O ensino de Filosofia a partir do ‘cuidado de si’: algumas
reflexões inspiradas na ética de Foucault.
Resumo:
Apoiado em algumas idéias de Michel Foucault, pretende-se
contrapor o termo
subjetividade aos termos que indicam a existência de um
sujeito, ou um “eu” interior, o qual determina suas próprias
escolhas, responsabilizando-se por elas a partir de sua
autonomia e liberdade essencial. Na subjetividade de
Foucault, o que chama a atenção não é a identidade do
sujeito, mas sua diversidade e mudança. Nesse sentido, é
diferente em relação ao sujeito cartesiano, a partir do qual
se justifica a existência de toda realidade, e distinta
também em relação ao sujeito kantiano, que se apresenta como
consciência cognitiva determinante dos juízos de si mesmo e
do universo. A subjetividade não justifica o mundo, mas
antes, constitui-se a partir dele. A acepção foucaultiana
revela o homem não como um ser passivo frente às várias
formas de poder, mas sim como capaz de exercê-lo,
possibilitando, assim, resistências e mudanças. Estas idéias
têm sérias repercussões pedagógicas, na medida em que
destrona o “eu”, apresentando-o como uma construção ou
produção de várias relações, inclusive daquelas que ocorrem
no espaço escolar. A partir daí, podemos pensar o ensino de
filosofia como mais uma possibilidade de exercício de poder,
sendo capaz de conservar ou transformar discursos. Este
trabalho visa a apresentar um resultado parcial de minha
pesquisa, ou seja, elementos capazes de contribuir para uma
renovação nos modos de filosofar na educação básica. Para
tanto, o trabalho partirá da ética foucaultiana,
entendendo-a em função do que ele chama de cuidado de si.
Propõe-se uma reflexão sobre as relações entre o poder e
saber na disciplina de filosofia, a qual se traduza em
diferentes formas de experimentar, fazer e criar, o que
envolve sobretudo alunos e professores.
Palavras-chave: Ensino de
filosofia. ‘Cuidado de si’.
Arlindo Rodrigues Picoli
A
criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como
hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao
menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na
ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando
Pessoa
Na obra “Hermenêutica do
Sujeito”, Foucault nos convida a pensar a noção do
‘cuidado de si mesmo’, a qual, para os gregos, designava-se
por epiméleia heautoû e, para os latinos, cura sui.
Foucault, com efeito, nos lembra que, desde muito tempo,
sempre que incorremos no pensamento das relações entre
sujeito e verdade, bem como o conhecimento do sujeito por
ele mesmo, acabamos nos deparando com outra máxima grega:
gnôthi seautón, ‘conhece-te a ti mesmo’. Entretanto, ele
nos adverte, desde já, acerca da idéia segundo a qual “o
que estava prescrito nesta fórmula não era o conhecimento de
si, nem como fundamento da moral, nem como princípio de uma
relação com os deuses” (FOUCAULT, 2004, p. 5). O
‘conhece-te a ti mesmo’ era um dos três preceitos
endereçados a quem tentava consultar o oráculo de Delfos,
consagrado ao Deus Apolo.
Mas, quando o ‘conhece-te a ti mesmo’ surge na filosofia,
precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação
particular de uma regra mais geral, o ‘cuidado de si’.
Sócrates é o encarregado pelos deuses de lembrar e
incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao
fazer isto, ele abre mão de uma série de coisas consideradas
vantajosas, como fortuna e cargos de poder. Agindo assim,
desperta, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um
profundo sono (FOUCAULT, 2004, p. 7-11).
Mas não foi só em Sócrates
que o ‘cuidado de si’ adquiriu importância fundamental. Esta
incitação ressoa por toda a cultura helenística e ressurge
na romana, sobretudo no epicurismo, cinismo e estoicismo,
representando, dessa forma, um acontecimento extremamente
importante na história do pensamento.
O
desafio que toda história do pensamento deve suscitar, está
precisamente em apreender o momento em que um fenômeno
cultural, de dimensões determinada, pode efetivamente
constituir, na história do pensamento, um momento decisivo
no qual se acha comprometido até mesmo nosso modo de ser de
sujeito moderno (FOUCAULT, 2004, p. 13).
Tal busca, empreendida por
Foucault em vista de um princípio tão antigo, como o
‘cuidado de si’, pode gerar uma grande contribuição para
entender o sujeito moderno, a história da subjetividade e
suas práticas. Assim, apesar dos múltiplos sentidos que
marcaram a ‘epiméleia heuautoû’, inclusive a
ponto de justificar a libertação do matrimônio e o
conseqüente ascetismo cristão, três pontos característicos e
gerais devem ser lembrados acerca do ‘cuidado de si’:
atitude, atenção interior e ação transformadora.
O trabalho empreendido a
partir daí encontra sua origem em questões as quais visam a
buscar as razões pelas quais a história da filosofia
privilegiou o ‘conheça a ti mesmo’, em detrimento do
‘cuidado de si’.
Surpreendentemente, a
tarefa de ocupar-se consigo mesmo produziu, nos primeiros
séculos do cristianismo, regras morais mais severas, as
quais devem ser atribuídas aos estóicos, cínicos e
epicuristas, e não aos cristãos.
As várias reformulações, na
antiguidade, do ‘cuidado de si’ como práticas filosóficas ou
espirituais sempre tiveram um valor positivo, remetendo-nos
a uma moral afirmativa. É possível que este deter-se sobre
si mesmo nos pareça hoje um tanto egoísta, seja como ”uma
espécie de desafio e de bravata, uma vontade de
ruptura ética, uma espécie de dandismo moral,
afirmação-desafio de um estádio estético e individual
intransponível” (FOUCAULT, 2004, p. 16), seja como um
recuo triste e melancólico, decorrente da decepção no lidar
com a moral coletiva, e no subseqüente conformismo com uma
volta a si mesmo.
Paradoxalmente, as regras
rígidas de um ocupar-se consigo mesmo foram adaptadas a
contextos diferentes, como na visão cristã de renúncia de si
mesmo, ou modernamente, na preocupação com os outros, de
maneira classista ou nacionalista. Apesar disto também ter
contribuído para a ocultação histórica do ‘cuidado de si’, é
nas relações com a verdade, e mais precisamente sob a
influência cartesiana, que ocorre uma exaltação do
‘conheça-te a ti mesmo’, em detrimento do ‘cuidado de si’.
Descartes situa no conhecimento de si, ou seja, na certeza
da própria existência, o único início inquestionável para a
verdade.
Foucault faz uma distinção
entre filosofia e espiritualidade. A filosofia é uma
determinada maneira de pensar, “uma forma de pensamento
que se interroga sobre o que permite ao sujeito ter acesso à
verdade, forma de pensamento que tenta determinar as
condições e os limites do acesso do sujeito à verdade”
(FOUCAULT, 2004, p. 19).
A espiritualidade,
por sua vez, não está preocupada com o conhecimento, mas com
uma série de práticas e experiências as quais constituem o
sujeito, isto é, que fazem o sujeito ser.
A espiritualidade, em
primeiro lugar, e em sua relação com a verdade, não concebe
o homem, desde já, como capaz de acessar a verdade: para ter
a verdade, o sujeito tem de transformar-se. Em segundo
lugar, esta modificação do sujeito, esta conversão, assume
muitas maneiras, mas, de forma geral, ela provoca um
movimento o qual muda o sujeito, alterando sua condição, e
provocando uma ascensão, que trás, até ele, a luz da
verdade. Foucault designa esta transformação de movimento
por Eros. Outra maneira transformadora do sujeito é o
trabalho, o qual é uma longa elaboração de si pela ascese.
Eros
e askésis são, creio, as duas grandes formas com que,
na espiritualidade ocidental, concebemos as modalidades
segundo as quais o sujeito deve ser transformado para,
finalmente, tornar-se sujeito capaz de verdade (FOUCAULT,
2004, p. 20).
Ao efetuar estes
procedimentos, o sujeito, no seu contato com a verdade,
recebe um ‘efeito de retorno’, provocando em si uma
transfiguração, ou melhor, uma completude sentida como paz e
tranqüilidade.
Durante a antiguidade, as
práticas espirituais e o acesso à verdade estiveram sempre
ligados. Mesmo na gnose, o ato do conhecimento é repleto de
práticas espirituais secretas. Sendo assim, a epiméleia
heautoû, o cuidado de si, ou seja, as regras espirituais
transformadoras, sempre foram condições para se chegar à
verdade, à exceção compreensível de Aristóteles, já que ele
será o grande inspirador da filosofia moderna.
A história da verdade
encontra sua modernidade no ‘momento cartesiano’, quando se
torna aceitável o pensamento de que somente o conhecimento
proporciona o acesso à verdade, sem a necessidade de uma
transformação do sujeito. Sendo assim, as condições para o
acesso à verdade não serão mais de ordem espiritual. Serão
condições intrínsecas, surgidas do interior do conhecimento,
expressas em regras objetivas e formais que o próprio
conhecimento deverá seguir para chegar à verdade:
“condições formais, condições objetivas, regras formais do
método, estrutura do objeto a conhecer” (FOUCAULT, 2004,
p. 22). Outras condições serão extrínsecas: a loucura, por
exemplo, será um impedimento; e o acesso aos estudos e
ajustes morais relacionados à pesquisa tornar-se-ão
fundamentais para encontrar a verdade.
Quando a verdade entra em
sua modernidade, já não lhe caberá mais beneficiar ou
recompensar o sujeito, como na concepção cristã de salvação,
e o resultado disto será um relacionamento com a verdade
baseado no acúmulo histórico de conhecimento, ou algum outro
benefício psicológico ou mesmo social.
A idade
moderna das relações entre sujeito e verdade começa no dia
em que postulamos que o sujeito, tal como ele é, é capaz de
verdade, mas que a verdade, tal como ela é, não é capaz de
salvar o sujeito (FOUCAULT, 2004, p. 24).
Entretanto, Foucault
esclarece que este momento moderno das relações entre
sujeito e verdade não se refere a uma data ou pessoa. O
processo do abandono do trabalho espiritual sobre si mesmo
como condição para a verdade ocorreu muito antes, e não diz
respeito à ciência. Por mais contraditório que pareça,
encontramos na teologia os princípios que possibilitaram o
desprendimento da filosofia do ‘cuidado de si’. A teologia
cristã é construída sobre uma fé com características
universais, e um sujeito capaz de conhecer inspirado por seu
modelo e criador: Deus. A ciência de então mantinha a idéia
de práticas espirituais transformadoras do sujeito, como
podemos observar na alquimia.
Mesmo depois de Descartes,
não houve um corte definitivo com o ‘cuidado de si’, e
podemos encontrar traços da necessidade de transformação do
sujeito em Espinosa, Kant, Hegel, Shelling, Shopenhauer,
Nietzsche, Husserl e Heidegger. E, tanto na psicanálise como
no marxismo, a epiméleia heuautoû é encontrada
no centro destes saberes, apesar de nenhuma das duas ter
assumido, com clareza, as condições espirituais de acesso à
verdade. É somente com Lacan que a relação entre sujeito e
verdade é problematizada novamente.
O ‘cuidado de si’ no
Alcibíades:
Uma série de práticas,
presentes na Grécia arcaica, e também em uma série de
diferentes civilizações precedentes ao momento de Sócrates,
garantiam o acesso do sujeito à verdade: purificação,
concentração da alma, o retiro em si mesmo e a resistência
às dores ou tentações que porventura viessem. O pitagorismo,
por exemplo, trabalhou com muitas destas práticas, como na
purificação para o sonho, no qual encontramos práticas
preparatórias para o contato com o mundo divino, mundo da
verdade, como se entendia, entrementes, o sonho. Esta
purificação podia ocorrer através de músicas, perfumes ou,
ainda, pelo exame de consciência. Ao lembrarmos de nossas
faltas cometidas durante o dia, delas nos livramos. Outro
exemplo são as técnicas de provação, como aquelas em que,
após praticar uma série extenuante de exercícios, recusa-se
uma refeição farta colocada à nossa frente, e se medita
sobre ela. Como relatado no Banquete, Sócrates dominava a
anakhóresis, prática do retiro em si mesmo, bem como a
resistência. Andava descalço sobre o gelo com mais
facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia
manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite.
Apesar de Foucault
localizar no Alcibíades o surgimento do ‘cuidado de si’ na
filosofia, essa noção já impregnava há muito tempo a cultura
grega. Os espartanos já usavam o ‘ocupar-se consigo mesmo’
como justificativa para não cultivarem suas próprias terras.
Ocupar-se consigo mesmo era um privilegio político,
econômico e social, e não dizia respeito à filosofia.
Sócrates só decide abordar
Alcibíades porque percebeu que ele não se contenta mais em
desfrutar de sua beleza, riqueza e influência; ele quer se
tornar um político, quer “transformar o privilégio de
status, a primazia estatutária em governo dos
outros” (FOUCAULT, 2004, p. 44). Sócrates diz que ele
deve aplicar seu espírito sobre si mesmo, pois, para ser um
político, deve o indivíduo saber as qualidades que possui.
Ele deve pensar nos seus rivais de dentro de Atenas, e
também nos de fora da cidade, seja espartanos ou persas.
Tanto os rivais espartanos quanto os persas tiveram uma
educação melhor que Alcibíades, pois ele ficou aos cuidados
de um escravo ignorante. Conhecendo-se a si mesmo
prudentemente, ele pôde perceber sua inferioridade não só na
educação, mas também na riqueza e na incapacidade de ter um
saber, uma ‘tékhne’ a qual compensasse estas
diferenças. No diálogo que trava com Sócrates, Alcibíades
percebe que não é capaz de definir o que é o bom governo da
cidade, admitindo ser possível que tenha sempre vivido em
estado de ignorância. E é neste momento que Sócrates o
anima, afirmando, para tanto, que se ele tivesse percebido
isto com cinqüenta anos, não seria nada fácil tomar-se a si
mesmo em cuidado: epimelethênai sautou, mas,
ao contrário, ele está justamente na idade certa para isto.
No Alcibíades, Foucault
destaca quatro características do ‘cuidado de si’. Partindo
de um privilégio, em primeiro, ‘ocupar-se consigo mesmo’ é
condição para governar os outros. Segundo, o ‘cuidado de si
mesmo’ pode compensar a insuficiência na educação, atribuída
à ignorância de seu pedagogo, bem como sua educação erótica,
fruto do tipo de interesse dos seus amantes, os quais,
apenas desfrutaram de sua beleza, não o incentivou a cuidar
de si mesmo. Em terceiro, ele está na idade correta, por não
estar mais na mão dos pedagogos e, ademais, na medida em que
atingiu determinada idade, seus amantes desinteressaram-se
por ele. Aqui, o ‘cuidado de si’ é “uma necessidade de
jovens numa relação entre eles e seu mestre, ou entre eles e
seus amantes, ou entre eles e seu mestre e amante”
(FOUCAULT, 2004, p. 49). Em quarto, por fim, há a ignorância
do objeto. Alcebíades não sabe o objetivo e o fim da
concórdia dos cidadãos como atividade política. Por não
saber o que é o bom governo, precisa ‘cuidar de si mesmo’.
Vemos, então, surgir, a
partir do ‘cuidado de si’ duas questões. A primeira diz
respeito ao sujeito: o que é o si mesmo? E a segunda: qual é
a tékne para um bom governo? “Qual o eu de que
devo ocupar-me a fim de poder, como convém, ocupar-me com os
outros a quem devo governar?” (FOUCAULT, 2004, p. 51).
Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o
cuidado necessário para governar os outros?
Podemos distinguir, na arte
da sapataria, os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro.
O mesmo verifica-se na música, na qual distinguimos a cítara
de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos? Temos aí as
mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não
pode servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das
mãos, dos olhos, da linguagem e de todo o corpo só pode ser
a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis
indica um comportamento, uma atitude, relações com os outros
e consigo mesmo, mas que não é instrumental, nem
substancial, mas sim transcendente e subjetivo.
Ao concebermos a alma
enquanto sujeito, o ‘cuidado de si’ passa a distinguir-se em
três outros tipos de atividades. Primeiro, Foucault enuncia
o exemplo do médico: quando o médico adoece e aplica sobre
si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa consigo
mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o
corpo, e não com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a
economia: quando um proprietário ocupa-se com suas posses,
seus bens e sua família, ele está ocupando-se consigo mesmo?
Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não com ele
mesmo. Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o
próprio Alcibíades? Da mesma forma que nos exemplos
anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles
estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem
cuida de Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua
alma. Sócrates é mais que um professor, é mais que um
pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:
Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e
capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar
nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que
cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no
amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de
cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio”
(FOUCAULT, 2004, p. 73).
Sendo assim: o que é o ‘eu’
com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se
consigo mesmo, o que é o ‘cuidado de si’? É conhecer a si
mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o
aparecimento desta referência ao conheça a si mesmo, no
Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas
anteriores. Enquanto a primeira surge como prudência, para
que Alcibíades relacione suas ambições com suas capacidades,
isto é, para que ele perceba suas limitações e perceba a
importância em ocupar-se consigo mesmo; a segunda, surge
para responder quem é o si mesmo com que se deve ocupar. E,
finalmente, agora ele surge de maneira direta e decisiva,
para dizer que o ‘cuidado de si’ é o conhecimento de si
mesmo. E este momento afetará toda a cultura grega-romana. A
partir deste momento, surge a justificativa para que o
‘cuidado de si’, ou seja, para que todas as práticas
espirituais sejam organizadas em torno do ‘conheça a ti
mesmo’.
E como devemos nos
conhecer? Para chegar a esta resposta partimos do exemplo do
olho e do espelho. Quando nos vemos no olho de alguém,
semelhante a nós, vemos-nos a nós mesmos. Mas este si mesmo
que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é também
no olho do outro. Para ver-se a alma, é preciso que se volte
para um elemento de sua própria natureza. E qual é a
natureza da alma? O pensamento e o saber. Sendo divinos o
pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o divino,
com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria,
sophrosýne. Assim, a alma conhecerá a diferença entre
o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e saberá,
enfim, governar a cidade.
No final do diálogo,
Alcebíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois
ocupar-se consigo mesmo ou com a justiça, são equivalentes,
já que tudo surgiu a partir da preocupação em se tornar um
bom governante.
Subjetividade, Experiência
e Cuidado de Si
Com Foucault, entende-se
que o sujeito se produz num determinado momento histórico de
duas formas bem distintas: como conservação ou transformação
das maneiras de existir. Na medida em que aceita o que é
dito sobre e para ele, sofre um ‘assujeitamento’,
muitas vezes capaz de tornar sua própria vontade equivalente
ao discurso externo. Mas, quando faz uma experiência de si
mesmo, entendida como subjetivação, possibilita uma
emancipação dos mecanismos de dominação expressos como
verdade. Ao contrário da sujeição, a subjetividade
identifica-se com a subjetivação, abrindo a possibilidade de
existências singulares ao ocupar-se consigo mesmo. Na
dimensão da subjetividade, não se trata apenas de
conhecer-se, mas de desencadear todo um processo de mudança,
capaz de criar um sentido e um significado auto-referente
para si mesmo.
Se a experiência surge em
um vazio o qual é resultado da tensão entre as diversas
áreas do saber, as regras de conduta e a possibilidade de
subjetivação, a escola deve ser o local privilegiado para o
‘cuidado de si’. O nosso grande problema é que a maioria dos
professores, e para além deles, a maioria dos funcionários
que se colocam hierarquicamente como fiscalizadores do
ensino, permanecem presos à perspectiva da recognição de
conteúdos, privilegiando o conhecimento científico,
universal e impessoal, e raramente de si mesmo. Com efeito,
não encontramos na escola uma relação como a de Sócrates e
Alcibíades, muito embora ela permaneça como possibilidade. A
amizade que se estabelece entre alunos e professores é ainda
hoje, como na antiguidade, uma condição para a produção
cuidadosa de subjetividades. Uma vez que a maior parte das
disciplinas se encontra comprometida com um currículo fixado
e “assujeitador” dos alunos aos conhecimentos tidos como
necessários para sua vida profissional e social, vê-se, no
recente retorno da filosofia, uma possibilidade de retorno
do ´cuidado de si’. Mas que não percamos isto de vista, já
que não podemos permitir que a filosofia na escola seja
ancorada na história da filosofia e nem estagnada no
conhecimento de si mesmo, uma vez que seu objetivo principal
é o de possibilitar a experiência de si mesmo por parte de
alunos e professores.
Deixemos de lado o modelo
dos professores auto-forjados na sociedade de controle
atual, reprodutores de habilidades e capacidades, para nos
transformarmos em mestres, focalizados na potencialidade
particular de cada aluno. Mas, para possibilitar o ‘cuidado
de si’ nos alunos, o professor de filosofia precisa antes
‘ocupar-se consigo mesmo’.
Trabalhado devidamente, o
‘cuidado de si’ pode servir como resistência às formas
contemporâneas de narcisismo, já que é na relação com os
outros que nos construímos, como bem nos lembra o editor da
“Hermenêutica do Sujeito”: “O sujeito, descoberto no
cuidado, é totalmente o contrário de um indivíduo isolado: é
um cidadão do mundo” (FOUCALT, 2004, p. 652).
O discurso do Alcebíades
pode ser atualizado de maneira a mostrar que é o ‘cuidado de
si’ que nos capacita a cuidar dos outros, em suas várias
esferas políticas e sociais, mas que não se restrinja a
jogar conforme as regras eleitorais. Pelo contrário, tal
fato indica a necessidade de encontrar outros caminhos,
novas formas de participação.
Em uma perspectiva
libertadora, precisamos abandonar o conceito de um sujeito
fixo e autônomo. Precisamos, de fato, questionar
constantemente pela razão e pelo motivo pelo qual estamos
nos tornando o que somos. Para isto, proponho o pensamento
de nossa infância, enquanto uma metáfora para o novo, para o
desconhecido, para o espanto e para a invenção de si mesmo.
Nossa alma é, desde sempre, como uma criança recém nascida:
néos aeì gignómenos.
Nascemos a cada instante, e somos sempre as mais novas
possibilidades de ser.
Referências:
FOUCAULT, Michel. A
hermenêutica do sujeito.
São Paulo : Martins Fontes. 2004.
________________. Estratégia, poder-saber. Rio de
Janeiro : Forense Universitária. 2003.
ORTEGA, Francisco. Amizade e estética de existência em
Foucault. Rio de Janeiro :
Edições Graal. 1999.
PESSOA, Fernando. A criança que fui chora na estrada.
Disponível em:
<http://www.eurooscar.com/poesoutros/pessoa3.htm >. Acessado
em 06/08/2006.
KOHAN, Walter Omar.
Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte.
Autêntica. 2003.
Foucault nos apresenta a interpretação de 1901,
feita por Roscher, para quem os três preceitos eram
regras bem práticas, condições que possibilitavam a
arte de obter a resposta de um deus. Assim o
medèn ágan, (nada em demasia), tinha o objetivo
prático de refinar e reduzir as questões; os
engýe (cauções) eram um lembrete para que os
consulentes não fizessem promessas que não pudessem
cumprir; e o gnôthi seautón (conhece-te a ti
mesmo), era um exame de si mesmo, necessário no
processo de identificar o que realmente precisava
perguntar, para não perguntar em demasia. Segundo
Foucault, Defragas, em 1954, diz que os três
preceitos délficos são ordens destinadas à
prudência, sendo o nada em demasia direcionado às
esperanças e à condução própria; as cauções, uma
prevenção da generosidade excessiva; e o conhece-te
a ti mesmo, uma lembrança da condição limitada do
homem mortal frente a um deus (FOUCALT, 2004, p. 6).