Alvorada
Claudio Delamare

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



O pulso toca, o sinal alerta.
Vira-se a meia noite (refer�ncia t�o abstrata num mundo 
de internet onde dez-e-trintas conversam com meio-dias 
e oitos-da-manh� nos chat e outros cadinhos eletr�nicos). 
E pronto. Achamo-nos no t�o falado, esperado, 
temido e malhado ano 2000.

"Ok, repita comigo: 
2000 n�o � o mil�nio, nem o s�culo..." 
Ouvi tais avisos incessantemente ao longo dos �ltimos dois anos,
e embora eu devesse levantar a mesma boa bandeira da corre��o, 
ainda mais sendo eu da "vellha guarda" (aqueles com mais de 25 
que ainda chegaram a falar "2000" como se fosse algo distante),
h� um qu� de frustra��o nisso tudo, n�o acha? 
Sei l�. Sinto-me roubado. 
Como quando comprei o papo do Halley. 
Sinto-me roubado da preciosidade de algo que as gera��es antigas 
puderam ter preservado apenas por n�o estarem aqui.
Curtiram o m�tico 2000 na longinquidade saud�vel 
de quem fala de lendas antigas, 
seguros demais para estarem realmente preocupados 
com o que quer que fosse acontecer quando o 
od�metro rodasse 4 d�gitos. 

Dele, sorveram apenas a tro�a, a pequena euforia, 
o coment�rio de sal�o que caiu em desuso na 
proximidade da fad�dica data.
N�s n�o... Perdemos o pancake. 
Ali�s, j� dev�amos ter percebido isso 
quando nos venderam o Halley. 
Penso em todos os que viveram nesse intervalo 
de 76 anos, nascendo e morrendo sem ter do pomposo cometa 
mais que uma imagem e muitas hist�rias imaginativas, 
coloridas, assustadoras e fascinantes. 
Pois eu lhes compraria o sabor sem pestanejar, 
em troca das noites com os olhos espremidos 
por tr�s de lentes de telesc�pios de pl�stico, buscando 
at� o �ltimo instante o rasgo de notoriedade na noite fria.

E do meu pat�tico pedestal de momento hist�rico 
(pat�tico como se tornaram todos os pedestais hist�ricos 
nessas �ltimas datas recheadas de 15 minutos de gl�ria),
ensaio o desd�m programado. 
Sinto ainda uma necessidade de reciclagem, contida 
apenas por um torturante conflito �tico em minha mente...
Por uma quest�o de princ�pios, me soa rid�culo cair na vala comum 
e ver no 2000 algo de precioso e prop�cio. 
Ainda assim, a sensa��o de que deixar passar essa virada 
pode ser uma perda sem volta me aflige e impede de ficar parado.

Talvez n�o haja mesmo motivo em tanta locubra��o. 
O rel�gio vai virar, amigos pular�o uns nos pesco�os dos outros, 
festejantes gritar�o, amantes celebrar�o, pessoas v�o beber, 
morrer, viver. 
E de manh� a vida continua... 
Ainda assim, decidi n�o deixar essa pequena 
oportunidade passar. Sendo de certa forma racionalista, talvez 
haja mesmo uma certa import�ncia, ainda que de cunho pessoal, 
em toda essa euforia a favor ou contra. 
Al�m do mais, cheguei � conclus�o, ap�s matutar um pouco, 
que qualquer coisa que v�  travar tantos PCs e 
atrapalhar a programa��o do meu v�deocassete
no 1� de janeiro deve ter algum significado oculto.
:)

Boa noite, bom dia, bem vindo ao que quer que voc� deseje. 
Quem faz nossa vida somos n�s mesmos, no fim das contas.


desde 06/10/99

 


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