| 19/5/2003 | Argemiro de Paula Garcia Filho: ge�logo, moderador da Comunidade Virtual Autismo no Brasil, diretor da Associa��o de Amigos do Autista da Bahia e da Associa��o Brasileira de Autismo, autor dos blogs http://www.cantodeanjo.blogger.com.br e http://www.cronicaautista.blogger.com.br. Pai de Gabriel Maciel de Paula Garcia.
| Mariene Martins Maciel: jornalista especializada em Sa�de e especialista em Hist�ria e s�cia-fundadora da Associa��o de Amigos do Autista da Bahia. M�e de Gabriel Maciel de Paula Garcia.
Autismo. Uma palavra desconhecida para muitos. H� quem j� tenha visto algum filme que retrata pessoas com esse tipo de comportamento, tendo ficado com a id�ia de que � um tipo de gente �muito inteligente� ou fechada em �seu pr�prio mundo�. Estas s�o duas express�es que n�s, pais de autistas, ouvimos muito. Elas, no entanto, correspondem a apenas um lado do problema.
Quando uma crian�a chega aos dois anos e meio, em geral � dona de um vocabul�rio razo�vel, pede coisas para os pais, faz perguntas, responde a quest�es simples como "qual � seu nome?" ou "quantos anos voc� tem?". Algumas crian�as, por�m, ao chegar a essa idade, deixam de falar, evitam o olhar das outras pessoas e passam a exibir movimentos ritmados, como balan�ar as m�os. Agem como se fossem surdas em alguns momentos e, em outros, ouvem pequenos ru�dos, como uma agulha caindo ao ch�o. Tendem a ficar longos per�odos sozinhas, muitas vezes em frente � televis�o. Algumas come�am a ler palavras soltas, e mesmo frases em revistas, o que d� a impress�o de serem superdotadas. Uma investiga��o apurada, buscando fotos da primeira inf�ncia, lembran�as dos pais e parentes pr�ximos, filmes que eventualmente tenham sido feitos quando era pequenino, mostra, em muitos casos, que a crian�a j� mostrava movimentos repetitivos e vocabul�rio limitado, embora n�o se destacasse das outras crian�as de sua idade. S� com o passar do tempo essas caracter�sticas foram percebidas.
Preocupados, depois de alguns meses sem ver desenvolvimento do filho, os pais levam-no a um pediatra, que em geral n�o tem uma resposta. Inicia-se uma peregrina��o que come�a no otorrinolaringologista e passa por teste de audiometria, eletroencefalograma, consulta a neurologista, algumas vezes psiquiatra, psic�logo, at� m�diuns... At� que algu�m diz a palavra "autismo". Uma palavra desconhecida para muitos.
O autismo foi descrito como uma s�ndrome pela primeira vez pelo m�dico austr�aco radicado nos Estados Unidos Leo Kanner, em 1943. Ele estudou onze crian�as que, embora mostrassem grandes conhecimentos em certas �reas, eram incapazes de conversar. No mesmo ano, Hans Asperger, tamb�m m�dico austr�aco, mas morando em Viena, apresentou sua tese de doutorado sobre crian�as com sintomas semelhantes, embora n�o t�o evidentes, e usou a mesma palavra para descrever o problema.
Uma s�ndrome � um conjunto de sintomas que s�o observados num paciente. No caso do autismo, seu diagn�stico � definido, de acordo com as normas m�dicas norte-americanas (DSM-IV), da seguinte forma (simplificado):
� preciso que a crian�a apresente seis ou mais itens abaixo, com pelo menos dois do grupo 1, um do grupo 2 e um do grupo 3:
Em outras palavras, certas caracter�sticas identificadas numa crian�a podem levantar a suspeita de autismo: 1) usa as pessoas como ferramentas; 2) resiste, fica nervoso com mudan�as de rotina; 3) n�o se mistura com outras crian�as; 4) apega-se demais a objetos; 5) n�o mant�m contato visual (n�o olha nos olhos); 6) �s vezes age como se fosse surdo; 7) resiste ao aprendizado; 8) n�o demonstra medo de perigos; 9) mostra risos e movimentos n�o apropriados; 10) gosta de girar objetos; 11) �s vezes � agressivo e destrutivo; 12) tem modo e comportamento indiferente e arredio.
Existem muitas teorias para explicar o autismo. � mais prov�vel que haja mais de uma causa. Acredita-se que haja uma tend�ncia gen�tica, mas percebe-se que seria preciso um fator externo para �ligar� o autismo. H� suspeitas de que certos alimentos e contamina��o por merc�rio estejam entre esses fatores. Por muito tempo se afirmou que a indiferen�a ou �frieza� da m�e seria a respons�vel, teoria j� abandonada pelos profissionais atualizados. Mas ainda h� um longo caminho a se percorrer.
Existem muitas coisas que podem ser feitas pelo autista. A principal � acreditar que ele tem potencial para aprender. Tamb�m � preciso saber que ele enxerga o mundo de uma forma diferente, mas vive no nosso pr�prio mundo. Alguns autistas, raros, conseguem se formar, constituir fam�lia e ter uma vida profissional normal. H� pessoas autistas que nunca suspeitaram que o s�o. Por outro lado, devido a sua grande dificuldade em se comunicar, eles muitas vezes t�m um desempenho fraco na escola. Nos casos mais graves, devido � desinforma��o dos adultos, pais e profissionais da Medicina e da Educa��o, a crian�a autista fica condenada a viver em um mundo que n�o consegue compreender. Nesses casos, podem crescer frustrados e responder ao mundo com gritos e com agress�es; muitas vezes, se auto-agridem, machucam-se, para descarregar sua frustra��o em n�o ser compreendido .
O primeiro passo � identificar o mais cedo poss�vel que a crian�a � autista. O papel do professor da pr�-escola � fundamental, bem como do pediatra. A partir do diagn�stico precoce, � preciso iniciar uma estrat�gia educacional para superar as dificuldades da crian�a, de forma que ela consiga se relacionar com as outras pessoas e, assim, possa aprender. Como disse Leonardo Fereira, brasilense de 28 anos, autista assumido: o amor dos pais e a sua confian�a s�o fundamentais para o pleno desenvolvimento. (Leonardo Ferreira tem o segundo grau completo, carteira de habilita��o h� cinco anos, nunca foi multado, e tem verdadeiro fasc�nio por avi�es.)
Em novembro de 1990, as entidades envolvidas com o autismo no Brasil, em conjunto com pesquisadores e profissionais, se reuniram, com apoio da CORDE (Minist�rio da Justi�a) e do Minist�rio do Bem-estar Social, no intuito de tra�ar uma POL�TICA NACIONAL DE ATEN��O � PESSOA PORTADORA DA S�NDROME DA AUTISMO, documento v�lido at� hoje. Ali, eram apresentadas propostas de a��o governamental que atendesse �s necessidades especiais dos autistas.
Prop�e o documento que sejam desenvolvidas a��es em tr�s n�veis de preven��o:
Preven��o Prim�ria - n�o tendo sido poss�vel, at� ent�o determinar todas as causas que levam o Autismo, a Preven��o Prim�ria acontece nos n�veis das preven��es das defici�ncias em geral, tais sejam: cuidados pr�-natais, que envolvam a sistematiza��o da obrigatoriedade de imuniza��o de doen�as pr�prias da inf�ncia, e aconselhamento gen�tico.
Tamb�m devem ser considerados fundamentais os cuidados pr�-natais como a aten��o ao parto, atendimento da crian�a n�vel de ber��rio e puericultura, para evitar e identificar procedimento quaisquer afec��es que acometam nesse per�odo.
Preven��o Secund�ria - concebe-se uma poss�vel identifica��o precoce dos primeiros sinais de atraso no desenvolvimento da crian�a que sugira um poss�vel caso de autismo, que permita evitar a evolu��o para um quadro de autismo completo.
Preven��o Terci�ria - concebe-se uma interven��o bio-psico-social para a habilita��o do indiv�duo autista de forma a possibilitar o resgate de suas potencialidades e promover o seu desenvolvimento.
Acreditamos que essas propostas podem se traduzir da seguinte forma: