A Infância e o Kart
Ninguém entendeu o que estava acontecendo. Em um fim-de-semana na praia, em 1970, a Veraneio Chevrolet da família Senna passou levantando poeira do chão e, aparentemente...sem nenhum motorista ao volante. Seu Milton esfregou os olhos, incrédulo.
Ayrton, o segundo dos três filhos, de apenas dez anos, estava sentado à direção! Como as pernas curtas do menino não alcançavam os pedais, ele trocava as marchas sem pisar a embreagem, escutando o motor para fazer a mudança no tempo certo. "Ayrton tomou uma bronca e ficou de castigo para não repetir a travessura", conta a irmã Viviane. Outra imagem especial ficou gravada na memória da família. Quando a mãe, Neyde, levava Ayrton para comprar sapatos, era sempre o mesmo ritual: ele calçava a botinha no pé chato, corria pela loja e freava bruscamente. Se o calçado escorregasse, nada feito, era preciso procurar outro!
Quem aprendeu a admirar a maestria com que Ayrton dominava o tempo e o espaço - em abril de 1986, ele ganhou do leão Nigel Mansell por 14 milésimos de segundo, a segunda menor diferença até hoje nos arquivos da Fórmula 1 - não imagina a criança agitada que ele foi. Aos seis anos, sua mãe o vestiu com uma roupa bem bonita para ir à festa de aniversário de um parente. Com um traje todo branco, impecável, Ayrton embarcou no Simca da família pelo lado do motorista à toda velocidade. O tamanho do impulso, após dar duas cambalhotas e rolar pelo banco, fez ele sair direto pela outra porta e estatelar-se no meio-fio. A roupa ficou enlameada e a festa teve de esperar.
Ayrton era assim, um relâmpago por onde passava, no jogo de bola, de bolinha de gude, nas apostas de corridas de bicicleta, nas brincadeiras com pipa e carrinho de rolimã. Era muito competitivo em tudo o que fazia e se metia com frequência em confusão. A família, querendo dar-lhe lições de disciplina, o colocou no judô. Mais tarde, para se proteger dentro do mundo competitivo da F1, Ayrton tornaria-se reservado e discreto. Outra lembrança que a família guarda com carinho dos tempos de criança é a festa de aniversário que o filho ganhou aos , aos seis anos. Por volta das 16h30, a molecada começou a chegar... Tinha menino de todo tipo, tamanho e idade. Depois do trigésimo convidado, o pai desistiu de contar. A festa foi um sucesso, literalmente uma bagunça. "Quando todos foram embora, perguntei de onde eram aqueles amigos. Ele respondeu que não conhecia todo mundo. Foi andando pela nossa rua, tocando a campainha das casas e convidando as crianças que moravam lá para a festa", relata Dna. Neyde.
Nesta época, seu pai tinha uma fábrica de auto-peças e foi lá que montou, dois anos antes, o brinquedo que fascinou o filho e praticamente selou seu destino: o kart 007, que Seu Milton fez funcionar com um motor retirado de uma máquina de cortar grama. Ayrton pilotou o 007 pela primeira vez aos quatro anos, em uma pista do parque do Anhembi, em São Paulo. A paixão pelo brinquedo era tanta que Seu Milton instalou uma oficina completa na garagem de casa, onde Ayrton, durante anos, varou horas montando e desmontando o carrinho.
"Ele limpava, pintava, às vezes ficava numa peça até três horas, arrumando um negócio no freio para virar uma curva melhor. Insistia em achar a perfeição. Ayrton Senna foi o que foi porque sempre ia muito a fundo no que queria", observa Alfredo Popesco, amigo de infância do piloto.
A primeira corrida foi aos nove anos. Ayrton enfrentou pilotos de 18 a 20 anos nas ruas de um loteamento próximo a Campinas, no interior de São Paulo. O grid de largada foi definido por sorteio e Ayrton pegou o papel com o número 1, garantindo a primeira pole position de sua vida. Mirradinho, muito mais leve que os concorrentes, ele não teve trabalho para andar na frente de todos até a terceira e última volta. Um adversário tocou na traseira de seu kart. Ayrton capotou pela primeira vez. Estava batizado no kart, onde colecionou suas primeiras vitórias e consagrou-se com um estilo que marcou época na categoria: pilotar o carro de lado.
Uma passagem da vida do piloto revela sua extrema dedicação. Ainda adolescente, ele disputou uma corrida de kart debaixo de forte chuva. Rodou várias vezes na pista e acabou a prova entre os últimos. Decidiu nunca mais passar por tal vexame. Não seria a meteorologia que iria impedi-lo de ser um campeão! Quando começava a garoar, Senna pegava seu capacete e voava para os treinos no kartódromo de Interlagos, em São Paulo. Por meses, treinou repetidas vezes na pista molhada, voltava para casa encharcado. Anos depois, venceria inúmeras corridas sob tempestade cerrada, o que lhe renderia o título de "o rei da chuva".

A precocidade sempre marcou Ayrton Senna.
A irresistível vocação pela velocidade levou o pai a construir o seu primeiro kart, o 007 que ele transformou de brinquedo predileto no primeiro instrumento do lado mais sério da sua vida. Foi o protótipo que precedeu os karts das inúmeras vitórias (em 1973 venceu na estréia em Interlagos) e os seis títulos de campeão entre paulista brasileiro e sul-americano.
A paixão que Ayrton Senna levou do kart foi o grande segredo de ter sido campeão por onde passou.