A DIVERSIDADE MICROCLIM�TICA DA CIDADE DO RECIFE
Primeiro Lugar no VII Congresso de Inicia��o Cient�fica da UFPE na �rea de Ci�ncias Sociais Aplicadas
Prof. Ruskin Freitas (Coord.)
William Pinheiro J�nior
Ana Maria Melo
Introdu��o
O clima constitui uma importante refer�ncia para o estudo da qualidade ambiental, assim como para a concep��o de solu��es urbanas e arquitet�nicas, sobretudo quando visamos ao conforto ambiental, a potencializa��o dos recursos naturais e ao combate ao desperd�cio de energia el�trica. O clima de uma regi�o � caracterizado por um conjunto de elementos meteorol�gicos, que, agindo de forma rec�proca entre si, s�o respons�veis tamb�m pelas nossas sensa��es de conforto, ou n�o, a partir das varia��es da temperatura, por exemplo, das sensa��es de frio ou calor, da chuva ou da insola��o. Ayoade (1991) define tempo como sendo "o estado m�dio da atmosfera" em um determinado momento e lugar, enquanto que clima seria "a s�ntese do tempo num dado lugar durante um per�odo de aproximadamente 30-35 anos." Por�m dentro de um mesmo clima aparecem varia��es decorrentes tanto do aspecto natural como devido �s interfer�ncias provenientes das atividades humanas. Estas varia��es que recebem a denomina��o de microclimas, podem repercutir no �mbito urbano tanto acentuando os aspectos favor�veis ou desfavor�veis do clima quanto minimizando-os. As modifica��es na an�lise dos elementos clim�ticos nos locais com alto �ndice de urbaniza��o e sua conseq�ente impermeabiliza��o do solo, escassez de vegeta��o e alta densidade (Boa Viagem, Santo Ant�nio, Espinheiro) s�o facilmente percebidas quando comparadas com regi�es naturais ou com menor interfer�ncia humana (Pina, Guabiraba, Dois Irm�os). Os diversos materiais como concreto, asfalto, areia, cer�mica, vidro, a�o e as diferentes cores utilizadas nas constru��es e nos revestimentos, devido a suas caracter�sticas espec�ficas, comportam-se de maneira distinta quanto �s propriedades de absor��o, transmiss�o e reflex�o do calor. Como nos diz Romero (1988), um espa�o gramado pode absorver maior quantidade de radia��o solar e, por sua vez, irradiar uma quantidade menor de calor que qualquer superf�cie constru�da, uma vez que grande parte da energia absorvida pelas folhas � utilizada para seu processo metab�lico, enquanto em outros materiais toda a energia absorvida � transformada em calor. Nossa pesquisa procura tra�ar um panorama da cidade do Recife indicando os principais fatores causadores dos microclimas, assim como demonstrar a magnitude das modifica��es, atrav�s das medi��es realizadas em pontos estrat�gicos, dentro da malha urbana.
Metodologia
Partindo das caracter�sticas gerais do clima tropical quente e �mido, na cidade do Recife, temperatura m�dia anual 25,50 C., umidade relativa do ar entre 70 e 80%, ventos constantes e fracos, predominantemente de Sudeste, procuramos identificar e analisar as condi��es de conforto e alguns microclimas que esta cidade apresenta, avaliando a varia��o dos valores de temperatura, umidade, ventila��o, ilumin�ncia e ru�do, em diferentes localidades, assim como os impactos s�cio-ambientais ocasionados pelos diferentes processos e n�veis de urbaniza��o de cada �rea analisada. A partir dos valores m�dios dos elementos clim�ticos para a cidade do Recife, partimos para a pesquisa de campo. As medi��es foram realizadas nos dias 21, 23, 25 e 30 de setembro de 1998, pr�ximos ao Equin�cio, portanto menos propensos aos extremos sazonais, dos solst�cios de ver�o e inverno; pela manh� (em torno das 9:00 horas) e � tarde (�s 15:00 horas aproximadamente), nos hor�rios indicados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), n�o constituindo o hor�rio, um fator respons�vel por diferen�as de resultados. Os locais a serem analisados foram determinados a partir da identifica��o dos principais fatores, naturais e antr�picos tais como: altitude, maritimidade, densidade construtiva, �ndice de pavimenta��o e impermeabiliza��o do solo, �reas verdes, intensidade do fluxo de ve�culos, entre outros. Dez locais, situados ao longo de dois eixos foram avaliados, pontuando e interligando representativas �reas da diversidade urbana: �reas comerciais, saturadas e polu�das, como o P�tio do Carmo no bairro de Santo Ant�nio; �reas residenciais, apraz�veis como a V�rzea, ou locais densos e verticalizados, como o cruzamento entre as avenidas Domingos Ferreira e Ant�nio Falc�o no bairro de Boa Viagem; conjuntos habitacionais populares, na plan�cie, como o Ipsep e no morro, como o da Concei��o. Os pontos de medi��o refletem as caracter�sticas de cada um desses bairros - pontos de refer�ncia, preferencialmente cruzamentos de ruas, pra�as e p�tios, procurando minimizar a influ�ncia de obstru��es, evitar barreiras e a insola��o direta, de modo que se detectasse ao m�ximo as condi��es microclim�ticas apresentadas por cada local, al�m de estarem situados em locais de f�cil interliga��o para diminuir e facilitar os deslocamentos. A coleta de dados possibilitou o desenvolvimento de an�lise do comportamento de cada elemento clim�tico, de acordo com a influ�ncia de fatores locais, tanto naturais (maritimidade, altitude, vegeta��o, entre outros), quanto antr�picos (por exemplo, densidade, verticaliza��o, sistema vi�rio arterial). Os valores referentes a temperatura, umidade, velocidade e dire��o dos ventos, ilumin�ncia, ru�do urbano tamb�m possibilitaram um maior conhecimento das especificidades em torno de cada ponto de medi��o, contribuindo para uma identifica��o de climas locais e an�lise comparativa entre os bairros.
Resultados
Nossas medi��es, quando espacializadas, revelam que as varia��es na an�lise dos elementos clim�ticos acentuam as caracter�sticas desfavor�veis do nosso clima nas zonas que apresentam maior coeficiente de utiliza��o e maior impermeabiliza��o do solo. Entretanto, nos setores mais elevados e na periferia, onde observa-se maior taxa de solo natural, maior densidade de vegeta��o e menor fluxo de ve�culos, estes mesmos elementos s�o atenuados, gerando um microclima mais agrad�vel do ponto de vista do conforto ambiental. Confirmamos ent�o, na pr�tica, o que j� discut�amos de forma te�rica - as influ�ncias do processo de urbaniza��o, da disposi��o de edifica��es, dos materiais construtivos utilizados, da preserva��o e considera��o dos elementos naturais, na forma��o de microclimas urbanos, gerando diferentes graus de conforto em �reas bem pr�ximas, contribuindo para a inospitalidade urbana, assim como para a forma��o de ilhas de amenidades. Identificamos a forma��o de espa�os que durante o ano, permanece mais tempo em condi��es desfavor�veis no tocante ao conforto ambiental, do que a m�dia da cidade como um todo. Destacamos as Av. Conde da Boa Vista e Domingos Ferreira, onde constatamos temperaturas m�dias de 30,2o C e 30,70C, respectivamente, no equin�cio de primavera em 1998, enquanto a m�dia do Recife, neste mesmo per�odo foi de 29,8o C e na orla do Pina de 28,4o C. Existe uma not�vel varia��o na an�lise dos elementos clim�ticos que, quando, nos climas quentes, elevam as m�dias e os extremos de temperatura caracterizam regi�es denominadas "Ilhas de Calor". A n�o suficiente considera��o dos aspectos naturais, nestas �reas, vem contribuindo para a perda da qualidade de vida urbana, sobretudo quando combinam baixa densidade de vegeta��o, alta densidade de constru��o e verticaliza��o - paradoxalmente as �reas mais valorizadas da cidade. No bairro da V�rzea, a temperatura manteve-se abaixo da m�dia (29,30C), sendo explicada sobretudo pela permeabilidade do solo, pelo sombreamento e pela pr�pria presen�a vegetal no entorno do local de medi��o. A umidade (51,8%) tamb�m abaixo da m�dia para nossa regi�o de clima tropical quente e �mido � explicada, por sua vez, tamb�m por fatores microclim�ticos como a dist�ncia em rela��o ao mar e pelo local de medi��o estar situado a barlavento em rela��o ao Rio Capibaribe. A velocidade do vento (1,9 m/s) torna-se um diferencial, devido a baixa densidade construtiva e ao tra�ado urbano do bairro em estudo. No Morro da Concei��o, destacamos a umidade relativa do ar (55,7%) e a velocidade dos ventos (1,7 m/s) acima da m�dia, encontrada entre as �reas analisadas, dados justific�veis pela presen�a do solo perme�vel, pela vegeta��o existente e pela aus�ncia de barreiras a barlavento. Classificamos o bairro da V�rzea e o Morro da Concei��o como "zonas de conforto" ou "ilhas de amenidades", dentro da cidade do Recife. A cobertura vegetal, somada ao processo de urbaniza��o, a n�vel de tra�ado e ocupa��o urbana, s�o fatores determinantes para esta caracteriza��o microclim�tica. Esta pesquisa � de significativa import�ncia no momento em que identifica os fatores determinantes para a forma��o dos diferentes microclimas da cidade do Recife, podendo ser utilizada como par�metro para valoriza��o imobili�ria e justificativa para a preserva��o das caracter�sticas naturais.