26/08/2005
EXCLUSIVO: Desinformação quanto a questões ambientais ainda é a tônica no Brasil

Mônica Pinto / AmbienteBrasil


Apesar do direito à informação ser previsto na Constituição Federal, 23,3% da população brasileira se reconhece “mal” e “muito mal” informada sobre as questões ambientais. Cinqüenta e cinco por cento sentem-se “mais ou menos informados” e apenas 21,6% acham-se “muito bem” e “bem informados” sobre Meio Ambiente e Ecologia. Esse percentuais, revelados em uma pesquisa do Iser, realizada em 2004 pelo Ibope em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, foram comentados em duas palestras do II Congresso Brasileiro de Comunicação Ambiental, encerrado nesta sexta-feira, em São Paulo.


A pesquisa demonstra que o nível de desinformação é alto em todo o país, com predominância no Nordeste, onde atingiu 53% dos entrevistados. “A população quer saber mais sobre danos reais ao meio ambiente e sobre os riscos potenciais”, disse Simone Jardim, jornalista pós-graduada em Educação Ambiental que, no evento, discorreu sobre “Livre acesso à informação ambiental de interesse público”.


As dificuldades nesse aspecto foram de certa forma elucidadas na palestra de Débora Anger, da Escola de Comunicação e Artes da USP, autora de um dos cinco trabalhos escolhidos para apresentação no Congresso. Em sua avaliação, ONGs, Governos e empresas não têm sido eficazes no sentido de, através da informação, criar uma nova consciência de conservação do meio ambiente. As ONGs pecariam por, em geral, lançarem mão de um discurso catastrófico, alarmante, que procura dividir responsabilidades - “você não está fazendo nada?”. “Isso gera certa ansiedade e não deixa claro como a pessoa pode colaborar”, disse ela. “Fala-se muito pouco do papel do voluntariado, por exemplo”.


O Governo, em suas várias esferas, por sua vez, dedica-se quase que exclusivamente a campanhas pontuais, sem explicar em profundidade os problemas e desafios de ordem ambiental. “Deveria falar mais abertamente sobre os programas, manter as ações e usar mensagens mais informais e menos autoritárias”, avaliou Débora.


Já o meio empresarial, ao arregimentar para si os méritos das atividades empreendidas no campo da responsabilidade ambiental, capitalizando-os como estratégia de marketing, corre o risco de incentivar o comodismo - “as empresas estão fazendo por mim”.  O contraponto dessa estratégia equivocada seria a integração maior do consumidor com os vários projetos, os investimentos efetivos em educação ambiental e em uma cultura de consumo consciente.


A administradora de empresas Marisa Pasicznik, que falou sobre “O direito à informação e a Comunicação Ambiental na Empresa”, também citou a pesquisa do Iser/MMA para ilustrar o nível de desconhecimento geral sobre as questões relacionadas do meio ambiente. Utilizou outro levantamento para corroborar tal fato, este assinado pelo Instituto Brasileiro de Educação para o Consumo de Alimentos – IBCA -, que ouviu mais de 500 pessoas. A pesquisa constatou que grande parte dos consumidores lê o rótulo dos produtos, mas não compreende o significado das informações apresentadas. Isso vale desde para os alimentos genéticamente modificados até para símbolos como o da reciclagem do alumínio, confundido por entrevistados como “álcool” e “desce redondo”.


Um entendimento quase unânime entre os palestrantes foi que essa dificuldade cria um obstáculo concreto à tarefa de informar riscos ambientais e de gerenciar crises nascidas, por exemplo, de um acidente ambiental. “A crise não é o fato ocorrido, são os desdobramentos”, colocou Fernando Altino, vice-diretor do Instituto de Química da UERJ. Já para Iris Regina Poffo, da equipe de atendimento emergencial da Cetesb, a credibilidade – essencial para um projeto de comunicação de riscos – pode ser afetada por qualquer lapso. “Esse trabalho necessita preparo e planejamento”.


O  II Congresso Brasileiro de Comunicação Ambiental ofereceu ainda o  I Workshop de Comunicação Ambiental e, nas palestras, debates sobre temas como a metodologia Apell, do Pnuma, da comunicação de indicadores econômicos, ambientais e sociais, da promoção do diálogo com as partes interessadas; da NBC - T15, que estabelece procedimentos para evidenciação de informações de natureza social e ambiental, com o objetivo de demonstrar à sociedade a participação e a responsabilidade social da empresa; da comunicação de riscos ambientais; e cases de sucesso em comunicação ambiental, entre outros.


O evento recebeu apoio do Conselho Regional de Quimica de São Paulo, da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha e de Ambiente Brasil, sendo organizado pela AG Comunicação Ambiental.

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