Intervenção pedagógica 1:1, uma necessidade para o autista

Salvador, 25/4/2004 | Argemiro de Paula Garcia Filho e Mariene Martins Maciel |

O autismo, ainda hoje, é uma das grandes incógnitas da Medicina e da Educação. Nos últimos anos, na Inglaterra e Estados Unidos, tem se falado em uma “epidemia de autismo”, sendo que a imprensa daqueles países estremece com números aterradores: chega-se a afirmar que, nos últimos dez anos, a proporção de pessoas autistas em relação à população total teria crescido de 1:2500 para 1:200 (Rosemberg, Raymond, palestra proferida no I Simpósio Baiano de Autismo, promovido pelo INESPI em 17/4/2004). De acordo com a revista Time, “na Califórnia, por exemplo, o número de crianças autistas procurando os serviços sociais mais do que quadruplicou nos últimos 15 anos, de menos de 4 mil em 1987 para perto de 18 mil em 2002.” (Nash et al. 2002, p. 34). No entanto, desde sua identificação em 1943 pelo Dr. Leo Kanner até agora, suas causas ainda não estão determinadas. Mesmo assim, as características que determinam que uma pessoa é autista, bem como formas para atingir um desempenho que lhe garanta, em algum nível, uma vida independente, são bem conhecidos.

Os processos educacionais para crianças autistas que mais têm obtido êxito são diferenciados dos demais, visando atender suas necessidades específicas. Existem algumas abordagens na área psico-pedagógica que permitem desenvolver as potencialidades dos indivíduos autistas de maneira intensiva. As mais conhecidas, e que têm sido adotadas em instituições brasileiras com maior freqüência, são o ABA (Applied Behavior Annalysis) e o TEACCH (Treatment and Education for Autistic and related handicaped Communication CHildren), ambas de motivação comportamentalista. Abordagens construtivistas, baseadas nas idéias de Vigotsky também têm sido utilizadas com sucesso.

O autismo é uma deficiência global no desenvolvimento da criança, particularmente nos processos de comunicação, comprometendo todo o processo de construção do simbólico. A criança autista se retrai e se isola, visto que não compreende as mensagens e informações que capta do ambiente e, assim, não consegue construir um conjunto de símbolos que lhe permita formar, num feedback dialético, seu próprio processo de comunicação, bem como estabelecer os sistemas cognitivos que a levem a compreender a realidade e se situar dentro dela.

Os programas ABA têm como sua característica fundamental encarar o comportamento como função de uma conseqüência. Segundo Fazzio (2004, e-mail – vide anexos), “o objetivo desta abordagem é obter do aluno autista uma mudança de comportamento. Basicamente, promove novos e necessários comportamentos através da implementação de novas contingências”. Ainda segundo a autora, “a contingência inclui o que acontece antes do comportamento ou resposta da pessoa, a resposta em si e a sua conseqüência. E mudanças na conseqüência são fundamentais para mudanças no comportamento. Sejam esses comportamentos que se quer aumentar de freqüência, ou diminuir. Então, se você não tem uma pessoa lá o tempo inteiro para promover os antecedentes necessários assim como as conseqüências necessárias (...), muitos comportamentos passam desapercebidos, ou são conseqüenciados como sempre vinham sendo de maneira que não promovem nenhum benefício à pessoa.”

Hultgren (1998) afirma que o ABA não é, propriamente, um método novo, mas todo um conhecimento da ciência comportamental aplicado a crianças autistas e enfatizando a intensidade de sua aplicação, de acordo com suas necessidades específicas. Há muitos desafios de aprendizado para a criança com autismo. (“What Dr. Ivar Lovaas did in establishing the ABA program, was to take basic principals in behavior science, and emphasize the intensity that is needed for our particular kids. […] There are many "challenges to learning" encountered by children with autism.”)

Nas palavras da Profa. Dra. Margarida H. Windholz (2004, e-mail – vide anexos), pioneira no Brasil no tratamento comportamental de pessoas com problemas de desenvolvimento, “ensinar portadores de autismo é uma tarefa de vida. Deve ser multifacetada, abrangente, intensiva e sistêmica, bem como individualizada. Na aplicação das propostas advindas da análise comportamental aplicada, também conhecido como ABA, bem como do TEACCH, os programas de ensino são, em grande parte, individualizados, de acordo com as condições e necessidades de cada aluno. Muitos deles requerem um atendimento de 1:1, para que adquiram tanto as habilidades básicas, a que se refere o livro ‘Passo a Passo, Seu Caminho: Guia curricular para o ensino de habilidades básicas’ (Windholz, 1988) como habilidades mais complexas. Além desta interação 1:1, outras atividades podem ser realizadas em pequenos grupos. Mesmo nesta situação, há necessidade de atendentes para, ao mesmo tempo, cuidarem das atividades de rotina, como levar alunos ao banheiro, ajudá-los a se alimentar ou vestir. Deve-se considerar também que, além dos professores, o atendimento desta população requer toda uma equipe de profissionais especializados, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, recreacionistas, professores de educação física, fisioterapeutas. Isto, conforme a experiência em escolas e instituições que funcionam há mais de 35 anos, faz com que a proporção alunos/funcionários alcance uma proporção de 1:2 a 1:3, dependendo do número de alunos e da gravidade de seus comprometimentos.” Ainda segundo Green (1996, in Windholz, 2002, p. 75), ‘avanços muito significativos no tratamento dos portadores de TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento) devem-se à contribuição da análise do comportamento aplicada, que, com milhares de pesquisas e planos de intervenção bem sucedidos, realizados nos últimos 40 anos, tem comprovado cientificamente a eficácia de suas propostas.’”

As tarefas pedagógicas precisam ter acompanhamento individual para que o aluno se sinta focalizado. O tempo inteiro deve haver supervisão, porque qualquer estímulo (ruído, cor, cheiro, odor, luz) o tira da atividade que exerce. Até o momento, só se tem encontrado progressos tanto de inserção (socialização) quanto de habilidades pedagógicas a partir de métodos aplicados individualmente; a partir deles, procura-se a socialização. Braga-Kenyon e col. (2002, p. 149) afirmam:

“Uma das maiores discussões na área da educação especial envolve o número de profissionais necessários para que o ensino de cada aluno seja o melhor possível, ou seja, eficiente e de qualidade. Para que tal qualidade seja garantida, é importante estudar a melhor estratégia para acomodar a necessidade de cada aluno individualmente. Há alunos que podem se beneficiar de situações de um professor para um aluno (1:1), há alunos que, por outro lado, se beneficiarão de situações de grupos pequenos ou grupos grandes (1:2 até 1:5). O objetivo final será sempre incluir o aluno naquele ambiente que se aproxima cada vez mais ao ambiente ‘natural’ (escola regular, pública ou privada). Sendo assim, mesmo que um aluno receba tratamento baseado em uma necessidade de instrução 1:1, o objetivo final será o de progredir com o tempo para grupos pequenos (1:2), para grupos grandes (1:3 a 1:5) e finalmente para inclusão. É interessante notar que muitos pais e representantes dos alunos defendem o serviço 1:1 sem questionar que o melhor para a criança será um ambiente menos intrusivo e mais semelhante ao ensino regular. De fato, há crianças que necessitam um ambiente de ensino mais controlado (situação 1:1) para que alcancem maior independência no futuro.

Somente após possuírem habilidades básicas (como sentar, realizar contato visual, esperar pela sua vez, imitar, seguir movimentos com os olhos e responder a instruções simples) é que estas crianças poderão passar a aprender em situações de grupo.”

Desta forma, a opção de trabalho adotada pela AMA-Ba é montar uma equipe que permita o atendimento de um profissional para cada aluno, uma vez que nossas metas incluem “desenvolver programas de amparo, ajuda, adaptação, habilitação e reabilitação e integração social” (AMA-Ba, 2003) a pessoas autistas, no Estado da Bahia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANEXOS:

Anexo 1: e-mail de Margarida Windholz para Argemiro Garcia:

"Margarida Windholz" <[email protected]>
21/04/2004 12:54
Para: [email protected]
cc:
cco: Assunto:contribuição para defesa de 1:1

Para Argemiro:

Desculpe o atraso, mas não tive antes acesso ao meu computador.

Pensei em preparar um texto para você, para você aproveitar como e o que quiser.

A tarefa de ensinar portadores de autismo é, nas palavras da Profa. Dra. Margarida H. Windholz, (pioneira no Brasil no tratamento comportamental de pessoas com problemas de desenvolvimento) ,“uma tarefa de vida.” Deve ser multifacetado, abrangente, intensivo e sistêmico, bem como individualizado. Na aplicação das propostas advindas da análise comportamental aplicada, também conhecido como ABA (appied behavior analysis), bem como do TEACCH, os programas de ensino são, em grande parte, individualizados, de acordo com as condições e necessidades de cada aluno. Muitos deles requerem um atendimento de 1:1, para que adquiram tanto as habilidades básicas, a que se refere o livro “Passo a Passo, Seu Caminho: Guia curricular para o ensino de habilidades básicas” (1988) como habilidades mais complexas. Além desta interação 1:1, outras atividades podem ser realizadas em pequenos grupos. Mesmo nesta situação, há necessidade de atendentes, para, ao mesmo tempo, cuidarem das atividades de rotina, como levar alunos ao banheiro, ajudá-los a se alimentar ou vestir. Deve-se considerar também que, além dos professores, o atendimento desta população requer toda uma equipe de profissionais especializados, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, recreacionistas, professores de educação física, fisioterapeutas. Isto, conforme a experiência em escolas e instituições que funcionam há mais de 35 anos, faz com que a proporção alunos-funcionários alcance uma proporção de 1:2 a 1:3. dependendo do número de alunos e da gravidade de seus comprometimentos.

Espero que lhe seja util. com o abraço de sempre, sua admiradora

Maggi
MARGARIDA HOFMANN WINDHOLZ, Ph.D.
P.S. Aqui vão: Alguns dados curriculares

Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo, Margarida Hofmann. Windholz é psicóloga, pesquisadora, ex-docente do Curso de Pos-Graduaçao de Psicologia, Departamento de Psicologia Experimental, do Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Sua carreira acadêmica e profissional é marcada pela preocupação em aliar ensino e pesquisa à realização de programas de intervençao e trabalhos na comunidade, bem como em promover uma atuação inter e transdisciplinar.

Como pesquisadora, tem sido apoiada por instituições como a FAPESP e o CNPq, das quais é também consultora “ad-hoc”. Como supervisora credenciada de estágios de psicologia, tem criado oportunidades para estudantes de psicologia e áreas afins poderem unir, durante seus estágios, teoria e prática. Membro de várias organizações científicas, tem participado de suas diretorias ao longo de sua carreira. É membro titular da Academia Paulista de Psicologia.

Participa ativamente de eventos científicos no Brasil e no Exterior, proferindo palestras, ministrando cursos, apresentando trabalhos e relatos de pesquisa, debatendo em simpósios e mesas-redondas.

Desde 1960, a autora trabalha com crianças e jovens excepcionais, tendo dirigido por muitos anos ( 1960-1971) a escola e clínica de orientação infanto-juvenil do C.I.A.M. (Centro Israelita de Assistência ao Menor), sendo uma de suas fundadoras. A partir de 1972, participou da criação e organização de uma nova maneira de atuar com crianças e jovens comproblemas de desenvolvimento na Carminha - Associação para Reabilitação do Excepcional.- CARE, primeira escola com metodologia comportamental no Brasil.

Principais publicações: (Livros e capítulos)

Anexo 2: e-mail de Daniela Fazzio para Argemiro Garcia:
“Daniela Fazzio" <[email protected]>
20/04/2004 15:45
Para: <[email protected]>
cc:
cco:
Assunto: One to one

Oi Argemiro

Resolvi escrever in private porque na verdade tenho uma pergunta. Uma parte importante da defesa de instrucao um para um nos programas ABA, e a caracteristica fundamental da abordagem, que ve comportamento como funcao da consequencia. Na mais basica explicacao, o que ABA faz e promover novos e necessarios comportamentos atraves da implementacao de novas contingencias. A contingencia inclui o que acontece antes do comportamento ou resposta da pessoa, a resposta em si, e a consequencia. E mudancas na consequencia sao fundamentais para mudancas no comportamento. Sejam esses comportamentos que se quer aumentar de frequencia, ou diminuir. Entao, se voce nao tem uma pessoa la o tempo inteiro para promover os antecedentes necessarios assim como as consequencias necessarias (claro que, como voce sabe, e muito mais complexo do que isso), muitos comportamentos passam desapercebidos, ou sao consequenciados como sempre vinham sendo, e de maneira que nao promoveu nenhum beneficio a pessoa.

Agora a minha pergunta. Vale a pena entrar nessa discussao com a Secretaria da Educacao? Na minha experiencia, nao. E mesmo melhor voce oferecer alguns artigos sobre ABA/Autismo em geral, porque eles vao todos afirmar a necessidade de intrucao um-para-um. O artigo que "convenceu o mundo" da eficacia de ABA e Lovaas, O. I. (1987). Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 55,1, 3-9. Mas ha muitos e muitos outros, publicaod em inumeras fontes, por exemplo o Journal of Applied Behavior Analysis (http://seab.envmed.rochester.edu/jaba/)

Bom, era isso. Se precisar de qualquer coisa principalmente relacionada com ABA, nao hesite em entrar em contato.

Me desculpo pela falta de acentos e outros, pois estou no Canada e nao tenho teclado configurado para portugues.

Um abraco com admiracao
Daniela Fazzio

 Argemiro de Paula Garcia Filho <[email protected]>. Geólogo, autor dos blogs www.cantodeanjo.blogger.com.br e www.cronicaautista.blogger.com.br, diretor da AMA-Ba no biênio 2003-2004, diretor da ABRA no triênio 2004-2007 e moderador da Comunidade Virtual Autismo no Brasil desde 2001.

 Mariene Martins Maciel. <[email protected]> Jornalista especializada em Saúde (ex-assessora da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e do Hospital Emílio Ribas, autora de coluna de Saúde no jornal paulistano Primeira Mão no início dos anos 1990) e especialista em História pela UEFS - Universidade Estadual de Feira de Santana (2001).

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