O monocultivo de soja transgênica:

Grande negócio ou política de dominação colonial?
Alimento envenenado?


A República sojeira na presente campanha na Argentina tem semeado
quase 13.000.000 de hectares de soja (transgênica em mais de 95%,
com sérias dificuldades para saber se a comum ainda existe), que
produziram ao redor de 37.000.000 toneladas, por um valor de quase
U$ 7.000 milhões (1) estimando-se que em 2004 se superarão os
14.000.000 de hectares. Da produção total de "grãos", a soja ocupa
mais da metade da produção: 37 milhões de TN sobre 70 milhões
totais, dos quais no caso do milho já tampouco é maioritariamente um
grão, pois igualmente como a soja transgênica seu destino é ser
forragem para a produção de gado na Europa ou na China. De tal forma
que em áreas da convertibilidade, as privatizações, a
desindustrialização forçada, a devastação da nação aplicada desde
1976, porém em particular no largo ciclo de 1898 a 2001, a nação
argentina tem mutado de ser o celeiro do mundo, para transformar-se
em uma republiqueta sojeira, produtora de forragens, para que outros
países com políticas de desenvolvimento sérias, criem seu gado e não
tenham que importá-lo de países como o nosso.

A propagação da soja não veio só; junto com sua explosão desde 1994
até nossos dias, seu avanço veio acompanhado da destruição de outras
produções de alimentos, como o tambo, o gado, a apicultura, montes
frutais, cultivos de sorgo, batata, arveja, lentilha e os cinturões
verdes hortícolas produtores de frutas e verduras, expulsos da
produção pelo duplo processo de impossibilidade de competir
economicamente com uma soja subsidiada por todo modelo econômico e
pelas fumigações aéreas de herbicida e praguicidas que destróem os
cultivos de pequenos produtores. Como produto desta situação, a
Argentina já não produz alimentos, senão majoritariamente forragens
de exportação, "comodities" que geram divisas para pagar a dívida
externa. Se chega a extremos claramente irracionais desde o ponto de
vista agronômico, como é o caso de desmontar áreas de pomares,
florestais, inclusive áreas de recreio para semear soja transgênica.
Também se chega a graves situações como em Santiago del Estero, onde
as empresas sojeiras e os latifundiários apelam para a violência
parapolicial e oficial para expulsar aos camponeses santiagueños que
trabalham e vivem em suas terras há várias gerações. Segundo o
último censo agrário entre 1991 e 2001 tem desaparecido ao redor de
150.000 pequenos produtores (2), produzindo-se a maior concentração
latifundiária da história argentina: 6.200 proprietários possuem
49,6% da terra produtiva total da nação e acompanhando esse processo
de concentração e manipulação produtiva por parte das empresas
multinacionais, 16.000.000 de hectares se encontram em mãos
estrangeiras (2)

Do celeiro do mundo ao monocultivo. Como assinalamos acima, a
diversidade da produção agrícola argentina que a fez merecedora do
qualificativo de celeiro do mundo está mutando por obra e graça da
política de relações carnais e do neoliberalismo, para o monocultivo
de soja transgênica de uso forrageiro. Durante o amplo ciclo de
rotação agrícola de gado que caracterizava nossa produção, a
Argentina produzia a mais variada quantidade de alimentos em sua
ordem nacional assim como fortes produções regionais e hortícolas
que a auto-abasteciam praticamente de todo o tipo de alimentos.
Éramos soberanos desde o ponto de vista da produção de alimentos
enquanto produzíamos todo ou quase todo o que nosso ecossistema
agrícola (o terceiro melhor dotado do planeta) podia produzir, porém
também éramos soberanos porque nossos chacareiros eram donos da
semente para semear de um ano ao outro tal qual o tem feito
historicamente os camponeses, quer dizer que o produtor guardava uma
parte da semente para semear na temporada seguinte. Pois bem, já
não, agora a semente é propriedade do sementeiro internacional que
tem patenteado e exige que as compres ano a ano, destruindo a
soberania nacional sobre a produção de alimentos.

E este não é um fato menor, a partir da política de 1991 de
desregularização levada adiante por Domingo Cavallo, o INTA que
havia desenvolvido uma correta política de variedades e cultivos
agrícolas durante décadas para as distintas áreas de cultivo
argentinos, se viu obrigado a entregar sua coleção de germoplasma
aos sementeiros multinacionais que se apropriarão desde então dos
segredos da produção nacional. A partir dali o INTA foi pouco menos
que uma figura decorativa, a serviço da Monsanto e das companhias
cerealistas, em cujas mãos ficou o controle e a exportação de grãos
ao destruir-se a Junta Nacional de Grãos. Esta política desenvolvida
pela autoridade da agricultura de então - o Engenheiro Felipe Solá -
destruiu a soberania alimentária da argentina iniciando um processo
que está chegando a seu ponto culminante transformando nosso país em
uma colônia a partir do ponto de vista alimentário. Este processo
foi privando aos agricultores de sementes de germoplasma nacional
estabilizados pelas condições ecológicas de nossas regiões, chegando
ao extremo atual onde tem desaparecido cultivos e variedades de
trigo pão, trigo candeal, milho, ervilha, lentilha, tomate, sorgo,
linho, girassol, papa, batata, etc., semeadas durante décadas e
desenvolvidas no país pela INTA ou a Secretaria de Agricultura em
outros tempos, transformando o antigo celeiro do mundo em uma
perigosa republiqueta sojeira (3).

(4) A República da Monsanto se bem que a soja tradicional (não
transgênica) vinha se expandindo em forma continuada desde meados
dos anos sessenta, e a partir de 1994 com a autorização da
autoridade agropecuária (Cavallo-Solá) do cultivo da Soja RR (soja
transgênica com agregado de genes para Resistência ao herbicida
Round-up), que o cultivo da soja cresce exponencialmente, chegando a
ocupar mais da metade da produção total de "grãos" argentino.
Inicialmente a multinacional Monsanto (a empresa norte-americana que
desenvolvera o 2-4-5-T, o famoso Agente Laranja, durante a guerra do
Vietnã - um poderoso arboricida) permitia a livre produção de
semente de soja transgênica aos produtores de um ano para o outro,
pois parecia que seu negócio era a venda do herbicida Round-up,
imprescindível para o sistema de cultivo da mesma. Sem embargo em
uma clara manobra monopolista quando o cultivo foi suficientemente
expandido, o desaparecimento das sementes dos cultivos substituição
avançada, a dependência do produtor era total, a Monsanto patenteou
a soja RR obrigando os produtores a comprar sementes ano após ano.
Uma recente resolução da Secretaria de Agricultura, o atual governo,
acaba de referendar dita obrigação para os produtores, impedindo a
livre produção e a semeaduta da soja RR e demais cultivos
transgênicos.

A Monsanto não só inundou de soja transgênica à "Pampa Húmeda" e
demais rincões agrícolas ou potencialmente agrícolas de nosso país,
também a introduziu de contrabando - com a cumplicidade do governo
Carlos Menem - no Sul do Brasil, onde seu cultivo estava proibido,
fazendo que a mesma se estendesse de forma vertiginosa por todo o
estado do Rio Grande do Sul. Contradizendo o que havia prometido
durante a campanha eleitoral, Lula da Silva acaba de legalizar o
cultivo da soja RR no Brasil, "ante o fato consumado de sua
penetração a partir da Argentina". Exatamente o que a Monsanto
buscou desde o princípio: que a Argentina e Brasil - o principal
produtor de soja do mundo - fossem colonizados por sua soja RR. A
partir desta resolução do Presidente Lula, o Mato Grosso e a
Amazônia têm os dias contados. A soja e a desertificação dos solos
argentinos, se bem que a transgênia é um grave problema em si, o
mais grave do cultivo da soja RR é seu cultivo e a pouco conhecida
ação da monocultura continuada de soja sobre a fertilidade e a
estrutura dos solos onde se a cultiva. O sistema de cultivo da soja
RR, a qual se faz "tão rentável" nos termos da agricultura mineira e
imediatista a que são tão afins as vozes oficiais do establishment
agrônomo, tais como Clarín Rural, La Nación, a SRA, a Chacra,
APRESID, os Globokopatel, a FAUNBA e demais vozes oficiosas
agropecuárias, se baseiam em sua resistência ao herbicida Round-up
(Glifosato).

Isto permite que a soja RR possa crescer sob as pulverizações de
Round-up, de tal forma que esta soja é implantada mediante um
sistema denominado semeadura direta. Ou seja, não se lavra o solo,
senão que, sobre os restolhos do cultivo anterior, previa aplicação
do herbicida, semeia-se a soja RR, mediante um equipamento de alta
potência, apto para semear sem lavrar. A posteriori se aplica Round-
up mais os praguicidas necessários em sucessivas aplicações mediante
fumigações aéreas ou com equipamentos especiais. Quanto se iniciou
este sistema de cultivo, seus defensores destacavam o não trabalho
do solo, o menor uso de agroquímicos e o custo dos trabalhos que
implicava como grandes benefícios. Passados quase dez anos, a
situação tem produzido uma desertificação biológica dos solos
argentinos e diante da recente inundação inusitada no leito do Rio
Salado em Santa Fé, pareceria que se está desenvolvendo um imenso
processo de devastação, erosão e desertificação estrutural dos solos
submetidos ao sistema de semeadura direta e cultivo da soja RR (5)
(6). A não ruptura do solo, que pode ser vista em princípio como
uma prática benéfica, terminou - como característica deste sistema e
do ecossistema dos solos que afeta - produzindo compactação,
acumulação excessiva de resíduos orgânicos que não podem ser
mineralizados, diminuição da temperatura do solo ( o que traz
paralelamente a diminuição da fixação de nitrogênio pela soja e por
fim a necessidade de fertilizá-la com nitrogênio).

Também produz modificações na microflora e microfauna do solo ( o
uso contínuo de herbicida destrói a vida bacteriana do solo
permitindo a proliferação de fungos que modificam a química da
mineralização da matéria orgânica, destruindo a fertilidade natural
de nossos solos). A macrofauna do ecossistema de cultivo é
brutalmente afetado por este sistema de contaminação química
contínua do solo: as gaivotas e outras aves desaparecem pela
ausência de arroteamento, o mesmo que as lebres por envenenamento e
ausência de restolhos verdes, as perdizes põem ovos estéreis, as
minhocas ( de fundamental ação benéfica para o solo) são destruídas
pelo uso massivo de agroquímicos, havendo-se observado efeitos
daninhos até em avestruzes e sendo de conhecimento público o
desaparecimento massivo de pássaros, "cuises", mariposas e outros
integrantes habituais do ecossistema nos lugares de aplicação
massiva deste sistema de destruição dos componentes do ecossistema e
sua transformação em um sustento inerte de uma produção mineira semi-
industrial. Este sistema devasta a biodiversidade do ecossistema
agrícola. Porém o uso continuado de herbicidas e inseticidas, produz
também o aparecimento de super-espinhais (mata-brava) resistentes ao
dito herbicida, o qual obriga a aumentar as doses do mesmo e quanto
isto já não é possível, a utilizar outros herbicidas como 2-4-D,
Atrazina, Paraquat, Diquat e outros produtos, os quais são
majoritariamente cancerígenos, altamente tóxicos e contaminadores do
solo e das "napas" de água (3) (4) (5).

O sistema de produção na Argentina está tão fora de controle que as
pulverizações aéreas com estes produtos de altíssima periculosidade -
a maioria deles proibidos ( ou fortemente restringidos) em seus
países de origem - tem destruído os cultivos agrícolas, os cinturões
verdes que rodeiam cidades e povoados, as produções apícolas, os
montes frutales e florestas, produzindo povos fantasmas, a emigração
massiva de pequenos produtores às vilas de emergência das grandes
cidades e uma inaudita concentração de terra. Se tem chegado a
extremos como Ituzaingó na Cidade de Córdoba, onde as fumigações tem
produzido quase sessenta casos de câncer em crianças e mulheres,
encontrando-se restos de agrotóxicos nas análises químicas dos
tanques de água das habitações e graves infecções alérgicas e
pulmonares nas crianças. Os dias em que os aviões fumigam os
agrotóxicos, o fazem literalmente sobre eles. Este sistema de
produção é o que está gerando uma agricultura sem agricultores,
baseada em um solo sem solo, a partir de um ponto de vista
biológico. Um sistema de dominação. O sistema se difunde como uma
praga pois encaixa a perfeição - ademais é parte estrutural do
mesmo - em sistema de saque e devastação nacional instaurado pelo
modelo Cavallo- Menem. O cultivo da soja RR se difunde massivamente
pois é subsidiada de fato pelas políticas geradas a partir do poder
econômico dominante.

A alta taxa de rentabilidade bruta da soja RR está vinculada ao
altíssimo preço do combustível, desde que a Repsol decidiu não
produzir mais no país senão importá-lo, o que encarece qualquer
cultivo que podendo competir com a soja, não se realize por
semeadura direta. O alto custo do maquinário para fazer a semeadura
direta obriga a trabalhar em grandes extensões de terra, obrigando a
concentração da terra, seja por venda, arrendamento ou abandono.
Porém, implicando sempre o desenvolvimento de um sistema de produção
sem agricultores. O outro elemento é o baixo custo relativo do Round-
up no mercado de herbicidas, tendo em conta que a própria Monsanto
realiza vendas no mercado negro para barateá-lo e agora há um Round-
up de origem chinesa mais barato do que o da Monsanto. Cabe
assinalar que nos EE.UU, lugar de origem da soja RR, a mesma ocupa
somente 40% da produção de soja e que o estado regula sua expansão
mediante o preço do herbicida e da semente. Parece que o estado
argentino é muito mais pro-norte-americano que o próprio estado
yanqui. Porém, que benefício traz a soja ao sistema econômico para
ser tão subsidiado pelo sistema econômico devastador que rege a
Argentina? Pois, produz divisas para pagar a dívida externa, ou
seja, sua produção não é necessária para o povo argentino senão para
os credores externos da fraudulenta dívida externa, recentemente
legitimada pelo governo nacional diante do FMI. A devastação da
população do Terceiro Mundo.

A soja transgênica não é apta para consumo humano. Sem embargo, em
um gesto demagógico e quase criminoso, os grandes produtores de soja
(Grupo Grobokopatel- 70.000 hectares; Carlos Reutmann - 40.000
hectares, etc.) ofereceram presentear a soja RR aos comedores
populares, para mitigar a fome dos milhões de pobres que o modelo
econômico gera. Logo após felicitá-los, o governo de Duhalde obrigou-
se a emitir um comunicado da Secretaria da Saúde proibindo o uso da
soja na alimentação das crianças menores de cinco anos e mulheres
grávidas, advertindo sobre os perigos de seu uso massivo na
alimentação. Assim, a referida comunicação foi apenas difundida para
cobrir as costas dos Duhalde, porém reconhece que permanece sendo um
segredo apenas murmurado e que a soja, tanto transgênica como a
comum, não é apta para o consumo humano em forma direta, pois afeta
gravemente a saúde. A soja possui um alto conteúdo de fitoestrógenos
(isoflavonas) que equivalem a consumir duas pastilhas
anticoncepcionais por dia, o que está produzindo graves alterações
no desenvolvimento da sexualidade dos jovens alimentados com "soja
solidária" adiantando o início da menstruação e a diferenciação
sexual nas meninas e produzindo traços feminóides nos homens.
Podendo afetar a capacidade reprodutiva da população no futuro.

A soja afeta o metabolismo do Cálcio e da vitamina D, produzindo
raquitismo nas crianças alimentadas por ela, assim como osteoporosis
em adultos. Também produz uma grave deficiência de Zinco (4). Nas
populações do Oriente de onde a soja é originária, a mesma não é
consumida de forma direta, nem em forma freqüente, senão que é
fermentada muito tempo e transformada em subprodutos e consumida
duas ou três vezes ao ano. Ao mesmo tempo a partir da China se sabe
que zonas que tem estado submetidas ao monocultivo da soja (não
trangênica) tem sido afetadas por uma desertificação quase
irrecuperável. Além de toda especulação conspirativa, resulta muito
difícil eludir a visão de que estamos enfrentando uma verdadeira
política implementada por uma das principais multinacionais do
mundo - membro conspícuo do complexo militar-industrial norte-
americano - e que pode concluir com a desertificação massiva da
terceira planície mais fértil da terra, histórica competidora
do "Corn Belt" norte-americano, liquidando por vários caminhos a
histórica autonomia alimentária da população humilde da Argentina,
que permitiu a quase não existência da fome em nossa história, hoje
vigente em níveis escandalosos e massivos na república sojeira
monsantina. A impossibilidade do chacareiro de possuir sua própria
semente, a eliminação de cultivos inteiros, junto ao desaparecimento
de suas sementes, a destruição de produções de lenta acumulação como
o gado ou a produção de leite, a dependência absoluta e crescente da
produção obrigatória da soja RR, tem destruído a autonomia agrária
argentina, instalando uma total colonização de nosso sistema
agropecuário, manejado pelas multinacionais cerealistas ante a
ausência ou a presença cúmplice do Estado Nacional.

Finalmente, cabe a especulação sobre nosso destino como nação
soberana pensado no duplo efeito da desertificação crescente de
nossos solos e nos efeitos que sobre a saúde produtiva da população
pode produzir a ingestão de soja. Resulta difícil não pensar em uma
política deliberada de destruição e dominação do outrora celeiro do
mundo.

(1).- Clarín 30-09-03 (2).- INDEC- Censo Agrário Nacional, 2001.
(3).- Adolfo Boy - Implicâncias del uso de 2-4- D, Glifosato y otros
herbicidas (4).- Adolfo Boy Mitos y Verdades sobre la soja (5).-
Tesis de Maestría : Chris Van Dam- Director: Gonzalo Bravo, PhD
Salta, marzo de 2002. (6).- Alberto Marcipar -Una Cuestión de
Elección -agosto 2003- Conferencia en la UNR- Docente de Tecnología
Inmunológica (7).- Gallo Mendoza - Los Productos con Material

 

Fonte: www.wwiuma.org.br

 

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