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Mônica
Pinto / AmbienteBrasil
O engenheiro agrônomo Lorisval Tenório de
Vasconcelos vem trabalhando desde 1994 em um exemplo lapidar de
desenvolvimento sustentável. Ele passou a cultivar mudas
destinadas a produtores que precisassem reflorestar terras e, com isso,
está livrando da ameaça de extinção uma espécie cuja madeira de lei foi
considerada, por decreto imperial, a primeira do Brasil. Trata-se do guanandi, que já espalha-se por
propriedades de norte a sul do país, com benefícios visíveis dos pontos de
vista ambiental e comercial.
O trabalho de Vasconcelos já mereceu inclusive reportagem na revista Globo
Rural, sob o título “Poupança vegetal”. Sua divulgação é quase toda feita,
porém, por intermédio do site que criou -
www.reflorestar.com.br. Com argumentos técnicos e
paixão, ele não tem dificuldades em vender seu produto e assume já estar
precisando reforçar a equipe para o atendimento às demandas. “Quem
produzir madeira nobre vai ditar o preço e ter uma fila de consumidores
nacionais e internacionais na sua porta”, diz na entrevista exclusiva a AmbienteBrasil, que o leitor confere a seguir.
AmbienteBrasil – Por que o senhor divulga
que o plantio de guanandi é “uma aposentadoria”?
Lorisval Tenório de Vasconcelos - De forma
geral, é uma atividade agroflorestal como outra
qualquer. Pelas características de médio e longo prazo da colheita do guanandi (receitas a partir do 10º ano com final no 18º
ano) é que dizemos o projeto se assemelhar a uma poupança vegetal ou uma
aposentadoria - plantar agora para formar um pecúio
para si e seus descendentes. É preciso lembrar que o investimento de médio e
longo prazo tem a vantagem de "eliminar" competidores, isto é, se
fosse coisa que produzisse, por exemplo, em cinco anos, todo mundo faria e
não seria bom para ninguém.
AmbienteBrasil – Mas e para comercializar
a madeira? É preciso ter contatos, conhecer trâmites burocráticos, isso não
desestimula potenciais plantadores?
Vasconcelos - É tão sabida a escassez de madeira no
Brasil e no mundo que comentar é chover no molhado. No Brasil, matas
plantadas de eucalipto e pinus totalizam 97%
(celulose e papel). Só 3% de outras espécies são para uso nobre (movelaria fina etc.). Só no Brasil existem 30.000
empresas ligadas à madeira precisando importar por causa da escassez. Nos
outros países ocorre a mesma escassez, agravada pela
crescente consciência ambiental de não mais comprar madeiras nativas da
África, Ásia etc., além do que, na Europa e América do Norte, por questões de
climas frios, leva-se mais de 50 anos para formar uma boa tora de madeira. A
extração de madeiras da Amazônia legal tende a diminuir pela crescente
escassez e crescente fiscalização. Tudo isso liga-se
ainda à consciência cada vez maior dos problemas de aquecimento global do
planeta (efeito estufa) e derretimento das geleiras refletidos nos "tsunamis".
É por isso que, enquanto se paga em torno de R$ 30 o metro cúbico do
eucalipto e pinus (celulose e papel), se paga hoje
pela madeira nobre denominada teca (planta exótica
que só se desenvolve bem no Mato Grosso), similar ao guanandi, em torno de R$ 5.000,00 o m3.
O guanandi, nativo do Brasil, vai bem no país todo
e leva outros nomes conforme a região de ocorrência, por exemplo Jacareúba, na Amazônia. É uma madeira em extinção no
Brasil, mas largamente comercializada no mundo, principalmente na América
Central, onde é plantada e extraída da natureza já que lá as leis ambientais
não proíbem.
Resumindo tudo: quem produzir madeira nobre vai ditar o preço e ter uma fila
de consumidores nacionais e internacionais na sua porta. Qualquer pesquisa de
mercado detecta com clareza essa situação.
AmbienteBrasil – O mercado é receptivo ao
guanandi? Afinal, pouca gente já ouviu falar dessa
madeira.
Vasconcelos -Essas aberrações, inexplicavelmente, acontecem no Brasil.
Nativa no Brasil há milhares de anos, o imperador do Brasil, já em 1835,
baixou decreto imperial tornando o guanandi
a primeira madeira de lei do Brasil. Assim como a Teca
hoje, muito requisitada porque é imputrescível dentro da água (uso na
indústria naval, iates, etc.), o guanandi também
era usado na indústria naval da época, igualmente pela característica de não
apodrecer na água.
O fato de ser desconhecida e em extinção, frente a um mercado de alta
demanda, traz vantagens econômicas. “Os primeiros a plantar vão
beber água limpa”, isto é, vão encontrar um mercado “livre”, ou seja , sem
competição . O comerciante comum talvez não a conheça pelo nome guanandi, e também pelo fato de ser espécie em
extinção, não estar diariamente ofertada no mercado de hoje. Os
especialistas nacionais e internacionais, talvez por outro nome (jacareúba, na Amazônia) a conheçam, haja vista ser
madeira largamente estudada no Brasil e no mundo pela pesquisa.
Vale aqui ressaltar afirmação da Embrapa: “Madeira ainda pouco utilizada no
Brasil em contraste com a sua popularidade em outros países da América do Sul
e do Caribe, podendo substituir o Mogno e Cedro estéticamente”
(Livro: Espécies Arbóreas Brasileiras, fls. 493, EMBRAPA
- informação tecnológica). Na América Central, por exemplo, o guanandi leva o nome popular de “Palo
Maria”, “Cedro Maria”, “Santa Maria” ou “Maria”.
AmbienteBrasil – Qual é o investimento
por hectare e em quanto tempo se pode ter retorno dele?
Vasconcelos - Há um módulo para cinco hectares, apresentado em planilha e
resumido em gráfico no nosso site –
www.reflorestar.com.br. Mas, transformando para um
hectare: despesas de R$ 8.800,00 / hectare dispendidos
ao longo dos 18,5 anos rendem uma receita Bruta de R$ 1.280.000,00
/ hectare, recebidos ao longo dos mesmos 18,5 anos.
AmbienteBrasil – O senhor tem conseguido
fazer negócios com as mudas das árvores em grande escala?
Vasconcelos - Só no ano de
2004 fomentamos e orientamos cerca de 200 plantios desde a
Amazônia até o Rio Grande do Sul. Há uma relação nominal de principais
clientes no site. A perspectiva para
2005 é que esse número pelo menos se repita e, provavelmente, se amplie.
Temos todo o tipo de clientes: aqueles que iniciam com “um pouco para
experimentar ou aprender”, outros que já iniciam com grandes quantidades ,
porém com a assessoria especializada da Vasconcelos Florestal. Assim é que
temos clientes instalando de uma só vez 150 ha, 400 ha e 1000 ha.
AmbienteBrasil – O plantio da espécie cai
bem em que tipos de solo?
Vasconcelos - Por ser planta nativa do Brasil, rústica e de larga
disseminação e ocorrência em todos os Estados Brasileiros, podemos dizer que
vai bem em qualquer solo, inclusive em solos alagados. É lógico
que, nos solos mais férteis, praticamente não precisa adubação, enquanto nos
solos pobres em fertilidade é necessária a correção
nutricional, haja vista que não se pretende qualquer porte de
planta e, sim, uma tora robusta cujos diâmetro e
qualidade atendam a indústria moveleira,
principalmente. Temos como limitação os solos situados em regiões com
temperaturas abaixo de 3 graus negativos, o que ocorre em algumas regiões
dos Estados do Sul do Brasil.
AmbienteBrasil - Por que o guanandi caiu no ostracismo, ao contrário do pau-brasil,
por exemplo, que figura ao menos nos livros de História?
Vasconcelos - O pau-brasil teve a sua história em função do
seu uso para tinturas. Foi explorado predatoriamente
até a sua quase extinção pelos exploradores
europeus com a finalidade de tintura. Os livros de História do
Brasil ressaltam essa usurpação de riqueza. Devido a ter originado o nome
“Brasil” e à usurpação internacional, essas histórias foram levadas aos
livros didáticos do ensino primário, onde todos nós tivemos
contato.
O guanandi, importante na indústria naval do
Brasil, também foi explorado predatóriamente pelos
brasileiros até a sua quase extinção. Pela sua importância como madeira de
uso naval, mereceu o decreto imperial em 1835, como primeira madeira de lei
do país. Tal fato está registrado na literatura científica.
Entretanto, saindo da história para a vida prática, economicamente falando,
enquanto uma planta fornece tinta e a outra, madeira, o resgate que a Vasconcelos
Florestal faz do guanandi, com amplo reconhecimento
da agropecuária e investidores de todos os cantos do Brasil - porque resgata
uma planta nativa de madeira nobre equivalente ao mogno -, a
primeira (pau-brasil) hoje não teria o reconhecimento do guanandi, porque sua tinta se substitui pelos inúmeros
corantes agora existentes.
AmbienteBrasil – Em termos de
reflorestamentos, o guanandi se coaduna com as
oportunidades de negócios abertas pelo Protocolo de Kyoto?
Vasconcelos - O guanandi, por ser nativo do
Brasil, tem mais a ver com a nossa fauna e flora do que o eucalipto e pinus que são plantas exóticas (originados de outros
países). Por isso mesmo, acertadamente, mais aceita pelos órgãos ambientais
nos projetos de reflorestamento e apoio financeiro dos organismos oficiais,
nacionais e internacionais ( Protocolo de Kyoto).
De futuro, realmente os objetivos do Protocolo de Kyoto
são “a bola da vez”. Nessa esteira, o guanandi se
oferece como excelente opção de reflorestamento para, entre outros, controlar
o efeito estufa pela absorção do CO2 (a planta
rebrota após o corte), como para excelente retorno econômico aos agropecuaristas e entrada de divisas para o
país.
Embora como nos disseram a Embrapa e a Esalq USP (Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo):
outras plantas nativas existem que são importantes para os mesmos objetivos
do guanandi, mas, infelizmente, não
foram estudadas por ninguém quanto às tecnologias de plantio, condução e
desenvolvimento a nível de campo. Nesse sentido,
reconhecem na Vasconcelos Florestal o mérito do pioneirismo no estudo e
conhecimento prático de campo dessa importante espécie.
A exclusividade de domínio da técnica dessa espécie vem nos gerando alta
demanda, a ponto do sufocamento, o que nos tem
obrigado a ampliar nossa estrutura de atendimento. Ficamos honrados com o
reconhecimento dos agropecuaristas brasileiros,
colegas cientistas, instituições governamentais e empresários diversos.
Também, através do projeto guanandi, estamos contribuindo
com a economia do Brasil e dos agropecuaristas.
É que os dois segmentos de alta demanda que vêm por ai, de extrema escassez e
sem possibilidade de competição por oferta, são os segmentos no campo de água
e no campo de madeiras.
O projeto guanandi ataca o campo da produção de
madeiras, com alcance nos objetivos ambientais do Protocolo de Kyoto, no momento em que, diferentemente de todos as atividades agropecuárias, sempre alternando altos e baixos,
oferece um investimento seguro, rentável e exclusivo.
AmbienteBrasil – Do ponto de vista da
biodiversidade, o senhor tem conhecimento de espécies animais e vegetais
associadas ao guanandi?
Vasconcelos - Por ser planta nativa que, além da madeira nobre, fornece
frutos importantes para a fauna (principalmente avifauna,
fauna aquática, exemplo: morcegos, peixes e pássaros), de longe é mais
interessante ambientalmente que as espécies exóticas teca,
eucalipto e pinus. Os plantios em
larga escala só farão multiplicar esses benefícios.
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