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Mônica
Pinto / AmbienteBrasil
A gente não consegue vê-las, mas elas estão por toda parte. As
ondas eletromagnéticas fazem parte do cotidiano da sociedade
contemporânea em níveis outrora impensáveis. Mas, ao mesmo tempo em que
proporcionam os confortos de TVs e celulares – para ficar só em dois exemplos
-, evocam temores diversos, muitos dos quais infundados.
Para conferir a diferença entre mito e realidade, AmbienteBrasil
conversou com o engenheiro eletricista catarinense Walter Pereira Carpes
Junior, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFSC desde 1993.
Atualmente, ele ministra aulas nos cursos de graduação e pós-graduação, incluindo
as disciplinas "Propagação de Ondas Eletromagnéticas" e
"Engenharia de Antenas". Obteve grau de Mestre em Ciências pela
mesma instituição em 92 e, oito anos após, de Doutor em Engenharia, desta vez
pela Université de Paris XI.
AmbienteBrasil - O que existe de
científico e comprovado em relação aos efeitos da radiação eletromagnética
na saúde dos seres humano?
Walter Pereira Carpes Junior - Em primeiro lugar é preciso fazer a
distinção entre os dois tipos de radiação que existem, a saber, ionizantes e não-ionizantes. A
ação de uma onda eletromagnética sobre tecidos vivos depende da freqüência
(número de ciclos por segundo) desta onda. A energia que vem pela rede
elétrica tem freqüência de 60Hz (onde 1Hz = 1 Hertz = 1 ciclo por segundo).
Rádios AM operam em freqüências em torno de 1MHz (um milhão de ciclos por
segundo), rádios FM em torno de 100MHz e fornos de microondas trabalham em
2450MHz. Telefones celulares e suas estações rádio-base (ERBs),
geralmente instaladas em torres, operam em freqüências entre 800MHz e
2200MHz. Em todos estes exemplos, as freqüências envolvidas não são
suficientemente altas para ionizar (quebrar as ligações de) os átomos dos
tecidos biológicos e, portanto, não causam mutações nas células. Estas
radiações são ditas não-ionizantes.
Por outro lado, nas freqüências extremamente elevadas dos raios-X (acima de
um trilhão de ciclos por segundo) e das emissões de substâncias radioativas
(como urânio ou césio 137, por exemplo), as ondas têm energia suficiente para
quebrar as ligações químicas, causando dano no material genético dos tecidos
vivos, o que pode causar câncer e defeitos em fetos. Estas radiações são
ditas ionizantes. Desta forma, as radiações
provenientes de equipamentos de telecomunicação (rádio, TV, telefones
celulares, ERBs, etc), ditas de “radiofreqüência”
(RF), têm natureza e efeitos completamente diferentes das radiações de
raios-X e de substâncias radioativas.
AmbienteBrasil – Não há, então, nenhum
risco nas radiações não ionizantes?
Walter - Se a radiação eletromagnética for suficientemente intensa, mesmo
as radiações de rádiofreqüência, não ionizantes, podem causar danos nos tecidos biológicos,
incluindo queimaduras, cataratas, etc. Todos estes efeitos resultam do
aquecimento dos tecidos provocado pela energia eletromagnética.
São designados, portanto, como “efeitos térmicos” da radiação
eletromagnética. No caso de antenas usadas nas torres de telefonia celular, é
preciso frisar, entretanto, que as potências radiadas são muito baixas para
provocar aquecimento, exceto, possivelmente, se a pessoa estiver muito
próxima da antena da ERB.
Mesmo nas transmissões de rádio e TV, que envolvem potências bem maiores que aquelas usadas em telefonia celular, os níveis de
exposição das pessoas, em condições normais, estão abaixo dos valores máximos
recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
Por fim, é importante mencionar que, mesmo para altos níveis de exposição,
não há nenhuma evidência comprovada de que radiações de RF causem ou
contribuam para o desenvolvimento de câncer. Embora as pesquisas nesta área
sejam intensivas, não há nenhum estudo epidemiológico ou obtido através de
repetição de experimentos em diferentes laboratórios que conclua que radiação
de RF esteja associada a qualquer tipo de câncer.
AmbienteBrasil - É verdade que alguns
casos de Ler podem ser atribuídos às ondas emitidas pelos monitores de
computador, e não ao esforço repetitivo em si?
Walter - Com certeza, não. As ondas emitidas pelos monitores de
computador não têm nenhum efeito danoso à saúde humana. Os problemas de Ler
ou de visão, comuns em quem trabalha muito tempo com computador, devem-se a
outras causas (postura, esforço repetitivo, etc) e nada têm a ver com os
campos eletromagnéticos emitidos pelo monitor.
AmbienteBrasil - As ondas são mensuráveis.
É possível medi-las em qualquer circunstância?
Walter - Sim, elas são mensuráveis. Existem aparelhos que permitem medir
a intensidade dos campos eletromagnéticos radiados pelos equipamentos
eletroeletrônicos. É também possível obter o valor dos campos através de
simulação numérica. Neste caso, métodos matemáticos são utilizados para
calcular o valor dos campos usando o computador. Para obter valores precisos,
deve-se dispor de uma descrição detalhada do ambiente a ser analisado
(aspectos geométricos, materiais envolvidos, características das fontes de
campo, etc).
AmbienteBrasil - Faz mal ter TV no
quarto?
Walter - Do ponto de vista de problemas relacionados à radiação
eletromagnética, definitivamente não há problema algum em ter TV no quarto.
Assim, o único problema em dormir com a TV ligada é o desperdício de energia
elétrica, que vai ser sentido na hora de pagar a fatura de energia. Outro
problema, ao menos para quem divide o quarto com outra pessoa, é a guerra
pelo controle remoto!
AmbienteBrasil - E ficar perto do forno de microondas, é
seguro?
Walter - Os fornos de microondas trabalham com níveis de potência
elevados (cerca de 1000 watts), os quais provocam aquecimento dos tecidos
vivos. Mas a energia envolvida fica confinada ao espaço interno do forno e
não há riscos para a saúde de quem fica perto dele, ao menos para aparelhos
em bom estado de conservação. Além disso, todos os fornos disponíveis no
mercado dispõem de dispositivos de segurança que cortam a geração das
microondas quando a porta do forno é aberta.
Em caso de fornos com defeito, pode haver fuga das microondas se a dobradiça,
o trinco ou a vedação da porta estiverem danificados. Neste caso deve-se
evitar seu uso. Ainda assim, em caso de fugas elevadas, o efeito causado no ser
humano seria o aquecimento de seus tecidos. Não há nenhuma comprovação de que
isso cause câncer, mas pode causar catarata, por exemplo.
É muito comum ouvir que se deve esperar algum tempo para abrir o forno depois
de desligado para permitir que as microondas “desapareçam”. Não há nenhum
fundamento nisso, pois as microondas dentro do forno se extinguem quase que
instantaneamente ao desligarmos o aparelho. Entretanto, no aquecimento de
líquidos, é possível que ocorra o fenômeno da erupção retardada, ou seja,
alguns segundos após o término da operação, o líquido pode entrar em
ebulição, em função do choque térmico, espirrar e causar queimaduras. Mas
este problema é causado pela formação de bolhas no interior dos líquidos e
não se deve à presença das microondas.
AmbienteBrasil - A legislação brasileira
já toma cuidados em relação à exposição humana às ondas eletromagnéticas?
Walter - Há diversas agências internacionais que estabeleceram níveis
máximos de exposição de pessoas (ocupacional e para público em geral) às
radiações eletromagnéticas Os padrões mais conhecidos e aceitos são os
desenvolvidos pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE)
em conjunto com o Instituto Americano de Padrões (ANSI), os da Comissão
Federal de Comunicações dos EUA (FCC) e os da Comissão Internacional sobre a
Proteção contra Radiação Não-Ionizante (ICNIRP).
Estes padrões foram estabelecidos após extensiva análise de toda a literatura
disponível no assunto em todo o mundo e já incluem fatores de segurança
significativos.
No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
publicou um Anexo à Resolução 303 de 2 de julho de 2002 que regulamenta os
limites da exposição a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos na
faixa de radiofreqüência entre 9kHz (nove mil ciclos por segundo)
e 300GHz (trezentos bilhões de ciclos por segundo). No artigo primeiro do
capítulo primeiro das Disposições Gerais, têm-se os objetivos e a
abrangência: “Este regulamento tem por objetivo estabelecer limites para a
exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos, na faixa
de radiofreqüências entre 9kHz e 300GHz, associados à operação de estações
transmissoras de radiocomunicação de serviços de telecomunicações, bem como
definir métodos de avaliação e procedimentos a serem observados quando do
licenciamento de estações de radiocomunicação, no que diz respeito a aspectos
relacionados à exposição a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos na
referida faixa de radiofreqüências”.
Os níveis de referência adotados pela Anatel são os
mesmos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), os quais foram
estabelecidos pela ICNIRP.
AmbienteBrasil - O que as pessoas podem
fazer, no dia-a-dia, para correrem menos riscos?
Walter - Em primeiro lugar, é preciso não ter medo das radiações
eletromagnéticas. Elas são usadas para melhorar nossas vidas e não para
piorá-las. As pessoas devem também dar pouca atenção a informações
alarmistas, sem valor cientifico, que de tempos em tempos são ventiladas na
mídia e que acabam gerando fobias infundadas em relação à radiação
eletromagnética. Estas fobias, sim, podem gerar efeitos psicossomáticos
nocivos e já comprovados sobre a saúde das pessoas.
AmbienteBrasil - Há pouco tempo se dizia
que o uso do celular pode contribuir para o desenvolvimento de câncer no
cérebro. Há algum fundamento nisso?
Walter - Não há nenhuma evidência científica até os dias de hoje que
comprove o efeito nocivo das ondas eletromagnéticas de RF (incluindo as
emitidas por ERBs e por aparelhos celulares) sobre
a saúde de seres humanos. Os únicos efeitos danosos da radiação de RF
comprovados estão relacionados ao aquecimento dos tecidos pela energia
eletromagnética (efeitos térmicos). Entretanto, os níveis de radiação típicos
envolvidos em telefonia celular estão muito abaixo dos valores susceptíveis
de causar aquecimento dos tecidos. Mesmo para altos níveis de exposição, não
há nenhuma evidência substancial de que radiações de RF causem ou contribuam
para o desenvolvimento de câncer. Embora as pesquisas nesta área sejam
intensivas, não há nenhum estudo epidemiológico ou obtido através de
repetição de experimentos em diferentes laboratórios que conclua que radiação
de sistemas celulares esteja associada a qualquer tipo de câncer.
Quanto aos efeitos atérmicos, que aconteceriam em
níveis de exposição mais baixos, não existe nenhuma evidência científica nem
resultados reproduzidos em diferentes laboratórios que permitam concluir que
tais efeitos possam causar algum prejuízo à saúde dos seres humanos.
AmbienteBrasil – Mas então porque na
Europa as antenas de celular têm 180 graus, justamente para que a outra
metade, a que fica mais em contato com a cabeça, teoricamente não se
transforme em ameaça?
Walter - Nos celulares que usam antenas omnidirecionais
(monopólos), a radiação se espalha a partir da
antena para todas as direções. Isto faz com que a cabeça acabe captando a
maior parte da potência radiada, o que diminui a eficiência da transmissão.
Literalmente, gasta-se boa parte da energia da
bateria do celular para aquecer a cabeça! Mas passear ao sol também aquece a
cabeça e não há nenhum estudo que associe os passeios ao sol com câncer no
cérebro.
Atualmente, muitos fabricantes de celulares - não só na Europa, mas no mundo todo - têm usado antenas que direcionam a energia radiada
para o lado oposto à cabeça. Isto se traduz num aumento da eficiência da
transmissão, já que toda a potência radiada pela antena é efetivamente usada
para a comunicação e não para o aquecimento indesejável da cabeça. Uma
conseqüência imediata é a diminuição da necessidade de recarregar a bateria
seguidamente.
AmbienteBrasil - É realmente perigoso
fazer ligações de celular - ou atender o aparelho - em postos de
combustíveis?
Walter - Não há nenhum caso comprovado no mundo que indique que o uso de
celular em postos de combustíveis possa causar explosões. Os circuitos
eletrônicos dos celulares não produzem faíscas e a energia eletromagnética
emitida é insuficiente para provocar explosão. Esta é mais uma das lendas
urbanas que pululam hoje em dia, principalmente pela facilidade em se
espalhar boatos através da internet. Perigo
mesmo é dirigir falando ao celular. Este risco, sim, já está mais do que
comprovado.
AmbienteBrasil - Por que é exigido o
desligamento dos aparelhos nos aviões?
Walter - O uso de telefones celulares nos aviões foi proibido muito mais
para evitar interferência nas freqüências usadas para a comunicação durante o
vôo do que para evitar interferências com os circuitos eletrônicos de
navegação. Tais circuitos são projetados de maneira a ser
bastante imunes às radiações eletromagnéticas, pois estão sujeitos às
radiações dos aparelhos de telecomunicação usados pela aeronave, os quais
trabalham com níveis de potências bem maiores do que aqueles dos telefones
celulares.
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