UMA CHAVE PARA ENTENDER A "NOVA ERA"
("NEW AGE")
Ra�zes
As express�es "Nova Era" e "Era de Aqu�rio" prov�m dos ambientes esot�ricos europeus e americanos do final do s�c. XIX e o in�cio do s�c. XX, onde as id�ias do evolucionismo cient�fico tinham sido aplicadas � hist�ria psicol�gica e espiritual da humanidade e se alimentava a expectativa de uma mudan�a radical. Especula��es astrol�gicas que contribu�am para corroborar esta expectativa. Um dos livros de refer�ncia � L'Ere du Verseau, publicado em 1937 pelo esot�rico franc�s Paul Le Cour. Com base em antigas teorias astrol�gicas, segundo as quais o sol mudaria de signo zodiacal cada 2169 anos, Le Cour sustentou que est� para terminar a Era de Peixes, iniciada a 21 de Mar�o da era crist�, e o sol est� para entrar no signo zodiacal de Aqu�rio. E enquanto a era de Peixes foi caracterizada por grande estreiteza e por inumer�veis guerras, a era de Aqu�rio ser� caracterizada pela abund�ncia, simbolizada pela figura m�tica do Aqu�rio, o jovem Ganimedes que derrama um jorro de �gua de uma urna. Para entender o movimento cultural que se definiu mais tarde, entre os anos 1960 e 1980, � preciso ent�o olhar para a sua matriz essencial, que encontramos na tradi��o esot�rico-teos�fica difundida no ambiente intelectual europeu dos s�culos XVIII-XIX, e especialmente nos c�rculos culturais da ma�onaria, do espiritismo, do ocultismo e da teosofia. Estes circulos compartilhavam uma forma de cultura esot�rica, definida (segundo o especialista franc�s Antoine Faivre [A. Faivre, Access to Western Esotericism, Sunny Press, Albany
1994, pp. 10-151) com estes elementos:
- o universo visivel e invis�vel est� ligado por uma s�rie de correspond�ncias, analogias e influxos entre microcosmo e macrocosmo, entre os metais e os planetas, entre estes e as diversas partes do corpo humano, entre o cosmo que vemos e os n�veis invis�veis da realidade;
- a natureza � um ser vivo, percorrido por redes de simpatia e de antipatia, animado por uma luz e por um fogo oculto, que o homem procura controlar;
- atrav�s da imagina��o, que � um �rg�o do esp�rito, o homem pode entrar em contacto com o mundo superior ou inferior, recorrendo aos mediadores (anjos, esp�ritos e demonios) ou a rituais;
- � proposto ao homem um itiner�rio espiritual de transforma��o, que o iniciar� nos mist�rios do cosmo, de Deus e do pr�prio ser, fazendo-o chegar � gnosis, o conhecimento mais alto, que
coincide com a salva��o;
- procura-se uma tradi��o filos�fica (filosofia perene) e religiosa (teologia primordial) anterior e superior a todas as tradi��es filos�ficas e religiosas da humanidade, uma "doutrina secreta" chave de todas as tradi��es "esot�ricas", isto �, abertas a todos;
- a transmiss�o dos ensinamentos esot�ricos � feita de mestre a disc�pulo, atrav�s duma inicia��o progressiva.
Segundo o estudioso holand�s Hanegraaff, o esoterismo do s�c. XIX � "secularizado": integrou o esoterismo tradicional (que se exprimia na alquimia, na magia e na astrologia), no qual era ressaltada a import�ncia da experi�ncia religiosa pessoal e se procurava uma vis�o unit�ria do universo, com aspectos da cultura moderna: a investiga��o cient�fica das leis da causalidade, o evolucionismo, a nova psicologia, o estudo das religi�es (W. J. Hanegraaff, New Age Religion and Western Culture.
Esotericism in the Mirror of Secular Thought, Brill, Leida-Nova lorque-Col�nia 1996, pp. 411-524).
Esta integra��o � particularmente clara nas obras da Senhora Blavatsky, uma "medium" russa que fundou, com o esp�rita americano Henry Olcott, a Sociedade Teos�fica (Nova lorque 1875), na tentativa de fundir num espiritismo evolucionista as tradi��es do Oriente e do Ocidente. A Sociedade Teos�fica tinha um tr�plice objetivo: 1) formar o n�cleo de uma fraternidade humana, sem distin��o de ra�a, credo, casta ou cor (rejeitando o cristianismo tradicional como sect�rio e intolerante);
2) encorajar o estudo comparado da religi�o, da filosofia e da ci�ncia para chegar � "tradi��o primordial"; 3)investigar as leis derivadas da natureza e os poderes latentes no homem.
Nas suas obras a Senhora Blavatsky defende a emancipa��o da mulher, atacando a omnipot�ncia do "Deus-homem" de Israel, dos crist�os e dos mu�ulmanos. E prop�e o retorno � religi�o hindu com o seu culto da deusa-m�e e a pr�tica das virtudes femininas. A a��o feminista ser� continuada pela Sociedade Teos�fica sob a guia de Annie Besant, que est� na vanguarda do movimento feminista. Alguns dos organismos derivados da Sociedade Teos�fica reconciliaram esoterismo e cristianismo, seguindo a pista aberta j� no s�c. XVIII por Emmanuel Swedenborg. Entre esses a Igreja Cat�lica Liberal de C. W. Leadbeater e J. I. Wedgwood, A Escola Arcana de Alic, oailey, a Antropossofia de Rudolf Steiner.
Constituic�o como movimento cultural
Como movimento cultural de massa a Nova Era perdeu consist�ncia e visibilidade por volta dos anos 1960-1980 noambiente de dois centros inspirados pela Sociedade Teos�fica: a comunidade
ut�pica de Findhorn, na Esc�cia, e o Instituto para o desenvolvimento do potencial humano de Esalen, Calif�rnia.
Assumiu como ins�gnia, como dissemos, o mito astrol�gico de Aqu�rio. Circunscrito inicialmente aos ambientes astrol�gicos, explica Massimo Introvigne (M. Introvigne, Mille e non pi� di mille. Millenarismo e nuove religioni ale soglie del Duemila. Gribaudi, Mil�o 1995, p�g. 206), este mito tornou-se popular nos Estados Unidos nos anos 60, nos ambientes juvenis da contracultura e o seu conhecimento divulgou-se entre os jovens do mundo inteiro em 1968 pela com�dia musical "Hair", cujas can��es louvavam a Era de Aqu�rio. Era o periodo das revoltas estudantis que prometiam um futuro radicalmente mudado. Depois das inevit�veis desilus�es, muitos jovens se orientaram ent�o para a redescoberta do misticismo oriental e do ocultismo, quando n�o para a droga, como atalho para um mundo totalmente diferente.
Em 1980 uma jornalista americana, Marilyn Ferguson, que fizera pesquisassobre o movimento do potencial humano, contribui para a difus�o deste modo de pensar para al�m dos ambientes da
contracultura juvenil, publicando o livro The Aquarian Conspiracy, Personal and Social Transformation in the 1980's. A tese principal deste livro � que a humanidade se encontra no limiar de uma grande mudan�a, de uma revolu��o silenciosa, operada por um n�mero crescente de indiv�duos que - gra�as � transformac�o pessoal - est�o a contribuir para realizar uma nova civiliza��o. A autora analisa diversos campos culturais - psicologia, religi�o, educa��o, trabalho, medicina e pol�tica - para determinar os sinais precursores e atuais dessa mudanca. E procura suscitar a consci�ncia de uma "conspira��o" (no sentido etimol�gico de "respirar juntos"), � qual podem aderir todos aqueles que desejam levar avante, unindo-se, o novo "paradigma", a nova
vis�o da realidade. Sobre o termo "Aqu�rio" n�o s�o feitas particulares especula��es: � s� um s�mbolo, diz M. Ferguson, tomado da cultura popular americana, para exprimir a expectativa de uma nova era.
Difus�o
A difus�o destas ideias foi rapid�ssma tamb�m a n�vel internacional. Segundo o especialista americano Gordon Melton (J. Gordon Melton, New Age Encyclopedia, Gale Research Inc., Detroit
1990, p�g. XXVI), quando nos Estados Unidos foi proposta a ideia da Nova Era de Aqu�rio, a comunidade "ocultistametaf�sica" constituida por centenas de grupos m�gico-esot�ricos recebeu com entusiasmo esta perspectiva. O apoio dado pelos grupos esp�ritas, teos�ficos, etc., explica a velocidade da difus�o do novo paradigma. N�o faltam depois os sinais do interesse do mundo ma��nico, especialmente na sua vers�o ocultista, que aspira ao desenvolvimento das for�as ocultas da mente humana ou do homem, para que este alcance a sua perfei��o plena.
Outro factor essencial para a difus�o, segundo o mesmo autor, foi a forma��o de "networks" a n�vel mundial entre os grupos interessados na "transforma��o global" (financiados por mecenas do mundo esot�rico). Criou-se assim um sentido de comunidade entre "profetas" e pequenos grupos e desenvolveu-se a imagem de um movimento crescente, capaz de impregnar a sociedade para al�m dos c�rculos dos verdadeiros membros. Este modo de comunica��opermitiu o interc�mbio entre membros e outras pessoas e grupos que compartilhavam um ou mais ideais da Nova Era (paz, ecologia, feminismo, medicina natural, m�stica inter-religiosa, etc.) (Ibid., p�g. 316). Al�m disso, em breve tempo, envolveram-se os circuitos comerciais e os mass media.
Comparando em linhas gerais a corrente cultural que se definiu nos anos 1960-1980 com o pensamento da Sociedade Teos�fica, a estudiosa francesa Francoise Champion encontra as seguintes diferen�as: a esperanca nos tempos novos, associados � Era de Aqu�rio; a busca, n�o s� dum aperfeicoamento pessoal, mas duma transfor-ma��o social; um sincretismo que n�o se limita � cultura oriental e ao esoterismo ocidental, mas que se refere a todas as tradi��es religiosas e esot�ricas e �s especula��es no campo da psicologia, da ci�ncia, da medicina alternativa, do paranormal; a atenua��o das fronteiras entre religioso e n�o-religioso; a aspira��o "democr�tica" com a rejei��o dos mestres" e a cria��o de formas mais fluidas de liga��o como as "networks" (F. Champion, Le NouvelAge: recomposition ou d�composition de la tradifion "th�o-spiritualiste"?, em Politica Hermetica n. 7, 1993, pp. 118).
Poder�amos dizer que o movimento da Nova Era continua vivo e em expan-s�o nestes �ltimos anos do s�culo XX?
Segundo alguns especialistas americanos, parece que nesse continente j� tenha perdido parte do seu fasc�nio, enquanto noutras �reas ainda est� em expans�o. Mas ser� mais justo considerar que perdeu algo como o mito, a utopia agregante, enquanto continua em expans�o a corrente esot�rica a que deu publicidade e vigor, e isto a nivel tanto cultural como comercial. J� existe quem procura remediar o desgaste da bandeira "New Age", criando um novo termo, "The Next Age"...
Ideias centrais da "New Age" (N.A.)
Visto que a "New Age" � uma bandeira comum com uma grande diversidade de movimentos, n�o � f�cil definir as suas doutrinas. Contudo, tendo uma matriz cultural comum, nela encontramos algumas ideias centrais, caracter�sticas do pensamento esot�rico, como acabamos de o definir:
- o cosmo � visto como um todo org�nico;
- � animado pela Energia, que coincide com o Esp�rito divino;
- cr�-se na media��o de diversas etidades espirituais;
- cr�-se na ascens�o dos seres humanos �s altas esferas invis�veis e na capacidade de controlar a pr�pria vida para al�m da morte;
- cr�-se numa "sabedoria perene" anterior e superior a todas as religi�es e culturas; seguem-se os mestres ilumi-nados...
Num modo mais detalhado, podemos descrever a N.A. sob o ponto de vista da ci�ncia, da psicologia, da religi�o ou espiritualidade, do projeto sobre o homem e sobre a sociedade.
Sob o ponto de vista da ci�ncia
Como escreve Piersandro Vanzan (P. Vanzan, Contestualizzazione socioculturale e discernimento teologico-pastorale del "New Age", em E. Fizzotti [ed.], La dolce seduzione dell'Acquario, Las, Roma 1996, pp. 87-88), a N.A. faz pr�pria a mudanca de "paradigma" ocorrida na ci�ncia moderna. Com efeito, na f�sica passou-se do modelo "mecanicista" da fisica cl�ssica de Newton - segundo o qual o universo � uma imensa m�quina cujos elementos, interagindo uns com os outros, se conservam em equil�brio e desse modo mant�m o universo em movimento - para o modelo pr�prio do "holismo" (global) da f�sica moderna, at�mica e subat�mica, segundo o qual a mat�ria n�o consiste de particulas, mas de ondas e de energia. Ent�o, para a N.A. o universo � um "oceano de energia", que � considerado, n�o de maneira mecanicista, mas como um todo, uma totalidade, uma rede de ligac�es. O universo (Deus-homem-cosmo) � um organismo unit�rio, vivo, com um corpo e uma alma (a energia coincide com o esp�rito). Quanto mais se escava em dire��o da raiz da realidade, tanto mais tudo se unifica e se simplifica. Deus e mundo, esp�rito e mat�ria, alma e corpo, intelig�ncia e sentimento, c�u e terra s�o uma imensa vibra��o energ�tica, na qual tudo est� conexo.
Sob o ponto de vista da psicologia
Como via de amplia��o da consci�ncia recorre-se �s t�cnicas da psicologia transpessoal e procura-se provocar experi�ncias "m�sticas". Por exemplo, atrav�s da pr�tica da ioga e do zen, da
meditac�o transcendental, ou dos exerc�cios derivados do budismo ligado ao tantrismo, procura-se chegar a uma experi�ncia de realiza��o do Eu, ou de ilumina��o. Tamb�m atrav�s das experi�ncias-limite ("peak experiences"): revivendo o processo do nascimento ("rebirth"), viajando at� �s portas da morte, submetendo-se a estimulac�es el�tricas ("biofeedback") ou ainda com a dan�a ou a droga. Tudo o que pode provocar "estados alterados de consci�ncia" � considerado �til para chegar a experi�ncias espirituais de unidade ou de iluminac�o.
Uma via particular � a do "channeling": dado que todos os homens s�o parte da �nica Mente, eles podem agir como "canais" rumo aos outros seres superiores: cada parte do �nico Ser pode aceder ao resto de Si mesmo.
E sob o ponto de vista da religi�o?
Ainda que alguns expoentes da N.A., como Alice Bailey, o vejam como o in�cio da nova religi�o mundial, outros evitam propo-lo como uma "religi�o", termo que consideram muito ligado � institui��o e aos dogmas. Para eles trata-se literalmente de uma "nova espiritualidade". Nova, embora muitas das suas ideias sejam tomadas de antigas religi�es e culturas: a novidade est� antes na busca consciente de uma vis�o alternativa � da religi�o judaico-crist� e da cultura ocidental nela inspirada. Espiritualidade, concebida como experi�ncia interior de harmonia e de unidade com todo o real, que cura o homem de qualquer sentido de imperfei��o e de limite. O homem descobre que est� intimamente ligado � For�a ou Energia universal, que � sagrada e est� na origem de toda a vida. Ao fazer esta descoberta, abre-se-lhe um caminho de aperfei�oamento para ordenar a sua vida pessoal e as suas rela��es com o mundo, encontrando o seu lugar no devir universal e contribuindo, como co-criador, para uma nova g�nese.
Chega-se ent�o (como escreveu Mons. Carlo Maccari [C. Maccari, La "mistica cosmica" da New Age, em Religioni e S�tte nel mondo, 1996/2, pp. 16-361) a uma m�stica c�smica, baseada na consci�ncia de um universo fremente de energias din�micas. Energia c�smica-vibra��o-luz-Deus amor - ou tamb�m o Eu superior - s�o express�es da pr�pria realidade, ao mesmo tempo - fonte primig�nia e presenca imanente a todo o ser. Para caracterizar esta espiritualida-de, poder-se-ia distinguir uma componente metafisica e uma psicol�gica. A primeira prov�m das ra�zes esot�rico-teos�ficas e configura-se como uma nova forma de gnose. O acesso ao divino realiza-se mediante o conhecimento de mist�rios ocultos, numa busca - como diz Jean Vernette (J. Vernette, L'avventura spirituale dei figli dell'acquario, em Religioni e S�tte nel mondo, 1996/2, pp.42-43)- "do Real atr�s do aparente, da Origem atr�s do tempo, do Transcendente atr�s do fugaz, da Tradi��o primordial atr�s da tradi��o ef�mera, do Outro para al�m do eu, da centelha, do Divino c�smico para al�m do individuo encarnado". A espiritualidade esot�rica, acrescenta este autor, "� uma pesquisa do Ser al�m-mundo da separa��o dos seres, como uma nostalgia da Unidade perdida". A componente psicol�gica prov�m doencontro da cultura esot�rica com asinvestiga��es psicol�gicas. Baseadanisto, a "New Age" tornar-se-� a expei�ncia de uma transforma��o pessoal psicoespiritual (considerada an�loga �experi�ncia religiosa). Para alguns esta transformac�o ocorre sob forma de umaprofunda experi�ncia m�stica, depois deuma crise pessoal ou de uma longabusca espiritual. Para outros a transforma��o vem do uso de t�cnicas de medita��o ou terap�uticas, ou de experi�ncias paranormais que fazem intuir aunidade do real.
Qual � o projeto sobre o homem?
Na base desta corrente cultural encontra-se, ent�o, a busca do aperfei�oamento e da exalta��o do homem. � ocaso de pensar no super-homem anunciado por Nietzsche no final do s�c.XIX. Para este fil�sofo, que acusava o cristianismo de ter impedido o manifestar-se da verdadeira dimens�o do homem, a sua perfei��o consiste no "eu" levado � plenitude, segundo uma ordemde valores que ele mesmo cria e realiza, gra�as � pr�pria vontade de poder: um "eu" autocriador. Em muitas express�es da N.A. encontra-se uma f� an�loga. Segundo algunsvision�rios - diz Claude Labrecque (C.Labrecque, Une religion am�ncaine.Pistes de discernement chr�tien sur les courants populaires du "Nouvel-Age",M�diaspaul, Montreal 1994, p�g. 13) -,as diferen�as entre o homem atual e o homem que conseguir� realizar plenamente o seu potencial, como capacidades fisicas e psiquicas, ser�o maiores do que as existentes entre o homem atual e os antrop�ides. � assim propostaa explora��o de todas as vias que permitem ao homem autotranscender-se. Poder�amos aqui distinguir entre a via esot�rica - da qual falamos - que � essencialmente uma busca de conhecimento, e a via m�gica, ou ocultista, que � sobretudo uma busca de poder, no qual o homem se sente como umdemiurgo, capaz de controlar o mundo das forcas superiores e obter os bens que deseja. Mas estas duas motiva��es, a busca do saber e do poder, encontram-se muitas vezes associadas, como da teoria � pr�tica, raz�o por que muitos grupos s�o simultaneamenteesot�ricos e ocultistas. No centro do ocultismo observamos uma vontade de poder guiada pelo sonho da diviniza��o. Muitas t�cnicasusadas para a expans�o da consci�ncia t�m a finalidade, conhecida s� depois de uma longa inicia��o, de revelar ao homem que ele possui um poder divino, que deve ser exercido a fim de preparar a via para a Era da Ilumina��o.De que ilumina��o se trata? Sem querermos generalizar a inteira "New Age", n�o podemos ignorar as especula��es de expoentes desta corrente (como Alice Bailey, David Spangler, Benjamin Creme) sobre a figura de L�cifercomo o agente da inicia��o na "novaera" (alguns textos destes autores s�ocitados no documento da Comiss�oTeol�gica do Episcopado Irland�s ANew Age of the Spirit? A Catholic Response to the New Age Phenomenon, Veritas, Dublim 1994, pp. 33-37. No mesmodocumento � indicada "a Doutrina secreta" da Senhora Blavatsky como fonte dessas id�ias). Quanto estas especula��es servem de inspira��o aos movimentos sat�nicos organizados ou a certas express�es da cultura moderna dirigida sobretudo aos jovens, � um campoue requer s�rias pesquisas.
Que transforma��o social?
Ao refletirmos sobre os frutos sociais da cultura esot�rica divulgada pela N.A., vemos que o mito do super-homem continua a inspirar movimentos pol�ticos e agrega��es alternativas dedireita ou de extrema direita. Mas est� tamb�m presente de forma cient�fica,por exemplo nas experi�ncias da engenharia gen�tica, que �s vezes parecemanimadas pelo sonho cultivado nos ambientes ocultistas, de poder recriar opr�prio homem: descodificando-o, alterando as regras naturais da sexualidade, procurando superar as fronteiras da morte. Sob a mesma bandeira da N.A. encontram-se orienta��es de sinal oposto, como a ecol�gico-feminista, que se difundem em geral nos ambientes de esquerda e s�o promovidas por "networks" internacionais para a educa��o "global" e o desenvolvimento sustent�vel da Terra. Embora na enorme variedade de gradua��es, o motivo de fundo parece remontar � pr�pria busca de vias alternativas, mesmo � custa deuma viragem global da sociedade, considerada necess�ria para o nascimentoda nova era.
Partindo da f� crist�, quais s�o as principais diferen�as a respeito da N.A.?
1. Antes de tudo n�s cremos num Deus criador. Um Deus que cria livremente, por amor, e cria o homem livre. Deus n�o coincide com o mundo (pante�smo), nem o mundo saiu d'Ele poremana��o. Na �ptica crist� � de igualmodo falso dizer que Deus coincide com o homem. Certamente mora nele, mas � ao mesmo tempo o seu Criador, Senhor e Salvador. Por um des�gnio de amor f�-lo Seu interlocutor. A alteridade preserva a dignidade pessoal e a liberdade do homem.
2. Na ora��o entramos em di�logocom este Deus. A ora��o n�o � a simples redescoberta do eu mais profundo, mas pressup�e o encontro de duas pessoas: � um por-se livremente em adora-��o, em a��o de gra�as, em s�plica. � um sintonizar-se com a vontade de Deus.
3. N�s temos necessidade da reden��o de Cristo porque somos pecadores. O crist�o v� o homem como fundamentalmente bom, mas ferido pelo pecado original. Nenhuma t�cnica de liberta��o, nenhum esfor�o de concentra��o pessoal, nenhuma sintonia de milh�es deconsci�ncias pode salvar o homem. A nossa �nica via de salva��o � Cristo, o Filho de Deus feito homem, que "entrou" na hist�ria para nos salvar.
4. O sofrimento e a morte t�m um significado. Os seguidores da N.A. n�oaceitam o sofrimento nem a morte. Areden��o para eles vem de t�cnicas de expans�o da consci�ncia, de renascimento, de viagens at� �s portas da morte, obt�m-se tamb�m com qualquer m�todo que ajude a relaxar-se para aumentar as energias vitais. Para os crist�os, ao contr�rio, o sofrimento vivido em uni�o com Jesus crucificado, que na cruz revelou o Seu amor pelos homens, � fonte de salva��o. Tamb�m a morte � um acontecimento �nico: n�o � um acesso a una nova reencarnacao a que seguir�o outras, mas a passagem obri gat�ria para entrar na vida eterna.
5. O mundo novo constr�i-se com as obras do amor rec�proco. A N.A. fala de mudar o mundo. Diz um boletim do movimento indiano Brahma Kumaris: "Est� para suceder alguma coisa... V�s podeis suscit�-la, associando-vos ao mesmo tempo a milh�es de outros, reunidos numa esp�cie de nova comunh�o dos santos que, pela sua for�a e criatividade intr�nseca, disp�e de uma alavanca capaz de fazer virar a mundo do lado justo". Mas bastar� o pensamento para mudar o mundo? A via que nos foi proposta por Jesus Cristo � muito mais exigente e fascinante, � a do amor rec�proco que se traduz em obras concretas e cria comunidades vivas que constr�em um mundo novo.
Muitos homens de hoje t�m necessidade de esperar numa "nova era" da humanidade. Procuram uma vis�o mais ampla, que d� raz�o tamb�m da diveridade de religi�es e de culturas; procuram uma espiritualidade global, capaz de oferecer um caminho que responda � aspira��o � uni�o com Deus, com a humanidade inteira, com o cosmo; s�o sens�veis a um projeto cultural e pol�tico que renove inteiramente a sociedade. Evitando as veredas cegas para onde conduz o sonho da omnipot�ncia, � preciso reconsiderar em termos novos o projeto crist�o sobre o omem e a sociedade.
As Palavras do Papa
"As id�ias do movimento Nova Era conseguem, �s vezes, insinuar-se na prega��o, na catequese, nas obras e nos retiros, e deste modo influenciam at� mesmo cat�licos praticantes que, talvez, n�o tenham consci�ncia da incompatibilidade entre aquelas id�ias e a f� da Igreja. Na sua vis�o sincretista e imanente, estes movimentos p�ra-religiosos d�o pouca import�ncia � Revela��o; pelo contr�rio, procuram chegar a Deus mediante a intelig�ncia e a experi�ncia, baseadas em elementos provenientes da espiritualidade oriental ou de t�cnicas psicol�gicas. Tendem a relativizar a doutrina religiosa, em benef�cio de uma vaga vis�o mundial, expressa como sistema de mitos e de s�mbolos mediante uma linguagem religiosa. Al�m disso, apresentam com freq��ncia um conceito pante�sta de Deus, o que � incompat�vel com a Sagrada Escritura e com a Tradi��o Crist�. Eles substituem a responsabilidade pessoal das pr�prias a��es perante Deus por um sentido de dever em rela��o ao cosmo, opondo-se, assim, ao verdadeiro conceito de pecado e a necessidade de reden��o por meio de Cristo" (Jo�o Paulo II, aos Bispos dos EUA).