|
"O QUADRO"
Eu era jovem e solit�rio, passava a maior parte do tempo comigo e meus pensamentos, isso causava preocupa��o em meus familiares e os poucos amigos que eu possu�a. Todos buscavam explica��es para o meu comportamento, sem obter nenhum sucesso, pra dizer a verdade, nem mesmo eu podia explicar aquela condi��o t�o distante do mundo e das pessoas, eu simplesmente era o que eu era, sem motivo algum. Fui tratado durante anos como se estivesse sofrendo de alguma doen�a letal, e mesmo sem poder entender, todos buscavam uma solu��o para o meu "problema". Deus, como d�i n�o ser compreendido!!! Mas apesar de tudo, eu n�o me deixava levar pela raiva, pois eu entendia que os que me cercavam agiam assim, por gostar de mim e n�o aceitar o meu jeito de ser, imaginando que isso me trazia dor, quando o que me fazia sofrer era exatamente a n�o aceita��o por parte deles. At� que uma noite, meu irm�o mais velho, me disse irado: - Chega, Cl�udio! Ponha uma roupa decente, e vamos sair! Hoje eu te arrumo uma namorada de qualquer jeito! Lembro que a lua aquela noite, juntamente com as estrelas, formavam um espet�culo dos mais extraordin�rios, do tipo que s� se v� uma vez na vida, considerei que seria mesmo interessante sair para admirar a noite, mas n�o esperava arrumar algu�m, Como ele queria a todo custo, assim eu me vesti e sa� com meu irm�o. Est�vamos nos dirigindo a uma festa de anivers�rio de uma "amiga" do meu irm�o, quando passamos em frente a uma escola de arte, onde estavam sendo expostos os trabalhos dos alunos. Nunca me interessei por arte, mas estranhamente, uma vontade louca de ver a tal exposi��o tomou conta de mim. Com muita dificuldade convenci meu irm�o a parar o carro e fomos at� a exposi��o. Tratava-se de uma exposi��o de quadros, que enfeitavam as paredes daquela galeria improvisada, dando a todo lugar uma beleza da mais profunda espiritualidade. Calmamente eu andava pela exposi��o, admirando cada obra. Meu irm�o perguntava a cada dois segundos: "Podemos ir embora?". De repente, dei de cara com um quadro, que teve sobre mim o efeito de um raio. Era a pintura de um lindo, mas sombrio, sobrado, em frente ao qual havia um jardim florido e impressionantemente colorido e um muro escuro e sem nenhum port�o de entrada, que cercava todo sobrado, com uma linda noite de luar de fundo. Foi imposs�vel conter a emo��o, comecei a chorar: - Cl�udio, para com isso! N�o me mata de vergonha!- Meu irm�o disse, ficando vermelho. - Voc� n�o v�?- perguntei com os olhos fixos no quadro, como se estivesse hipnotizado. - O qu�? - A profundidade deste quadro! - A profund...?! Cl�udio, esse quadro � pat�tico!!! - Voc� acha pat�tico, porque s� v� a pintura em si, n�o enxerga sua alma, n�o podendo ver o que eu vejo! - O que voc� v�?- uma voz feminina e doce me perguntou, sem conseguir no entanto me tirar do transe no qual eu me encontrava, meu irm�o ficou mudo desse momento em diante. - Quem pintou esse quadro, sofre de uma terr�vel solid�o, causada pela incompreens�o da cegueira humana, que n�o enxerga nada al�m dos muros sombrios do julgamento, impedindo que se penetre na verdadeira beleza do ser, cegueira que impede a magn�fica vis�o da alma deste artista, t�o colorida quanto este florido jardim, no qual qualquer um se perderia em meio a tanta beleza. - eu respondi tomado de emo��o, mas sem tirar os olhos do quadro. - Voc� falou dos muros e do jardim, e quanto ao sobrado sombrio?- perguntou mais uma vez a voz gentil, t�o comovida quanto eu. - Este sobrado t�o sombrio, representa o cora��o solit�rio do pintor, afinal, se n�o se pode penetrar a alma de algu�m e compreende-l�, n�o se pode ama-l� com for�a e verdade. - Como voc� pode enxergar tudo isso num simples quadro? - fez outra pergunta a encantadora voz, com tamanha suavidade, que por um instante, cheguei a estremecer. - eu tamb�m me sinto assim! Olhando este quadro eu vejo toda minha dor, por viver em um mundo que eu n�o entendo e que n�o me entendi, meu desejo louco de encontrar algu�m, que possa, simplesmente, me olhar sem julgamentos, pra terminar com a minha solid�o... - nesse momento, minha voz se calou e meu cora��o come�ou a ficar apertado dentro do peito, mais uma l�grima rolou pelo meu rosto - gostaria de conhecer este artista!- eu disse por fim. - Muito prazer! - a voz, cujo rosto, at� ent�o eu n�o havia olhado, respondeu. Espantado desviei meus olhos do quadro, e a vi pela primeira vez. Cada detalhe dela, foi gravado na minha alma, seus olhos e seus cabelos negros, sua pele morena, sua boca, tudo. Nos olhamos como se estiv�ssemos esperado um pelo outro a vida inteira. Choramos, tamanha era a alegria de simplesmente, pousarmos os olhos um no outro. N�o houve mais palavras, tomados pelo impulso, nos beijamos com loucura e paix�o. E foi a partir da�, que eu soube que passaria o resto da minha vida com aquela garota. Serena, este era seu nome, o nome que durante estes trinta anos eu tenho repetido com a mesma paix�o e loucura daquele dia, em que o destino uniu duas almas g�meas, nascidas uma para a outra, que jamais conheceram o amor por outros bra�os, antes daquele momento, que carregaremos juntos, por toda eternidade.
Autor: Nil Alves |
|