão que
vestiu o meu amor. Mas não ouço ainda, nem nunca. Continua tudo preto e tudo
muito acre, um travo venenoso em cada respiração, como se todo o Inferno me
atravessasse a garganta até às entranhas.
Não sei porque decidi vir aqui outra vez. Já basta quando
tropeço e caio sozinha. Mas este desejo de semi-morte assalta-me muitas vezes,
preciso de descer ao mais fundo de mim, de cair ao mais negro dos meus abismos,
para me sentir ainda assim viva. Para me lembrar de ti. Para quem já não falo.
Entreguei-te todo os sonhos em mãos fechadas, mas o vento foi-me cortando os
pulsos devagarinho, e eu não vi o sangue que foi pingando sempre para o teu
colo. Até que agora venho aqui ainda escavar a minha saída novamente para a
superfície. Estas são as paredes que me conhecem, com buracos da tua ausência,
buracos nos quais me fui encolhendo, para subir e descer, subir e descer, subir
e descer, subir e descer para me esquecer que está tudo vazio. Essencialmente
para me esquecer de ti.
Bato com os punhos na parede húmida, em agonia que se revolve
dentro de mim. Quero chorar, mas as lágrimas estão ácidas e corroem-me
bocadinhos de pele, deixando pequenas feridas à volta dos olhos. Ao fim de uns
meses quase já não tenho pálpebras, se me olho ao espelho não consigo já senão
adivinhar as olheiras, e ainda me custa enfrentar os dois bolbos arregalados
que me sobressaem no rosto. Ás vezes consigo fingir que esqueço, consigo dar um
salto e enganar-te, finjo que não existes... Mas não esqueço por um instante
que seja este quarto escuro e frio onde te tranquei. Hoje voltei cá para te
ver, não sei porquê... Ver-te é uma metáfora das mais dolorosas. Porque não te
vejo, apenas te sinto nos espaços onde estiveste, e só mordendo os meus
próprios lábios, cheirando a minha própria pele posso ainda acreditar que
alguma vez estiveste aqui. Isto é o meu passo hesitante perante a loucura.
Às vezes tenho vontade de cigarros nervosos, outras vezes tenho
vontade de drogas que me anestesiem o corpo todo... Mas tudo me dói e tudo se
agita, e então esqueço as vontades. E vou comendo lentamente as mãos. Comecei
pelas unhas, há já algum tempo. Roí as unhas até me sangrarem os dedos, e a
lembrança desse sabor metálico da Dor tornou-se um vício. Comecei a roer também
as pontas dos dedos, arrancando primeiro pequenas peles secas (sim, a minha
pele tornou-se tão seca), depois pedaços maiores que deixavam a carne à vista,
até finalmente conseguir ter frieza suficiente para trincar bocados de carne e
arrancá-los. Agora, já quase não tenho dedos, são apenas feridas gigantes que
envolvem o osso, o que é bom porque me impedem de agarrar nos objectos
contundentes com que sonhei cortar a minha própria garganta. Qualquer dor é
preferível a esta que me vai dilacerando o peito. Tudo dói, sempre e muito.
Demasiado.
Assusto-me ainda algumas vezes quando penso que o meu veneno
começa finalmente a destruir-me. Mas eu sempre soube que isso ia acontecer, e
tu também o sabias, afinal... Não tenho olhos nem dedos, queimados pelo fogo
que vem de dentro do meu peito, pela chama que tu ateaste, mas mesmo assim a
ferida que gangrena aqui dentro não dói menos. Deixas-me contar-te como é?
Afinal vim hoje passar aqui o dia contigo... É um buraco. Não se vê, porque
está escondido debaixo da pele, mas é um buraco com cerca de 15 cm de diâmetro
dentro do meu peito. Foi-se cavando aos poucos sem que eu desse conta, com o
mesmo ácido que me come agora os olhos. Foi de tanto chorar para dentro... No
espaço desse buraco não existe nada, absolutamente nada, apenas ausência. A tua
ausência... Tinha tirado do meu peito o meu coração e guardei-o dentro do teu,
e agora levaste-o contigo... Por isso não tenho aqui dentro nada que seja meu.
Nas margens do buraco, a carne está em ferida permanentemente aberta, nunca
cicatriza, e por vezes lateja numa ardência tão compulsiva que julgo que vou
implodir. Por isso nunca deixa de doer.
Mas entretanto cansei-me. Encolhi-me outra vez num desses
espacinhos pequenos onde ainda te encontro a sorrir-me. É claro que assim dói
mais, mas pelo menos não tenho que me mexer. É que algo que não disse é que
ultimamente me tenho mexido pouco. De tanto me encolher com medo de te
encontrar, medo de nunca te encontrar aqui, já não sei bem como mexer-me, e
cada vez se torna mais difícil fazê-lo, pelo que agora quase exclusivamente me
arrasto. Também não faz diferença, mais cedo ou mais tarde vou morrer, agora
mesmo sinto que já estou a morrer, por isso não importa. Vou-me só arrastando
através dos dias necessários, à espera... Espero que depois te encontre. Do
outro lado, sabes? Para te contar como foi a viagem... Como foi que adormeci
num canto do meu quarto escuro e frio, e como nessa noite sonhei contigo...
Da noite mais negra da minha alma
Primeiro
foi uma noite muito escura. Durante meses o Medo precipitou uma queda, sempre hesitação
vacilante, mas sempre terror em cada passo. Foram séculos de impiedoso tormento
cativos em cada segundo, cada hora arrastando-se como se nunca mais chegassem
os anos... E na verdade não chegaram. O abismo avançou a passos largos e chegou
antes de ser esperado. Apanhou-me ainda vergada, o que foi propício a que me
derrubasse facilmente, fazendo-me bater desamparadamente com o queixo no
chão...
Mas
esperem, já me estou a perder... Tenho que começar mesmo por lembrar-me.
Lembrar-me do que era antes de me ter tornado naquilo que sou. Antes do
pesadelo me ter engolido. Foram insuportáveis fragmentos de tempo desagregados,
a comprimirem-me na densidade de um tempo que não passava, e eu sempre a tentar
fugir o mais depressa possível do fim, mas à última rasteira aí mesmo e não
fugi mais, porque o fim alcançou-me impiedoso. O meu peito rebentava em tanto
êxtase de Paixão. Nunca existira em mim tanta certeza de estar viva, acesa,
como naqueles braços quentes que me despertavam as mais pequenas fúrias interiores,
e me levavam sempre à mais profunda das misérias... a de adormecer ainda quente
com o seu cheiro na minha pele. Não há fogo algum que arda tanto como esta
memória que agora me queima por dentro. Noites desassossegadas, húmidas, de
ritmos apaixonados em que ias e vinhas sobre o meu corpo, desde os meus lábios
até à Eternidade... Mas acabou.
Uma
síncope brusca, é assim que tem que ser. Não vale a pena lembrar-me mais do
sabor dos teus lábios, depois de terem arrefecido. Mordo eu agora os meus, já não
é suficiente o resto. Mordo a minha boca por dentro e por fora até sangrar,
esperando que a dor seja tanta que anestesie e me faça esquecer o beijo que
ainda tenho aqui pousado. Queres saber como me tornei neste fantasma? Desde
muito cedo antevi a nossa queda. Sentia-te fraco, a desprender-te, e isso
acelerou o meu desespero. Aquele Medo monolítico que sempre me corroeu
aproveitou-se do meu desequilíbrio e apressou a catástrofe. Entrei numa
espiral. Sem fim, sem regresso. Apenas se acelerava mais, cada vez mais, a
vertigem. É absolutamente inconcebível que consiga sequer expressar a dimensão
do desespero de cada microscópico momento em que me sentia perder-te,
perfurando-me essa incerteza até ao mais fundo de mim. Medo, terror, pavor,
assombro, vertigem, delírio, horror... Tudo no sentir-me perder-te. Pior do que
isso, a ideia de nunca teres sido meu.
Foram
muitas noites escuras amparadas por uma rede confortável, a certeza de que
voltarias sempre. Mas um dia tu não voltaste. O pior é que fui apanhada desprevenida,
não pude sequer despedir-me. Não tive oportunidade para dizer-te adeus, mesmo
que soubesse como fazê-lo. Mas não, eu nunca saberia despedir-me de ti, nunca
saberia como aceitar morrer, nunca saberia entender o que significa viver sem
ti... Ainda hoje não sei. Ainda hoje puxo os cabelos, arranco-os aos nacos até
deixar à vista o meu escalpe massacrado, cerro os punhos e crispo-os na cabeça,
tentando perceber. Tentando saber o que é ser-se isto que sou agora. Meia.
Metade eu, metade coisa nenhuma. Semi-vida é já fazer pouco. Semi-morte é um
privilégio. Reduzo-me a nada. Imaginarás tu o peso de um corpo dentro do qual
uma alma morre? Agora já não tenho coragem de olhar-me ao espelho, agora já
tenho medo, enojo-me e vomitaria algo se o houvesse, quando olho e não me
reconheço. Só posso pensar que já parti, que já comecei a partir.
As
lágrimas são cada vez mais ácidas, agora as feridas estão permanentemente em
sangue, deixando-me os olhos vermelhos e inchados, muito pouco restando que consiga
ver... Os dedos já quase não existem, entorpeceram-se, deformaram-se todos
carcomidos, e já não lhes toco porque não consigo, agora a boca também já não
tem força para morder... os lábios, o que resta deles, estão como que cosidos
um ao outro e qualquer esforço para os mover implicaria uma dor desnecessária a
que prefiro poupar-me. É que agora dói tudo outra vez, e as dores substitutas
doem tanto como as outras. Não cortaria os pulsos mesmo que quisesse. Seria
incapaz de suportar mais vermelho sobre o meu corpo, mais uma gota que fosse
desse hórrido sangue metálico de sabor acre... É muito fácil morrer quando não
se pode fazer mais nada senão esperar. E eu espero. Adormeci no quarto onde te
vim visitar e não saí mais daqui. Sonhei contigo e tu dizias-me que não me
tinhas deitado fora, que não tinhas deitado fora o teu amor por mim, dizias
para não ter medo que um dia ainda virias ter comigo... Debaixo de um mar negro
de aço blindado, ouvia-te chamar o meu nome e dizer que me amas. E sorri tanto
dentro do meu sonho que não quis mais acordar, não quis mais regressar ao
pesadelo. Porque aqui é tudo mais frio e mais escuro, e lá dentro pelo menos
sempre te vejo a dizer que também tens saudades minhas...
Mas eu já
avancei demais outra vez, não foi? Não te disse ainda como foi que caí. Como
foi cada milímetro da queda... Todo o meu ser se apertou em agonia quando senti
que já estavas irremediavelmente longe de mim e que não haveria nenhum gesto
meu que te pudesse trazer de volta. Foram os dias mais longos do meu desespero.
Foram anos que envelheci. Enquanto me dizias todos os dias que não sabias, eu
ia envelhecendo um século. Foste-me afastando com a tua incerteza, e cravando a
velhice cada vez mais funda e mais preta. Não te posso dizer o horror de tantos
dias em constante sobressalto, milhares de horas sem dormir, abanando-me sempre
para não paralisar com a angústia... Essencialmente, ficou-me gravado a fogo o
nosso último encontro, e esse posso-te dizer, meu amor, que me queima ainda
hoje, e queimará sempre, cada vez mais, até que já não reste nada de mim para
arder... Escolheste matar-me lentamente. Ludibriaste-me para que mantivesse a
esperança do sorriso, trapaceaste-me, rasteiraste-me no momento exacto da
entrega... Retiraste de mim tudo o que era sopro de vida, sussurraste que me
amavas, levaste-me de novo àquele nosso canto morno da Paixão, mas depois
abandonaste-me lá sozinha ao frio. Lembras-te disso?
Pouca
força tenho já para segurar a maldade que houve em mim, mas a custo ergo-me do
chão já alagado pelas infinitas pingas que escorreram das paredes do meu
quarto, e amaldiçoo-te para que nunca esqueças. Para que te atormente sempre o
sono, e que o pesadelo te persiga mesmo quando estiveres acordado. Espero que o
remorso te torça o espírito, que te vá torcendo aos poucos, muito lenta mas
firmemente, fazendo aquele ruído agudo, como um silvo, que fazem os panos
quando os torcemos para retirar o excesso de água... Tu, a ouvir eternamente o
som da tua loucura, até que algo em ti rebente e não sejas nunca mais capaz de
lembrar-te do que foste. Ouves o silvo, amor? As tuas costelas a estalarem,
quebrando uma por uma, estalando vértebras à passagem, rasgando carne e
pele.... esse há-de ser o som que mais gostarei de recordar, tu, torcido como
um pano húmido. Mas sabes que me odeio quando digo estas coisas, não sabes? Já
não basta esta figura monstruosa em que me tornei, feia, feia, o rosto do
horror, e sinto-me ainda o mais ignóbil dos vermes por gastar a única força que
tenho para desejar-te mal. Ainda lateja muita coisa em mim que deseja é
amar-te, tocar-te, mas no coração, meter a mão lá dentro bem fundo para ver se
ainda bate... Quero passar-te a mão no rosto como fizeste no meu sonho, e
abraçar-te até não teres medo de olhar para mim. Mas este é outro sonho dentro
do sonho, e acaba tão rápido como a aranha desce na teia para comer a mosca.
Distanciei-me
demasiado do que tinha vindo aqui fazer. Parece que as palavras me fogem, como
fugiria eu da loucura, se ela não fosse preferível a esta lucidez brutal de
saber-te nunca mais aqui ao pé de mim. É, quando venho aqui dentro de novo,
respiro a lucidez no ar bafiento e húmido e em cada racha que se abre no
estuque, que já começa a ceder por causa de tanta infiltração de água (que não
sei de onde vem, sei apenas que nunca se esgota), em cada fresta enfrento a
visão sádica de que estás perdido para sempre, e que daqui para a frente a
minha existência será vazia como o nunca ter-te conhecido. Mas às vezes prefiro
a dor amarga dessa lucidez. Porque estando cá fora, onde posso fingir que não
te vejo, tudo se revolve à superfície e o não estares aqui agora
faz parecer que de facto nunca estiveste aqui. Sabes que tortura é essa? Quanto
mais o tempo se arrasta, quanto mais ele se distancia dos dias da Paixão, mais
longe fica o calor que guardei do teu corpo, e se calhar um dia deixarei de me
lembrar de todo, e será como se nunca tivesses estado ao meu lado. É essa a
pior das torturas.
Eu sempre
soube que havia em mim um quarto fechado onde respirava a sombra pesada do meu
monólito. Simplesmente, antes nunca quis lá entrar. Fingi que não sabia. Mas
esse medo, essa vertigem, esse desespero de saber-te perdido, estava já
instalado em mim muito antes de te ver voltar-me as costas. Naqueles últimos
dias agarrei-me com todas as minhas forças a cada palavra, a cada sílaba de
cada palavra porque por vezes as palavras eram demasiado poucas, agarrei-me a
cada gesto, a cada esboço de gesto, a cada toque... Em tudo procurei tactear a
chama ainda acesa da Paixão, e senti-a fraca, moribunda, mas quando me olhava
ao espelho ainda via o corpo de que me ensinaste a gostar, por isso abria os
olhos e procurava de novo. Até que num desses dias sorriste para mim e me
chamaste de novo “olhos lindos”, e então sosseguei um pouco, sorri também eu
por dentro, acreditei que o meu medo monolítico me poderia dar uma trégua se
soubesse que ainda gostavas de te aquecer no meu sorriso... O que eu nunca
imaginei, em toda a minha constante paranóia, é que foi essa a forma com que o
medo me ludibriou e me incitou a caminhar voluntariamente para a sua armadilha.
Houve um
aroma de eternidade que me pousou à flor da pele naquela última noite antes da
queda. Mostraste-me lençóis brancos de ternura, em vaivéns suaves onde
despertava novamente o meu sonho de sermos um. Não te posso dizer o quanto o
meu sono foi limpo nessa noite. Sonhei com os barcos, acho eu, com aquele
tonitruante som em uníssono que me arrepiou até ao osso quando tive vontade de
te beijar. Pensei que tínhamos atravessado o tempo juntos, de mão dada ainda,
lado a lado... Mas pelos vistos não. Pelos visos tu seguias já muita à frente e
a passagem foi solitária, na verdade. Largaste-me a mão impiedosamente e não
olhaste sequer para trás. Agora, todo este tempo que virá me parece inútil e
sem sentido. Literalmente, não sei o que hei-de fazer comigo para que não me
atormente tanto.
Bem,
depois lembro-me do prelúdio. Há sempre um prelúdio. Nada se desmancha sem
antecipação, nada cai simplesmente sem antes ter começado a cair. Tu não sabias
que eu tinha demasiadas feridas a doer dentro de mim. Não sabias que há muito
chorava para dentro, para evitar sufocar-te com as minhas lágrimas
intermináveis. E não, tu não sabias como cada centímetro do meu corpo ardia por
dentro em angústia, mesmo quando soltava a mais profunda das gargalhadas. Tu
tentaste segurar-me a mão, tentaste olhar para mim, tentaste quase embalar-me
ao colo como se fosse um bebé, mas mesmo assim as lágrimas não estancaram,
mesmo assim as feridas não deixaram de sangrar por dentro. Sabes do que falo.
Todas as tuas tentativas foram inúteis e o teu cansaço por isso mesmo
inevitável, mas o que não podes imaginar é como eu me odiava em silêncio por
não conseguir calar o meu choro. A minha fúria sempre foi dirigida
fundamentalmente a mim. Sabia que te estava a perder a cada soluço, em cada nó
sentia-te mais solto, mas tu não podias compreender a dimensão do medo
avassalador que controlava toda a minha vontade... Se soubesses como eu quis
sorrir-te, “engolir em seco” como me pediste, fingir só por um bocadinho que
estava tudo bem, para que a minha mágoa não pesasse ainda mais sobre a tua...
Quis, sim, hoje daria os meus braços, as minhas pernas, o meu cabelo, para que
tivesse força para o fazer. Mas tu isso já não viste porque te cansaste e fechaste-me
a porta antes que eu te pudesse alcançar.
Mas mesmo
assim ainda não compreendo como sucedeu a derrocada. Dou voltas e voltas e
voltas dentro de mim mesma, voltas à volta de mim, voltas por todos os sítios
que me rodeiam, e mesmo assim não consigo entender o quando, o como, o porquê,
essencialmente... Apenas sei que dói. Dói muito, dói sempre, e cada vez mais.
Tenho vergonha de te ter escrito longas cartas. Tenho vergonha de te ter
desejado uma vida feliz quando já planeavas excluir-me dela. Morte, morte,
morte, miséria de morte, morte e miséria, mas sempre morte, muita morte e eu a
rastejar pelo chão putrefacto da minha existência, onde tudo está
miseravelmente infectado de solidão... Não te posso dizer como foi o som que
ouvi no “momento”. Era o som da carne a rasgar, sabes? Como se tivesse uma mão
aqui dentro do peito a puxar com força todos os tecidos esticando-os até se
abrirem, estalando cada cartilagem, rompendo veias e rompendo pele até ao mais
fundo de mim. Foi um som agudo insuportável, como se me gritassem aos ouvidos
em tom crescente, até que não conseguia mais suportar os gritos, preferia que
os tímpanos tivessem também estalado, e comecei eu também a gritar, a tentar
espantar a loucura, mas ela ria-se, ria-se muito enquanto circulava à minha
volta, e tu não podes imaginar o horror deste circo da minha perdição.
Agitei-me
quando te senti já muito, muito longe, inalcançável. Distante como se este
mundo já não fosse teu nem guardasses dele nenhuma saudade. No momento em que
esboçaste o teu golpe brutal, ainda tentei escapar-lhe, mas de qualquer das
formas tu não descansarias enquanto não me visses no chão. Por um breve
instante, senti-me arrefecer por dentro a uma velocidade assombrosa, como se
tudo se petrificasse, se tornasse sólido e pungente, pedra contundente dentro
do meu peito... Mas era uma dureza fina de cristal, e quando caí tudo se
abanou, tudo tilintou, e todos os cristais se partiram no meu peito, e em todos
eles me espetei, todos eles perfuraram um pouco mais o meu desespero, todos
eles abriram todas as feridas adormecidas, e não deixaram mais do que inúteis
estilhaços do meu ser. Naquele momento perdi tudo o que tinha. Deixei-me cair
em cacos e nunca tive grande vontade de os recolher. Ainda hoje estão os cacos
lá espalhados naquele quarto frio, sabes? Nunca os fui buscar, nem quero. De
nada me servem. E além disso está lá um frio glaciar que me gela as entranhas,
está lá o meu monólito disfarçado de silêncio, e eu não tenho vontade nenhuma
de lembrar-me dele.
A noite mais
negra da minha alma ficou fechada lá dentro desse quarto, desse quarto branco
onde nunca mais entrei, porque tenho sempre medo de cair e nunca mais conseguir
sair de lá, porque esse é o quarto que tem o buraco maior da tua ausência.
Todos os espaços que percorreste estão agora estranhamente vazios, e não posso
seque tentar apagar-te nas marcas que deixaste, porque então ficariam ainda
mais vazios, sem sombra de sentido, e ser-me-ia ainda mais brutalmente
insuportável atravessá-los. A noite mais negra da minha alma abateu-se sobre
mim pesada, densa, opaca, extremamente sólida como se tivessem despejado o meu
monólito sobre o um corpo. Sabes como é o terror de estar morta dentro de um
corpo vivo, de sufocar à tona da água, de escavar com as unhas o palmo de terra
húmida que me invade as vias respiratórias? Sabes como é quando se fecha os
olhos e o preto é infinito, mais infinito que a escuridão? Foi aí que caí. Para
dentro de um buraco negro que me engoliu e me atirou violentamente contra todos
os cantos de um túnel longo e sombrio, interminável, onde nunca vislumbrei
qualquer ponta de luz ao fundo.
Foram
cerca de sete dias que passei dentro desse túnel. Estava tudo completamente
escuro, escuro e frio, de um frio muito fino, como um fio que perfurava lentamente
cada poro do meu corpo e me invadia até ao osso. Encolhi-me entre dezenas de
cobertores, encolhi-me sempre o mais possível encostada aos cantos, mas não
havia sítio onde o frio não chegasse. Estava eu toda enregelada também por
dentro, nem respirando sobre as mãos em concha sentia conforto, e tremia
freneticamente, tanto quanto me era possível tremer na minha pele roxa de
morte. Foi aí que a minha pele começou a secar. Até abrirem feridas, que
estalavam quando mexia os dedos. Foi pelas mãos que comecei a morrer, foi pelas
mãos que me tornei feia. De vez em quando parece que conseguia adormecer e
enganar um pouco a dor. Mas no preciso instante em que acordasse, nem era
preciso ter aberto já os olhos, todo o pesadelo se assomava novamente à minha
porta e literalmente “todo o Inferno me vinha à boca”. A agonia era
indescritível. O peso da angústia indizível. Acordava e não tinha sequer
sensação do meu corpo que não fosse DOR, absoluta e implacável.
Tudo dentro do meu peito se agitava e crescia, crescia, crescia, até bater nas paredes do meu corpo, revolvendo-se
furiosamente com falta de espaço para crescer mais, comprimindo-me tanto,
tanto, tanto que não tinha sequer fôlego para respirar, como se um monstro
ganhasse forma dentro de mim e estivesse prestes a soltar-se. Essa dor pungente
transportei-a incessantemente comigo, em cada milésimo de segundo de cada dia
que se seguiu, até chegar aqui.
A primeira
noite que passei dentro do túnel foi aterradora. Tentei gritar o mais que pude,
chamar alguém, e ouvia muitas vozes, muitos gritos que me respondiam, ecos dos
meus próprios gritos por vezes, mas nenhuma me trazia consolo. Ainda tentei
correr, corri furiosamente de um lado para o outro, corri por cima da raiva à
procura de uma saída, pontapeando o monólito que me segurava com os dedos
crispados para me atirar contra as paredes, e tentava enfiar as unhas nessas
paredes, tentava esgravatar um outro túnel só meu que me levasse dali para
fora, mas todas as tentativas se revelaram sempre vãs e inúteis. Até que fiquei
cansada de correr, as pernas tremeram e os joelhos quebraram, e então rendi-me
a um choro compulsivo cheio de todos os demónios que dormiam dentro de mim.
Encolhi-me num canto e chorei a noite toda. Chorei até me doerem os olhos e a
alma, e foi nessa altura que as lágrimas também se tornaram ácidas e amargas.
Sentia-me em desespero de falta, é o máximo que poso dizer. Urgente a
necessidade de uma droga que me percorresse as veias e silenciasse a ansiedade
frenética que me fazia puxar os cabelos até ao limiar da loucura. Nesse momento
sucedeu o auge da minha noite escura. Subi ao cume do seu ponto mais escuro e
tive consciência da minha irremediável solidão. Nunca, em momento algum da
minha vida posso dizer que me tenha sentido tão sozinha.
Imaginei
que o amanhã nunca viria, não poderia vir, e eu ficaria para sempre presa
dentro desta noite negra e funda. Nunca poderia haver nenhuma existência que
restasse para mim após a tua partida. Mas o amanhã acabou por vir, e acabou por
trazer consigo alguns dias que se seguiram. E continuava parte de mim presa da
mais funda solidão da noite escura da minha alma. Esses dias passeio-os
caminhando ao longo do túnel, sempre rente às paredes, tacteando com as mãos
trémulas alguma memória que não tivesse o teu cheiro. Caminhei sempre sem
parar, para trás e para a frente, até descobrir que o túnel era um labirinto
interminável, onde poderia gastar todos os meus dias à procura de algo que
nunca encontraria. Percorri desenfreadamente todos os cantos, pressentindo todos
os sítios onde tinhas estado, e foi por essa altura que me apercebi que o
espaço da tua ausência ia deixando buracos vazios em todos os lugares que
atravessava. Disse muitas vezes que nesses dias caminhei sem parar à procura de
algo que fizesse sentido, e caminhei mesmo literalmente, medindo cada passo na
lucidez desconcertante do meu desespero. Um passo atrás do outro, cada um uma
permanente antecipação de nova queda, e caí muitas vezes quando o assalto do
choro me vinha outra vez à garganta e me prostrava com vómitos secos, nos
espaços entre a espera de um momento e outro. Cresciam espaços infinitos de
estagnação entre cada momento, e eu percorri-os todos. Conheço os recantos mais
ínfimos da escuridão, e aprendi a caminhar de olhos fechados, de cor. E não importava
nada porque também nunca ia a lado nenhum.
Lentamente,
o frio foi-se dissipando. Não desapareceu, não desaparece nunca, mas foi
abrindo espaço para que a escuridão preta se tornasse apenas cinzenta. Hesitei
antes de me mover do canto onde estava encolhida sobre mim própria há tanto
tempo - aqueles dias demoraram séculos - mas até os meus lábios secos pareciam
querer já esboçar novamente uma palavra. A boca sempre foi o que me doeu mais
nesse tempo todo. Seca, árida como um deserto selvagem, ferida gigante, flor
murcha na falta do teu beijo... Ainda hoje os meus lábios já não brilham,
vejo-me muitas vezes a lambê-los para imaginar que ainda estão vivos, mas é só
quando me esqueço que não estão... Não sei dizer exactamente em que momento,
mas o túnel foi-se encolhendo, tornando cada vez menos longo, cada vez menos
assombroso. Um dia estagnou e tornou-se apenas o meu pequeno quarto escuro e
húmido onde venho lembrar-me de ti, onde a humidade escorre das paredes e alaga
já o chão, onde estão os buracos que guardo da tua ausência, onde cada fresta
envolve uma memória do teu cheiro... Nesse dia consegui sorri um sorriso cheio
de luz, como se imaginasse que o Sol nascia do lado de fora, mesmo que não
houvesse janelas para o ver. Sorri porque te tinha encontrado finalmente
algures, onde já não estavas mas onde estarias sempre dentro de mim, e com esse
sorriso nas mãos eu saí do quarto e tranquei-lhe a porta. Decidi não voltar lá,
não olhar nunca mais de frente a perda. Mas inevitavelmente acabo por voltar sempre,
ocasionalmente.
Às vezes fico só à porta, encosto o ouvido
para sentir o que se passa lá dentro, e julgo ouvir músicas distantes dos
nossos dias luminosos, mas se me começam a doer vou-me embora. A maior parte
das vezes tem sido assim, tento ficar apenas à porta, saber que estás lá
dentro, mas não forçar-me a ver a tua falta, e assim consegui sobreviver à
saída do túnel. Cá fora não está tanto frio, mas há uma coisa que
irremediavelmente permanece imutável: tudo o que dói, dói muito e dói
sempre.
As medidas do meu pesadelo são mesmo assim, feitas de vaivéns
intermináveis, avanços e recuos, sempre inúteis regressos a um passo mais
atrás, tentando chegar mais depressa um passo mais à frente. Nunca tem capítulos
ordenados, o meu pesadelo gerou-se no Caos, e como tal conta as suas histórias
como bem lhe apetece através dos meus dedos. Às vezes quando estou prestes a
adormecer julgo ouvir vozes, e ouço mesmo, vozes em forma de imagens que me
assaltam e me agitam, fazendo-me vacilar na vertigem da consciência. E creio
que foi no meio dessa multidão de vozes que irrompeu a separação no meu corpo,
uma dicotomia muito nítida do meu ser – a partir do momento em que consegui
olhar-me de forma como personagem, vi claramente o sonho azul e o
buraco negro.
Eram duas meninas. Uma apareceu primeiro que a outra, descobriu
novamente o mundo à sua medida, julgou ter encontrado um cantinho seu onde
poderia sorrir à vontade. Depois apareceu a outra e a convivência tornou-se
insuportável. O mundo que tinha dentro de mim tornara-se demasiado pequeno para
as duas. A primeira era azul, pequenina, frágil, muito vulnerável até, mas
tinha em si a luz do sorriso, ia buscar às ondas do silêncio das memórias do
mar o Sonho, e iluminava-se com um brilho fortíssimo muito morno, cheia de
êxtase de Amar... Chegou quando o próprio Amor a permitiu despertar e fazer
desabrochar algo a que costumamos chamar “esperança”.
Mas muito cedo chegou logo a outra. Era grande e preta, não
muito corpulenta, mas possuidora de uma força brutal e de um olhar frio de
pedra. Borbulhava-lhe o sangue à flor da pele, deixando-lhe os olhos raiados de
vermelho, sempre que a raiva subia ai cimo de si. A intenção era sempre
intimidar a menina azul. E muito tristemente, conseguia-o, ela estava débil,
fraca, e a cada investida do preto o seu azul tornava-se cada vez mais
cinzento.
A menina azul tinha os seus momentos, acordava feliz e
espreguiçava-se ocupando o espaço todo, fazendo novamente tilintar as vozes do
meu sonho. E depois voltava a adormecer descansada. E era nesses momentos que a
menina preta vinha veloz e a abanava furiosamente, arregalava muito os seus
olhos fundos, encovados de pesadelos intermináveis, e batia-lhe. Pegava na
menina azul com as duas mãos e atirava-a muitas vezes contra a parede, até que
ela se encolhia a um canto a chorar muito. A menina azul começou a ter muito
medo da outra, tornou-se nervosa, nunca mais sorrindo sem antes olhar por cima
do ombro... Porque a outra por vezes vinha, só por maldade pregar-lhe sustos, e
depois ia-se embora a rir muito alto, enquanto a menina azul ficava novamente
encolhida no seu canto a chorar. Primeiro era um choro baixinho, envergonhado,
apertando muito as mãos à volta dos joelhos. Mas lentamente começou a chorar
mais violentamente, deixando escapar alguns soluços frenéticos enquanto batia
com os punhos no chão.
A menina preta gostava de a ver assim. A cada dia que passava conseguia que o azul se
torna-se ainda mais cinzento, até que eventualmente a menina azul teve vontade
de se ir embora, de morrer ali mesmo no meu peito, porque o seu corpinho
franzino já não tinha mais força para tentar brilhar, perto de tanta sombra. De
vez em quando erguia-se e tentava ripostar, deitava a língua de fora à menina
preta porque sabia que a irritava, mas no fundo começou a não se lembrar sequer
onde tinha guardado as memórias do seu sonho lindo. E a menina preta abanou-a,
gritou-lhe aos ouvidos, queimou-lhe os dedos com brasas, até a sua vozinha
baixinha acabar por se silenciar quase totalmente dentro de mim. A menina preta
acabou por conseguir tomar conta do espaço todo, mas mesmo isso é uma espécie
de solidão, que inevitavelmente a tornou mais amarga, mais azeda, mais
rabugenta como a velhice que espera para sair... Começou a atacar-me a mim lá
de dentro. Batia furiosamente nas paredes do meu peito, com as unhas tentava
arrancar nacos de carne, e fez tanta força para rasgar a minha pele que um dia
conseguiu mesmo abrir um pequeno buraco. Foi esse buraco que depois cresceu
preto dentro de mim e foi engolindo cada vestígio do meu sonho azul.
A menina preta tomou também a forma de monólito dentro de mim,
pesada e implacável como o Medo. As suas palavras ejectavam veneno, e soltava
gritos lancinantes que eu conseguia ouvi-los do lado de fora, tão estridentes
que me cortavam em dois, em três, infinitamente cortada aos pedaços, toda eu
estilhaços de loucura e desespero. A menina azul hoje espera ainda um dia poder
regressar, porque este género de anjos não morre, pelo menos se não os matarmos
nós próprios, e está adormecida num cantinho muito fundo onde ninguém a veja, e
onde especialmente ninguém lhe toque. Tem muitas feridas infectadas, dói-lhe
tudo, especialmente as nódoas negras à volta dos olhos. Está muito magrinha,
ainda mais franzina do que antes, porque não tem com que se alimentar, o peso
da solidão deixou tudo muito vazio à sua volta...
Mas a menina preta começou também a certa altura a definhar, tinha
momentos de paralisia assustadora, já não tinha força para revoltar-se nem para
espetar os dedos nas feridas que abrira no meu peito, e começou também a
encolher-se a um canto, pálida, quase transparente, muito velha, moribunda.
Tremia muito, tremia tanto que eu ouvia os seus ossos rangerem, encheu-se de
frio e eriçaram-se-lhe os cabelos... Até que acabou por ir-se embora também,
para adormecer no seu canto escuro onde ninguém a acordasse mais, afinal também
ela se cansou e também ela hoje chora muito, um choro amargo de tristeza
inconsolável, e nunca mais teve vontade de agitar-me o desespero. Foi como se tivesse morrido, abandonou-me.
Nunca mais ouvi a sua voz a gritar-me desde então. E encolho-me agora eu, do
lado de fora, porque não ouço voz nenhuma, nem a suave voz fina como o Éter
vinda do sonho azul, nem a cavernosa voz monolítica do buraco negro.
Hoje estou só eu, entregue à incerteza. Tudo em mim voltou a
juntar-se e a diluir-se num equilíbrio muito precário, e falta ainda muito
tempo para que possa vaguear calmamente nos meandros do meu ser para procurar
onde se esconderam cada uma das minhas vozes. Agora sinto eu um cansaço
profundo. Gostaria de encontrar o meu canto escuro onde pudesse adormecer. Mas
afinal não durmo, não durmo nunca. Fico acordada com os olhos arregalados à
espera que o tempo passe...
Cem
anos e nenhuma madrugada
Acordei com a luz ofuscante a bater-me nos
olhos, clara e amarela, quase branca, e tive que pôr a mão em frente do rosto
para ter equilíbrio para me levantar. Acordei franzindo a testa, ferida pela
luz. A verdade é que ainda estava desorientada. Sentei-me e olhei à volta,
tentando reconhecer onde estava, mas tudo ainda me era distante e estranho. Não
sei se o lugar é que era desconhecido ou se era a memória que me traía. Não
fazia ideia de como teria ido parar ali, nem muito menos há quanto tempo ali
estaria. Na floresta, ao relento. Estava agora sentada sobre as folhas secas e
murchas de fim de Inverno, onde já dormiria não sei há quantas noites. E a luz
que me batia ainda nos olhos apenas me cegava, mas estranhamente não em
aquecia.
Era uma luz fria, muito fria, demasiado fria
para um céu sem nuvens e sem cinzento. Nem ponta de vento havia. Apenas frio.
Tanto que cedo o senti perfurar-me a pele até aos ossos, começando pelos pés
descalços. Estiquei a mão para os pés, agora interrogando-me por onde teriam
eles caminhado, e apertei-os com força, mas nem o meu próprio toque foi
reconfortante. Tinha as mãos também geladas. As feridas nos dedos já tinham começado
a secar, toda a carne que eu havia roído parecia querer reconstruir-se, e
pensei novamente que devia estar ali já há muito tempo a dormir. De facto, uma
certa sensibilidade voltava-me às pontas dos dedos, mas apenas me serviu para
tactear a face e descobrir que os meus olhos continuavam a dobrar-se para
dentro, corroídos de lágrimas ácidas, para sempre sem pálpebras e sem olheiras,
mas eternamente abertos.
Não sei como terei dormido sequer. Nunca
soube como adormecia, não podendo fechar os olhos. Por isso tinha sempre a
sensação que nunca dormia. E assim fiquei hiper-sensível à luz, comecei a
necessitar esconder-me dela para me proteger, e foi assim que me fui habituando
cada vez mais aos meus poços fundos e escuros. Ali naquele floresta, rodeada de
algumas árvores decadentes, ressequidas pelos frio, em esqueleto, havia um
silêncio no mesmo tom do frio. Um silêncio ensurdecedor. Um silêncio tão pesado
e tão presente como o buraco no meu peito – a tua ausência, amor... Não
havia mais ninguém ali, disso tive certeza desde o primeiro momento. E nunca me
doeu tanto estar sozinha. Tinha a vaga sensação de ter sonhado. Tentei
agarrar-me com força a cada milímetro para voltar para dentro desse sonho, mas
sempre em vão. Estava presa cá fora, e a certa altura um arrepio percorreu-me a
espinha, pela primeira vez tive medo de estar ali...
Pela primeira vez tive consciência de estar
ali. E tudo pareceu começar a mover-se à minha volta, retorcendo sombras, rodeando-me
como predador que sente o cheiro de carne morta. Perguntei-me se teria já
morrido, sem me aperceber, durante o sono... A verdade é que continuava a não
sentir a luz. E o frio que vinha de dentro de mim era ainda mais contundente do
que o que sentia na pele. E depois até a luz se fez em cinzento, em céu
carregado de preto. Comecei a ouvir vozes, silvos de serpentes, gritos de
bestas e monstros, brados colossais de fantasmas e demónios... Como se todos
corressem de todos os lados até mim. E vieram todos, feras e quimeras, e todos
me morderam, todos me trincaram o corpo, todos me rasgaram pedaços de pele,
todos me esventraram tecidos e nervos, todos me agarraram pelo pescoço e me
sacudiram – à espera que me quebrasse – esgotando o meu sangue vermelho escuro,
quase seco... Eram muitos, muitos, e eu não tive tempo nem vontade de fugir.
Estavam em todo o lado à minha volta, e por muito que gritasse, a minha voz era
sempre muda, sempre oca como um disco riscado, e sentia como se gritasse para
dentro.
Um embate. Novamente as lágrimas a chorar
para dentro. O buraco no peito alargou-se mais um pouco, tenho a certeza. Não,
ter-se-ia talvez tentado reconstruir, margem a margem, e o embate provocou nova
ruptura, rasgou-se ainda mais fundo... Houve uma altura em que consegui
soltar-me da boca de um leão enfurecido, que me olhou de boca ensanguentada e
olhar em chamas antes de correr atrás de mim. Corri por todos os cantos, entre
todas as árvores, correndo sempre sem olhar para trás, correndo sem força, cada
passo precipitando uma queda, quase a morrer, quase a morrer, quase a morrer...
Enquanto corria não sabia já lembrar-me se estava dentro do sonho, se vivia o
pesadelo depois do sono, ou se revivia o pesadelo antes do sono... Passei
muitas noites e muitos dias a fugir, sem parar, sempre a correr, para fugir,
fugir sem saber já de quê, até fugir talvez de mim também.
Caí muitas vezes, incontáveis vezes tive que
me levantar trazendo as silvas espetadas nos pés, porque a paragem poderia
significar a morte – e eu sem saber se estaria já morta. Fui-me esquecendo das
feridas abertas nas pernas e nos braços, apenas não me consegui esquecer de uma
ferida profunda no ventre, onde o leão me abocanhara, esticando a carne até que
se rompeu novamente o buraco no meu peito... Corria sempre entre as sombras,
tentando misturar-me com elas sempre que pressentia passos atrás de mim, e fui
aprendendo a acelerar o meu tempo de reacção, cada vez que um novo som
precipitava a minha permanente fuga. Ao fim de já alguns anos a correr, não sei
quantos anos corri, já não me lembrava sequer do que fugia, mas fugia sempre.
Fugia tropeçando, transparente de fome e sede, levada pelo vento em embates
violentos contra as árvores e contra o chão estéril. Comi muita terra no
desespero de não haver mais nada que pudesse pôr na boca, e por vezes
continuava ainda no velho hábito de trincar os lábios para sentir o sangue –
sempre memória gravada a fogo dos teus beijos.
Cada vez estava mais fraca, sentia-me
lentamente a esvair-me para fora do meu corpo, e sempre a interrogar-me se
seria a minha morte a aproximar-se ou apenas o prolongamento do Inferno onde já
estaria. Continuava a fugir, sabendo que provavelmente estaria a percorrer os
mesmos círculos há anos, mas eu não me importava porque não fugia para lugar
nenhum, fugia sempre do que deixava atrás de mim em cada passo. Por vezes
permitia-me já descansar, encolhia-me muito quietinha em cantinhos escuros e
mornos entre a vegetação seca, onde eu própria me confundia com o solo murcho,
e ficava assim ali até ao fim de algumas noites conseguir adormecer por uns
minutos. Era nesses momentos que eu me encolhia sobre mim própria e chorava.
Chorava muito, um choro baixinho mas muito longo, permanente, sem soluços
frenéticos, mas sempre constante... Chorava por tudo, mesmo pelo que já não me
lembrava, de mim e do sítio onde estava. Chorava pelas minhas muitas feridas
que ao fim de tantos anos ainda não tinham acabado de cicatrizar, algumas
continuavam ainda abertas, como a no meu ventre, que por vezes ainda sangrava
se chorava um pouco mais desesperadamente... Chorava essencialmente de medo.
Muito medo. Tinha medo de tudo. Apercebi-me que eu própria, na minha fuga, me
havia tornado uma simples sombra do medo.
E estava ainda sozinha. Um dia permaneci mais
tempo que o habitual numa dessas tocas esgravatadas entre as árvores, e foi
quando quis consolar-me. Não consegui. Já não sabia como. Em tanto tempo que
passara, tinha desaprendido as formas de me reconfortar. Por isso nem as
feridas curavam. Cheguei a pensar que à minha volta a luz estava a aquecer um
pouco, até que percebi que afinal era eu que continuava a arrefecer por dentro.
Tanto, tanto, que cada vez mais se tornava impossível tocar-me. O frio
sentia-se à flor da pele, não conseguiria jamais tocar-me sem que me doesse
profundamente todo o ser, até às entranhas. E decidi que não poderia deixar que
nada ou ninguém me tocasse também. Dedos que não fossem os meus prolongariam a
minha dor até ao infinito. Quando descansei, doía-me tudo intensamente, e decidi
não me mexer mais para evitar qualquer contacto comigo própria, que esticasse o
sofrimento do corpo até ao da alma. Sentia-me um bichinho pequenino, muito
pequenino. Fizeram-me mal, fizeram-me muito mal, e ainda hoje não sei porquê.
Ainda hoje não sei de onde vieram todos
aqueles monstros, nem porquê, porque me atacaram... Fizeram-me tanto mal que
deixei de acreditar que existisse outra coisa. Por isso é que tremia sempre,
mesmo encolhida no meu cantinho escondido do mundo... Um dia veio um animal espreitar.
Tentou cheirar-me, tentou aproximar-se de mim, mas o medo acordou novamente em
mim e sobressaltei-me, encolhi-me ainda mais, tentei enfiar-me terra adentro
para lhe escapar. Não sei ainda dizer que animal era, porque desde há muito
tempo que já não via bem. Chorei muito mais uma vez perante a eminência de um
novo ataque, que eu não sabia que não aconteceria, e o animal então voltou a
deixar-me sozinha na minha tocazinha e foi encolher-se também do lado de fora.
Como se fosse ficar à espera. Eu ainda não sei de quê, mas a verdade é que ele
ficou mesmo ali à espera. Sempre circulando à minha volta, procurando nova
tentativa de se chegar ao pé de mim... Mas nunca o fez, até hoje. Hoje
adormeci, e creio que ele continua lá fora à espera. Acho que ele próprio
também tem medo de me tocar. Temos medo um do outro, suponho. Mas não deixa de
ser uma subtil forma de companhia. Que, ironicamente, me faz sentir ainda mais
irremediavelmente sozinha...
Nunca tinha conhecido mais amargo desespero
de não suportar um toque, estando ele tão perto... Hoje adormeci, sim. Sonhei
novamente com um abraço muito distante, já quase não o reconheci, mas sei que
era sempre o mesmo primeiro abraço que me embalava. Nunca mais vi nenhuma
madrugada, apercebi-me só quase no fim. Não sei como a minha memória era capaz
de as saltar, mas saltava. Deixei de assistir à renovação da luz. Eram sempre
noites inundadas de uma claridade suja e fria, quanto muito, e eu sempre a
procurar o sonho onde deixara o abraço do meu amor. Como um velho peluche feito
em farrapos. E assim passaram cem anos.
Para
Ronny