|
Jurandir
Melado *
A Pecuária brasileira é uma das mais desenvolvidas do planeta. Recentemente o
país galgou o primeiro lugar na exportação de carne bovina e caminha
rapidamente para a liderança também na exportação de leite. O
Brasil, pela sua privilegiada situação e extensão geográfica, com a maior
parte de seu imenso território possuindo um clima tropical, pode ancorar sua
produção pecuária principalmente no manejo a campo. Isto permite ao país uma
grande capacidade de produção a um custo que não pode ser igualado por nenhum
outro país, incluindo os Estados Unidos e os países
europeus. Porém, existe uma área da pecuária brasileira que,
simultaneamente sofre de grave deficiência e, ao mesmo tempo, é a que pode
possibilitar um tremendo incremento na produção e na produtividade, se
conduzida da forma mais adequada. Esta área é exatamente a área
que mais pode responder positivamente às nossas excepcionais condições
ambientais: o sistema de manejo a campo predominante.
Pastoreio Contínuo: a principal causa da baixa produtividade e da
degradação das pastagens.
No Brasil a maior parte dos estabelecimentos pecuários usa ainda o chamado
“pastoreio contínuo”. Este sistema é o principal fator que contribui para a
baixa produtividade (baixa capacidade de lotação) e a degradação das
pastagens. Entende-se por pastoreio contínuo, o sistema onde o gado fica
sobre uma mesma área de pastagem um período prolongado de tempo, de alguns
dias a casos em que o gado fica permanentemente no mesmo pasto.
O gado, mantido indefinidamente sobre a mesma área, após alguns dias de
permanência, passa a consumir o capim antes que ele complete o seu
desenvolvimento, não permitindo que as plantas refaçam periodicamente suas
reservas, exaure a pastagem, diminuindo progressivamente a sua produtividade
e vigor, com reflexos também na cobertura do solo, que ficando desprotegido,
fica mais suscetível aos efeitos da erosão. Neste sistema, em alguns anos a
pastagem se degrada, necessitando que se promova uma reforma para que ela
recupere sua capacidade produtiva.
Concluindo: não se pode pensar em pastagens sustentáveis, se o sistema de
manejo utilizado é o pastoreio contínuo. Estima-se que de aproximadamente 100
milhões de hectares de pastagens cultivadas do país, cerca da metade ou 50
milhões de hectares, já estejam seriamente afetados pela degradação.
Este manejo extensivo, ainda predominante na grande maioria das propriedades
brasileiras, obriga os produtores a reformarem suas pastagens periodicamente.
Estima-se (SÓRIO, 2000) que, nos últimos 25 anos, só os pecuaristas do Centro
Oeste Brasileiro tenham reformado cerca de 50 milhões de hectares de
pastagens, a um custo aproximado de US$ 10 milhões no período. Talvez seja
este o motivo mais forte para a baixa rentabilidade de pecuária bovina
extensiva em nosso país.
A situação é semelhante também na Região Amazônia: com a redução da
produtividade das pastagens pela degradação, aumentam a demanda por novas
áreas de pastagens e, conseqüentemente a pressão por ampliação da área
utilizada, o que significa novos desmatamentos da floresta.
No modelo predatório que predomina atualmente, a floresta é suprimida para o
estabelecimento de pastagens, que, mal manejadas, diminuem rapidamente sua
capacidade produtiva, impelindo os empreendedores a novas investidas sobre a
floresta para a manutenção e/ou ampliação da atividade pecuária, num trágico
ciclo que elimina grandes áreas da floresta amazônica todos os anos.
Pastagem Ecológica: o caminho racional para a Pecuária Sustentável
“Pastagem Ecológica” foi uma terminologia que usei
para designar a pastagem que obtive na Fazenda Ecológica (N. Sª do Livramento
– MT), através do “Sistema de formação ecológica de pastagens no cerrado”,
onde as pastagens foram formadas sem o uso de práticas convencionais, como o
desmatamento prévio, o fogo e aração do solo. A pastagem resultante
deste processo mantinha tão grande semelhança com o ecossistema original do
cerrado, com manutenção das árvores e de grande números
de espécies nativas, que o adjetivo “Ecológica” foi se impondo naturalmente.
A partir de 1996, iniciamos a publicação dos resultados obtidos, sendo que a
“Pastagem Ecológica” já foi tema de grande número de artigos e reportagens,
além de quatro livros. (Ver bibliografia: MELADO, 1999; MELADO, 2000; MELADO,
2002; MELADO, 2003).
A tecnologia da Pastagem Ecológica se apóia cientificamente no Sistema de
Pastoreio Racional Voisin, que já é considerado como o mais perfeito sistema
de manejo de herbívoros a campo existente. (Ver bibliografia: VOISIN, 1974;
VOISIN, 1979; ROMERO, 1994; ROMERO, 1.998; MELADO, 2003; SORIO, 2000; SORIO,
2003; PINHEIRO MACHADO, 2004;).
A Pastagem Ecológica, que pode ser obtida facilmente no cerrado através de
procedimentos exaustivamente detalhados no meu livro “Manejo de Pastagem
Ecológica - Um Conceito para o Terceiro Milênio”, pode também ser alcançada,
em poucos anos, a partir de uma pastagem qualquer já formada, com a adoção
dos seguintes requisitos:
* Aplicação criteriosa, do Sistema de Pastoreio Racional Voisin;
* Busca por uma diversidade de forrageiras (gramíneas e leguminosas);
* Arborização adequada das pastagens (com preferência por espécies nativas);
* Exclusão do uso de adubações químicas altamente solúveis, herbicidas,
roçadas sistemáticas e o fogo.
O Sistema de Pastoreio Racional Voisin, proposto por André Voisin em 1957, na
primeira edição francesa do seu livro “Produtividade do Pasto”, é um sistema
que permite um equilíbrio positivo dos fatores Solo, Pasto e Gado, com cada
fator tendo um efeito positivo sobre os outros dois. Neste sistema, a
utilização da pastagem é feita através de uma rotação racional, que
proporciona o melhor aproveitamento possível das forrageiras, resultando num
nível de produtividade que chega a três vezes a alcançada pelo sistema
extensivo na mesma pastagem. O Pastoreio Voisin é o principal
componente da “receita” para que uma pastagem se torne sustentável e mais
produtiva. Este sistema, cujo detalhamento não cabe aqui, tem seu ponto
fundamental no atendimento das necessidades fisiológicas do capim, ao mesmo
tempo em que se procura atender às do gado. Ao se fazer isto, automaticamente
as necessidades do solo também são satisfeitas, proporcionando um equilíbrio
positivo do trinômio solo-capim-gado.
O conceito de Pastagem Ecológica vem sendo usado de forma crescente em
diversas regiões do país, principalmente na Região Amazônica, como o melhor
caminho para a obtenção de uma pecuária sustentável e mais produtiva.
A aplicação da Pastagem Ecológica na Região Amazônica vem sendo estimulada há
mais de cinco anos, por programas institucionais voltados para o desenvolvimento
sustentável da região. As principais ações de fomento estão sendo
implementadas pelo Programa Fogo – Programa de Prevenção e Controle dos
Incêndios na Floresta Amazônica, mantido pela Cooperação Italiana e
implementado em Mato Grosso pelas ONGs Instituto Floresta de Pesquisas e
Desenvolvimento Sustentável, no Norte, e Associação Agro-Sócio-Ambiental no
Noroeste. Este programa vem divulgando a Pastagem Ecológica na região,
através de palestras, cursos práticos e implantação de unidades demonstrativas,
cujos resultados positivos já se mostram muito significativos.
A Pastagem Ecológica é também adotada como alternativa para o desenvolvimento
sustentável da pecuária por outros programas como:
* Programa VidAmazônia – “Promoção da Conservação e Uso Sustentável da
Biodiversidade nas Florestas de Fronteira do Noroeste de Mato Grosso”, do
GEF-PNUD, enquanto este programa foi implementado pelo Instituto Pró-Natura;
* Programa Terra Sem Males, mantido pela entidade inglesa: CAFOD - Fundo
Católico de Apoio ao Desenvolvimento, em 15 municípios da região de Ji-Paraná
– RO;
* Projeto GESTAR Araguaia, da Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento
Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, que atua em 15 municípios do
Baixo Araguaia – MT;
* Projeto Cordão de Mata, desenvolvido na Região Norte do Rio de Janeiro,
pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Ambientais – Pró-Natura.
Além da aplicação por programas institucionais, que atendem com prioridade
produtores familiares e pequenos produtores, a alternativa da Pastagem
Ecológica vem sendo usada de forma crescente por médios e grandes produtores
de diversas partes do país através de minha consultoria direta.
Em alguns casos, principalmente devido ao entusiasmo do proprietário, o
projeto se transforma em Unidade Demonstrativa aberta à
visitação. Um exemplo disso é o projeto implantado na Fazenda do Sr. Romério Martins Roncete, localizada em Guarapari – ES,
no trevo da BR 101, quase no perímetro urbano da cidade. A
Fazenda, cujo nome foi em função do projeto, rebatizada como “Fazenda
Ecológica Rancho Novo”, poderá ser visitada, bastando um contato prévio com o
proprietário através do telefone (27) 3261-2397.
Principais publicações sobre a Pastagem Ecológica e Pastoreio Racional
Voisin:
MELADO, Jurandir. Formação e Manejo de Pastagem Ecológica. Viçosa,
CPT, 1999. 70 p. (Manual do Videocurso de mesmo nome)
MELADO, Jurandir. Manejo de Pastagem Ecológica – Um Conceito
Para o Terceiro Milênio. Aprenda Fácil
Editora, Viçosa – MG, 2000. 224 p.
MELADO, Jurandir. Manejo Sustentável de Pastagem sem o uso do fogo.
Embaixada da Itália, Brasília – DF, 2002. 60 p.
MELADO, Jurandir. Pastoreio Racional Voisin: Fundamentos -
Aplicações – Projetos. Aprenda Fácil
Editora, Viçosa – MG, 2003. 300 p.
PINHEIRO MACHADO, Luiz Carlos. Pastoreio Racional Voisin: Tecnologia
Agroecológica para o Terceiro Milênio. Porto Alegre,
Editora 5 Continentes. 2004. 314 p.
ROMERO, Nilo Ferreira. Alimente seus pastos com seus animais.
Guaíba - RS, Livraria e Editora Agropecuária Ltda., 1994. 106 p.
ROMERO, Nilo Ferreira. Manejo Fisiológico dos pastos nativos melhorados.
Guaíba – RS, Livraria e Editora Agropecuária Ltda. , 1998. 110 p.
SORIO Jr., Humberto. A Ciência do Atraso: Índices de lotação da Pecuária
do Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Editora da UFPS, 2000. 160 p.
SÓRIO JR., Humberto. Pastoreio Voisin: Teorias – Práticas – Vivências.
Passo Fundo – RS, Editora da UPF, 2003. 400 p.
VOISIN, André. Produtividade do pasto. São
Paulo: Editora Mestre Jou. 1974. 520 p.
VOISIN, André. Dinâmica das pastagens: devemos lavrar nossas pastagens
para melhorá-las? São Paulo: Editora Mestre
Jou. 1.979. 407 p.
(*) Jurandir Melado é Eng. Agrônomo, Profº
aposentado da UFMT e Consultor em Manejo Sustentável de Pastagens.
[email protected]
www.fazendaecologica.com.br
|