Cairo

 

 

 

 

Tinha aberto a janela e deixava entrar o ar nocturno do Cairo. Acordara com um suspiro quente no pescoço, o vento do deserto a insinuar-se por entre as frinchas da madeira estalada. Um pé ainda dentro do sonho, o sonho que a devolvia sempre aos braços dele. Com os olhos a flutuar pelo quarto ao ritmo do fumo azulado que se erguia sobre rosto. A cinza caía num montinho distraído sob a mão esquerda, ondulando depois como se dançasse no suor da noite. A mão direita procurava o vazio ao seu lado na cama.

 

Pensava muito nele ultimamente. Pensava cada vez mais nele e com mais intensidade, à medida que o ia sentindo mais longe. Sorria para dentro e fechava os olhos ao silêncio, imaginando que a areia entrava com o vento pela janela e se misturava com o seu corpo. Imaginava-a a cobrir-lhe os dedos e os cabelos, a nascer-lhe do peito, a aquecer-lhe a pele do lado de dentro... Pensava nele outra vez. Com mais força, com mais ardor. Crispava as mãos na areia. Sentia-o ali muito próximo, dentro do quarto, por todo o lado, nos rostos desconhecidos macerados pelo sol, no som das vozes estrangeiras, no perfume sibilino do luar em paragens exóticas...

 

Sentia-o igualmente em cada milímetro do cigarro que esgotava entre os lábios. Muitos anos e meio mundo entre eles, e no entanto continuava a sentir a presença da sua «tão perfeita ausência». Nesse instante, em que o cigarro queimou com mais vontade, teve plena consciência do seu amor – sentiu-o todo ao mesmo tempo. Invadiu-lhe o corpo desde o estômago até se expandir até à flor da pele como um espasmo, e encheu-lhe todo o corpo como se fosse um balão de ar prestes a explodir. Era um calor tão intenso que parecia sentir o seu eco por toda a cidade do Cairo... Como um vulcão. Um vulcão tão furiosamente terno que se teria apaixonado mil vezes novamente, pelo desejo de morrer assim neste êxtase. Por um segundo, acreditou mesmo que morria.

 

Esqueceu-se de pensar como seria a vida depois. Sabia agora então que ele fazia inevitavelmente parte de si. Tão rude ruptura deixara-a esventrada e árida durante tempos infindáveis, julgou-se vazia de si mesma... E só agora percebia que não tinha perdido apenas uma parte de si quando se separaram – ela trouxe uma parte dele também. Ele estava enraizado em tudo. Entranhara-se de tal forma no seu ser que se fundira com ela, e era como se lhe tivesse crescido um outro qualquer membro – sentiu o seu amor tão profundamente seu como se fosse uma parte do seu corpo, como um braço, como uma perna... E sorriu à ideia de aprender a conviver com esse novo membro, que não via, nem podia tocar, mas que era o mais intimamente familiar. Sentia-se feliz, intensamente feliz. Amava-o mais do que nunca. E sentia a mais densa das liberdades, naquela noite do Cairo, cheia de ventos exóticos e azuis estrelados. Como se o tempo tivesse parado e tornado o seu cigarro interminável.

Naquele preciso instante, contemplou toda a eternidade.

 

 

 

 

 

 

 

Para Ronny

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