Pequenos
fragmentos de fragmentos de fragmentos
Ela tinha os cabelos curtos, desgrenhados das
lutas com a almofada. Tinha insónias. Pesadelos Com a voz dele que ainda a
chamava. Chamava-a para a morte, porque a agonia do vazio amputara à sua vida
qualquer sentido. Fumava cigarros nervosos à sombra de um luar frio de
Setembro. Esperava. Saía. Para esquecer. Queria enlouquecer. Queria ser
encontrada de manhã numa praia com a garganta traçada pelos escorpiões e só uma
camisola branca vestida.
Fragmentos. Estilhaços. Morte anunciada. A Dor à espera para nascer, desde o
primeiro beijo.
Mas o que ninguém sabe é que ela caiu antes
de ser encontrada. O problema foi a picada do escorpião, pungente e letal. No
tornozelo direito. Onde lhe ficou a tatuagem que usaria se tivesse sobrevivido.
Mas apenas durou em dois segundos de lucidez extrema e viu-se correr.
Estalando. Quebrando. O seu corpo em fragmentos cada vez mais pequenos. Cada
vez maiores os estilhaços. Misturando-se com a areia, os dedos enterrados com
as unhas a crescer... Ela caiu porque finalmente decidiu chorar. E o mar não
quis ouvir.
A contundência das palavras, a inutilidade de qualquer
gesto... «Dentro da suprema felicidade existe uma morte silenciada». Ela
soube-o.
Pequenos
fragmentos de fragmentos de fragmentos II
Ela acabou por sair, mesmo
sem se vestir. Não se apercebeu da sua nudez. Precisava era do ar da noite.
Senti-lo entranhar-se nas veias. Como se a noite lhe desse um estalo e a
obrigasse novamente a sentir. Caminhou na areia sem contar o tempo, esmagando
sonhos, e no último momento quis gritar. Crispou os pulos junto da rebentação.
Fundiu-se nas ondas. Tinha ali tudo à sua espera, só não conseguia ouvir, não
conseguia tocar, não conseguia olhar. O seu olhar virado para dentro. Deixou de
respirar. Cortou os pulsos numa rocha e ficou a ver o sangue misturar-se com a
água do mar...
Pequenos
fragmentos de fragmentos de fragmentos III
A banda sonora de um filme. O início da
madrugada com aquele aroma intenso de paixão. Um mundo inteiramente às escuras,
todo silêncio, à espera. Ela entrava sempre no carro sem muitos rituais. E
neste automatismo perdia sempre alguma coisa que depois se torturava por ter
deixado escapar.
Odiava carros brancos. Numa certa curva pensava sempre que na próxima vez não
lhe escaparia. Sobrevivia sempre o tempo suficiente para um abraço e uma
entrega, entre gemidos abafados por baixo das moradias. O regresso era sempre o
declínio do êxtase. A alma enegrecida.
Tinha aprendido a estacionar. Não tinha aprendido a não pensar nele. A mesma
música ainda, um leve sabor da bebida esquecida há horas, e de repente o mundo
deixou de existir por momentos. Quando regressou, estava a cair de um
precipício. Queda vertiginosa, mas uma queda para a frente. Despertou com o som
do metal a encolher, os vidros a quebrarem sobre os seus ombros. Caiu durante
um tempo infinito, sempre para a frente.
Um dia depois desejou morrer. Todos os dias depois desejou ter morrido.
Já falámos tanto do sorriso.. O Universo também renascia quando
eu sorria, sabes? Eu não via, nunca vejo, mas via o brilho nos olhos dele
quando sorria. Era um brilho muito quente, o que não deixa de ser peculiar,
dentro de um olhar essencialmente frio. A perfeição existe nesses instantes,
sim. Mas não dura. Se durasse o meu sorriso não tinha arrefecido nos olhos dele.
Círculo
imperfeito
Pudesse o espírito assim tornar-se também
camaleão, fundir-se no espaço e não sentir mais que as vibrações das paredes
que são tocadas... Pudesse eu enfiar-me assim mundo adentro e não me doer mais
nada... Se eu pudesse disfarçar na beleza do corpo a imperfeição da alma...
É isso que eu sou, um círculo imperfeito...
Vergo-me à volta de mim mesma procurando tocar-me, mas o que abraço é apenas o
vazio que tenho, e o círculo que o meu corpo forma, visto bem a microscópio,
nunca se fecha. Tem sempre frestas que deixam passar uma estúpida corrente de
ar.
A
abelhinha e a vespa
E esta é para já a minha única vitória. Tenho
que escavar por entre as coisas mais que pequenas, microscópicas, para que não
me tolha a impaciência de ter errado o pulsar... E são afinal as abelhas que
são implacáveis, não são as vespas que são más... As abelhas é que matam as
vespas, amor, as abelhas matam as vespas... E tu subestimas sempre as coisas
doces e pequeninas... Mas garanto-te, apenas até ao dia em que esta abelhinha
matar a sua vespa.
Terá havido algo dessa transcendência de que
por vezes falamos ao ter-me identificado como abelha... Sempre fui abelha. Mais
se calhar do que vocês poderão imaginar... Tudo surgiu como um carinho, um
mimo. Hoje parece-me um destino. Hei-de dar a minha picada, disso podem estar
certos, e daí resultará uma morte. O que ficará para ver é se serei eu a morrer
quando largar o ferrão, ou se será..... a vespa.
Laranja
não mecânica
Caiu-me uma laranja na cabeça um dia destes
enquanto passeava. Estava demasiado concentrada no que me doía, e veio aquela
acidez escarlate salvar-me pelo menos a vontade de me olhar ao espelho. Porque
agora tenho o cabelo queimado a fogo como se fosse outra alma a querer nascer,
e até pode ser que este seja só o primeiro gomo da laranja, mas o sumo é tão
inebriante que continuarei a caminhar por baixo da laranjeira à espera que me
faça estalar as têmporas. Caiu-me uma laranja na cabeça e estou com o cabelo às
cores, e depois?
As
pontas dos dedos da chuva
Ok, fico eu com ele e fazemos de conta que houve aqui uma
confusão de linhas trocadas. O amo-te. Há desencontros destes, erramos
no corpo, nas palavras. Fico eu com ele, porque preciso muito. Há muito tempo
que não como nem bebo, só engulo terra.
Ele não tinha um melhor vestido. Tinha umas calças escuras e uma camisa azul.
Cabelos milimetricamente penteados, milimetricamente despenteados. Exibindo a
fronte belíssima. As têmporas mais belas que existe. Os olhos? Brilhavam verdes
de Verão, morninhos de saudade desde há dois segundos...
Viemos os dois da praia, sabes? Os dois. Muitos anos num só dia, e sempre
juntos. A pele ainda quente, banho tomado, a pele morna do óleo de côco.. E os
lábios. Vermelhos. Os teus lábios, amor, pela tua boca me perdi... E
perder-me-ia sempre.
Sabes? Deixas atrás de ti o perfume. Entra em mim. Lindo, lindo, R.... O meu
amor lindo. Que nunca lerá nada. Nunca.
Não lhe interessa saber se acabou. Acabou. Eu já fiquei longe demais para lhe
poder tocar. Para mim não acaba nunca.
Meia
noite
Tarde quente de Verão. A primeira tarde
quente de Verão. Poderia ter vivido mil anos, aquela seria sempre a primeira de
todas. Tínhamos desejos de cigarros nervosos, não, cigarros relaxados, mas o
que interessa é que eram desejos sincronizados. A maior parte das vezes.
Percorríamos as árvores como se fossem a nossa casa. Sem luzes, nenhuma luz
senão um enxame de estrelas sobre as nossas cabeças, e passos hesitantes,
tropeçando sempre nos mesmos fios onde um cão ladrava, mas sempre depois um
riso abafado no regresso ao abraço um do outro. Era aí que nos encolhíamos.
Onde nada mais existia.
Mas antes havia sempre a tarde. Gestos sugestivos, percebes? Suscitavam sempre
uma e outra vertigem. Até uma proposta para ir vasculhar nos mundos interiores
da fúria do desejo, e correu-se o fecho deixando o mundo lá fora. Ele perguntara-me.
A pergunta a que eu não sabia responder com palavras. Tive que lhe morder a
teimosia para lhe mostrar. Talvez tenha sido a primeira vez em que fui eu a
fazer-lhe tremer a vertigem. Estávamos em casa, perdidos dos caminhos para onde
não podíamos ir.
Foi o primeiro pedido. Se bem me recordo também o último. Mas foi o momento que
interessou. Transportou rasgos de eternidade. Porque a tarde mais quente da
minha alma arrastou atrás de si a noite do passeio à volta do mundo, a serenata
dos grilos e o enxame de estrelas, e a abertura, eu a cair dentro dele e ele
sem medo de me apanhar. A conversa. Um Amor sem princípio nem fim. A camisa
azul e o aroma de Aqua de Gio dentro dos meus sonhos, aconchegada no
ombro dele.
Vagas
Estavas aí antes de acordar. Espera por mim,
amor....Quero prender-te a mão mais uma vez ao silêncio. Eras tu que dormias ao
meu lado ou o fantasma já da tua ausência? Eram lençóis brancos, ou um campo
estendido à minha espera? Estavas já aí, com o teu corpo descoberto de medo, e
eu acabei por chegar. Chamaste-me. Estou aqui. Agora bebe-me. Estavas quente
ainda, sabes? Tão quente que acordo todos os dias sentindo-me a queimar o
ventre, em ferida, cinco dedos na memória do teu toque. Adormeceste primeiro
que eu. Já perdeste demasiado tempo a renascer, amor... mas sinto ainda hoje a
falta. A tua falta. Um monólogo nunca será um diálogo. Mesmo as estrelas já não
dizem nada quando estendo a mão, viraram-me as costas para que não veja que te
levam ao colo para longe. Ainda me dói o sonho rasgado. Ainda me treme a
ansiedade de não ver-te a cada segundo. Ainda me mata a espera. Matar-me-á
sempre. Porque já luto para respirar, o que é um pesadelo, quando se sente o
coração a pulsar-nos na boca. Deixa-me trincar-te os lábios uma última vez,
amor... Deixa-me deitar-me ao teu lado em silêncio. Prometo que te deixo dormir
sem te acordar.
Berlim
Nunca tinha "tropeçado" nisto até
hoje. Curiosamente, tenho sono, mas apetece-me muito escrever-te coisas assim.
Continuar a história, mas a minha história. Tudo o que leio de breves momentos
assim fragmentados no tempo lembra-me a minha loucura, o meu texto sobre a
loucura, e é sempre a mesma mulher com um vestido vermelho a cair na rua com os
joelhos em sangue. Ela tem cabelos loiros, penso que os tem, por isso não posso
ser eu, mas como então é possível que eu esteja a engolir a dor dela? Também a
apanhei num momento fragmentário assim, como se estivesse de passagem pela sua
cena e nunca mais a visse. Apareceu-me assim como um conto que tinha que ser
contado. E creio que só muito tempo mais tarde percebemos para quem escrevemos
as coisas. Ou para quê, em última instância. Se soubesse que ao agarrar um
título que bailava na minha cabeça "porque sim" estaria a escrever
premonitoriamente a minha própria história, nunca teria dado livre arbítrio a
imaginação. Ter-lhe-ia cortado as raízes e escreveria uma história de um amor
feliz. Às vezes penso nisso, que os amores são sempre infelizes porque não
perdemos energia suficiente a sonhá-los, e eu mesmo com o meu amor feliz a
encher-me no peito tive que arrebatar antes uma história triste, uma história
cheia de fim, quase como ler a "Crónica de uma Morte Anunciada"
e saber desde a primeira página que por muitas voltas que a história desse,
terminaria sempre em tragédia. Não sei porque me lembrei sequer de contar isto
aqui. porque nunca tinha contado a ninguém. Nunca mais tive coragem de
acrescentar uma palavra a essa história. Tenho medo de "ver" outras
personagens. Tenho medo de não me escrever a mim própria no destino do meu
amor. E permito-me citar a frase com que encerrei o livro que hoje li, "Tudo
o que temos cá dentro".
...apetece-me encontrar-te de novo no caminho...
Estas palavras antecederam o suicídio. E eu queria que o caminho estivesse
ainda aqui, e não já do outro lado onde os pés perfuram as pontes...
Conversas
sobre nenhum Tempo
- Espera por mim, hoje.
- Não posso esperar mais.
- O tempo alcança-nos.
- O tempo nem nos toca, vem sempre atraasado. Nem faria diferença, tempo eu não
tenho.
- Eu tenho... Eu faço nascer o tempo doos meus dedos, se quiseres...
- Já foi tempo demais, preciso é que o tempo vá embora e morra para sempre.
- Vais-te embora?
- Já fui.
- Há quanto tempo?
- Tu sabes isso.
- Não sei nada... Só sei o aqui e o agoora.
- Não interessa, o aqui há muito deixouu de existir.
- Ficarei só?
- Já estás há muito...
P.
Não sei neste momento o que me dói mais, mas
pressinto agudamente que é o corpo. São essencialmente dores agudas e extensas.
Lá de dentro de um poço qualquer. Não há chão. Não há chão para estas merdas. A
perfeição é um atiçador de lareira a arrancar-me os rins e o fígado. Mas não me
deixam morrer, sequer, e no delírio do desespero tenho vontade de trincar-me
para ver se outras coisas acontecem. Imaginam como dói o peito em permanente
véspera de exame? O meu peito transformou-se em pântano, e eu apenas posso
pressentir os monstros e horrores que a sombra fez nascer dentro de mim. Bah, é
sempre a mesma merda. Dói-me tudo. Mesmo alma. Está tão pesada que a sinto no
corpo, e não tem espaço suficiente. Já não é a saudade, é a raiva. A ausência
deixou de ser letal. O que é impossível é esta bruma gelada que deixou atrás de
si. Preferia o negro do deserto onde estava. Encolher-me no frio do preto tinha
o seu conforto. Mas não ver nada, não sentir nada, não saber sequer onde estou,
é tortura maior do que consigo aguentar. Às vezes sou cruel o suficiente para
desejar não ter ninguém à minha volta. Para poder mesmo cortar a garganta. Á
tua frente. Só à tua frente. Nunca sentirias saudade, mas ao menos haverias de
ter pesadelos toda a vida. A vida que me roubaste, mesmo se não te quero.
Morre.
A
ilusão da solidão
Duas pessoas a dormir no quarto ao lado. Um
quarto vazio sem nada. Um outro quarto dentro do silêncio, espreitando o
escuro. Estou sozinha. Totalmente sozinha. Não, totalmente não. Tenho hoje
novamente as vozes comigo. Os demónios a dançar à minha volta. Estou sozinha,
não está aqui ninguém. O meu peito está despovoado. É esse o resumo do
problema: a ilusão de estar tão freneticamente sozinha. Sinto-me terrivelmente
sozinha. O amor... Um está morto, o outro está a dormir. O que resta dentro do
peito é novamente o buraco onde a ausência se encolhe e se mistura com o tecido
da minha pele.
Terra
Prometida
Tenho muito medo. Está frio neste deserto.
Como é que a terra pode ser tão árida sob um ar tão húmido? Neste deserto é
sempre de noite. Dizem-me que do outro lado o dia costuma nascer, mas ainda me
faltam muitos quilómetros para lá chegar e ver por mim própria. E muitas vezes
penso mesmo que não tenho forças suficientes para chegar ao fim do meu caminho.
Para me levarem até lá, só arrastando-me pelos cabelos, talvez, ao colo,
arrastando os pés... Muitas vezes penso que sozinha não chego lá, nunca verei a
luz. E se me apetecer desistir a meio do caminho? Se eu estiver demasiado
cansada para continuar a andar? Se os meus pés já tiverem feridas e as minhas
mãos virem a pele estalar de frio? Se um dia eu não aguentar mais atravessar a
noite até ver um novo Sol? Nesse dia, deixam-me desistir? Abraçam-me e
deixam-me ir? Deixam-me encolher num cantinho morno à espera? Tenho um
problema... Mesmo que ande sempre, mesmo que chegue à minha Terra Prometida,
será que conseguirei suportar, quando lá estiver, viver com este buraco dentro
do peito?
Foi
assim o amor...
É uma noite muito escuro e muito longa. Cheia
de desvios e oscilações. As estrelas brilham muito no pano de fundo, é verdade,
mas o silêncio é ainda demasiado pesado. Quero atravessar esta noite. Ouvir o
mar, sim. Já me esqueci de como é que se ouve o mar. Estou de mãos vazias
estendidas. À espera.
A beleza foi essa perfeição pousada num
gesto, entre cada gota de chuva. A mão dela dentro do bolso dele. Pela primeira
vez e o coração a tentar escapar-se pela boca. Olhar através dos olhos e ver
dentro da pele. Sentir o toque até ao último fio da madrugada. A cidade com o
nome escrito em cada canto onde o luar afagou um beijo. Foi assim o amor.
P.F.
A beleza é insuportável. A perfeição de cada
centímetro tolhe-me a vontade. Só queria adormecer dentro da tua voz. Nunca ter
ferido os joelhos ao cair das nuvens. As tuas mãos com trémulos cigarros ainda
seguram as minhas, apenas em sonhos distantes. Mas eu sei isso. E do outro lado
do mundo, fecho os olhos e abraço-te. Do outro lado da morte, o amor é nosso.
Estás
aí...?
Estás aí...? Posso entrar? Oh, está tudo
muito vazio, como sempre.... Já vi que hoje também não estás cá.... Acordei e
ainda pensei mais uma vez que podia ser só um sonho mau, mas não, já não
estás... Queria tanto falar contigo, sabes? Tenho muitas coisas para te dizer.
Mas é tudo vão, muito vão. Estou cansada de vir à tua procura. os lugares onde
tu nem te lembras que eu ainda existo... Olha, vou-me embora. Já vi que não
estás... Talvez da próxima vez possa falar-te. Queria dizer-te tanta coisa...
Mas ainda não sei dizer adeus.
"No
words could explain, no actions determine
Just
watching the trees and the leaves as they fall...”
Meu
amor de sempre,
Tu poderias ter falado tudo sobre o amor e
muitas vezes não falaste. Eu queria que me dissesses o que era isso. O amor a
que nunca tinha sentido o cheiro ou o tacto. É ver-te a dois milímetros na
escada rolante e não poder cair contigo. Desmaiar com o teu perfume que me faz
cócegas na alma, caindo de olhos fechados para trás, onde tu me apanhas com aquele
sorriso de "eu disse-te!". É ter uma mesa de café entre nós e todo o
espaço do mundo ali em cima. Mãos que tremem, percebes? Poderíamos ter escrito
as histórias todas, inventado todos os dramas, e no entanto apenas passeamos
entre os carros, no pó da aridez do Verão. Tirar os óculos, ter cuidado com a
saia, lembras-te? Depois novamente um sorriso (esse tão silencioso) pelo
equilíbrio tão precário dos saltos altos. Estava o mar lá ao fundo, agora que
me lembro disso. Era o mar no qual nunca mergulhei, e estava ali pertinho a
ver-nos como viram aquelas noites frias de Inverno. Um luar em forma de ómega a
envolver-te o rosto, e aí sim, souber ler qualquer coisa sobre o amor.
Novamente o mar do lado de lá, e uma ponte. A ponte da qual gostava de ter
caído. E o mais belo dos ventos à porta do centro comercial. Onde tremo ainda
hoje, sinto mais frio, antes um segundo apenas de entrar e te ver novamente nas
escadas rolantes, depois a escolher CD's que me queres mostrar, mas que
acabaram por ficar sempre num espaço qualquer que não partilhamos. Mas o amor
foi isso. O que ficou por ser. A perfeição ideal encontro-a no que não me
deste. E assim, tenho um amor-perfeito roxo no bolso, um exorcismo imperfeito,
uma espécie de eco de uma série de desenhos que guardei para ti. Ah, sim, é
verdade... Não te esqueças da mão. A mão com o torpor vermelho da entrega. Para
que te pudesse reacender, como me acendias sempre os cigarros. Está escuro aí
dentro, amor? Tens frio? Nunca soube como terminar cartas.
A tua A.
Não posso. Às vezes penso que posso, e outras vezes penso que não posso. Conviver com isto. "Isto" será aquilo que tu entenderes. Há uma necessidade urgente de absorver tudo, tudo, tudo, de trazer tudo cá para dentro, pôr tudo numa pilha num cantinho escuro, e depois, quando o silêncio o permite, começar a ordenar as coisas... Separar a pilha e olhar as lembranças nos olhos. Curiosamente, as minhas doem-me em sítios diferentes de onde me doem as dos outros. O que já só por si é controverso, porque não me deveriam doer as dores dos outros. Mas doem. Também acordo com os pesadelos alheios, também grito com as fantasmas alheios... Pior que isso: reinvento-os. O medo que lhes tenho faz-me redesenhar-lhes os contornos sempre que os estou a perder de vista. Deve ser o receio que me apanhem de surpresa. Não suportaria que o medo me surgisse pelas costas. Então trago-o à superfície e escrevo-lhe um drama, para que se entretenha e me deixe em paz. Mas ironicamente, os dramas que crio absorvem-me sempre a mim de forma a que os viva. Aquilo de que preciso por vezes ilude-me. Ou aquilo que quero ilude o que preciso. Esta tarefa obsessiva de recolher palavras e guardá-las todas como se fossem indispensáveis para conhecer a essência do sorriso é uma tarefa no fundo desgastante. Porque em cada segundo que olhamos uma palavra ela aumenta de tamanho. Parece mudar de forma. Cresce. E então esmaga-nos. Talvez seja porque nunca recebo cartas, desabituei-me das palavras. Esperei demasiado tempo e depois desisti. Também morri quando as cartas deixaram de chegar. Não foi só o caminho que se perdeu, a porta também se fechou. Mas a verdade é que por vezes não consigo conviver com isto. O amor desenhado em palavras. Que não dizem o meu nome.