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A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
EMANCIPADAS NO ENSINO DE FILOSOFIA.
Resumo:
A
necessidade de se desenvolver, nos estudantes, a capacidade crítica
capaz de emancipá-los das idéias dominantes de nossa cultura,
gerando, assim, autonomia e liberdade, é uma constante em muitos
discursos pedagógicos da atualidade. Este trabalho visa a apontar
algumas contradições ao confrontar este pensamento com a prática
real, presente na maioria das escolas, bem como apresentar a
experiência como uma alternativa, antes poiética que
metodológica, para a possibilidade do filosofar.
Palavras-chave: Ensino de filosofia. Emancipação. Crítica. Autonomia.
Subjetividades.
Arlindo Rodrigues Picoli
As palavras são
sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas.
A palavra juro
não mente.
A palavra mando
não rouba.
A palavra cor
não destoa.
A palavra sou
não vira casaca.
A palavra
liberdade não se prende.
A palavra amor
não se acaba.
A palavra idéia
não muda. Palavras nunca mudam de idéia.
Palavras sempre
sabem o que querem.
Adriana Falcão
Se existe uma
coisa que os pensadores têm feito, é depositar certas
intenções nas palavras. Uma consulta rápida em um bom dicionário de
filosofia é o bastante para comprovar tal idéia.
Para
este trabalho, que esboça
o início
de uma pesquisa
maior, buscarei na etimologia de algumas palavras a
sua
sinceridade
inicial, escolhendo, para tanto,
alguns usos que delas é feito
atualmente na educação, para depois
apresentar algumas possibilidades de pensá-las a partir das
reflexões de Michel Foucault.
O termo emancipar tem
sua
origem latina
em emancipare, e traz o
sentido de “libertar-se da
autoridade paterna; abandonar a posse de; alienar (qualquer propriedade)”
(MACHADO, 1990. p. 384). De imediato, já
podemos verificar, aqui, a oposição entre emancipação
e poder, seja como sujeição
ao pai, seja como pertencimento a outro. A duplicidade deste
antagonismo
está no sentido do
verbo
latino mancipare,
que pode ter um sentido literal
de “igual ou semelhante” ao ceder a propriedade, entendida como posse de um objeto, isto é, como algo possível de
ser
vendido e alienado, passando, deste modo, a
pertencer
a outro.
Mas
mancipare também
trás em
si um
sentido figurado relativo à mão, significando, assim, algo
como semelhante
(páre) ao ato
de agarrar ou
segurar com
a mão (manus).
A expressão Mancípium,
composta de manus + capio, e derivada de manceps,
é a ação de adquirir ou tomar com a mão. Este segurar com
a mão,
que
pode tanto
traduzir
o ato de
prender
para si,
quanto a posse sobre algo, também
é encontrado no latim “mancipus”,
mancebo em português, e designava o
rapaz que
vivia em
mancebia,
ou seja, uma juventude
que indicava a
ausência
de liberdade, também
presente
na escravidão. Desta maneira,
entende-se a razão pela qual mancebo também pode ser usado para
indicar
o escravo,
válido
inclusive para o feminino, manceba, uma criada,
concubina ou jovem mulher (CUNHA, 1986, p. 493). A juventude abarca a infância, na
qual a relação com o prender é ainda mais clara, pois, para sua
própria segurança e controle do adulto, a criança é conduzida pela
mão.
O prefixo latino e produz a
negação do que se segue (FERREIRA, s.d., 396), portanto emancipação
é não ser conduzido pela mão, não estar preso a outro, nem ser
dependente ou propriedade de alguém.
Daí o
significado
iluminista da palavra
emancipação apontar na direção de superar um estágio da vida
humana: a ‘minoridade’. Esta minoridade,
entendida como
um abandono
de si
mesmo
a uma etapa
juvenil, foi
associada
à falta de
resolução
para pensar e entender por si próprio, permanecendo sobre a tutela
de alguém.
O iluminismo é a saída do homem de um estado de menoridade
que deve ser imputado a ele próprio.
Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio intelecto
sem a guia de outro. Imputável a si próprios é esta
menoridade se a causa dela não depende de um defeito da
inteligência, mas da falta de decisão e da coragem de servir-se do
próprio intelecto sem ser guiado por outro. Sapere aude!
Tenha a coragem de servir-te da tua própria inteligência! –
é, portanto, o lema do Iluminismo (KANT, 2006c).
Assim, se pensarmos no termo
emancipação enquanto derivação do latim, referimo-nos, nesse
momento, à posse
de si mesmo — do
ponto
de vista do
direito
e do uso de
sua
vida como
homem livre
e adulto — por outro lado, tal pensamento remete-nos à
propriedade
do próprio corpo.
Já a emancipação
iluminista nos propõe uma libertação do pensamento
dos outros, e fará da educação a condição
indispensável para
isto.
De qualquer
forma, seja pensando a emancipação a partir de
suas
relações com
a posse
ou
dependência de alguém — como mostrei na
derivação do latim — seja como algo mais
subjetivo — como queria o iluminismo — os dois casos nos trazem
sempre outras duas
palavras
usadas para defini-la: liberdade
e independência.
Tanto
liberdade
como independência trazem este sentido de
desprendimento de
algo, incorporado, futuramente, à
concepção
iluminista eminentemente
subjetiva de emancipação, a qual exige a inserção de novas palavras
que ajudem a deslocar a libertação, antes focada nos corpos, para o
interior dos sujeitos. No caso, eu me deterei
em
duas delas, introduzidas por
Kant em sua Crítica
da Razão
Prática, e que
ecoam até
hoje no discurso
pedagógico da
atualidade: autonomia e crítica.
A crítica, que era um julgamento de
produções ou obras na Grécia, e de regras
na Roma antiga para manter a intenção do iluminismo, foi dirigida
para o sujeito racional. A crítica kantiana indica os meios pelos
quais a razão conhece a si mesma, refutando toda pretensão sem
fundamentos, reconhecendo seus limites e evitando ser enganada pelo
erro.
...podemos considerar a ciência do simples juízo da razão pura, de suas
partes e limites, como a propedêutica para o sistema de razão pura.
Uma tal ciência não deveria denominar-se doutrina, mas somente ‘crítica
da razão pura’: sua utilidade, desde o ponto de vista especulativo,
seria puramente negativa e não serviria para ampliar nossa razão,
senão para a emancipar de todo erro, o que já não é pouco. (KANT,
2006b).
Foucault atribuiu à crítica uma
intenção que considero mais produtiva para nossa época. Ao
considerar a sujeição efetuada nos indivíduos pelos poderes
governamentais produtores de verdades, a crítica é o momento de
interrogação destas certezas, e a função crítica é justamente o
‘desassujeitamento’ do sujeito constituído:
Em face, ou como contra-partida, ou antes como parceiro e adversário ao
mesmo tempo das artes de governar, como maneira de suspeitar dele,
de o recusar, de o limitar, de lhe encontrar uma justa medida, de os
transformar, de procurar escapar a essas artes de governar ou, em
todo caso, deslocá-lo, a título de reticência essencial, mas também
e por aí mesmo como linha de desenvolvimento das artes de governar,
teria tido qualquer coisa nascida na Europa nesse momento, uma sorte
de forma cultural geral, ao mesmo tempo atitude moral e política,
maneira de pensar etc. e que eu chamaria simplesmente arte de não
ser governado ou ainda arte de não ser governado assim e a esse
preço. E eu proporia então, como uma primeira definição da crítica,
esta caracterização geral: a arte de não de tal forma governado
(FOUCAULT, 2006).
Neste trabalho proponho pensar a
emancipação a partir de sua etimologia, como um não ser guiado pela
mão de alguém, isto é, pela diversidade de poderes a que estamos
relacionados, como busca de uma intenção ou direção própria, o que a
coloca muito próxima do conceito foucaultiano de crítica. Uma
emancipação-crítica que fuja da conscientização kantiana dos
próprios limites. Ao contrário, uma emancipação-crítica que seja uma
resistência aos limites que, em nome da verdade, estamos submetidos
como sujeitos, como alunos e professores.
A autonomia, capacidade de
governar-se, determinando que leis ou regras seguir por si mesmo,
será lapidada cuidadosamente para eliminar a capacidade ‘desejante’
do sujeito durante o século das luzes. Para Kant, a autonomia
indicava a independência da vontade de qualquer desejo
(heteronomia). Guiado pela razão formal, um ato voluntário é sempre
uma capacidade de determinar-se pela legislação universal: a razão
prática.
A autonomia da vontade é o único princípio de todas as leis morais e dos
deveres correspondentes às mesmas; mas, por outro lado, toda
heteronomia do livre-arbítrio não só deixa de fundamentar qualquer
obrigação como, também, resulta de todo contrária ao princípio desse
livre-arbítrio e à moralidade da vontade. O princípio único da
moralidade consiste na independência de toda a matéria da lei (isto
é, de um objeto desejado) e, ao mesmo tempo, apesar de tudo, na
determinação, à qual uma máxima deve estar capacitada, do arbítrio
por meio da forma legisladora universal comum. (KANT, 2006a).
Devido ao caráter breve deste
trabalho, não me aprofundarei aqui nos vários sentidos que podem ser
atribuídos à crítica, autonomia e emancipação no decorrer da
história da filosofia. Para os objetivos propostos, já surgem alguns
questionamentos ao confrontarmos a prática pedagógica da atualidade
com os conceitos apresentados.
Assim, eu me contentarei com algumas
reflexões sobre a conseqüência de um ensino de filosofia conforme as
práticas pedagógicas, como aulas expositivas, avaliações centradas
no conteúdo, reprodução de formas de pensar, etc., utilizados na
maior parte das escolas, e que entendem a aprendizagem como
retro-cognição.
É tremendamente contraditório pensar
na autonomia sempre que a meta do ensino da filosofia restringir-se
a avaliar a capacidade do aluno repetir, muitas vezes contra a sua
vontade, o que já foi elaborado por seus grandes pensadores. Como
pode um aluno exercitar a crítica, se a sua capacidade de julgamento
não é estimulada durante as aulas?
As normas, regras ou leis envolvidas
nos processos de ensino-aprendizagem atuais já estão dadas, não são
atos reflexivos ou voluntários, e os estudantes têm que se adaptar a
elas. Quem não se submete a este jogo sofrerá as conseqüências que
podem ser desde uma nota baixa até a reprovação. Como pensar em
autonomia, quando o que existe é uma determinação prévia e imutável,
atrelada a um planejamento e um método de ensino?
A grande transformação que desafia a
escola é fugir da mera reprodução e encontrar momentos em que se
valorize a criação. É nesta perspectiva que proponho uma emancipação
da tirania dos métodos utilizados no ensino de filosofia. Os métodos
podem ser muito úteis em ciência, mas, no ensino, e da maneira como
é usado, somos levados a duvidar de sua eficácia.
Não há método para aprender porque não há como antecipar os caminhos
pelos quais alguém abre sua sensibilidade àquilo que o força a
problematizar sua existência, caminhos que fluem entre o saber e o
não saber, e também porque não há produto ou resultado “fornecedor”
de sentido fora do mesmo trajeto de busca. (KOHAN, 2003, p. 223).
Por outro lado, sou testemunha de
que a preocupação exagerada com regras e métodos alternativos, muito
comuns na prática de diversas oficinas pedagógicas, longe de
aproveitar a participação crítica e emancipadora dos alunos, utiliza
o planejamento como justificativa para descartar suas interferências
singulares e reconduzir a aula para os momentos seguros, tais quais
desejados pelo professor.
É com esta preocupação que proponho
um ensino que reconheça os limites do método, de maneira que
integremos a noção de ‘autopoiese’ como referencial teórico.
A produção, em grego
poíesis, é uma característica
dos seres
vivos,
por serem
sistemas
que se produzem continuamente, são
designados ‘autopoiétícos’. Se, por um lado, são autônomos, por outro são dependentes
do meio
ambiente. Ao mesmo
tempo, são produtores
e produto.
Entre
organismos e o
meio
ocorre uma relação
circular
de influência
recíproca, o mesmo
valendo para
os organismos
entre
si. Isto
tudo torna
a previsibilidade do que
ocorre muito incerta, pois a estrutura dos seres
muda em
função das alterações aleatórias do meio. Embora a determinação exista, ela
só se dá no presente (MATURANA E VARELA,
1997, p. 25). Proponho que pensemos o aluno e o professor como seres
‘autopoiéticos’, porque isto ajuda a integrar a dinâmica de
interações que ocorrem na escola na produção si mesmo.
Sempre fiquei impressionado com a
reação dos alunos durante as aulas. Por mais que tente, as aulas
nunca são iguais. As turmas reagem de forma diferente, bem como os
alunos de cada turma, e estas mudanças repercutem em mim, provocando
novos questionamentos. Se eu quiser ajudar a sala de aula a ser um
local propício à filosofia, não adianta sacrificar a tudo e a todos
forçando um mesmo método em situações tão diversas.
Não se trata aqui de descartar
completamente o método, mas de submetê-lo a uma permanente crítica
de sentido foucaultiano, evitando que ele se torne mais importante
que as pessoas envolvidas. Quando for preciso, devemos abandoná-lo e
encontrar outras formas de lidar com as situações inesperadas que
surgem a todo momento. Agindo como Foucault, penso ser mais
promissor olhar para o presente, “utilizando instrumentos
encontrados ou forjados por mim, no exato momento em que faço minha
pesquisa, mas sem privilegiar de modo algum o método.” (FOUCAUT,
2003. p. 229). Para o pensador francês, o método surge diante do
objeto, e não o contrário. Longe da tranqüilidade do método, o
professor pode se arriscar a ser também um pesquisador, e aprender
com as novidades.
Proponho o ensino de filosofia como
transformação. Se nada mudou, então ela não aconteceu. Entendo
ensino de filosofia como experiência de filosofia; mesmo quando
coletiva, a experiência é individual, e apesar de ser individual,
ela é sempre diferente. A experiência não é um acúmulo de fatos
vividos, e considerar filosofia só o que foi vivido por outros, é
reduzi-la demais.
Para pensar a filosofia como
experiência, preciso abrir mão do controle, mesmo porque não há como
controlar algo incerto, e que pode ou não ocorrer. Por isto, não há
justificativa para querer controlar e dirigir uma aula com
perspectiva crítico-emancipatória.
Na medida em que está em jogo uma relação com nós mesmos, na medida em
que se trata de gerar relações mais livres em nossa própria
subjetividade, parece-nos que toda emancipação real é uma
emancipação que cada qual faz. Ninguém emancipa ninguém. Só é
possível emancipar-se, liberta-se, tornar-se livre. (KOHAN, 2003. p.
248).
Ao encarar a filosofia como
experiência, procuro criar condições que liberam os alunos na
produção de si mesmos. Entretanto, não posso pensar que a
experiência seja referente a um sujeito. O sujeito apresenta uma
série de dificuldades que não sustentam um referencial autopoiético.
O termo mais promissor para a
transformação está no conceito de subjetividade. Quero contrapor
subjetividade à noção de sujeito entendido como um ser
auto-suficiente, essencial, universal, fechado em si mesmo. Na
subjetividade, não se forjam nem se forçam uma unidade; a criação de
novas formas de ser está sempre presente, e a diferença e o singular
podem ser integrados não em uma, mas em múltiplas maneiras de se
produzir.
Ao ser questionado sobre a
inexistência de sujeitos em sua obra, dado que eles são sempre
sujeitados e nunca soberanos, Foucault respondeu:
...penso efetivamente que não há um soberano, fundador, uma forma
universal de sujeito que poderíamos encontrar em todos os lugares.
Sou muito cético e hostil em relação a essa concepção de sujeito.
Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui através das
práticas de sujeição ou, de maneira mais autônoma, através de
práticas de libertação, de liberdade, como na Antiguidade – a
partir, obviamente, de um certo número de regras, de estilos, de
convenções que podemos encontrar no meio cultural (FOLCAULT, 2004,
p. 291).
A idéia de autonomia em Foucault não
é um principio que se valida por si mesmo, mas de ações libertárias,
independente da situação em que se encontre.
De qualquer forma, se existe algo
que caracteriza a experiência, é a mudança. Quando o aluno o
professor ou a turma se transformam a partir da experiência com a
filosofia, aí temos algo que é próprio, autônomo, crítico, liberto,
e produtor de subjetividades emancipadas.
Referências:
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Dicionário de Filosofia. São Paulo : Martins Fontes, 2000.
ARISTÓTELES. Ética à
Nicômacos. Brasília : Editora Universidade de Brasília. 1999.
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da língua portuguesa. Rio de Janeiro : Nova Fronteira. 1986.
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GALVÃO, Ramiz. Vocabulário etimológico, ortográfico e prosódico
das palavras portuguesas derivadas da língua grega. Livraria
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KANT,
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KANT, Emmanuel. O que é
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SARAIVA, Francisco dos Santos. Dicionário Latino-Português.
Livraria Garnier – Rio de Janeiro. 2000.
Liberdade,
em latim
libertate, é um
atributo do
cidadão
investido de direitos,
independente,
que tem sua
própria autoridade,
que não
está submetido a outros (MACHADO, 1990b, p. 415).
Deriva
do latim liber,
a “parte da casca das árvores
em que
outrora se escrevia” , (CUNHA, 1986,
p. 493), de onde se
origina também a palavra
livro. Esta película da entrecasca se
soltava com certa facilidade, e o verbo Liber quer
dizer justamente “libertar, soltar, desprender,
desenredar, tirar, salvar” (FERREIRA, s.d., p. 661).
Liber também era um velho deus latino, mais tarde
associado a Baco, daí as
liberalias, festas consagradas ao deus do vinho, onde os
meninos recebiam a toga libera, ou toga virilis,
roupa romana dada ao jovem de 17 anos em substituição da
toga praetexta (FERREIRA, s.d., p. 1148).
O prefixo
latino in traz a
idéia de negativa no que
se segue, no caso a
ausência
do dependere, que
por sua
vez é pender
de, estar ligado a (MACHADO,
1990b, 304). Além disso, o verbo latino
pendere também
indica “estar suspenso;
estar preso a, exposto (a venda); estar suspenso no montante da porta
para ser vergastado (escravo); estar suspenso no
ar, estar pendurado, pesar (peso determinado);
depender de; estar
ansioso” (MACHADO,
1990, p. 335). É evidente aqui o sentido
do pender
como
estar à venda,
e a equiparação do
escravo
a uma mercadoria,
que
além de estar
exposta, também deve
ser
avaliada para
estabelecer
o quanto
vale. Podemos pensar o
pender, pesar, e estar suspenso, por analogia,
como a mercadoria colocada nos pratos da balança
para ser pesada. Estar independente,
neste sentido, é não
ser
mercadoria, é um
não ser
comercializado ou
vendido e, literalmente, é
não
estar suspenso, nem
pendente, nem
preso.
É
comum
os dicionários
etimológicos
definirem crítica, no sentido geral grego, como a “arte
de julgar as produções
literárias, artísticas ou científica; apreciação. De χριτιχή
derivado de χρινω” (GALVÃO, 1994. p. 101).
Mas penso que a
intenção atribuída ao kritikós, como arte de julgar obras, χριτιχή τέχνη, do
verbo χρινω (julgar) e τέχνη (arte, técnica),
deveria ser ampliada.
Na Ética à Nicômaco de
Aristóteles, as técnicas (τέχνη), têm
por finalidade da ação algo
que está fora delas, isto é, sua
meta é a produção
de uma obra ou
objeto. Esta produção
indica qualquer
coisa que poderia ser separada de seu agente, algo tão diverso quanto um sapato, um poema ou a cura de uma
doença (ARISTÓTELES, 1999, p. 17).
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