O que é inclusão? Incluir-se é pertencer a algo, fazer parte. Incluir é colocar para dentro; por extensão, para ser incluído, alguém deve estar fora. “Fora” de onde? Da sociedade? Por quê?
O excluído da sociedade é o diferente. Pode ser o cego, o surdo, o autista, o esquizofrênico. O diferente pode, inclusive, ser parte da maioria, como as mulheres, os negros ou as classes menos favorecidas. O diferente se distingue por não se encaixar em um padrão –estabelecido pelo grupo dominante, cultural e economicamente falando.
Vivemos em uma sociedade capitalista, que se desenvolveu embasada em valores morais bem marcantes: o maior deles, talvez, o conceito de vencedor. Max Weber aborda essa questão em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo: quem progride está certo e, por conseguinte, é abençoado por Deus. O reverso desse raciocínio, raramente comentado, é: quem tem dificuldades para vencer – o derrotado – é, por conseqüência, amaldiçoado. A extensão dessa lógica avança sobre o conceito de Evolução, de Charles Darwin, comparando-a a uma vitória dos mais aptos sobre os mais fracos – seja socialmente, seja na própria natureza. O homem branco, que teria sido feito à imagem e semelhança de Deus, seria o vencedor, o Ápice da Criação – ou da Evolução. Os demais, deveriam buscar o seu devido lugar na fila dos fundos.
Outro aspecto do capitalismo é a organização, a rotulação, a padronização, a normatização. Necessários para garantir uma produção mais eficiente, os conceitos organizacionais do Capital se estendem por toda a sociedade moderna. Como diz Iafa Wainer (ver Leitura), vivemos a idade das normas, transformadas em verdades naturais inquestionáveis. Quem está fora da norma é excluído; para compensar, uma postura conservadora e hipócrita inventa eufemismos para mascarar essa discriminação e, ainda por cima, constrói a idéia de que sempre serão precisos conhecimentos técnicos específicos para lidar com o diferente: é assim que o cego vira deficiente visual; o surdo, deficiente auditivo - e por aí vai. Ser normal se torna um ideal para que a sociedade possa avançar, progredir, vencer. Quem não se encaixa dentro do modelo, da norma é discriminado, pois estaria atrapalhando o funcionamento da sociedade, incomodando o status quo. Quem difere do modelo vigente, dessa maneira, não consegue entrar – fica de fora. Incluir é aceitar – é “pôr para dentro”.
Por que incluir o excluído?
Para os espartanos, a criança que nascesse defeituosa devia ser eliminada. No discurso nazista, toda uma categoria de diferentes seriam prejudiciais ao resto da sociedade, e, sem oferecer contrapartida, desfrutariam de recursos dos produtores. Com base nessa justificativa, judeus, ciganos e pessoas com disfunções variadas foram condenadas à morte.
Existe uma questão ética, de solidariedade entre os homens. Rousseau, no seu Contrato Social, explica que os homens formaram sociedades para, juntos, enfrentarem as ameaças da Natureza. Esse objetivo foi tão bem alcançado que, hoje, a situação parece ter se invertido: muita gente acredita que a ameaça parte da Humanidade. No entanto, permanece o dilema: um ser humano sozinho não tem como sobreviver longo tempo. É preciso a união de todos. Cada homem, cada mulher sacrifica um pouco de si para o bem comum e, em troca, recebe da sociedade a proteção, para si e para os seus entes queridos. Este é o primeiro motivo para incluir os diferentes: cada um de nós é parte de um todo maior, tendo ou não sua contribuição a dar – no mínimo, é herdeiro da história de seus familiares.
Mesmo falando de uma maneira pragmática – egoísta, mesmo –, não é possível definir quem deveria ser excluído. Uma condição que pode ser avaliada como deficiência num momento pode vir a ser vantajosa em outro, como é o caso da anemia falciforme, uma disfunção cujos pacientes morrem antes dos quarenta anos de idade mas que os protege da malária enquanto estão vivos. Outro exemplo é dado por Antônio Fernandes de Freitas, o Capitão Brasil, apresentado pelo site http://www.vivafavela.com.br. Ele tem 75 anos e suas mãos de dois dedos nunca o impediram de participar da criação de associações e contribuir para a organização social no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
A literatura pode ajudar a incluir o excluído?
Quando falamos do par literatura-e-inclusão, podemos pensar em três focos distintos: a inclusão do diferente como personagem; a inclusão do diferente como escritor; a inclusão do diferente como leitor.
É possível incluir o diferente através da arte?
Arte, para Aristóteles, é uma mimesis, uma imitação da realidade. O artista não copia a realidade, mas a recria, expressando sua própria – e única – visão de mundo. Quando o indivíduo diferente produz arte, ele pode levar aos demais seres humanos como vê, como sente o mundo e a sociedade que o cerca e à qual pretende ser incluído. Quando o diferente tem acesso a alguma forma de arte, ele tem a possibilidade de entender como outros indivíduos compreendem a realidade e, assim, conhecendo a visão de mundo de outras pessoas, calibrar sua própria visão de mundo. Por fim, quando o diferente é retratado como personagem, pode – não obrigatoriamente vai ser assim – ser compreendido pelo restante dos homens (ou não; se esse retrato parte de uma concepção preconceituosa, pode vir a reforçá-la).
A literatura é um poderoso instrumento para o desenvolvimento do pensamento. Em primeiro lugar, ela permite o contato com a experiência de outros tempos e lugares, através das palavras de outras pessoas – abrem-se portas para o conhecimento do autor e de sua época.
Em segundo lugar, o texto literário permite ao leitor conhecer diferentes formas de se organizar o pensamento. Cada escritor tem seu estilo, que reflete sua forma de pensar. Mas pensar é organizar as idéias e, assim, o leitor, entrando em contato com o pensamento mesmo de cada autor, pode aprimorar o seu próprio pensar.
Em terceiro lugar, o leitor participa na re-elaboração do texto, reconstruindo a história com sua própria imaginação e memória. Por isso, ler literatura é um exercício mental poderoso e diferente de todas as outras experiências culturais.
A literatura permite ao diferente, como leitor, que tome conhecimento de situações que não poderia vivenciar e, assim, aprender a lidar com elas. Possibilita, ainda, que se apresente ao restante da sociedade, como escritor ou personagem.
Como fica, dentro desse quadro, a inclusão dos chamados deficientes? Como fica o “diferente” quando é considerado “deficiente”?
Segundo o dicionário Aurélio, deficiência vem do latim deficientia – em latim, falta – estaria faltando algo ao deficiente. Esse termo, em si, já transparece um preconceito, ao se afirmar que a alguém falta alguma coisa, que esse alguém não estaria completo. Rotular alguém de deficiente pode ser uma atitude equivocada. Uma pessoa pode construir toda uma personalidade, integral e única, tomando por base uma característica própria, que pode desconsiderar o “enxergar”, o “ouvir” ou o “andar”! Por exemplo, o Dr. Oliver Sacks, em seu livro Um Antropólogo em Marte, relata o caso de Virgil que, depois de ter sido cego desde seu segundo ano de vida, foi operado de uma catarata grave e, aos 45 anos de idade, passou a enxergar. O que, a princípio, parecia ser uma dádiva, mostrou-se quase uma maldição. Ganhar a visão, para ele, foi a perda de sua identidade, sua relação com o mundo, construída ao longo de toda sua existência através do tato e da audição.
Um conto de ficção científica, talvez de Isaac Asimov, conta que um venusiano ofereceu a um amigo terrestre o dom de perceber as sutis variações do campo elétrico – com a restrição que só teria esse poder durante curtos minutos. Somente depois de ter essa habilidade e perdê-la é que o personagem foi capaz de entender sua limitação – e chorou a perda. Esta história lembra que todos somos, de alguma forma, incapazes. Existem aves que “sentem” os campos magnéticos; existem formigas que “captam” os campos elétricos. Pássaros voam. Peixes respiram debaixo da água. Nós, humanos, não fazemos nada disso. Quem não enxerga ou não ouve só é “deficiente” na medida em que tem o parâmetro de comparação com outras pessoas – e a não-aceitação de sua condição.
A literatura, então, permite que um leitor “normal” conheça o discurso e o pensamento do deficiente/diferente, podendo compreender um pouco mais da sua condição humana. O caminho inverso também pode ser percorrido.
É por isso que a literatura é ferramenta fundamental para que o diferente possa ampliar os limites da sociedade, criando, nela, seu próprio espaço. Cabe à sociedade – através de suas instâncias: o Estado e as organizações não-governamentais – facilitar o seu acesso. Como? Com bibliotecas especiais, produção de livros a baixo custo, campanhas educativas de distribuição de livros, voltadas para os alunos de baixa renda. Com livros adequados para aqueles que percebem a realidade de outra forma, seja porque não dispõem de um sentido qualquer, como a visão ou a audição, seja porque têm dificuldades de compreender o mundo como a maioria faz – sejam autistas, esquizofrênicos, pessoas com dificuldades de aprendizado ou qualquer outra diferença, rotulada ou não. Nos tempos atuais, é possível superar todas essas barreiras. É possível gerar livros com letras maiores, com ilustrações adequadas ou recursos de multimídia para facilitar a compreensão a quem tem dificuldade na leitura.
O mesmo vale para o ato de escrever. Um dos grandes autores do fim do século XX é o físico inglês Stephen Hawkins, paciente de uma disfunção motora que impede quase todos seus movimentos! É possível dar acesso ao ferramental adequado para a produção literária a todos. Assim como é importante colocarmos rampas nos cruzamentos e ônibus especiais circulando pela cidade, também devemos pensar em livros especiais e em instrumentos adequados para a produção artística no geral e literária no particular. Basta haver vontade política e – principalmente – social.