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A política, a escola e a filosofia

 

Prof. Vitor Hugo de Oliveira Fieni

Licenciado em Filosofia-UFES

 

Hoje em dia a palavra filosofia tem se destacado em meios de comunicação de massa, seja através do entretenimento televisivo ou do crescimento de revistas especializadas. São também muitas as pessoas que procuram a filosofia, seja nas universidades, nos livros, magazines ou seja na busca por ajuda sobre questões existenciais com os filósofos clínicos. A filosofia, ou melhor, a volta do ensino de filosofia, andou sendo discutida até mesmo no Congresso Nacional nos últimos meses, o que resultou na re-obrigação da inclusão da filosofia no currículo escolar em todo país. Por conta destes e de uma outra série de eventos, que não cabe enumerar aqui, tem se falado muito no retorno, no ressurgimento da filosofia em meio a população. Mas se falamos em retorno e ressurgimento da filosofia, não nos caberia também perguntar se ela andou escondida, oculta aos nossos olhos nos últimos tempos? E se isso realmente aconteceu, quem a ocultou? E por quais motivos? E o que justifica o seu retorno no meio do povo?

Primeiramente, gostaria de esclarecer o termo re-obrigação usado acima. Em 1942 já havia sido tornado obrigatório o ensino de filosofia nas escolas através da Reforma Capanema. Isso durou até 1961, quando a disciplina foi rebaixada a disciplina complementar do currículo, fato este que atendeu às reivindicações de grupos que representavam as antigas oligarquias do café e as facções do setor moderno da época. Em 1964 as empresas internacionais que atuavam no Brasil apoiavam a emergência de um novo modelo econômico e, sendo assim, a área educacional foi direcionada para o mesmo. As indústrias, cada vez mais crescentes, queriam produzir nas escolas a sua “força de trabalho”. Sendo que não era muito conveniente às multinacionais terem em suas empresas pessoas com uma mentalidade crítico-reflexiva, e como era muito conveniente aos governantes abrirem caminho para a entrada do capital estrangeiro no país, rapidamente o sistema educacional brasileiro passou a se ajustar ao novo modelo de desenvolvimento econômico. Como conseqüência, a filosofia foi excluída do currículo em 1968 e, em seu lugar, entrou a disciplina educação moral e cívica, com o intuito de servir e legitimar a ordem estabelecida através de uma educação catequista e ideológica. O 2º grau, na época, em grande parte se transformava, então, em “ensino profissional”, preocupado em oferecer mão-de-obra qualificada e barata para as grandes empresas. Assim, podemos dizer que durante o longo período do governo militar a filosofia ficou às escuras e distante do povo. Muito distante. Apenas após o fim do antigo regime é que ela foi, aos poucos, retomando o seu lugar. Mas por que ela não ficou de vez esquecida? Afinal, para quê precisaríamos dela? Já não temos uma ciência que nos dá inúmeras respostas sobre o mundo? Não possuímos uma indústria tecnológica que enche as prateleiras das lojas com inúmeros produtos úteis ao homem? Já não possuímos uma medicina que nos diz, em grande parte, o que é o homem? Mas quem nos responde quem é o homem? Qual ciência se preocupa com as suas questões existenciais? Vivemos em uma época onde nunca os psicólogos e os psiquiatras foram tão procurados. Nunca vimos tantas pessoas com depressão e se dizendo só em meio a um aglomerado populacional. O que sabemos é que a cultura de consumo foi escrita na história contando com os favores políticos e foi repassada ao povo pelos meios de comunicação em massa sem muita intervenção do sistema educacional. O homem que se encheu de objetos e se esvaziou do seu próprio ser volta, agora, a buscar respostas à sua existência e tenta fechar, de forma desesperada, o grande vazio estrutural que as últimas décadas de modernização deixaram na sua pessoa, e faz isso através do fetiche do consumo e através de sites de relacionamento que parecem amenizar a solidão interna. Por um outro lado se tenta suprir este vazio com uma série de livros e revistas de auto-ajuda e auto-conhecimento. E por que eles desaparecem rapidamente das bancas e das livrarias? O motivo é simples: o homem está sedento por encontrar-se a si mesmo, está atrás de respostas que a ciência e a tecnologia não lhe ofereceram. Poderia então a filosofia dar estas respostas? Por que não? Há 2.500 anos o homem é um problema para a filosofia. Nenhum outro saber refletiu tanto a condição humana como a filosofia, e agora ela está aí, novamente à nossa disposição, nos dando a liberdade de aceitá-la ou não. “E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. (Epicuro)

 

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Publicado em 20.02.07 e atualizado: sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 00:05

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