Inicialmente, os Habsburgos foram acolhidos por Maria
Benedita D'Oriol Pena, mas acabaram por comprar casa em
Carcavelos, no Casal da Serra. Durante a permanência dos Habsburgos,
o regime nazi tentou por várias vezes obter a sua extradição, mas o
" malvado" Salazar nunca consentiu.
Em Maio de 1941, quando se dá no Estoril o homicídio da inglesa Mabel
Prince, crime que nunca foi resolvido, chega o rei Carol II da
Roménia, que comprou uma casinha discreta no Estoril, a Mar e
Sol. O único pormenor excêntrico foi o enorme cofre que
Carol mandou construir no seu quarto, para guardar as jóias do seu
reino e alguns documentos importantes.
Após a morte do rei, em 1953, a sua amante, a bailarina Magda
Lupescu, tentou vender todas as jóias, mas o governo romeno
interveio imediatamente. A disputa quase deu origem a um incidente
diplomático, e os romenos só conseguiram reaver a Coroa Real.
As restantes jóias, documentos e obras de arte foram transportados
para o Reino Unido, tendo sido leiloados na Sotheby´s.

O mais discreto membro da realeza europeia acolhido no Estoril foi
a princesa Joana da Bulgária, que chegou no fim da década de
40. Joana ainda hoje vive isolada na sua casa do Estoril, saindo
apenas para eventos de caridade. Dela apenas se sabe que chegou ao
Estoril quase sem nada.
Também discretamente, mas altamente respeitados e acarinhados por
tudo o que era "gente de bem" da Linha, viveram no
Estoril, na Vila La Giralda, a partir de 1946, Don Juan de
Battenberg e Bórbon, conde Barcelona, e o seu filho Juan
Carlos, que viria a recuperar o trono real de Espanha, pois para
isso tinha sido escolhido e preparado por ordens de Franco.
Juan Carlos estudou algum tempo no Estoril,
e o seu pai, cujo grande prazer na vida era velejar, mas que apesar
disso teve bastante tempo para promover várias reuniões com monárquicos
espanhóis para recuperar a Coroa real castelhana, tinha em tão
grande consideração o acolhimento dispensado pelos portugueses, que
chegou um dia a dizer: "Nunca abandonarei nos maus momentos o
país que me acolheu nas boas horas."
Humberto II de Itália chega ao exílio em 1946, deixando para
trás um país em escombros, e adquiriu uma imponente casa em
Cascais. O rei foi uma das presenças estrangeiras mais visíveis
para as gentes da zona, tendo participado numa série de iniciativas
de caridade.
Um dos seus primeiros actos em Portugal foi uma
visita à colónia balnear de "O Século", em S.
Pedro do Estoril, onde se alojavam crianças refugiadas, na sua
maior parte judias.
Por outro lado, o rei entrou rapidamente no
circuito de luxo do Estoril, sendo presença assídua em festas e
outros eventos. Tal como todos os outros exilados de sangue azul ou
com fortuna, Humberto, que diariamente assistia à missa, tirou alto
partido da indústria de hotelaria e lazer da Linha, que sofreu um
boom fortíssimo na altura.
O mar e a praia eram o pano de fundo permanente, tendo o biquíni
( o biquini foi inventado em 1947 ) sido introduzido nesta altura,
perante um certo escândalo dos locais, ainda muito agarrados à
cultura saloia. Ainda hoje se conta a história do almirante Horthy,
regente da Hungria, que perdia todas as tardes no paredão
Estoril-Cascais, a olhar para o mar.
Um costume que ganhou tradição. A nível de hotéis,
o "must" eram o Palácio, o Grande Hotel de
Itália e o Albatroz. O Seteais na misteriosa
Sintra. O Casino era o grande centro de atracção, principalmente
porque promovia quase semanalmente grandiosos bailes, que rivalizavam
com os do Palácio. A combater a hegemonia do Casino na vida nocturna,
foi inaugurada nos anos 40 a discoteca Palm Beach, em Cascais, que
oferecia a música de uma imponente orquestra.
A nível de restaurantes, Muxaxo, Pé-Leve e
Choupana davam cartas, acompanhados pelas pastelarias Faz-tudo e Casa
Laura, em Cascais, e Garrett e Deck, no Estoril, que ainda hoje estão
abertas.
Intelectuais, escritores, realizadores de cinema e artistas eram também
presença assídua na vida social do Estoril, nos anos da guerra. Max
Ophuls chegou em 1941, juntamente com a família, e ficou na casa Bela
Vista, no Estoril. No entanto, o homem que foi para Hollywood
realizar vários filmes de sátira social, não ficou muito tempo na
costa, tendo partido rapidamente para a América.
O mesmo se passou com os seus camaradas de profissão
Jean Renoir e René Clair, que andaram pelo Casino e pela praia
durante a sua estada, mas na primeira oportunidade voaram para a terra
prometida. Antoine de Saint-Exupéry, esse eterno vagabundo,
autor de O Principezinho, chegou em 1940 e ficou bastante mais tempo,
tendo conhecido toda a zona do Estoril e Sintra, e frequentando todos
os locais que valia a pena frequentar, sempre com um pequeno bloco de
notas no bolso. Saint-Exupéry começou por se alojar no Palácio, mas
preferiu depois a intimidade de uma vivenda perto do Casino.
Saint-Exupéry o ingrato - que pelos vistos não sabia
ser reconhecido para quem o acolhia salvando-lhe a vida - acabará
também por partir para a os Estados Unidos, mas não sem antes cunhar
Portugal de o : "O paraíso triste."
Com ele
cruzou-se o sociólogo romeno Mircea Eliade, que começará a
escrever na Rua da Saudade, 13, em Cascais, o seu Tratado da História
das Religiões.
Maurice Maeterlinck, Nobel da Literatura,
bem como o conhecido guru da economia, John Keynes, estiveram
igualmente no Estoril na altura, mas a história ainda não recuperou
os seus dias estorilenses. No meio do oásis de paz e tranquilidade
que o Estoril era na altura, aconteceram algumas tragédias.
O campeão mundial de xadrez, o russo Alexander
Alekhine, que só descia do seu quarto no Palácio para comer e
jogar, suicidou-se numa manhã sem história. Leslie Howard,
actor inglês, morreu a bordo de uma avião da BOAC que
descolava de Cascais para novos destinos.
Fervilhando de figuras e acontecimentos sociais, bem de como de
conjuras, num regime que atingia o seu expoente máximo em termos de
totalitarismo, a Costa do Sol assistia ainda à presença de diversos
agentes de espionagem, sempre de uma forma dissimulada.
Worthus,
o alemão que construiu o Hotel Atlântico, e que diversas vezes hasteou a
bandeira nazi, era obviamente um deles.