Atriz nascida no Ipiranga, S�o Paulo foi tamb�m jornalista, sindicalista e aguerrida militante de esquerda. Viveu na It�lia durante a Segunda Guerra, iniciou a carreira aos 47 anos e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores quando era presidente do Sindicato dos Artistas. Filha de imigrantes italianos, trazia da origem familiar a aptid�o pelas lutas pol�ticas. A atriz foi criada num casar�o no bairro do Ipiranga, com sete irm�os. O pai Vicenzo Abramo era empres�rio da �rea t�xtil. Tinha sido s�cio do conde Francisco Matarazzo em uma f�brica de tecidos no final da primeira d�cada do s�culo, at� naufragar pouco tempo depois. Vicenzo morreu em 1949, sem ver a filha que estava na It�lia. A casa sempre foi reduto de encontros entre jornalistas, escritores, artistas e pol�ticos da esquerda brasileira. O ca�ula Cl�udio notabilizou-se como um dos maiores jornalistas da hist�ria do Brasil. J� L�lia era fascinada pela ribalta. Seus sonhos foram adiados pela crise financeira da fam�lia, quando ela arrumou emprego num banco. �Meu pai n�o queria, mas n�o podia impedir�, recorda. Na �poca, j� usava cabelos curtos e usava saias na altura do joelho. Com conhecimento de mercado financeiro e juros, fazia os c�lculos das aplica��es de 400 clientes por dia. De l�, transferiu-se para uma f�brica, onde era respons�vel pelos sal�rios dos funcion�rios. �Voc�s est�o sendo explorados�, disse, certo dia, aos colegas do trabalho. Algumas horas depois, estava desempregada. �Fui delatada por uma pessoa que ouviu a conversa�, conta. Era um sinal das causas da esquerda que abra�ou com fervor. No in�cio de 1941, ela se questionava sobre o que o futuro lhe reservaria. Com 30 anos, tinha um problema s�rio de sa�de, pois sentia fortes dores na cabe�a e sofria com febres freq�entes. Consultou dezenas de m�dicos no Brasil, mas nenhum soube diagnosticar a doen�a. Cinco anos mais tarde, sua irm� Beatriz casou-se com um oficial do ex�rcito italiano, que foi chamado para voltar � terra natal. L�lia pegou carona e foi para a It�lia cuidar da sa�de. Foi atendida por um m�dico que descobriu as causas de seu problema: cistos no ov�rio esquerdo. A cirurgia para a retirada do �rg�o afetado foi marcada, mas um outro cirurgi�o a operou. Ao acordar, ela descobriu que o m�dico havia retirado o ov�rio saud�vel e que nunca mais poderia ter filhos. O choque levou-a a bdicar do casamento, pois desejava uma por��o de filhos. Mesmo depois do tratamento, L�lia n�o voltou ao Brasil. A Segunda Guerra Mundial estava em pleno fervor na Europa e ela teve que ficar. Sem dinheiro e com a sa�de debilitada, perambulava pelas ruas de Roma, na It�lia, atr�s de alimentos. Testemunhou o racionamento imposto pelo governo em fun��o dos conflitos. Cada cidad�o tinha direito mensalmente a quatro ovos, 300 gramas de arroz e carne, um quilo de a��car e 15 litros de leite. Muito menos do que uma cesta b�sica de alimentos. �As pessoas andavam pelas ruas desesperadas e famintas�, recorda-se a atriz, que viveu dois anos nessa situa��o. Num desses dias de horror, ela se deparou com um homem com botas de couro e uma sacola nas costas. Era o jornalista Rubem Braga, amigo da fam�lia e correspondente de guerra. Ele despejou latas de leite, sopas, carnes, chocolates e cigarros, tirando-a da fome. Em 1950, com o fim da Grande Guerra, L�lia p�de enfim voltar ao Brasil, ap�s 12 anos. S�o Paulo j� dava os primeiros sinais de pot�ncia industrial. A sua popula��o havia dobrado e as ruas mais pareciam canteiros de obras. Foi �poca da elei��o de Get�lio Vargas � presid�ncia da Rep�blica. Durante um tempo, trabalhou como jornalista da ag�ncia de not�cias Ansa, sob o comando do jornalista Giannino Carta. Ao mesmo tempo, atuava em grupos de teatro amador voltados � col�nia italiana. Em 1958, com 47 anos, foi convidada para participar da primeira montagem de "Eles n�o Usam Black-tie", uma pe�a de Gianfrancesco Guarnieri. Ganhou o papel de Romana, personagem que morava num morro do Rio de Janeiro. No dia da estr�ia, foi aplaudida de p� pelo p�blico do Teatro de Arena, no centro da cidade. E, no mesmo ano, abocanhou o pr�mio da Associa��o dos Cr�ticos Teatrais de S�o Paulo e o Pr�mio Saci, como melhor atriz coadjuvante. No final da d�cada de 60, a tev� brasileira entrava na sua adolesc�ncia com transmiss�es de programas ao vivo. Os atores ensaiavam os textos por at� oito horas para evitar gafes no ar. Sua primeira novela foi "A Muralha", transmitida dos est�dios da TV Cultura, em S�o Paulo, �s ter�as e sextas-feiras. Em sua �ltima participa��o na tev�, ela interpretou Bibiana Cambar�, na miniss�rie global "O Tempo e o Vento", de 1985. No cinema, estreou em "Vereda da Salva��o", de Anselmo Duarte, em 1964. No mesmo ano, foi convidada para participar da inaugura��o de uma nova emissora carioca: a TV Globo. Treze anos mais tarde, a emissora seria a respons�vel por sua maior decep��o. Eleita presidente do Sindicato dos Artistas de S�o Paulo, L�lia queria melhores condi��es de trabalho para a categoria. De uma hora para outra, sua personagem na novela Pai Her�i morreu. No ostracismo profissional, L�lia abra�ou a luta sindical. Pegava �nibus para ir � regi�o do ABC se encontrar com um metal�rgico barbudo que incomodava o governo. Com Luiz In�cio Lula da Silva, a atriz sempre manteve uma rela��o de grande respeito, sendo reconhecida por ele como uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores. L�lia Abramo faleceu aos 93 anos, em 10 de abril de 2004. |
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