
Autores:
Fernando Grade
Inventário cromático para pintores que começam. Cor de rosa preta cor de persa cor de merda de serva cor de vulva cor de erva cor de treva cor de esteva cor de trevo cor de ferro cor de esterco liso cor de medo cor de cerco cor de enterro cor de mama de presa cor de prego cor de perna cor de preto cor de curdo cor de melga cor de beiços de surdo cor de puta cor de burro cor de fogo cor de corno cor de corvo cor de vaca cor de estorvo cor de escravo cor de mosca cor de escarro cor de larva cor de boi cor de musgo cor de sol cor de seio cor de sal cor de mel cor de mão cor de freio cor de suco cor de pão cor de glande cor de espasmo cor de muco francês cor de morto cor de orgasmo cor de coxa gorda cor de trouxa cor de mosto cor de neve cor de burro-quando-foge cor de incenso cor de melro cor de cabra cor de cré cor de mijo cor de cio cor de liberté.
Extra-Museu A sexta-feira, nos museus, sabe a morangos é um dia longo, entar - decido sobre as emoções: quando os outros - com as malas- fogem para o campo eu desço, então, ao fundo dos quadros. Pergunto: _ Quem vem, agora, colocar bigode e barba no rosto lobisómico da Mona Lisa? Um cão branco, de ácidos testículos, salta do interior das pinturas e chega à rua. Ladra todo mijo de uma vida em fascículos. E o ódio aos museus contínua.
Fui ao nome de Filomena, e roí: ficou Filó Estoril-1975
Panorama da literatura e das artes plásticas portuguesas
Todos todos cínicos
todos todos génios
todos bons rapazes
Turismo interno
Nem gaivotas nem beijos nem cisternas
apenas um alto coração ambulante
do tamanho e do cheiro de duas pernas.
Pinhal de Leiria
19 de Agosto de 1978
PAISAGEM CONSERVADORA DO ÚLTIMO IMPÉRIO BRITÂNICO
O cu da galinha
não pode estar deitado
ao pé do cu da rainha.
(In livro "O que é brilhante é ainda baço"
Edições MIC - 1998
EXERCÍCIO CORPORAL para a Sofia Castanheira
continuei a avançar queimando letras
e deu Fi. Finalmente,
na tarde caída, assoprei:
_ Ffffff... _ e assim se perdeu Filomena
na minha vida
FIOS
Telefonei para saber se
a tua vóz é um poço de vermes ou romãs.
E vou despindo robots javardos todas as manhãs.
O bando das três enguias
Uma beija fundo,
outra sorri,
a terceira diz que sim
com a cabeça coberta de ovos.
Coimbra - Março de 1977
Pintores São tantas pétalas de rosas sãp tantas casas com sol que eu vejo as nuvens mimosas a cantar com o rouxinol. E de ouvir fico contente e de ver fico feliz. Quem me dera dizer sempre Nosso mundo tem matriz. Quem o levar bem a sério com amor e honestidade eu digo com o meu critério É um mundo de felicidade Ao pegarmos nos pincéis na tinta, tela e paleta Até damos décibeis à mais escura saleta. E a Helena beija a todos Pintores que pintam com brio Para que um dia não esqueçam que ela amou e existiu. Pintar Pintar é como enchergar O mundo que nos rodeia qual máquina a retratar o céu e a lua cheia. O mar abrir seu regaço para receber o rio barcos cheios de sargaço pescadores pescam com fio. Velhos com codea na mão e fatos esfarrapados deitados em papelão com olhos esfomeados Em salas bem arrumadas mesas com jarras de flores lareiras incendiadas são delícias dos pintores Pintar é como enchergar o mundo que nos rodeia qual máquina a retratar as ondas beijando a areia Ao terminar esta história dos rais Xis dos pintores lembro que eles têm memoria e amam muitos amores. Maria Helena Cunha
Pintor
Ao pintar verde de esperança
E azul do céu infinito
Sonho como uma criança
Serena e feliz sem grito
Misturo as tintas com a mão
Na tela cor de algodão.
Saiem-me rosas e cravos
Corpos dançando no espaço
Árvores estrondosas e prados
Casas parecendo palácios
O mar com azulado
Aparece por achado.
Pinto balões flutuando
Fantasiados pelo vento
Rios correm cantarolando
Até chegar o momento
Crianças com um fio na mão
A segurar o balão.
Maria Helena Cunha
Maria Helena Cunha
PARTIR SEM DESTINO
Partir p'la barra fora e sem destino,
Em caravelas frágeis como nozes,
Escutando bramidos, nunca vozes,
Concretizando sonhos de menino,
Trocando sal e Deus por oiro fino,
Pregando justiça, mas sendo algozes,
Recebendo humildade, sendo atrozes,
Parecendo sempre bom, sendo cretino,
Levando a fé, a voz, ficando mudo,
Escutando a prece do negro escravo,
Aos cantos do gentio ficando surdo,
Eis a glória deste povo façanhudo,
Temente a Deus, ao Demo, fingindo bravo,
Pregando honra e roubando tudo!
Jorge Oliveira (Ricardo)