Poesia


Autores:

Fernando Grade
Maria Helena Cunha
Jorge Oliveira (Ricardo)



    Panorama da literatura e das artes plásticas portuguesas


    Todos todos cínicos
    todos todos génios
    todos bons rapazes


    Inventário cromático para pintores que começam.

    Cor de rosa preta

    cor de persa

    cor de merda de serva

    cor de vulva

    cor de erva

    cor de treva

    cor de esteva

    cor de trevo

    cor de ferro

    cor de esterco liso

    cor de medo

    cor de cerco

    cor de enterro

    cor de mama de presa

    cor de prego

    cor de perna

    cor de preto

    cor de curdo

    cor de melga

    cor de beiços de surdo

    cor de puta

    cor de burro

    cor de fogo

    cor de corno

    cor de corvo

    cor de vaca

    cor de estorvo

    cor de escravo

    cor de mosca

    cor de escarro

    cor de larva

    cor de boi

    cor de musgo

    cor de sol

    cor de seio

    cor de sal

    cor de mel

    cor de mão

    cor de freio

    cor de suco

    cor de pão

    cor de glande

    cor de espasmo

    cor de muco francês

    cor de morto

    cor de orgasmo

    cor de coxa gorda

    cor de trouxa

    cor de mosto

    cor de neve

    cor de burro-quando-foge

    cor de incenso

    cor de melro

    cor de cabra

    cor de cré

    cor de mijo

    cor de cio

    cor de liberté.


    Extra-Museu

    A sexta-feira, nos museus, sabe a morangos

    é um dia longo, entar -

    decido sobre as emoções:

    quando os outros - com as malas- fogem para o campo

    eu desço, então, ao fundo dos quadros.

    Pergunto:

    _ Quem vem, agora, colocar bigode e barba

    no rosto lobisómico da Mona Lisa?

    Um cão branco, de ácidos testículos,

    salta do interior das pinturas

    e chega à rua.

    Ladra todo mijo de uma vida em fascículos.

    E o ódio aos museus contínua.



    Turismo interno

    Nem gaivotas nem beijos nem cisternas
    apenas um alto coração ambulante
    do tamanho e do cheiro de duas pernas.


    Pinhal de Leiria
    19 de Agosto de 1978



    PAISAGEM CONSERVADORA DO ÚLTIMO IMPÉRIO BRITÂNICO

    O cu da galinha
    não pode estar deitado
    ao pé do cu da rainha.

    (In livro "O que é brilhante é ainda baço"
    Edições MIC - 1998



    EXERCÍCIO CORPORAL para a Sofia Castanheira

    Fui ao nome de Filomena, e roí: ficou Filó
    continuei a avançar queimando letras
    e deu Fi. Finalmente,
    na tarde caída, assoprei:
    _ Ffffff... _ e assim se perdeu Filomena
    na minha vida

    Estoril-1975



    FIOS

    Telefonei para saber se
    a tua vóz é um poço de vermes ou romãs.
    E vou despindo robots javardos todas as manhãs.


    O bando das três enguias

    Uma beija fundo,
    outra sorri,
    a terceira diz que sim
    com a cabeça coberta de ovos.

    Coimbra - Março de 1977

Maria Helena Cunha

    Pintor

    Ao pintar verde de esperança
    E azul do céu infinito
    Sonho como uma criança
    Serena e feliz sem grito
    Misturo as tintas com a mão
    Na tela cor de algodão.

    Saiem-me rosas e cravos
    Corpos dançando no espaço
    Árvores estrondosas e prados
    Casas parecendo palácios
    O mar com azulado
    Aparece por achado.

    Pinto balões flutuando
    Fantasiados pelo vento
    Rios correm cantarolando
    Até chegar o momento
    Crianças com um fio na mão
    A segurar o balão.

    Maria Helena Cunha
    
    

    Pintores

    São tantas pétalas de rosas

    sãp tantas casas com sol

    que eu vejo as nuvens mimosas

    a cantar com o rouxinol.

    E de ouvir fico contente

    e de ver fico feliz.

    Quem me dera dizer sempre

    Nosso mundo tem matriz.

    Quem o levar bem a sério

    com amor e honestidade

    eu digo com o meu critério

    É um mundo de felicidade

    Ao pegarmos nos pincéis

    na tinta, tela e paleta

    Até damos décibeis

    à mais escura saleta.

    E a Helena beija a todos

    Pintores que pintam com brio

    Para que um dia não esqueçam

    que ela amou e existiu.


    Maria Helena Cunha

    
    

    Pintar

    Pintar é como enchergar

    O mundo que nos rodeia

    qual máquina a retratar

    o céu e a lua cheia.

    O mar abrir seu regaço

    para receber o rio

    barcos cheios de sargaço

    pescadores pescam com fio.

    Velhos com codea na mão

    e fatos esfarrapados

    deitados em papelão

    com olhos esfomeados

    Em salas bem arrumadas

    mesas com jarras de flores

    lareiras incendiadas

    são delícias dos pintores

    Pintar é como enchergar

    o mundo que nos rodeia

    qual máquina a retratar

    as ondas beijando a areia

    Ao terminar esta história

    dos rais Xis dos pintores

    lembro que eles têm memoria

    e amam muitos amores.

    Maria Helena Cunha

Jorge Oliveira (Ricardo)

    PARTIR SEM DESTINO

    Partir p'la barra fora e sem destino,
    Em caravelas frágeis como nozes,
    Escutando bramidos, nunca vozes,
    Concretizando sonhos de menino,

    Trocando sal e Deus por oiro fino,
    Pregando justiça, mas sendo algozes,
    Recebendo humildade, sendo atrozes,
    Parecendo sempre bom, sendo cretino,

    Levando a fé, a voz, ficando mudo,
    Escutando a prece do negro escravo,
    Aos cantos do gentio ficando surdo,

    Eis a glória deste povo façanhudo,
    Temente a Deus, ao Demo, fingindo bravo,
    Pregando honra e roubando tudo!

    Jorge Oliveira (Ricardo)




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