Revista Globo Rural, Edição de Outubro de 2004

 

ENTREVISTA COM JOSÉ ROBERTO DA ROS, vice-presidente da SINDAG


Caça aos piratas

País combate o contrabando de agrotóxicos, que provoca danos econômicos e ambientais

por Luis Roberto Toledo

Há poucas semanas, uma ação da Polícia Federal no município gaúcho de Chuí, no extremo sul do Brasil, resultou na apreensão de um volume extraordinário de agrotóxicos ilegais: cerca de nove toneladas de um produto destinado à cultura de soja. Essa operação é um dos principais resultados da campanha contra o comércio e a utilização de defensivos contrabandeados, mantida há dois anos pelo Sindag - Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola, e pela Andav - Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários. A maioria das apreensões provém de denúncias realizadas através de uma linha telefônica gratuita (0800 940 7030), que não identifica a origem das chamadas, preservando a identidade dos denunciantes. A campanha também já resultou na aplicação de multas no valor de um milhão de reais. Os produtos vendidos ilegalmente no Brasil, além de representarem evasão de divisas do país e dos estados, também são ameaça contra a saúde de agricultores e consumidores e contra o meio ambiente. Em entrevista à revista GLOBO RURAL, o vice-presidente executivo do Sindag, José Roberto Da Ros, fala sobre os prejuízos e sobre a campanha de combate aos agrotóxicos contrabandeados.

Globo Rural - Por onde entram no Brasil os agrotóxicos ilegais?
José Roberto Da Ros -
O material recentemente apreendido no Rio Grande do Sul, por exemplo, um herbicida destinado à cultura da soja, veio do Uruguai, através do Chuí, sendo o ingrediente ativo fabricado na China. Mas a rota mais freqüente é via Paraguai, entrando no país por Foz do Iguaçu. Produtos destinados ao arroz muitas vezes entram pelo Uruguai.

GR - São defensivos de comercialização proibida no país?
Da Ros -
Em geral eles não contêm princípios ativos proibidos, mas são ilegais porque entram sem licença. Todo produto utilizado em nossas lavouras têm que ser analisado pelo governo. O Ministério da Agricultura, por exemplo, faz a avaliação de sua eficácia, para ver se o que a indústria escreve no rótulo condiz com a realidade. Já o Ministério da Saúde vai determinar qual é o impacto não somente na pessoa que aplica o defensivo, mas também em quem consome o produto para o qual ele é indicado. O Ministério do Meio Ambiente faz a avaliação do impacto ambiental, sobre a fauna, água, etc. O produto que entra no país por contrabando não tem nada disso.

GR - A que riscos está sujeito o agricultor que utiliza esses defensivos?
Da Ros -
É um grande risco à própria saúde, pois o produto pode ter contaminantes que afetam a ele mesmo, ao consumidor final dos artigos tratados com esses defensivos e ao meio ambiente. Os danos ambientais, inclusive, ocorrem também por causa da má destinação das embalagens vazias. Como não pode devolvê-las triplamente lavadas como determina a legislação, o agricultor que utiliza o produto ilegal acaba fazendo o que o Ibama mais teme, que é jogar a embalagem no rio, queimar ou enterrar.

GR - E quais são as penalidades para quem utiliza esses defensivos?
Da Ros -
As mais importantes são as multas, que podem variar de 500 a cinco milhões de reais, dependendo da gravidade da autuação. Na safra passada, foram lavradas multas que somaram um milhão de reais. Além disso, conforme o envolvimento com a questão, a pessoa ainda pode ser presa, processada por crime ou ter a lavoura interditada.

GR - O que incentiva os agricultores a utilizar os produtos contrabandeados?
Da Ros -
Para você ter uma idéia, os produtos fabricados no Brasil pagam de 35% a 40% do seu valor em impostos. Os contrabandeados não pagam esse imposto, só por isso já seriam bem mais baratos. Mas, além disso, muitos países estimulam a exportação isentando os fabricantes de taxas, como é o caso da China, que não cobra impostos sobre o que é exportado. Os produtores rurais muitas vezes compram esses defensivos achando que eles possuem qualidade, sem saber que podem conter contaminantes, que pode fazer mal à saúde etc.

GR - A indústria tem uma dimensão do quanto representam os produtos contrabandeados que entram no país?
Da Ros -
Nós estamos calculando em cerca de 50 milhões de dólares anuais, sem falar no que é falsificado e roubado. É uma quantidade que dá para ser aplicada em milhões e milhões de hectares.

GR - Como funciona a campanha contra o uso de agrotóxicos ilegais? Ela tem dado bons resultados?
Da Ros - O
contrabando vai acompanhando a soja pelo país, por isso temos ampliado seu alcance para os principais estados produtivos, através de rádio, televisão, publicações e outdoors. A maior parte das apreensões é feita a partir de denúncias por telefone. As chamadas, que não têm nenhum tipo de identificação, são analisadas e repassadas à Polícia Federal, que dá curso às investigações. Por conta disso, já temos mais de 300 processos correndo na Justiça.

GR - Como os agricultores podem se proteger da compra acidental de produtos ilegais?
Da Ros -
Os produtos contrabandeados em geral trazem o rótulo escrito em espanhol, o que é um indicativo de que não foram homologados para o uso no Brasil. Mas dificilmente um agricultor vai correr o risco de utilizar um produto ilegal se adquirir defensivos com receituário prescrito por um engenheiro agrônomo e comprá-los em casas comerciais idôneas, com nota fiscal.

 

Fonte: http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,,EEC821851-2344,00.html

 

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