Aurora   (ou Em Direc��o ao Sul)
Aterraram ap�s 80 dias de viagem consecutivos, para finalmente fixarem destinos. Nunca em nenhum lugar o mundo lhes parecera um t�o imenso deserto de sil�ncio, onde se cruzam todas as margens das coisas, na berma de um impercept�vel abismo.

- Cheg�mos ao fim do mundo. � aqui que todas as coisas terminam. Quero ver esse buraco negro para onde caem os son�mbulos...

- Anda, deixa-te dessas coisas. Est� frio. Nunca imaginei que estivesse tanto frio. Em breve o dia chegar� ao fim, e nunca suspeitei que houvesse tanta luz... Como ser� a noite onde n�o h� noite?

Deixaram o avi�o e caminharam sem olhar para tr�s, em direc��o ao sul do sul. De l�bios roxos e m�os dadas, num arrepio partilhado no branco imenso do �ltimo lugar daTerra.
Enrolaram-se um no outro entre l�grimas e solu�os. O frio glaciar entrava-lhes nas veias e tornava-os p�lidos e inertes, de olhar pousado no vazio, como se se tivesse congelado na vis�o do sil�ncio metamorfoseado em agonia.

- � horr�vel este s�tio, n�o h� uma �nica cor a n�o ser este branco pavoroso, este branco de gelo, mais agreste que qualquer deserto que me lembre de ter visto...

- Lembras-te que foste tu que quiseste vir para c�... Eu... Sinceramente n�o sei quanto tempo teremos que ficar � espera.

- Eu sei...


Ela fechava ent�o os olhos imaginando o calor da pele dele, e solu�ava para dentro de uma ang�stia sem limites, do confronto com a eternidade das coisas. Do�a-lhe na alma encontrar-se assim face a toda a solid�o do mundo. J� n�o queria esperar mais. Queria desaparecer e fundir-se no branco. Olhou o c�u sempre azul uma vez mais antes de adormecer.
Testemunharam uma aurora fenomenal. A luz come�ara a transfigurar-se. Subitamente, um pequeno fio de claridade sentiu-se mais quente que o pr�prio Sol. Embrulharam-se nele e sorriram sem precisar de palavras. Arrumaram as coisas em direc��o ao entardecer e procuraram no crep�sculo a prata do Norte. Partiram de volta ao lugar onde o mundo n�o tem margens.
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