Capítulo 2
A casa de Fábio não era grande mas era espaçosa,seu irmão Roberto se casara cedo e ele passou a
ser como filho único,a diferença entre os dois era de 13 anos ,o quarto que era de seu irmão passou
a ser a sala de computadores ,havia vários amontoados um em cima do outro,ele usava o mais novo
para desenvolver alguns programas e os mais velhos para testes,principalmente com vírus,sempre que
aparecia um novo ele fazia questão de o obter para descobrir o "antídoto",
já estava a tempos desenvolvendo um novo programa anti-vírus,faltava alguns pequenos detalhes.Sua
mãe o chamou dizendo que tinha um amigo querendo falar com ele,ele pediu para que o fizesse entrar.
-E aí ,como vai essa brincadeira?
-Estou quase acabando um novo programa,e você o que fala de novo?
-Sabe aquele meu primo que foi pára o Canadá?...Ele me convidou pára ir morar com ele.
-Quando?
-Por mim iria hoje,mas tenho que acabar o colégio,meus pais não deixam ir agora,irei no começo do
ano que vem .
-E a faculdade?pretende estudar lá?
-Vou para trabalhar,tentar juntar algum dinheiro e quando voltar vejo o que faço,estudar hoje no Brasil
não tem muito valor,não vê o seu irmão.
-Acho que você não deve desanimar,mas conhecer outro país deve ser muito legal,eu irei conhecer a
Itália no próximo ano,antes da faculdade começar, mas nada como morar e viver por um tempo,
viajando só conhecemos as coisas boas do lugar,muitas pessoas que voltam do exterior vem falando
mil maravilhas e que o Brasil é uma porcaria mas não sabem realmente nada da realidade destes países.
-Que legal cara!É vamos deixar as gatinhas carentes por aqui não é mesmo?
-E o trabalho na oficina ?Já se acostumou?
-O seu Pedro é legal procura sempre ensinar o serviço com calma ,pena que o salário seja baixo,ontem
vi a filha dele,é uma gracinha meu!Deve ter uns 15 anos.
-Ela já tem 16 anos,sua mãe é muito séria, melhor ficar longe dela.
O pai de Fábio entrou em casa meio agitado sua esposa procurou saber o que tinha acontecido,ele
sempre voltava calmamente para casa é a beijava,costume que não perdera com o passar dos anos.
-O que aconteceu Romano?
-Uma coisa muito ruim.
Sentou-se no sofá procurando respirar melhor e encontrar as palavras,D. Diva se sentou também ,
sua respiração ficou ofegante e ela vendo que ele não começava a falar disse:
-Vamos, fala logo homem,o que aconteceu?
- O Pedro morreu.
-Não acredito!como?
-Foi assassinado.
As palavras de José Romano saiam lentas e cadenciadas,falava mostrando um penar muito grande,
balançava a cabeça negativamente, como se ele mesmo não acreditasse no que estava falando.
-Aonde?Estava sozinho?
-No estacionamento do teatro Elis Regina,encontraram seu corpo dentro de seu carro cheio de sangue,
ninguém sabe o que aconteceu,se foi assalto ou não.
-Quando foi isto?
-Ontem de noite,mas a Elisa só tomou conhecimento hoje cedo,ele estava sem os documentos.
-Que horror!A gente sai de casa e não sabe se volta.
Fábio percebeu que alguma coisa estava acontecendo e saiu de seu quarto para saber o que se passava.
-O que está acontecendo?
D.Diva chegou mais perto de seu marido e pois as mãos no ombro dele e contou a Fábio o que
acontecera.A sala ficou em silêncio total.
Marcos que acompanhara Fábio até a sala ficou triste,Pedro era seu patrão ,ele não tinha experiência
profissional mas precisava trabalhar para ajudar em casa,estava em uma idade crítica pois logo teria
que se alistar no serviço militar e os empresários evitam contratar jovens nesta idade,agora ficara
sabendo que o homem que lhe deu uma oportunidade na vida estava morto,e agora?como seria dali
para frente ?Quem tomaria conta da oficinas?
-Eu vou até a casa de Elisa,talvez ela esteja precisando de alguma ajuda,nestas horas as pessoas ficam
perdidas.
D.Diva foi a primeira a romper o silêncio saindo em direção ao quarto para se arrumar,a amizade de
José Romano com Pedro fez com que ela se aproximasse de Elisa e as duas ficaram muito amigas.
A casa de Elisa estava cheia de pessoas ,alguns vizinhos vieram ver no que podiam ajudar,outros
estavam lá por curiosidade,D. Diva perguntou a uma senhora que estava no portão:
-A Elisa está?
-Sim, ela está na sala,entre.
Na sala algumas pessoas faziam uma roda em volta de Elisa e Isabel,cada abraço que recebiam era
um novo choro,era como se as pessoas trouxessem uma nova força para se conseguir chorar.
-Elisa,meus pêsames,sei como deve estar se sentindo.
O abraço desta vez foi um pouco mais demorado que os outros ,todos podiam perceber que se
tratava de grandes amigas,não teve choro,era como se D.Diva realmente trouxesse o conforto,com a
filha foi diferente,o choro foi mais intenso.
-Tia,meu paizinho,eu amava tanto ele.
Ela estava desolada,seu rosto mostrava o quanto estava sofrendo.
-Minha filha!Você precisa ser forte,sua mãe vai precisar muito de ti agora.
Não houve mais palavras,Isabel encostou a cabeça no peito dela procurando se refazer.
-Diva!podemos ir até o quarto?
Elisa a chamou discretamente para ninguém perceber.O quarto era o único lugar onde podiam ficar
sozinhas.
-Obrigado por vir.
-Quando vai ser o enterro?
-Amanhã , o irmão de Pedro já providenciou tudo,o velório começará daqui a pouco as 20 horas.
-Você ainda gostava dele,não é?
-Sim gostava,a dois dias atrás conversamos um pouco,iríamos voltar a morar juntos,ele não agüentava
mais ficar longe de Isabel.
-Romano tinha me falado que ele sentia falta de casa.
A conversa entre elas durou alguns minutos,poderia durar várias horas,mas Diva sabia que a noite seria
longa e pediu que ela descansasse um pouco antes de ir ao velório.
-Tente dormir um pouco,eu vou pára casa agora e depois passo aqui para levar vocês.
-Obrigado.
No velório,o assunto preferido era a vida de Pedro,quem tivesse alguma história ou peculiaridade a seu
respeito fazia questão de compartilhar com seu interlocutor ,como querendo que sua passagem não
fosse esquecida,notava-se que havia poucos familiares de Elisa,isto era notório porque ela era
descendente de japoneses,apenas seus pais estavam presentes,na família de Pedro os irmãos
procuravam ficar sempre ao lado dos pais,para consolar principalmente a mãe.
Isabel ficava o tempo todo ao lado do caixão,no único momento que saiu para tomar um pouco de
água ,Fábio se aproximou dela e puxou conversa.
-Sinto muito,deve ser muito difícil perder alguém da família.
-Sim, como está sendo duro aceitar, meu pai morto.
-Tenho certeza que irá superar isto,se tiver algo que possa fazer.
-Obrigado,é bom ter você por perto.
Entre eles existia um carinho muito grande,estudaram juntos no ginásio,por apenas 1 ano,não chegaram
a namorar,o amor que sentiam um pelo outro permaneceu mesmo depois que cada um foi pára escolas
diferentes no colégio.
-Aconteça o que for eu estarei torcendo por sua felicidade.
Disse ele se despedindo.
Logo após o enterro um homem se aproximou de Elisa ainda no cemitério e disse:
-Meus pêsames!Poderia falar com a senhora?
-Agora?Quem é o senhor?
-Desculpe!Meu nome é Daniel,sou investigador de polícia,não precisa ser agora,amanhã irei até sua
casa.
-Tudo bem,ficarei o dia todo em casa.
No outro dia Daniel entrou na sala da casa de Elisa procurando observar tudo que fosse possível ,
estava tudo muito bem cuidado.
-Com licença.
-Fique a vontade.
-Tenho que fazer algumas perguntas para a senhora,são procedimentos de rotina.
-Pode perguntar.
-A quanto tempo era casada com o senhor Pedro?
-18 anos.
-Atualmente estavam separados?
-Sim,faziam 6 meses,mas não nos separamos judicialmente.
-Sabe se ele tinha algum inimigo?Se brigou com alguém ultimamente?
-Não que eu saiba.
-Muito obrigado,desculpe o incômodo,se souber de alguma coisa por favor me avise.
Daniel fez aquelas perguntas mas não esperava descobrir nada,pelo jeito do crime, sabia que se tratava
apenas de um latrocínio.
Dois dias depois do enterro de Pedro,Elisa decidiu que deveria ver como andava os negócios dele,
afinal agora era tudo dela e de sua filha.As oficinas eram administradas por ele diretamente,a parte de contabilidade
ficava a encargo de um
escritório especializado,ela nunca tomara conhecimento de nada,mesmo depois de separados ,ele
depositava uma quantia em sua conta mensalmente,sempre a mais do que ela necessitava e também
dava dinheiro para Isabel fazer suas compras pessoais.O irmão dele que era seu braço direito,se
encarregaria de cuidar dos negócios na parte operacional e ela pretendia cuidar da parte financeira
tratando diretamente com o contador, ao consultá-lo ele explicou como funcionava tudo,eles faziam
toda parte de cálculos de impostos,despesas,salários de funcionários e mandavam a conta para Pedro
e este fazia um cheque, pois cuidava pessoalmente de sua conta,ele aproveitou também para lembrá-la
de que as despesas costumavam ser pagas todos os dia 5 de cada mês ,portanto só faltavam 2 dias,ela
tratou de tranquilizá-lo dizendo que iria no mesmo dia ver como faria para movimentar o dinheiro desta
conta.
No banco o gerente explicou para ela como funcionava este caso e disse:
-A senhora não se preocupe,já pedi para verificarem o seu caso,um momento por favor!
Ela ficou aguardando e pensando como seria sua vida agora,cuidar da educação da filha sozinha,dos
negócios,a vida toda fora uma mulher do lar.Quando o gerente voltou parecia um pouco nervoso,sem
palavras.
-Algum problema?
Perguntou ela.
-Sim,a conta de seu marido não tem saldo.
-Como assim?
-Não posso afirmar o que aconteceu agora.
-Estou com o talão de cheques dele,esta anotado tudo no canhoto,não há algum engano?
-A senhora me desculpe mas realmente não tem saldo,aqui no final deste extrato esta a operação de
transferência.
Diante do extrato bancário ela ficou muda e pediu licença e voltou pára casa pensando no que poderia
ter acontecido,talvez ele tivesse aberto outra conta,mas nada foi achado no cofre que ele tinha,mas
alguma explicação teria e tudo se resolveria,pensou.
O apartamento que Pedro estava morando era alugado e Elisa tratou de entregar as chaves para a
imobiliária,a mobília ela levou pára uma das oficinas,José Romano foi quem providenciou a mudança
para ajudá-la,ele alugou um caminhão de mudanças.
-Muito obrigado Romano!
-De nada,o que estiver a meu alcance estarei as ordens,a propósito ,o que pretende fazer com as
coisas?
-Não sei,não quero ficar com nada,venderei tudo.
-Então eu fico com o computador,meu filho já tem outros mas ele achará alguma utilidade para ele.
-Que bom,uma coisa a menos,a Isabel tem um novinho lá em casa,leve-o por favor.
Os outros dois dias ela dedicou a tentar esclarecer o sumiço do dinheiro,procurou em todos o lugares
possíveis,nas oficinas,nos documentos dele e nada encontrou,pediu ao gerente do banco uma
explicação mais detalhada e ele após pesquisar melhor disse para ela que ele transferiu todo o dinheiro
para outra conta através da internet,ela procurou o irmão de Pedro para conversar.
-Jorge,você sabe se o Pedro tinha outra conta?
-Não sei,por quê?
-A verdade é que a conta corrente dele não tem dinheiro nenhum,já procurei em todos os documentos
e não achei nada sobre outra conta,agora temos que pagar as contas e fazer o pagamentos dos
funcionários.
-Como não tem nada no banco?Se sumiu,o caso é para chamar a polícia.
Estas palavras fizeram com que ela ficasse pensativa,"Será que alguém não está se aproveitando da
situação?".
-Verei o que posso fazer,cuide de tudo por aqui.
Nunca ela pensara que seria tão difícil conviver com aquela situação,precisava conversar com alguém,
resolveu dar uma passada na casa de D. Diva.
-Oi Elisa,tudo bem?
-Não ,as coisas estão complicadas.
-Por quê?
-A conta do Pedro está sem saldo,já fui ao banco três vezes verificar.
-Deve ter sido algum engano.
-Não,eles verificaram tudo,ele transferiu todo o dinheiro para outra conta ,via internet.
-Poxa!Que situação,se precisar de ajuda sabe que pode contar comigo.
-Muito obrigada.bem tenho que voltar pára casa,até logo.
Na hora do jantar D.Diva comentou com José Romano sobre a conversa que teve com Elisa,Fábio ao
ouvir, parou de jantar e saiu correndo pára o seu quarto.
-Você não vai terminar de comer?
-Não mãe preciso ver uma coisa.
-Deixa ,ele deve ter tido alguma idéia nova para seus programas e não quer esquecer.
Disse Romano.
No quarto ele começou a ligar todos os fios necessários para fazer o computador que era de Pedro
funcionar,ele pretendia achar se realmente ele tinha feito a transferência bancária que sua mãe falara,
apesar desta operações serem feitas em "sites" seguros,ele sabia perfeitamente como descobrir,
seria um trabalho de paciência e isto tinha de sobra quando o assunto era computadores.Passou horas
lendo todas as páginas visitadas na internet,felizmente o programa estava habilitado para salvar um
número muito grande de arquivos,procurou checar até suas correspondências,nada achando que
indicasse a operação bancária ,desconfiou que talvez algum "hacker" tivesse invadido o computador e
instalou o seu programa de anti-vírus,nada encontrou.
No outro dia ele foi até a casa de Elisa para conversar.
-Olá D.Elisa,gostaria de conversar com a senhora.
-Sim,aconteceu algo?parece preocupado.
-Fiquei sabendo o que aconteceu com a conta do Sr. Pedro .como estou com o computador que era
dele,verifiquei se realmente ele tinha feito aquela transferência e só encontrei uma compra em uma loja
de informática,a senhora sabe se ele comprou algo?
-Sim ,foi o computador que deu de presente para Isabel.
-Pelo valor é sim,acho que seria bom pedir para a polícia investigar.
-Você não é a primeira pessoa a me falar isto,acho que vou hoje mesmo.
-O computador esta comigo,não irei mais mexer nele,se precisar é só pedir.
-Muito obrigada.
Assim que Fábio saiu,Elisa foi até a delegacia conversar com o investigador Daniel.
-Boa tarde!Algum problema?
-Sim,a conta que era de meu marido deve ter sofrido algum desfalque e esta zerada,o banco diz que
ele transferiu todo o dinheiro para outra conta via internet,mas o rapaz que ficou com o computador
que era dele garante que ele não fez esta operação.
-Quem ficou com o computador?
-O filho de uma amiga minha.
-Qual a idade dele?
-17 anos.
-É um garoto ainda,não da para confiar totalmente no que ele diz,a senhora me forneça os dados da
conta que verificarei junto ao banco.
-Ainda bem que trouxe os papéis comigo,aqui estão.
-Esta bem,já anotei tudo e assim que tiver uma resposta entro em contato.
Daniel por encargo de consciência resolveu investigar o caso com afinco,usou todos os meios que a
polícia dispunha,mas infelizmente o que encontrara, não trazia novidade,achou melhor ir ele mesmo
até a casa de Elisa contar o que encontrara.
-Então?Encontrou algo?
-Fui ao banco e eles me explicaram o que tinha acontecido,garantiram que o "site'' deles é seguro,me
forneceram todos os dados que pedi,mandei para a delegacia de crimes virtuais investigar,eles
checaram tudo e encontraram o computador que fez a operação,era realmente de seu marido,também
chequei junto a companhia telefônica e naquela hora houve a ligação pára o número da provedora da
internet,não resta dúvida que foi ele mesmo que movimentou a conta,talvez ele tenha outra conta.
-Se é assim ,não temos mais o que fazer.
-A senhora me desculpe,foi o que encontrei,se puder fazer algo mais é só pedir.
-Muito agradecida.
Após esta conversa só restava para Elisa se conformar com a situação ,dali para frente teria que
procurar meios para contornar os problemas.