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BOLETIM ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE
NOTÁRIOS |
Nº 224
(Depósito Legal: 20688/88 - ISSN - 0870 - 8177) Maio/Junho 2000
1-
NOTA DE ABERTURA
Ao homem cumpre ser verdadeiro. Ao
notário cabe certificar essa verdade. Assim, tenho a dupla obrigação e o
redobrado dever de prestar aqui a minha homenagem aos membros do Conselho
Directivo cessante.
Este, composto por notários de
grande craveira intelectual e reconhecido mérito profissional, nos quais, com
honestidade, não me incluo, geriu, abnegadamente, durante anos, a Associação,
com prejuízo da sua fazenda, lazer, saúde, comodidade e bem-estar. A eles é devido, pela persistência, saber,
disponibilidade e denodado esforço, postos ao serviço de todos nós, o bem-haja
de toda a classe.
Em meu nome aqui lhes “certifico erga omnes” a admiração do
notário, o respeito do colega e a inabalável e vincada amizade do Luís de
Almeida.
Porque a classe merece continuar a
poder gozar desta mais-valia, à chamada, estou certo, continuarão a dizer:
Presentes.
Cumpre-me também deixar aqui
expresso, aos actuais membros dos órgãos
da A.P.N. o meu muito obrigado por correrem o grande risco de integrarem uma
lista a que eu presido, por circunstâncias que nem eu próprio ainda
consegui entender totalmente.
Mas, já que correram o risco, o que
da vossa parte foi uma irresponsabilidade, agora aguentem, pois podem sempre
arguir, como atenuante, que não estavam num
“intervalo lúcido.”
No entanto, as circunstâncias foram
soberanas e, como o que não tem remédio remediado está, há que ser optimista,
pois, se o presidente não for bom, a equipa é-o, sem sombra de dúvida.
Este Boletim, que reinicia a sua
publicação, interrompida em Fevereiro de 1998, pretende manter-se fiel aos
princípios que orientaram a sua criação, em Novembro de 1978. Hoje, tal como ontem, o seu fim primordial é
manter uma ligação viva entre os notários, propiciando-lhes a notícia rápida, a
informação actual, a chamada de atenção oportuna.
Esta informação, como disse, há mais
de 20 anos, o nosso querido Dr. Carlos Chagas, não pretende, de modo algum,
formar precedente ou opinião abalizada, mas sim suscitar a saudável reflexão.
Nunca é demais repetir que o notário terá que ter sempre liberdade e
independência na interpretação da lei e espírito de iniciativa na busca das
soluções.
O Boletim deverá ser também um fórum
de discussão sobre todos os problemas que respeitem ao Notariado.
Assim foi criado um espaço a que se
chamou “Fórum Notarial” que
constará, por via de regra, de artigo de opinião, da inteira responsabilidade
do seu autor, e que deverá cumprir objectivos de livre pensamento e reflexão
sobre o Notariado, com respeito pela filosofia e orientação que sempre
nortearam esta publicação.
No entanto, o Boletim terá de ser
forçosamente o reflexo da classe, ou seja, não irá haver notários designados
para elaborarem artigos ou notas para publicação.
Terão de ser todos os notários que,
isoladamente ou em conjunto, deverão enviar os seus trabalhos para serem
publicados (quão úteis seriam as conclusões das reuniões de trabalho que se
fazem por todo o país).
Quer isto dizer que o Boletim será o barómetro da nossa vida
associativa. Se esta for dinâmica abundará matéria para o preencher. Caso
contrário...penso ser hipótese que se não põe.
Estou convencido que o correcto
posicionamento dos notários na sociedade do Presente é organizarem-se de forma a serem eles próprios, como conhecedores
privilegiados das dificuldades sentidas no sector, a apresentarem ao Poder
projectos de medidas, que venham a traduzir-se em soluções que alicercem a
criação de um serviço eficaz, dotado de capacidade de resposta criativa e
pronta ao devir dinâmico da realidade social e económica do Mundo que os cerca.
Para bem do público em geral, os notários deveriam ser interlocutores
privilegiados, do Ministério da Justiça e da Direcção-Geral dos Registos e do
Notariado, pois são a sua infantaria, abrindo no terreno efectivas clareiras de
eficácia e celeridade que a mais perfeita das leis, em estado etéreo, não atingirá
jamais.
Se o Poder estiver atento e for
sábio constatará, por simples reflexão, este facto e chamá-los-á para que dêem
o seu indispensável contributo, de saber e experiência feito.
O notário não deverá ser obrigado a
suportar o odioso, como sendo o indesejável e perverso agente criador da
burocracia, quando é certo que esta é obra do legislador, sendo o notário um seu mero executante, sem opção nem escolha e, por
isso, totalmente coagido e inocente.
Que o Poder lhe não retire dignidade
e prestígio, lhe reconheça o mérito, demonstrando vontade política na sua
modernização, pois que, entre as primeiras vítimas da inércia da Administração,
contam-se, como está à vista, os notários de Portugal.
Atados
na sua livre iniciativa, pelo seu estatuto profissional, não é lícito
pretender condená-los, em expiação de crime alheio, sem que lhes seja permitida a apresentação de soluções para os males do
Notariado, que tão bem conhecem e para os quais não contribuíram.
Por isso atenção. Que não se destrua
o que sempre foi útil. Tratem-se as feridas, modernizem-se os processos e ampare-se uma instituição que é uma
referência de segurança jurídica para o cidadão e empresas, de forma a que
o Notariado Português se torne mais digno e tão florescente como o Notariado Europeu,
participando, de pleno direito, na
construção de um espaço jurídico de segurança do consumidor de direito,
nacional e internacional, designadamente no âmbito da União Europeia.
Luís
Moreira de Almeida
2
- PARLAMENTO EUROPEU
- Notariado - Uma barreira contra o crime
Na Assembleia Geral dos Notários do
Tribunal de Recurso de Última Instância de Aix en Provence, realizada no
passado dia 26 de Maio, o Vice-Presidente
do Parlamento Europeu e deputado socialista Dr. Luís Marinho teve a seu
cargo o discurso de encerramento. Pondo em evidência a vital importância do
notariado para a segurança europeia, são suas as palavras:
...”a
verdade é que a primeira barreira contra
o crime europeu, organizado por traficantes internacionais - seja a de
droga, o tráfico de seres humanos, os produtos radioactivos ou as armas - é a representação do Estado, pelos notários
através dos seus actos.
As transacções mafiosas são incompatíveis
com notários escrupulosos. A prevenção do crime começa quando se dificulta
a aplicação dos seus proveitos materiais. Se o dinheiro branqueado não se pode
transformar em riqueza material por
intermédio do notário, é a segurança
pessoal de todos e não apenas a segurança jurídica que ganha.
Isto traduz cada vez mais a importância da
missão dos notários na construção da Europa.”
3- ÓRGÃOS DA
A.P.N
Em resultado da eleição realizada em
Lisboa no dia 06/05/2000, preenchem actualmente os órgãos da APN os seguintes
notários: Conselho Directivo = Presidente, Luís Manuel Moreira de Almeida;
Vice-presidente,Maria de Fátima Teixeira Costa Barreira; Secretário, António
Patrício Miguel; Tesoureiro, Vitorino José Marques Martins de Oliveira; Vogais,
Joana Isabel Matos Cabral, Joaquim António Barata Lopes, e Francisco José Moura
Sucena; Suplente, Jorge Artur Oliveira Lopes; Assembleia Geral = Presidente,
Júlio José Monteiro Barroso; Vice-presidente, Maria do Céu Dias Ferreira;
Secretário, Cristina Luísa Moura Ramos; Suplente, Isaura Deodato; Conselho
Fiscal = Presidente, António Amaral Marques; Vogais, Diamantino Rodrigues
Matias e Filipa Maria Marques Azevedo Maia; Suplente, Maria Alexandra Canotilho
Teixeira Ribeiro.
Em 18/05/2000 o Conselho Directivo
pediu audiência ao Senhor Ministro da Justiça e ao Senhor Director Geral dos
Registos e do Notariado.
A segunda já teve lugar como a
seguir se refere e a primeira está marcada para o próximo dia 11 de Julho.
4-
AUDIÊNCIA COM O SR. DIRECTOR-GERAL, LISBOA, 31/05/2000
O Sr. Director-Geral correspondeu
prontamente ao pedido de audiência - prontidão que agradavelmente se regista -
tendo o encontro tido lugar no dia 31 de Maio.
A comitiva notarial, constituída por
todos os membros efectivos do Conselho Directivo e pelo Presidente da Mesa da
Assembleia Geral, começou por apresentar os cumprimentos de todos os notários
portugueses àquele que é o elo de ligação entre a classe e o poder político,
colocando à sua disposição os bons ofícios da APN e, por seu intermédio, os de
todos os seus associados, manifestando a disponibilidade e vivo interesse de
toda a classe para participar activamente em todos os trabalhos que se prendam
com a função, reforçando a ideia de que nada
deve ser feito sem os notários e, muito menos, contra os notários.
O Presidente do C.D. aventou a
necessidade de reuniões periódicas entre a APN e o Sr. Director-Geral para
auscultação recíproca e debate de pontos de vista e perspectivas para o futuro, referiu a enorme desilusão, desencanto e
falta de estímulo que grassa na classe, devido no essencial á má
organização do sistema e ao estado geral da actividade a que anos e anos de
esquecimento e falta de investimento, numa verdadeira política de terra
queimada, conduziram, e à perversidade das relações que se desenvolvem num tal
regime, cuja responsabilidade não pode ser assacada aos notários, concluindo
com o debate das medidas de esvaziamento das funções notariais, e das medidas
avulsas conhecidas, realçando a necessidade da criação urgente de novos Cartórios de competência genérica (a APN
não entende a figura do “notário
amputado” que representa o notário dos chamados Cartórios de competência
especializada), e pela necessidade da adopção da solução há muito preconizada e
reconhecida como a única susceptível de alterar radicalmente o estado a que a
função chegou em Portugal: o reencaminhamento do notariado português para a sua
matriz originária - a do notariado latino - e a consequente equiparação do
notariado português ao notariado europeu continental, conforme apontado, entre
outros, no Relatório Marinho do Parlamento Europeu.
O Sr. Director-Geral congratulou-se vivamente pela iniciativa,
manifestou a sua esperança/confiança de que o diálogo possa trazer alteração de
comportamentos de todas as partes e recordou que é Director Geral dos Registos
... e do NOTARIADO, função de que não
pode nem pretende abdicar, posto que é a lei que o institui como tal.
Embora o nosso sistema notarial se encontre desajustado, e, no âmbito das
medidas de desformalização em estudo, mais alguns actos venham a ser
questionados, acredita no futuro do
notariado, comungando das mesmas ideias dos civilistas da nossa praça que,
tendo em conta a História e a relevante função económica, social e jurídica da
instituição notarial, lhe apontam
inclusivamente novas funções no âmbito da jurisdição voluntária. Remeteu
para a sua “Carta” constante do último Boletim da DGRN.
Questionado sobre os actos com
intervenção dos bancos, o Sr. D.G. informou que o projecto que circulou não era
do Governo e mereceu a discordância da D.G.. No entanto, o D.L. nº 255/93 será
mantido e revisto no sentido de eliminar os constrangimentos que obstam à sua
aplicação apontados pela Associação Portuguesa de Bancos.
O Sr. Director-Geral deu ainda conta
de algumas medidas em estudo, ideias, preocupações, e reptos à classe:
- vão ser criados mais
cartórios em Lisboa, no Porto, sempre e onde fizer falta, para uma resposta
pronta e de qualidade e para acabar com médias de “44 escrituras por dia”;
- não concorda com a
introdução da figura do adjunto do notário, licenciado em Direito, da confiança
do notário, com funções de assessoria e substituição; o que é preciso é formar mais notários;
- são necessários
formadores para o Centro de Formação da Direcção-Geral, para formação de
oficiais, todas as diligências têm resultado infrutíferas. Pede colaboração à
APN.
- vai ser criada matriz
uniformizadora dos serviços da DGRN. No futuro, todos os cartórios e
conservatórias passarão a apresentar uma “imagem de marca” com base nas cores
azul e amarelo;
TABELAS DE EMOLUMENTOS:
vão ser todas revistas para dar resposta à nova filosofia, decorrente do
julgamento do caso “Modelo” ( que levou à obrigatoriedade de devolução de
emolumentos), de que as tabelas devem respeitar os custos relativos à prestação
do serviço, escritura ou registo.
VENCIMENTOS: com a
revisão das tabelas de emolumentos serão, obrigatoriamente revistos os
vencimentos dos notários, conservadores e oficiais ... Será, necessariamente,
mitigada a filosofia actual que assenta na receita dos serviços ( que não se
sabe até onde irá descer!).
O
D.G. está aberto a todas as contribuições que conduzam a uma solução justa,
equilibrada e digna, tendo em conta que as remunerações não poderão
decrescer...
5
- OUTRAS ENTREVISTAS
Até ao momento mantivemos uma
entrevista com o Dr. João Mendes de Almeida, Vice Presidente da C.I.P. -
Confederação da Indústria Portuguesa e uma outra com o Dr. Pires de Lima,
Bastonário da Ordem dos Advogados.
Ambas foram longas, cordiais,
agradáveis e proveitosas.
Interpelamos também, no mesmo
sentido, todas as restantes entidades que assinaram o protocolo de acção com o
Ministério da Justiça.
Algumas destas deram já resposta positiva e os encontros têm em
vista a apresentação das nossas propostas e pontos de vista demonstrando a
nossa disponibilidade para dialogar
construtivamente com todos os interlocutores válidos, dispostos a nos
ouvirem, ainda que não partilhem das nossas ideias. Conforme, aliás, foi
aprovado na Assembleia Geral.
6- MOÇÃO
APROVADA EM ASSEMBLEIA GERAL DA APN DE
6/5/2000
A Associação Portuguesa de Notários,
reunida em Lisboa em 6 de Maio de 2000,
CONSIDERANDO
que o incessante desenvolvimento económico dos países membros da União Europeia
requer cada vez mais agilidade e modernização dos instrumentos jurídicos que
servem de apoio e cobertura;
CONSIDERANDO
que, de acordo com as declarações formais da cimeira de Tampere, constitui
um objectivo prioritário a consolidação de um espaço jurídico europeu único, de
liberdade, segurança e justiça;
CONSIDERANDO
que o notariado europeu está em condições de prestar e presta em todos os
países continentais da União Europeia, assim como nos países membros da União
Internacional do Notariado Latino, um grande serviço para conseguir o objectivo
indicado, na medida em que facilita o acesso dos cidadãos à Justiça, potencia a
sua acção jurídica e alivia os tribunais, como mecanismo de segurança jurídica
preventiva;
CONSIDERANDO
que a maioria dos países iniciaram uma importante tarefa de modernização do
sistema notarial;
CONSIDERANDO
que o Notariado Português - que é membro fundador da União Internacional do
Notariado Latino, estatuto que pretende manter -, também deve levar a cabo uma
importante reforma que o modernize e o harmonize com o sistema dominante na
Europa;
CONSIDERANDO
que o Governo Português partilha a consciência da necessidade da reforma do seu
notariado de modo a alinhar-se com o exemplo e a experiência dos outros países;
Resolve
OFERECER
ao Governo plena disponibilidade para colaborar na reforma, assente nos
seguintes princípios fundamentais:
1º
- Aumento do número de cartórios de competência genérica.
2º
- Modernização das suas instalações, equipamentos e quadros de pessoal.
3º
- Agilização dos procedimentos dos actos e simplificação de formalidades.
4º
- Preparação para, a médio prazo, proceder à liberalização do Notariado, dentro
dos quadros do sistema europeu continental - notariado latino - em que o
notário exerce uma função pública por delegação do Estado e é por este
fiscalizado.
5º
- Autofinanciamento dos cartórios notariais através das receitas dos próprios
notários.
(este documento será entregue em mão
ao Sr. Ministro da Justiça, aquando da audiência de 11/7/2000, já atrás
referida)
7-
APN E BOLETIM
A funcionária da APN é a D. Margarida Silvestre e estará
disponível na sede da Associação, pessoalmente, todas as sextas feiras, das 14.00 às 18.00 horas, e através do telefone e fax da APN 21 3463876.
Nos
restantes dias está contactável no telemóvel 96 2309540 e telefone 21 4353951.
Todo o material para o Boletim deve
ser enviado para a Drª.Joana Cabral,
notária do Cartório Notarial de Albergaria-a-Velha (CP 3850-053) e vogal do
Conselho Directivo.
8- REUNIÕES
SEMANAIS NA SEDE DA A.P.N
É importante que se retomem, por todo o País, as reuniões para
discussão de temas profissionais e que as suas conclusões sejam enviadas para a
APN. No seguimento desta ideia vão ser retomadas, também, as reuniões semanais
em Lisboa, na sede da Associação. Estas terão lugar às quartas-feiras, a partir das 17,30 horas. Os colegas do C.D.
encarregados da sua promoção são o Dr.
Vitorino Oliveira do 16º Cartório Notarial e o Dr. Francisco Sucena do 26º Cartório Notarial, ambos de Lisboa.
9-DESBUROCRATIZAÇÃO
E SIMPLIFICAÇÃO DOS SERVIÇOS
O C.D. pede a cada um dos colegas
que envie para a Associação todas as
ideias que tem sobre a simplificação dos serviços, considerada não apenas
do ponto de vista interno do cartório, mas também e sobretudo naquilo que
permite ao público o desembaraço e a solução dos seus problemas. As sugestões
deverão ser fundamentadas mas sucintas. Não
deixe de colaborar naquilo que é importante para toda a classe e que nos dará entrada no mundo moderno e
actuante em que vivemos, repudiando,
definitivamente, a burocracia que nos impõem e dando de nós uma imagem criativa
e de vanguarda.
10-
QUOTIZAÇÕES E PUBLICAÇÕES
Este primeiro exemplar do Boletim
vai ser enviado a todos os notários.
Assim, todos os colegas que não sejam associados e pretendam vir a sê-lo (seria
muito encorajador que fossem todos), deverão preencher a ficha de inscrição anexa e enviá-la para a sede da A.P.N.. Aos que
já fazem parte das hostes pedimos que zelem no sentido de terem as suas quotas
em dia, pois, há muitos que, certamente por esquecimento, não o fizeram ainda.
Os colegas que pretendam exemplares
antigos das publicações da A.P.N. (Boletim, Revista e Dicionário do Notariado)
podem requerê-los através do preenchimento da ficha de pedido de publicações, também anexa.
11- FÓRUM
NOTARIAL
O Dr. Mário Frota, Presidente da APDC - Associação Portuguesa de Direito
do Consumo, publicou no “Primeiro de Janeiro” de 29/05/2000 o presente
artigo de opinião.
O notariado
como “bombo da festa”
Não
são as juntas de freguesia nem os serviços postais que se substituirão em um
sem-número de actos aos notários. Não são os advogados e os solicitadores a
fazê-lo.
As tergiversações que assaltam o
Estado, os desvarios a que se assiste, levam-no a pretender desmantelar o
notariado, numa sanha que só encontra paralelo no desarme dos serviços públicos
essenciais e na sua outorga aos grupos de interesses que com os próceres do
poder se identificam.
Na realidade, não é o notariado que,
salvo excepções pontuais, cria a burocracia: é o Estado que o faz.
Não é o notariado que per si só
provoca os estrangulamentos e leva a que a consecução dos actos se protraia: é
o Estado que não dota os cartórios e as secretarias de efectivos ajustados ao
volume das tarefas com que se confrontam tais unidades orgânicas.
Não é o notariado que estabelece as
tabelas emolumentares: é o Estado que fixa os exorbitantes emolumentos com que
os particulares se confrontam.
O Estado, em lugar de reformar
estruturas, investe contra domínios de que releva a segurança jurídica.
O Estado, em lugar de adaptar as
estruturas à procura, dispersa atribuições e competências e pulveriza os actos,
desvalorizando os actos notariais e provocando males maiores, de cuja extensão
não há ainda a percepção real.
O Estado, em vez de desburocratizar,
mantém inconsequentemente actos sujeitos a autenticação e como que atribui aos
notários e aos corpos de funcionários a eles adstritos os malefícios daí
decorrentes.
O Estado, em lugar de ampliar os
cartórios e abrir perspectivas aos juristas em dificuldade, mantém
estranhamente vedado o acesso à actividade notarial, negando aos potenciais
candidatos a sua realização em funções para que teriam naturalmente vocação e aptidões.
O Estado, em lugar de modernizar e
cometer ao notariado o cumprimento de actos imbricados nas tecnologias de
informação, confere a outras entidades, p.e., a certificação das assinaturas
digitais e a autenticação de um sem-número de actos, e mantém-no (ao notariado)
no século XIX, negando-lhe o acesso ao século XXI e conferindo-lhe uma
competência residual em actos como que tocados pelas teias de aranha.
O Estado, em lugar de se lançar numa
reforma global, limita-se a submeter-se às associações empresariais que
pretendem soluções imediatistas para questões meramente pontuais.
De resto, a exemplaridade da
eliminação das estampilhas fiscais (mantendo-se o imposto de selo para um
sem-número de actos) e da proliferação da burocracia aí está a revelar a
inabilidade, a incapacidade e a incompetência do Estado para operar
consequentes reformas.
Os perigos para a segurança jurídica
em inúmeros domínios é patente.
Não são as juntas de freguesia nem
os serviços postais que se substituirão em um sem-número de actos aos notários.
Não são os advogados e os
solicitadores a fazê-lo.
O importante é separar o trigo do
joio. Eliminar o que for supérfluo, expurgando as excrescências. O importante é
analisar e avaliar o impacte económico das medidas. O importante é simplificar,
desburocratizar, modernizar, afrontar novos domínios, preparando as estruturas
e conferindo-lhes meios. Para que a modernização
administrativa não seja uma miragem. E a segurança jurídica algo a
proscrever. Para que não sejamos tentados a dispensar de todo a forma em
momento em que a insegurança campeia
e o retorno ao formalismo se tem como realidade incontornável.
Como afirmava Lacordaire em clima
tamanho “ é a forma que liberta, e a liberdade que oprime”.
E a Estado Democrático (?) ( ou à
ditadura dos partidos que nos reprimem e comprimem ? ) não pode corresponder a
inépcia na modelação da administração
pública, que o érario público
não pode suportar de forma elástica a irreflexão, a perturbação e a
incompetência de quem de forma efémera passa pelos lugares de definição
política.
As reformas estruturais terão de se
processar de modo consequente, global, que não parcelar, com os operadores
co-implicados e não sem a experiência valiosa ( que não fruto de embotamentos)
dos que nos seus resultados virão a participar de forma plena.
Com as reformulações no plano da
formação que é mister se introduzam. Para que as reformas não sejam postas em
execução sob o influxo de filosofias serôdias, superadas, o que é meio caminho
andado para que abortem.
Mal se admite que o notariado ainda
não esteja dotado de meios que relevam das tecnologias da informação. E logo aí
se pode entrever um mar de dificuldades....
BOLETIM DA
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE NOTÁRIOS
Propriedade:
A.P.N. · Rua dos
Sapateiros, 115 - 3º Dto. 1100-577 LISBOA · Tel. 213463876