O pulso toca, o sinal alerta. Vira-se a meia noite (refer�ncia t�o abstrata num mundo de internet onde dez-e-trintas conversam com meio-dias e oitos-da-manh� nos chat e outros cadinhos eletr�nicos). E pronto. Achamo-nos no t�o falado, esperado, temido e malhado ano 2000. "Ok, repita comigo: 2000 n�o � o mil�nio, nem o s�culo..." Ouvi tais avisos incessantemente ao longo dos �ltimos dois anos, e embora eu devesse levantar a mesma boa bandeira da corre��o, ainda mais sendo eu da "vellha guarda" (aqueles com mais de 25 que ainda chegaram a falar "2000" como se fosse algo distante), h� um qu� de frustra��o nisso tudo, n�o acha? Sei l�. Sinto-me roubado. Como quando comprei o papo do Halley. Sinto-me roubado da preciosidade de algo que as gera��es antigas puderam ter preservado apenas por n�o estarem aqui. Curtiram o m�tico 2000 na longinquidade saud�vel de quem fala de lendas antigas, seguros demais para estarem realmente preocupados com o que quer que fosse acontecer quando o od�metro rodasse 4 d�gitos. Dele, sorveram apenas a tro�a, a pequena euforia, o coment�rio de sal�o que caiu em desuso na proximidade da fad�dica data. N�s n�o... Perdemos o pancake. Ali�s, j� dev�amos ter percebido isso quando nos venderam o Halley. Penso em todos os que viveram nesse intervalo de 76 anos, nascendo e morrendo sem ter do pomposo cometa mais que uma imagem e muitas hist�rias imaginativas, coloridas, assustadoras e fascinantes. Pois eu lhes compraria o sabor sem pestanejar, em troca das noites com os olhos espremidos por tr�s de lentes de telesc�pios de pl�stico, buscando at� o �ltimo instante o rasgo de notoriedade na noite fria. E do meu pat�tico pedestal de momento hist�rico (pat�tico como se tornaram todos os pedestais hist�ricos nessas �ltimas datas recheadas de 15 minutos de gl�ria), ensaio o desd�m programado. Sinto ainda uma necessidade de reciclagem, contida apenas por um torturante conflito �tico em minha mente... Por uma quest�o de princ�pios, me soa rid�culo cair na vala comum e ver no 2000 algo de precioso e prop�cio. Ainda assim, a sensa��o de que deixar passar essa virada pode ser uma perda sem volta me aflige e impede de ficar parado. Talvez n�o haja mesmo motivo em tanta locubra��o. O rel�gio vai virar, amigos pular�o uns nos pesco�os dos outros, festejantes gritar�o, amantes celebrar�o, pessoas v�o beber, morrer, viver. E de manh� a vida continua... Ainda assim, decidi n�o deixar essa pequena oportunidade passar. Sendo de certa forma racionalista, talvez haja mesmo uma certa import�ncia, ainda que de cunho pessoal, em toda essa euforia a favor ou contra. Al�m do mais, cheguei � conclus�o, ap�s matutar um pouco, que qualquer coisa que v� travar tantos PCs e atrapalhar a programa��o do meu v�deocassete no 1� de janeiro deve ter algum significado oculto. :) Boa noite, bom dia, bem vindo ao que quer que voc� deseje. Quem faz nossa vida somos n�s mesmos, no fim das contas.

desde 06/10/99