14/08/2005
ENTREVISTA EXCLUSIVA - Walter Pereira Carpes Junior

Mônica Pinto / AmbienteBrasil


A gente não consegue vê-las, mas elas estão por toda parte.  As ondas eletromagnéticas  fazem parte do cotidiano da sociedade contemporânea em níveis outrora impensáveis. Mas, ao mesmo tempo em que proporcionam os confortos de TVs e celulares – para ficar só em dois exemplos -, evocam temores diversos, muitos dos quais infundados.


Para conferir a diferença entre mito e realidade, AmbienteBrasil conversou com o engenheiro eletricista catarinense Walter Pereira Carpes Junior, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFSC desde 1993. Atualmente, ele ministra aulas nos cursos de graduação e pós-graduação, incluindo as disciplinas "Propagação de Ondas Eletromagnéticas" e "Engenharia de Antenas". Obteve grau de Mestre em Ciências pela mesma instituição em 92 e, oito anos após, de Doutor em Engenharia, desta vez pela Université de Paris XI.


AmbienteBrasil - O que existe de científico e comprovado em relação aos efeitos da radiação eletromagnética na saúde dos seres humano?
Walter Pereira Carpes Junior -
Em primeiro lugar é preciso fazer a distinção entre os dois tipos de radiação que existem, a saber, ionizantes e não-ionizantes. A ação de uma onda eletromagnética sobre tecidos vivos depende da freqüência (número de ciclos por segundo) desta onda. A energia que vem pela rede elétrica tem freqüência de 60Hz (onde 1Hz = 1 Hertz = 1 ciclo por segundo). Rádios AM operam em freqüências em torno de 1MHz (um milhão de ciclos por segundo), rádios FM em torno de 100MHz e fornos de microondas trabalham em 2450MHz. Telefones celulares e suas estações rádio-base (ERBs), geralmente instaladas em torres, operam em freqüências entre 800MHz e 2200MHz. Em todos estes exemplos, as freqüências envolvidas não são suficientemente altas para ionizar (quebrar as ligações de) os átomos dos tecidos biológicos e, portanto, não causam mutações nas células. Estas radiações são ditas não-ionizantes.
Por outro lado, nas freqüências extremamente elevadas dos raios-X (acima de um trilhão de ciclos por segundo) e das emissões de substâncias radioativas (como urânio ou césio 137, por exemplo), as ondas têm energia suficiente para quebrar as ligações químicas, causando dano no material genético dos tecidos vivos, o que pode causar câncer e defeitos em fetos. Estas radiações são ditas ionizantes. Desta forma, as radiações provenientes de equipamentos de telecomunicação (rádio, TV, telefones celulares, ERBs, etc), ditas de “radiofreqüência” (RF), têm natureza e efeitos completamente diferentes das radiações de raios-X e de substâncias radioativas.


AmbienteBrasil – Não há, então, nenhum risco nas radiações não ionizantes?
Walter -
Se a radiação eletromagnética for suficientemente intensa, mesmo as radiações de rádiofreqüência,  não ionizantes, podem causar danos nos tecidos biológicos, incluindo queimaduras, cataratas, etc. Todos estes efeitos resultam do aquecimento dos tecidos provocado pela energia eletromagnética. São designados, portanto, como “efeitos térmicos” da radiação eletromagnética. No caso de antenas usadas nas torres de telefonia celular, é preciso frisar, entretanto, que as potências radiadas são muito baixas para provocar aquecimento, exceto, possivelmente, se a pessoa estiver muito próxima da antena da ERB.
Mesmo nas transmissões de rádio e TV, que envolvem potências bem maiores que aquelas usadas em telefonia celular, os níveis de exposição das pessoas, em condições normais, estão abaixo dos valores máximos recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
Por fim, é importante mencionar que, mesmo para altos níveis de exposição, não há nenhuma evidência comprovada de que radiações de RF causem ou contribuam para o desenvolvimento de câncer. Embora as pesquisas nesta área sejam intensivas, não há nenhum estudo epidemiológico ou obtido através de repetição de experimentos em diferentes laboratórios que conclua que radiação de RF esteja associada a qualquer tipo de câncer.


AmbienteBrasil - É verdade que alguns casos de Ler podem ser atribuídos às ondas emitidas pelos monitores de computador, e não ao esforço repetitivo em si?
Walter -
Com certeza, não. As ondas emitidas pelos monitores de computador não têm nenhum efeito danoso à saúde humana. Os problemas de Ler ou de visão, comuns em quem trabalha muito tempo com computador, devem-se a outras causas (postura, esforço repetitivo, etc) e nada têm a ver com os campos eletromagnéticos emitidos pelo monitor.


AmbienteBrasil - As ondas são mensuráveis. É possível medi-las em qualquer circunstância?
Walter -
Sim, elas são mensuráveis. Existem aparelhos que permitem medir a intensidade dos campos eletromagnéticos radiados pelos equipamentos eletroeletrônicos. É também possível obter o valor dos campos através de simulação numérica. Neste caso, métodos matemáticos são utilizados para calcular o valor dos campos usando o computador. Para obter valores precisos, deve-se dispor de uma descrição detalhada do ambiente a ser analisado (aspectos geométricos, materiais envolvidos, características das fontes de campo, etc).


AmbienteBrasil - Faz mal ter TV no quarto?
Walter -
Do ponto de vista de problemas relacionados à radiação eletromagnética, definitivamente não há problema algum em ter TV no quarto. Assim, o único problema em dormir com a TV ligada é o desperdício de energia elétrica, que vai ser sentido na hora de pagar a fatura de energia. Outro problema, ao menos para quem divide o quarto com outra pessoa, é a guerra pelo controle remoto!


AmbienteBrasil - E ficar perto do forno de microondas, é seguro?
Walter -
Os fornos de microondas trabalham com níveis de potência elevados (cerca de 1000 watts), os quais provocam aquecimento dos tecidos vivos. Mas a energia envolvida fica confinada ao espaço interno do forno e não há riscos para a saúde de quem fica perto dele, ao menos para aparelhos em bom estado de conservação. Além disso, todos os fornos disponíveis no mercado dispõem de dispositivos de segurança que cortam a geração das microondas quando a porta do forno é aberta.
Em caso de fornos com defeito, pode haver fuga das microondas se a dobradiça, o trinco ou a vedação da porta estiverem danificados. Neste caso deve-se evitar seu uso. Ainda assim, em caso de fugas elevadas, o efeito causado no ser humano seria o aquecimento de seus tecidos. Não há nenhuma comprovação de que isso cause câncer, mas pode causar catarata, por exemplo.
É muito comum ouvir que se deve esperar algum tempo para abrir o forno depois de desligado para permitir que as microondas “desapareçam”. Não há nenhum fundamento nisso, pois as microondas dentro do forno se extinguem quase que instantaneamente ao desligarmos o aparelho. Entretanto, no aquecimento de líquidos, é possível que ocorra o fenômeno da erupção retardada, ou seja, alguns segundos após o término da operação, o líquido pode entrar em ebulição, em função do choque térmico, espirrar e causar queimaduras. Mas este problema é causado pela formação de bolhas no interior dos líquidos e não se deve à presença das microondas.


AmbienteBrasil - A legislação brasileira já toma cuidados em relação à exposição humana às ondas eletromagnéticas?
Walter -
Há diversas agências internacionais que estabeleceram níveis máximos de exposição de pessoas (ocupacional e para público em geral) às radiações eletromagnéticas Os padrões mais conhecidos e aceitos são os desenvolvidos pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) em conjunto com o Instituto Americano de Padrões (ANSI), os da Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) e os da Comissão Internacional sobre a Proteção contra Radiação Não-Ionizante (ICNIRP). Estes padrões foram estabelecidos após extensiva análise de toda a literatura disponível no assunto em todo o mundo e já incluem fatores de segurança significativos.
No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) publicou um Anexo à Resolução 303 de 2 de julho de 2002 que regulamenta os limites da exposição a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos na faixa de radiofreqüência  entre 9kHz (nove mil ciclos por segundo) e 300GHz (trezentos bilhões de ciclos por segundo). No artigo primeiro do capítulo primeiro das Disposições Gerais, têm-se os objetivos e a abrangência: “Este regulamento tem por objetivo estabelecer limites para a exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos, na faixa de radiofreqüências entre 9kHz e 300GHz, associados à operação de estações transmissoras de radiocomunicação de serviços de telecomunicações, bem como definir métodos de avaliação e procedimentos a serem observados quando do licenciamento de estações de radiocomunicação, no que diz respeito a aspectos relacionados à exposição a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos na referida faixa de radiofreqüências”.
Os níveis de referência adotados pela Anatel são os mesmos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), os quais foram estabelecidos pela ICNIRP.


AmbienteBrasil - O que as pessoas podem fazer, no dia-a-dia, para correrem menos riscos?
Walter -
Em primeiro lugar, é preciso não ter medo das radiações eletromagnéticas. Elas são usadas para melhorar nossas vidas e não para piorá-las. As pessoas devem também dar pouca atenção a informações alarmistas, sem valor cientifico, que de tempos em tempos são ventiladas na mídia e que acabam gerando fobias infundadas em relação à radiação eletromagnética. Estas fobias, sim, podem gerar efeitos psicossomáticos nocivos e já comprovados sobre a saúde das pessoas.
  

AmbienteBrasil - Há pouco tempo se dizia que o uso do celular pode contribuir para o desenvolvimento de câncer no cérebro. Há algum fundamento nisso?
Walter -
Não há nenhuma evidência científica até os dias de hoje que comprove o efeito nocivo das ondas eletromagnéticas de RF (incluindo as emitidas por ERBs e por aparelhos celulares) sobre a saúde de seres humanos. Os únicos efeitos danosos da radiação de RF comprovados estão relacionados ao aquecimento dos tecidos pela energia eletromagnética (efeitos térmicos). Entretanto, os níveis de radiação típicos envolvidos em telefonia celular estão muito abaixo dos valores susceptíveis de causar aquecimento dos tecidos. Mesmo para altos níveis de exposição, não há nenhuma evidência substancial de que radiações de RF causem ou contribuam para o desenvolvimento de câncer. Embora as pesquisas nesta área sejam intensivas, não há nenhum estudo epidemiológico ou obtido através de repetição de experimentos em diferentes laboratórios que conclua que radiação de sistemas celulares esteja associada a qualquer tipo de câncer.
Quanto aos efeitos atérmicos, que aconteceriam em níveis de exposição mais baixos, não existe nenhuma evidência científica nem resultados reproduzidos em diferentes laboratórios que permitam concluir que tais efeitos possam causar algum prejuízo à saúde dos seres humanos.


AmbienteBrasil – Mas então porque na Europa as antenas de celular têm 180 graus, justamente para que a outra metade, a que fica mais em contato com a cabeça, teoricamente não se transforme em ameaça?
Walter -
Nos celulares que usam antenas omnidirecionais (monopólos), a radiação se espalha a partir da antena para todas as direções. Isto faz com que a cabeça acabe captando a maior parte da potência radiada, o que diminui a eficiência da transmissão. Literalmente, gasta-se boa parte da energia da bateria do celular para aquecer a cabeça! Mas passear ao sol também aquece a cabeça e não há nenhum estudo que associe os passeios ao sol com câncer no cérebro.
Atualmente, muitos fabricantes de celulares - não só na Europa, mas no mundo todo - têm usado antenas que direcionam a energia radiada para o lado oposto à cabeça. Isto se traduz num aumento da eficiência da transmissão, já que toda a potência radiada pela antena é efetivamente usada para a comunicação e não para o aquecimento indesejável da cabeça. Uma conseqüência imediata é a diminuição da necessidade de recarregar a bateria seguidamente.


AmbienteBrasil - É realmente perigoso fazer ligações de celular - ou atender o aparelho - em postos de combustíveis?
Walter -
Não há nenhum caso comprovado no mundo que indique que o uso de celular em postos de combustíveis possa causar explosões. Os circuitos eletrônicos dos celulares não produzem faíscas e a energia eletromagnética emitida é insuficiente para provocar explosão. Esta é mais uma das lendas urbanas que pululam hoje em dia, principalmente pela facilidade em se espalhar boatos através da internet.  Perigo mesmo é dirigir falando ao celular. Este risco, sim, já está mais do que comprovado.


AmbienteBrasil - Por que é exigido o desligamento dos aparelhos nos aviões?
Walter -
O uso de telefones celulares nos aviões foi proibido muito mais para evitar interferência nas freqüências usadas para a comunicação durante o vôo do que para evitar interferências com os circuitos eletrônicos de navegação. Tais circuitos são projetados de maneira a ser bastante imunes às radiações eletromagnéticas, pois estão sujeitos às radiações dos aparelhos de telecomunicação usados pela aeronave, os quais trabalham com níveis de potências bem maiores do que aqueles dos telefones celulares.

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