A Busca

 

 

 Longamente peregrinei através de muitas vidas por muitas terras, entre muitos povos em busca da meta que não conhecia.

 

Carreguei o pesado fardo de muitas posses, das riquezas do mundo, dos confortos que fazem a estagnação.

 

Prostei-me ante os altares dos santuários que encontrei à margem da estrada e os deuses me recusaram a meta que pretendia.

 

E na magia das palavras e na embriaguez do incenso permaneci  obrigado nas sombras entre as paredes do templo.

 

 

Criei filosofias e credos, complicadas teorias de vida.

 

Entranhei-me das criações intelectuais do homem com elas me engrandeci em arrogância.

 

Tão súbito quanto a tempestade desaba, vi-me nu, esmagado pela agonia de coisas transitórias.

 

Como as terras  do deserto sem sombras assim se tornou minha vida.

 

Vi e me ouvi eremita.

 

Livra-te  da estreiteza de tuas tradições, convenções, hábitos, sentimentos de posse.

 

Como o homem que não tem ouvidos, és surdo para a música melodiosa.

 

Como homem que não tem olhos, és cego para o esplendor do crepúsculo.

 

Como o mergulhador que desce ao fundo do mar arriscando a vida pelo gozo transitório, deves tu também penetrar fundo em ti mesmo.

 

Como o audaz alpinista que conquista os altos cumes, deves tu também ascender àquela altura vertiginosa, de onde todas as coisas são vistas em suas verdadeiras proporções.

 

Como o lótus que, rompendo o lodo, ao céu se eleva deves tu também arredar todas as coisas transitórias se queres descobrir tua força oculta para enfrentar as viscitudes do mundo.

 

Como a rápida corrente conhece sua nascente.

 

Como a trilha tortuosa da montanha, descortina a cada instante vistas novas, assim também em ti há uma revelação constante a cada experiência de encontro.

 

Como o mar encerra uma multidão de seres vivos, em ti fazem segredos de todos os mundos.

 

Perscruta tuas próprias profundezas com os olhos límpidos se queres perceber todas as coisas.

 

Como o lago tranqüilo que reflete o céu, assim deverão os homens e as coisas em ti se refletir.

 

E como o rio misterioso que no largo mar se lança adentro me lancei no mar da libertação.

 

(Krishnamurti)

 

 

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