Cineasta norte-americano, viveu o conflito de ter colaborado com o macarthismo. No livro com a entrevista que deu a Michel Ciment - � o mais belos dos livros desse tipo, incluindo os de Fran�ois Truffaut com Alfred Hitchcock, o de Tom Milne com Joseph Losey, o de Jon Holiday, com Douglas Sirk e o de Peter Bogdanovich com Fritz Lang -, Elia Kazan diz no fim algo muito forte. "N�o fiz tudo o que gostaria, n�o gosto de tudo o que fiz, mas aqui estou eu, com meus defeitos." Queria ser avaliado s� pelos filmes que fez a partir de Viva Zapata!, para ele os �nicos que contavam. Entre os anteriores encontram-se A Luz � para Todos, que lhe deu o Oscar em 1947, e Uma Rua Chamada Pecado, que adaptou de Tennessee Williams, em 1951. Mas ele considerava o filme sobre o revolucion�rio mexicano, de 1952, o verdadeiro marco zero de sua obra, uma das mais extraordin�rias do cinema americano e mundial.

Ao contr�rio de Billy Wilder, que virou uma rara unanimidade, Elia Kazan foi sempre motivo de disc�rdia. H� quatro anos, Kazan foi homenageado pela Academia de Hollywood com um Oscar honor�rio, por sua carreira. Em geral, o p�blico levanta-se para aplaudir de p� esses artistas que s�o sempre recompensados por sua contribui��o � arte e � ind�stria do cinema. Kazan n�o foi vaiado, como se temia que fosse, mas poucos se levantaram e a maioria sequer o aplaudiu. Essa hostilidade tem a ver com o que houve com ele no come�o dos anos 1950, quando Kazan aceitou colaborar com o macarthismo, entregando os nomes de alguns comunistas ao Comit� de Atividades Antiamericanas do Senado, presidido pelo senador McCarthy.

Kazan j� era um grande nome do cinema. Outros - John Huston, Humphrey Bogart - resistiram � press�o do comit�. Ele dedurou em protesto contra os rumos que tomara o Partido Comunista Americano, cujos quadros integrou. Abominava o stalinismo. Quando fez seu retrato do revolucion�rio em Zapata!, o personagem que saiu era trotskista. Os nomes que Kazan entregou j� eram conhecidos. Sua dela��o foi muito mais simb�lica. Ele plantou (e colheu) �dio. Reagiu com c�lera. Muitos atores e diretores que aceitaram colaborar com o macarthismo se destru�ram como artistas e at� como indiv�duos. Kazan transformou a dela��o numa impressionante armadura moral. Seus filmes se tornaram cada vez mais cr�ticos do estilo americano, como se ele quisesse deixar claro que n�o delatou para ganhar pontos em Hollywood. Por isso, considerava os filmes posteriores a Zapata! os que melhor o expressavam, os �nicos pelos quais gostaria de ser lembrado. E acrescentava que eram uma esp�cie de cart�o de visita: "Aqui estou, tal como sou. Pensem o que quiserem, mas me avaliem pela obra. Quem tem de gostar da minha vida sou eu."

Ele chegou a Nova York aos 4 anos. Nasceu em Constantinopla, filho de pais gregos. Houve um tempo em que a atual Turquia pertenceu � Gr�cia. Depois que os turcos se instalaram na Anat�lia, os descendentes de gregos passaram a ser uma minoria oprimida e aterrorizada. A mais antiga lembran�a que Kazan admitia ter era dele no colo da av�, que lhe contava as hist�rias dos massacres dos arm�nios. Mais tarde, ele contou essas (e outras) hist�rias em Terra do Sonho Distante, de 1963, quando se voltou para as suas origens para tentar entender quem era e por que, filho de emigrantes, se sentia um estrangeiro nos EUA. Kazan foi sempre um emigrado.

Como toda crian�a pobre, come�ou seus estudos em escolas p�blicas de Nova York. Foi o destino que o encaminhou a um col�gio de Arte Dram�tica. Nova York ia conviver com um Kazan persistente, talentoso e batalhador.

Estr�ia no teatro em 1932, num pequeno papel. Freq�enta outros teatros e est� sempre alinhado com artistas considerados �inconformistas�. Nos anos 1940, como diretor, virou uma das estrelas da Broadway, com montagens de autores contempor�neos e cl�ssicos que entraram para a hist�ria. E tornou-se comunista. Kazan gostava de situar as origens de seu comunismo no per�odo em que estudou em Williams, tentando integrar-se ao mundo anglo-sax�o. Sentia hostilidade pelos privil�gios e at� pela beleza daqueles wasps (brancos, anglo-sax�es e protestantes), que desfilavam sua arrog�ncia perante os outros - e o jovem Kazan era um desses outros. Nos anos 1930, integrou-se ao Group Theatre, cujos quadros eram formados predominantemente por esquerdistas. L�, desenvolveu uma amizade que foi fundamental em sua vida, com Lee Strasberg. Em 1947, fundaram o Actor's Studio. E naquele ano Kazan ganhou o primeiro Oscar. Pela Actor�s Studio passaram nomes como Marlon Brando, James Dean, Paul Newman. Kazan escreveu livros de sucesso e dirigiu v�rios espet�culos na Broadway.

Quando chegou a Hollywood, ostentava a reputa��o de enfant terrible da Broadway, onde montara A Morte do Caixeiro-Viajante e Um Bonde Chamado Desejo (que virou Uma Rua Chamada Pecado no cinema). Sua chegada ao cinema era ansiada desde 1934. Dez anos depois, Kazan faz o seu batismo de fogo. O filme, �La�os Humanos� agrada cr�ticos , exibidores e produtores .Os primeiros filmes tratavam de temas pol�micos: o anti-semitismo em "A Luz � para Todos", o racismo em "O Que a Carne Herda". "Sindicato de Ladr�es" lhe deu o segundo Oscar, em 1954 (ganhou oito estatuetas, entre os quais Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator - Marlon Brando).�Mar Verde� enfoca a luta desigual de grandes contra pequenos colonos; �O Justiceiro� centra o foco num �rro jur�dico, fato ver�dico; �P�nico nas Ruas� um quase document�rio flagra os miser�veis de New Orleans; �Um Bonde Chamado Desejo� ( A Street Car Named Desire) traz com for�a extraordin�ria o teatro de Tennessee Williams para o cinema e marca definitivamente um novo �dojo: Marlon Brando; �Viva Zapata�, o jovem diretor flerta com a liberdade, nunca esquecendo os aspectos e contradi��es eminente humanas do revolucion�rio Zapata e seus aliados; �Os Saltimbancos� � uma das primeiras vezes que o diretor troca farpas com os regimes comunistas (mesmo sendo filiado ao PC). Elia Kazan faleceu aos 94 anos, em 30 de setembro de 2003.

Filmografia

1944: La�os Humanos (A Tree Grows in Brooklin)
1947: Mar Verde (The Sea of Grass)
1947: O Justiceiro (Boomerang!)
1947: A Luz � para Todos (Gentleman�s Agreement)
1949: O Que a Carne Herda (Pinky)
1950: P�nico nas Ruas (Panic in the Streets)
1951: Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire)
1952: Viva Zapata! (idem)
1953: Os Saltimbancos (Man on a Tightrope)
1954: Vidas Amargas (East of Eden)
1954: Sindicato de Ladr�es (On the Waterfront)
1956: Baby Doll - Boneca de Carne (Baby Doll)
1957: Um Rosto na Multid�o (A Face in the Crowd)
1960: Rio Violento (Wild River)
1961: Clamor do Sexo (Splendor in the Grass)
1963: Terra do Sonho Distante (America, America)
1969: Movidos pelo �dio (The Arrangement)
1971: Os Visitantes (The Visitors)
1977: O �ltimo Magnata (The Last Tycoon)
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