Ficções da Casa da Morte

 

 

 

 

Ela estava irremediavelmente perdida. Queria abandonar o mundo, mas não sabia de que forma sair quando estava já do lado de fora. Entre ela e o mundo nascera uma espessa parede transparente, densa e quase maleável, como a lava no limite da sua liquidez, antes da solidez. Não pode tocar em nada do que vê, e cruelmente continua a ver tudo, ouvir tudo, cheirar tudo... Sem toque. Está irremediavelmente afastada das coisas, expulsa de dentro de si mesma.

 

Não sabe quando nem como aconteceu. Chegou o momento em que já não lhe interessa. Ouviu, em longas viagens, falar do abismo e da treva, da dor e da solidão, do amor e da morte. Percorreu séculos em dias, tornou-se velha em escassas horas. Uma alma apodrecida, que faz rebentar pústulas sanguinolentas na sua pele. É indescritível. A sua maior frustração é a de nunca ter conseguido explicar o vazio. De não saber sequer se existe. Não, sabe que existe. Não sabe dizê-lo.

 

Como explicar que o vazio não se encontra no mais fundo de todas as coisas, mas antes no absurdo meio de todas as coisas? O vazio não é um poço interminável - é um lugar sobre o chão de um deserto. Plano e árido. Sombrio e seco. O vazio é estar entre dois sítios, naquela linha que não pertence a lugar nenhum - nem à vida nem á morte. E esse terror é muito maior do que o de simplesmente pôr uma corda ao pescoço e dar um chuto na cadeira até ouvir as vértebras a estalar. O vazio é o inferno. E o inferno é a indiferença.

 

Conheceu muita coisa em demasiado pouco tempo. Viu as faces transformarem-se ao ritmo do terror, viu como eram de facto as almas das pessoas, antes de saber que conseguiria ver fosse o que fosse. Por isso enterrou-se em vida. Fechou-se dentro do seu corpo como num túmulo, numa caverna fria, e não mais saiu cá para fora. Há algo que é profundamente insuportável, quer do lado de dentro ou do lado de fora do mundo: a amargura ácida da lucidez. Ver as coisas sem as nuances da luz é doloroso, porque todas elas assumem contornos rígidos e cinzentos, onde tudo parece absolutamente igual.

 

E assim está fechada dentro do seu corpo que é como uma casa, uma casa escura e absolutamente abandonada, onde as únicas vozes que entram são as do vento, como demónios. É uma casa de paredes esgravatadas pelo desespero. O seu desespero. As únicas memórias que guarda são as do amor. Da infinitude do amor que conheceu. Do amor que morre e se mantém vivo, sem objecto. Não dorme nunca, permanece acordada com os olhos dolorosamente abertos através das noites, porque não suporta mais os pesadelos. Pesadelos que a recordam da sua irremediável solidão.

 

No fundo, tudo se resume a isso. A agonia é quase indizível. De todas as fugas da sua vida, nada a assustou tanto como a solidão. Teria preferido a loucura, porque acreditava que a loucura era a libertação da consciência. E agora percebe como não se foge ao peso de uma sina, como não se escapa à força das coisas que nos impelem necessariamente a trilhar o caminho que escolheram para nós. Percebe que foi inevitável, o seu nome transborda de esboços de solidão desde o início dos tempos. Esta sozinha. Profundamente sozinha. Na crueldade do abandono. Tem muitas pessoas à sua volta, muitas. Que a amam até à dor. Mas todas elas estão do outro lado da parede de lava translúcida. Nenhuma delas a consegue alcançar para lhe segurar a mão, já não há qualquer abraço possível.

 

E esta é a parte mais pungente da nossa história, a mais contundente, a mais angustiantemente inexorável. Toda a vida dela foi a procura de um exorcismo. A procura da expulsão de si mesma de um monstro que lhe nasceu dentro do peito na infância e a assombrou até à mais degradante velhice. Decadência. O que poderia destruir o seu monstro era também o que o alimentava. Não havia outra solução senão aceitá-lo como parte de si e renunciar a tudo o resto. Foi o que fez. Abdicou do mundo. Contenta-se agora em olhar o mar e as estrelas, mas já não deseja tocar-lhes. Tornou-se-lhe indiferente. A dor chegou ao seu limite, e é bem sabido como a dor extrema conduz necessariamente a um incompreensível estado de anestesia. Acusam-na de desistir, mas ela não ouve mais do que vozes difusas ao fundo de um túnel, e está sentada na praia com os braços cruzados sobre os joelhos olhando em frente - não lhe interessa o que dizem. Cada momento é por si próprio uma eternidade diferente.

 

Envelheceu muito. Sente-se grande e oca. Com muito espaço ainda desconhecido dentro de si. São os quartos da sua casa que ainda não se atreveu a explorar. mas sabe que tem o tempo todo para isso, por isso não se precipita - deixa-se estar. É certo que desistiu, claro. De tudo. Deixa-se estar. Não sonha mais. Relembra o amor já sem doçura, já sem brilho. Relembra os gestos agora baços e opacos, que já não lhe dizem nada, não dizem nada... Nada lhe fala já, como outrora os olhares falavam. Está como cega às vozes ocultas da Terra. 

 

Mantém presa dentro de si a última noite da sua vida. É a única noite de que se lembra. Está escrita num livro de M.D. e numa música que fala da noite. Uma menina perdida no bosque. Relembra a criança dentro de si, mas sabe que ela já não existe. Perdeu-se para sempre nesse bosque e não mais regressou a casa. E ela sabe, sabe bem que a sua casa já não existe. Tudo o que existe agora é a solidão. O abandono é imposto, de forma imensa e cruel. mas a solidão é, em última instância, escolhida. É inevitável. Lembra-se milimetricamente do último minuto em que amou. Hoje, não ama mais. É irónico, para não dizer absurdo. Porque tem em si todo o amor do mundo. Mas está transfigurado, expropriado do seu calor. O amor encolheu-se dentro do medo e agora lateja segundo a segundo, substituindo as palpitações de um coração que não tem.

 

Resignou-se à sua condição. Acolheu a metamorfose a aprendeu a conviver com o monstro que a habita. Agora têm longas conversas. Ele promete deixá-la em paz, desde que ela se lhe mantenha fiel. Deixou de a atormentar, mas na condição de que nunca mais tentasse vencê-lo, resistir-lhe, libertar-se... E ela aceitou. De entre todas as coisas, escolheu não sofrer mais as ilusões de reacordar. Está cansada, mortalmente cansada. E escolheu descansar. Não lhe faz confusão este entorpecimento da alma, que é como se estivesse adormecia, morta em vida. Aliás, parece-lhe mesmo a única forma possível de existir - não existindo deveras.

 

Desistiu para sempre do seu amor. Guardou-o dentro de si, mas apagou-lhe o nome e o sabor. Não aguenta mais os pesadelos e a angústia. Prefere tornar-se fantasma. Escolheu para si a solidão, porque não se permite volta a sonhar com o mundo. Prefere-se assim, do lado de fora, onde nunca mais poderá sentir seja o que for. Arrependimento e saudade são coisas que já quase não conhece. Pensa nele. Todos os dias sem excepção pensa nele, e como o seu beijo lhe parece agora ácido e frio. Nunca mais sonhou com o seu abraço, porque o sentia agora gelado como um deserto de pedra. Demasiado longe de si. Como se entre as mãos dados existisse ainda espaço para um Universo inteiro de horrores.

 

Lembra-se vagamente do rio e do nevoeiro bafiento. De um torpor. De uma ânsia sôfrega se rescrever o guião da sua história. Ele estava lá, mas em todo o tempo esteve sempre sozinha. Sozinha desde sempre, para sempre. Queria dizer-lhe que o amava. Gritá-lo. Agora o que resta é apenas a pele marcada das lágrimas. Mas já não chora. Está tudo seco. Devastado. Desoladamente destruído. Abandonou a pessoa que era, como quem decide finalmente largar a sua mochila no comboio. O seu peito é uma superfície lunar, de rocha cinzenta, crivada de crateras onde se esconde a sua dor multifacetada, multiplicada em ecos polimorfos.

 

Quis escrever-lhe uma carta, mas nenhum texto se erguia. Dizia apenas «Amo-te», em linhas de páginas incontáveis. Mas estava já demasiado longe. E finalmente, decidiu não mais esperar. Riscou todas as letras escritas, apagou todas as palavras e substituiu-as por uma única: «Adeus». Não quis mais nada, mais amor nenhum. Deixou de conhecer as pessoas, e assumiu a forma da sua solidão - um bicho estranho de corpo frágil, envolvido de uma carapaça dura e impenetrável. «Amo-te e não te desejo perto de mim», repetia para si mesma. «Amo-te perdidamente, mas também eu estou perdida e não quero nunca mais ver-te». Esperava que as palavras o alcançassem, mas apercebeu-se que há muito se encontrava de costas voltadas para o mundo. «Vai embora, e deixa-me sozinha a amar-te, cheia de vazio.» Foi assim que tudo terminou. Com o último fiozinho de cristal que se quebrou dentro de si. Mais do que uma ruptura, sentiu a distância do seu amor como uma fractura - um ser que se partiu ao meio, aquela que parte, aquele que sobrevive. Fechou os olhos com força e sentiu o escuro e o silêncio. A eternidade da dor, a eternidade da solidão, começa aqui.

 

 

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