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O ensino de Filosofia a partir do ‘cuidado de si’: algumas reflexões inspiradas na ética de Foucault.

 

 

Resumo:

Apoiado em algumas idéias de Michel Foucault, pretende-se contrapor o termo subjetividade aos termos que indicam a existência de um sujeito, ou um “eu” interior, o qual determina suas próprias escolhas, responsabilizando-se por elas a partir de sua autonomia e liberdade essencial. Na subjetividade de Foucault, o que chama a atenção não é a identidade do sujeito, mas sua diversidade e mudança. Nesse sentido, é diferente em relação ao sujeito cartesiano, a partir do qual se justifica a existência de toda realidade, e distinta também em relação ao sujeito kantiano, que se apresenta como consciência cognitiva determinante dos juízos de si mesmo e do universo. A subjetividade não justifica o mundo, mas antes, constitui-se a partir dele. A acepção foucaultiana revela o homem não como um ser passivo frente às várias formas de poder, mas sim como capaz de exercê-lo, possibilitando, assim, resistências e mudanças. Estas idéias têm sérias repercussões pedagógicas, na medida em que destrona o “eu”, apresentando-o como uma construção ou produção de várias relações, inclusive daquelas que ocorrem no espaço escolar. A partir daí, podemos pensar o ensino de filosofia como mais uma possibilidade de exercício de poder, sendo capaz de conservar ou transformar discursos. Este trabalho visa a apresentar um resultado parcial de minha pesquisa, ou seja, elementos capazes de contribuir para uma renovação nos modos de filosofar na educação básica. Para tanto, o trabalho partirá da ética foucaultiana, entendendo-a em função do que ele chama de cuidado de si. Propõe-se uma reflexão sobre as relações entre o poder e saber na disciplina de filosofia, a qual se traduza em diferentes formas de experimentar, fazer e criar, o que envolve sobretudo alunos e professores.

 

 

 

Palavras-chave: Ensino de filosofia. ‘Cuidado de si’.

 

 

Arlindo Rodrigues Picoli[1]


 

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

Na obra “Hermenêutica do Sujeito”, Foucault nos convida a pensar a noção do ‘cuidado de si mesmo’, a qual, para os gregos, designava-se por epiméleia heautoû e, para os latinos, cura sui[2]. Foucault, com efeito, nos lembra que, desde muito tempo, sempre que incorremos no pensamento das relações entre sujeito e verdade, bem como o conhecimento do sujeito por ele mesmo, acabamos nos deparando com outra máxima grega: gnôthi seautón, ‘conhece-te a ti mesmo’. Entretanto, ele nos adverte, desde já, acerca da idéia segundo a qual “o que estava prescrito nesta fórmula não era o conhecimento de si, nem como fundamento da moral, nem como princípio de uma relação com os deuses” (FOUCAULT, 2004, p. 5). O ‘conhece-te a ti mesmo’ era um dos três preceitos endereçados a quem tentava consultar o oráculo de Delfos, consagrado ao Deus Apolo[3]. Mas, quando o ‘conhece-te a ti mesmo’ surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral, o ‘cuidado de si’. Sócrates é o encarregado pelos deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao fazer isto, ele abre mão de uma série de coisas consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder. Agindo assim, desperta, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono (FOUCAULT, 2004, p. 7-11).

Mas não foi só em Sócrates que o ‘cuidado de si’ adquiriu importância fundamental. Esta incitação ressoa por toda a cultura helenística e ressurge na romana, sobretudo no epicurismo, cinismo e estoicismo, representando, dessa forma, um acontecimento extremamente importante na história do pensamento.

O desafio que toda história do pensamento deve suscitar, está precisamente em apreender o momento em que um fenômeno cultural, de dimensões determinada, pode efetivamente constituir, na história do pensamento, um momento decisivo no qual se acha comprometido até mesmo nosso modo de ser de sujeito moderno (FOUCAULT, 2004, p. 13).

Tal busca, empreendida por Foucault em vista de um princípio tão antigo, como o ‘cuidado de si’, pode gerar uma grande contribuição para entender o sujeito moderno, a história da subjetividade e suas práticas. Assim, apesar dos múltiplos sentidos que marcaram a ‘epiméleia heuautoû’, inclusive a ponto de justificar a libertação do matrimônio e o conseqüente ascetismo cristão, três pontos característicos e gerais devem ser lembrados acerca do ‘cuidado de si’: atitude, atenção interior e ação transformadora.

O trabalho empreendido a partir daí encontra sua origem em questões as quais visam a buscar as razões pelas quais a história da filosofia privilegiou o ‘conheça a ti mesmo’, em detrimento do ‘cuidado de si’.

Surpreendentemente, a tarefa de ocupar-se consigo mesmo produziu, nos primeiros séculos do cristianismo, regras morais mais severas, as quais devem ser atribuídas aos estóicos, cínicos e epicuristas, e não aos cristãos.

As várias reformulações, na antiguidade, do ‘cuidado de si’ como práticas filosóficas ou espirituais sempre tiveram um valor positivo, remetendo-nos a uma moral afirmativa. É possível que este deter-se sobre si mesmo nos pareça hoje um tanto egoísta, seja como ”uma espécie de desafio e de bravata, uma vontade de ruptura ética, uma espécie de dandismo moral, afirmação-desafio de um estádio estético e individual intransponível” (FOUCAULT, 2004, p. 16), seja como um recuo triste e melancólico, decorrente da decepção no lidar com a moral coletiva, e no subseqüente conformismo com uma volta a si mesmo.

Paradoxalmente, as regras rígidas de um ocupar-se consigo mesmo foram adaptadas a contextos diferentes, como na visão cristã de renúncia de si mesmo, ou modernamente, na preocupação com os outros, de maneira classista ou nacionalista. Apesar disto também ter contribuído para a ocultação histórica do ‘cuidado de si’, é nas relações com a verdade, e mais precisamente sob a influência cartesiana, que ocorre uma exaltação do ‘conheça-te a ti mesmo’, em detrimento do ‘cuidado de si’. Descartes situa no conhecimento de si, ou seja, na certeza da própria existência, o único início inquestionável para a verdade.

Foucault faz uma distinção entre filosofia e espiritualidade. A filosofia é uma determinada maneira de pensar, “uma forma de pensamento que se interroga sobre o que permite ao sujeito ter acesso à verdade, forma de pensamento que tenta determinar as condições e os limites do acesso do sujeito à verdade” (FOUCAULT, 2004, p. 19). A espiritualidade, por sua vez, não está preocupada com o conhecimento, mas com uma série de práticas e experiências as quais constituem o sujeito, isto é, que fazem o sujeito ser.

A espiritualidade, em primeiro lugar, e em sua relação com a verdade, não concebe o homem, desde já, como capaz de acessar a verdade: para ter a verdade, o sujeito tem de transformar-se. Em segundo lugar, esta modificação do sujeito, esta conversão, assume muitas maneiras, mas, de forma geral, ela provoca um movimento o qual muda o sujeito, alterando sua condição, e provocando uma ascensão, que trás, até ele, a luz da verdade. Foucault designa esta transformação de movimento por Eros. Outra maneira transformadora do sujeito é o trabalho, o qual é uma longa elaboração de si pela ascese.

Eros e askésis são, creio, as duas grandes formas com que, na espiritualidade ocidental, concebemos as modalidades segundo as quais o sujeito deve ser transformado para, finalmente, tornar-se sujeito capaz de verdade (FOUCAULT, 2004, p. 20).

Ao efetuar estes procedimentos, o sujeito, no seu contato com a verdade, recebe um ‘efeito de retorno’, provocando em si uma transfiguração, ou melhor, uma completude sentida como paz e tranqüilidade.

Durante a antiguidade, as práticas espirituais e o acesso à verdade estiveram sempre ligados. Mesmo na gnose, o ato do conhecimento é repleto de práticas espirituais secretas. Sendo assim, a epiméleia heautoû, o cuidado de si, ou seja, as regras espirituais transformadoras, sempre foram condições para se chegar à verdade, à exceção compreensível de Aristóteles, já que ele será o grande inspirador da filosofia moderna.

A história da verdade encontra sua modernidade no ‘momento cartesiano’, quando se torna aceitável o pensamento de que somente o conhecimento proporciona o acesso à verdade, sem a necessidade de uma transformação do sujeito. Sendo assim, as condições para o acesso à verdade não serão mais de ordem espiritual. Serão condições intrínsecas, surgidas do interior do conhecimento, expressas em regras objetivas e formais que o próprio conhecimento deverá seguir para chegar à verdade: “condições formais, condições objetivas, regras formais do método, estrutura do objeto a conhecer” (FOUCAULT, 2004, p. 22). Outras condições serão extrínsecas: a loucura, por exemplo, será um impedimento; e o acesso aos estudos e ajustes morais relacionados à pesquisa tornar-se-ão fundamentais para encontrar a verdade.

Quando a verdade entra em sua modernidade, já não lhe caberá mais beneficiar ou recompensar o sujeito, como na concepção cristã de salvação, e o resultado disto será um relacionamento com a verdade baseado no acúmulo histórico de conhecimento, ou algum outro benefício psicológico ou mesmo social.

A idade moderna das relações entre sujeito e verdade começa no dia em que postulamos que o sujeito, tal como ele é, é capaz de verdade, mas que a verdade, tal como ela é, não é capaz de salvar o sujeito (FOUCAULT, 2004, p. 24).

 

Entretanto, Foucault esclarece que este momento moderno das relações entre sujeito e verdade não se refere a uma data ou pessoa. O processo do abandono do trabalho espiritual sobre si mesmo como condição para a verdade ocorreu muito antes, e não diz respeito à ciência. Por mais contraditório que pareça, encontramos na teologia os princípios que possibilitaram o desprendimento da filosofia do ‘cuidado de si’. A teologia cristã é construída sobre uma fé com características universais, e um sujeito capaz de conhecer inspirado por seu modelo e criador: Deus. A ciência de então mantinha a idéia de práticas espirituais transformadoras do sujeito, como podemos observar na alquimia.

Mesmo depois de Descartes, não houve um corte definitivo com o ‘cuidado de si’, e podemos encontrar traços da necessidade de transformação do sujeito em Espinosa, Kant, Hegel, Shelling, Shopenhauer, Nietzsche, Husserl e Heidegger. E, tanto na psicanálise como no marxismo, a epiméleia heuautoû é encontrada no centro destes saberes, apesar de nenhuma das duas ter assumido, com clareza, as condições espirituais de acesso à verdade. É somente com Lacan que a relação entre sujeito e verdade é problematizada novamente.

O ‘cuidado de si’ no Alcibíades:

Uma série de práticas, presentes na Grécia arcaica, e também em uma série de diferentes civilizações precedentes ao momento de Sócrates, garantiam o acesso do sujeito à verdade: purificação, concentração da alma, o retiro em si mesmo e a resistência às dores ou tentações que porventura viessem. O pitagorismo, por exemplo, trabalhou com muitas destas práticas, como na purificação para o sonho, no qual encontramos práticas preparatórias para o contato com o mundo divino, mundo da verdade, como se entendia, entrementes, o sonho. Esta purificação podia ocorrer através de músicas, perfumes ou, ainda, pelo exame de consciência. Ao lembrarmos de nossas faltas cometidas durante o dia, delas nos livramos. Outro exemplo são as técnicas de provação, como aquelas em que, após praticar uma série extenuante de exercícios, recusa-se uma refeição farta colocada à nossa frente, e se medita sobre ela. Como relatado no Banquete, Sócrates dominava a anakhóresis, prática do retiro em si mesmo, bem como a resistência. Andava descalço sobre o gelo com mais facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite.

Apesar de Foucault localizar no Alcibíades o surgimento do ‘cuidado de si’ na filosofia, essa noção já impregnava há muito tempo a cultura grega. Os espartanos já usavam o ‘ocupar-se consigo mesmo’ como justificativa para não cultivarem suas próprias terras. Ocupar-se consigo mesmo era um privilegio político, econômico e social, e não dizia respeito à filosofia.

Sócrates só decide abordar Alcibíades porque percebeu que ele não se contenta mais em desfrutar de sua beleza, riqueza e influência; ele quer se tornar um político, quer “transformar o privilégio de status, a primazia estatutária em governo dos outros” (FOUCAULT, 2004, p. 44). Sócrates diz que ele deve aplicar seu espírito sobre si mesmo, pois, para ser um político, deve o indivíduo saber as qualidades que possui. Ele deve pensar nos seus rivais de dentro de Atenas, e também nos de fora da cidade, seja espartanos ou persas. Tanto os rivais espartanos quanto os persas tiveram uma educação melhor que Alcibíades, pois ele ficou aos cuidados de um escravo ignorante. Conhecendo-se a si mesmo prudentemente, ele pôde perceber sua inferioridade não só na educação, mas também na riqueza e na incapacidade de ter um saber, uma ‘tékhne’ a qual compensasse estas diferenças. No diálogo que trava com Sócrates, Alcibíades percebe que não é capaz de definir o que é o bom governo da cidade, admitindo ser possível que tenha sempre vivido em estado de ignorância. E é neste momento que Sócrates o anima, afirmando, para tanto, que se ele tivesse percebido isto com cinqüenta anos, não seria nada fácil tomar-se a si mesmo em cuidado: epimelethênai sautou, mas, ao contrário, ele está justamente na idade certa para isto.

No Alcibíades, Foucault destaca quatro características do ‘cuidado de si’. Partindo de um privilégio, em primeiro, ‘ocupar-se consigo mesmo’ é condição para governar os outros. Segundo, o ‘cuidado de si mesmo’ pode compensar a insuficiência na educação, atribuída à ignorância de seu pedagogo, bem como sua educação erótica, fruto do tipo de interesse dos seus amantes, os quais, apenas desfrutaram de sua beleza, não o incentivou a cuidar de si mesmo. Em terceiro, ele está na idade correta, por não estar mais na mão dos pedagogos e, ademais, na medida em que atingiu determinada idade, seus amantes desinteressaram-se por ele. Aqui, o ‘cuidado de si’ é “uma necessidade de jovens numa relação entre eles e seu mestre, ou entre eles e seus amantes, ou entre eles e seu mestre e amante” (FOUCAULT, 2004, p. 49). Em quarto, por fim, há a ignorância do objeto. Alcebíades não sabe o objetivo e o fim da concórdia dos cidadãos como atividade política. Por não saber o que é o bom governo, precisa ‘cuidar de si mesmo’.

Vemos, então, surgir, a partir do ‘cuidado de si’ duas questões. A primeira diz respeito ao sujeito: o que é o si mesmo? E a segunda: qual é a tékne para um bom governo? “Qual o eu de que devo ocupar-me a fim de poder, como convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar?” (FOUCAULT, 2004, p. 51). Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o cuidado necessário para governar os outros?

Podemos distinguir, na arte da sapataria, os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro. O mesmo verifica-se na música, na qual distinguimos a cítara de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos? Temos aí as mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não pode servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das mãos, dos olhos, da linguagem e de todo o corpo só pode ser a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis indica um comportamento, uma atitude, relações com os outros e consigo mesmo, mas que não é instrumental, nem substancial, mas sim transcendente e subjetivo.

Ao concebermos a alma enquanto sujeito, o ‘cuidado de si’ passa a distinguir-se em três outros tipos de atividades. Primeiro, Foucault enuncia o exemplo do médico: quando o médico adoece e aplica sobre si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa consigo mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o corpo, e não com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a economia: quando um proprietário ocupa-se com suas posses, seus bens e sua família, ele está ocupando-se consigo mesmo? Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não com ele mesmo. Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o próprio Alcibíades? Da mesma forma que nos exemplos anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem cuida de Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua alma. Sócrates é mais que um professor, é mais que um pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:

Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio” (FOUCAULT, 2004, p. 73).

Sendo assim: o que é o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se consigo mesmo, o que é o ‘cuidado de si’? É conhecer a si mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o aparecimento desta referência ao conheça a si mesmo, no Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas anteriores. Enquanto a primeira surge como prudência, para que Alcibíades relacione suas ambições com suas capacidades, isto é, para que ele perceba suas limitações e perceba a importância em ocupar-se consigo mesmo; a segunda, surge para responder quem é o si mesmo com que se deve ocupar. E, finalmente, agora ele surge de maneira direta e decisiva, para dizer que o ‘cuidado de si’ é o conhecimento de si mesmo. E este momento afetará toda a cultura grega-romana. A partir deste momento, surge a justificativa para que o ‘cuidado de si’, ou seja, para que todas as práticas espirituais sejam organizadas em torno do ‘conheça a ti mesmo’.

E como devemos nos conhecer? Para chegar a esta resposta partimos do exemplo do olho e do espelho. Quando nos vemos no olho de alguém, semelhante a nós, vemos-nos a nós mesmos. Mas este si mesmo que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é também no olho do outro. Para ver-se a alma, é preciso que se volte para um elemento de sua própria natureza. E qual é a natureza da alma? O pensamento e o saber. Sendo divinos o pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o divino, com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria, sophrosýne. Assim, a alma conhecerá a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e saberá, enfim, governar a cidade.

No final do diálogo, Alcebíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois ocupar-se consigo mesmo ou com a justiça, são equivalentes, já que tudo surgiu a partir da preocupação em se tornar um bom governante.

Subjetividade, Experiência e Cuidado de Si

Com Foucault, entende-se que o sujeito se produz num determinado momento histórico de duas formas bem distintas: como conservação ou transformação das maneiras de existir. Na medida em que aceita o que é dito sobre e para ele, sofre um ‘assujeitamento, muitas vezes capaz de tornar sua própria vontade equivalente ao discurso externo. Mas, quando faz uma experiência de si mesmo, entendida como subjetivação, possibilita uma emancipação dos mecanismos de dominação expressos como verdade. Ao contrário da sujeição, a subjetividade identifica-se com a subjetivação, abrindo a possibilidade de existências singulares ao ocupar-se consigo mesmo. Na dimensão da subjetividade, não se trata apenas de conhecer-se, mas de desencadear todo um processo de mudança, capaz de criar um sentido e um significado auto-referente para si mesmo.

 

Se a experiência surge em um vazio o qual é resultado da tensão entre as diversas áreas do saber, as regras de conduta e a possibilidade de subjetivação, a escola deve ser o local privilegiado para o ‘cuidado de si’. O nosso grande problema é que a maioria dos professores, e para além deles, a maioria dos funcionários que se colocam hierarquicamente como fiscalizadores do ensino, permanecem presos à perspectiva da recognição de conteúdos, privilegiando o conhecimento científico, universal e impessoal, e raramente de si mesmo. Com efeito, não encontramos na escola uma relação como a de Sócrates e Alcibíades, muito embora ela permaneça como possibilidade. A amizade que se estabelece entre alunos e professores é ainda hoje, como na antiguidade, uma condição para a produção cuidadosa de subjetividades. Uma vez que a maior parte das disciplinas se encontra comprometida com um currículo fixado e “assujeitador” dos alunos aos conhecimentos tidos como necessários para sua vida profissional e social, vê-se, no recente retorno da filosofia, uma possibilidade de retorno do ´cuidado de si’. Mas que não percamos isto de vista, já que não podemos permitir que a filosofia na escola seja ancorada na história da filosofia e nem estagnada no conhecimento de si mesmo, uma vez que seu objetivo principal é o de possibilitar a experiência de si mesmo por parte de alunos e professores.

Deixemos de lado o modelo dos professores auto-forjados na sociedade de controle atual, reprodutores de habilidades e capacidades, para nos transformarmos em mestres, focalizados na potencialidade particular de cada aluno. Mas, para possibilitar o ‘cuidado de si’ nos alunos, o professor de filosofia precisa antes ‘ocupar-se consigo mesmo’.

Trabalhado devidamente, o ‘cuidado de si’ pode servir como resistência às formas contemporâneas de narcisismo, já que é na relação com os outros que nos construímos, como bem nos lembra o editor da “Hermenêutica do Sujeito”: “O sujeito, descoberto no cuidado, é totalmente o contrário de um indivíduo isolado: é um cidadão do mundo” (FOUCALT, 2004, p. 652).

 

O discurso do Alcebíades pode ser atualizado de maneira a mostrar que é o ‘cuidado de si’ que nos capacita a cuidar dos outros, em suas várias esferas políticas e sociais, mas que não se restrinja a jogar conforme as regras eleitorais. Pelo contrário, tal fato indica a necessidade de encontrar outros caminhos, novas formas de participação.

Em uma perspectiva libertadora, precisamos abandonar o conceito de um sujeito fixo e autônomo. Precisamos, de fato, questionar constantemente pela razão e pelo motivo pelo qual estamos nos tornando o que somos. Para isto, proponho o pensamento de nossa infância, enquanto uma metáfora para o novo, para o desconhecido, para o espanto e para a invenção de si mesmo. Nossa alma é, desde sempre, como uma criança recém nascida: néos aeì gignómenos[4]. Nascemos a cada instante, e somos sempre as mais novas possibilidades de ser.


 

Referências:

FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo : Martins Fontes. 2004.

________________. Estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro : Forense Universitária. 2003.

ORTEGA, Francisco. Amizade e estética de existência em Foucault. Rio de Janeiro : Edições Graal. 1999.

PESSOA, Fernando. A criança que fui chora na estrada. Disponível em: <http://www.eurooscar.com/poesoutros/pessoa3.htm >. Acessado em 06/08/2006.

KOHAN, Walter Omar. Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte. Autêntica. 2003.

 


[1] Professor de Filosofia

Mestrando em Educação

Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Especialista em Filosofia Social e Política, Licenciado em Filosofia

Universidade Federal do Espírito Santo

E-mail: [email protected]

 

[2] Literalmente, cuidado de si. Em latim, cura refere-se a uma série de coisas distintas, mas que mantém o sentido de cuidar: cuidado e diligência, mas também, direção, encargo, administração, cuidados de um doente, tratamento, trabalho, obra de espírito, obra literária, livro, causa de cuidado, inquietação, cuidados de amor, tormentos de amor, amor, guarda, guardador, vigia. (FERREIRA, s.d. p. 315).

[3] Foucault nos apresenta a interpretação de 1901, feita por Roscher, para quem os três preceitos eram regras bem práticas, condições que possibilitavam a arte de obter a resposta de um deus. Assim o medèn ágan, (nada em demasia), tinha o objetivo prático de refinar e reduzir as questões; os engýe (cauções) eram um lembrete para que os consulentes não fizessem promessas que não pudessem cumprir; e o gnôthi seautón (conhece-te a ti mesmo), era um exame de si mesmo, necessário no processo de identificar o que realmente precisava perguntar, para não perguntar em demasia. Segundo Foucault, Defragas, em 1954, diz que os três preceitos délficos são ordens destinadas à prudência, sendo o nada em demasia direcionado às esperanças e à condução própria; as cauções, uma prevenção da generosidade excessiva; e o conhece-te a ti mesmo, uma lembrança da condição limitada do homem mortal frente a um deus (FOUCALT, 2004, p. 6).

 

[4]O Discurso que Sócrates profere sobre o amor no Banquete, ouvido de uma mulher, Diótima de Mantinéia, alerta que ainda que dissermos que as pessoas são as mesmas desde que nascem até morrerem, na verdade se gera uma nova pessoa (ou uma criança) a cada momento” (KOHAN, 2003, p. 35).

 

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Publicado em 05.11.06 e atualizado: quarta-feira, 15 de novembro de 2006 20:22

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