8/1/2005
Desmatamento: Uma nova safra recorde de equívocos
Normalmente associamos a destruição da floresta amazônica à ação dos
madeireiros e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade, isto está
mudando. Mudando para pior. O vilão de agora, muito mais competente, é o agronegócio.
Os indicadores da destruição de nossas florestas e do cerrado continuam a
crescer. Em relação a isto temos apenas justificativas, explicações e
incontáveis propostas, mas nada mais efetivo do que isto em termos de políticas
públicas.
Normalmente associamos a destruição da floresta amazônica à ação dos
madeireiros e das mineradoras. Embora seja historicamente verdade, isto está
mudando. Mudando para pior. O vilão, muito mais competente do que as
madeireiras e mineradoras juntas, é o agronegócio,
que sabe fazer valer os seus interesses e sabe ser
ouvido, principalmente porque tem a habilidade de aliar o poder econômico ao
lobby político.
A soja e a pecuária são os principais indutores das queimadas e do
desmatamento. Estudos da Conservação Internacional indicam que o Cerrado
brasileiro está com uma taxa anual de desmatamento de 1,5% ou, se preferirem,
7,3 mil hectares ao dia o que, no ritmo atual, significará o seu
desaparecimento total até 2050.
A Amazônia, por outro lado, tende a transformar-se em savana dentro de 50 anos.
No ano passado foram desmatados 23,7 mil quilômetros, sendo 80% destinados à
agropecuária. Tudo pelo bem agronegócio exportador.
Em entrevista ao The New
York Times, em setembro de 2003, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, disse que
"para mim, um aumento de 40% no desmatamento não significa nada; não sinto
a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior
que a Europa toda e que foi muito pouco explorada. Não há razão para se
preocupar". O Governador Maggi é, por mera
coincidência, o maior sojicultor do Mato Grosso e um
dos maiores do mundo...
No entanto, em que pese o patriótico esforço do agronegócio,
ainda falta comida para boa parte da população. Um terço de nossa população
continua miserável e a fome ainda é uma séria ameaça à sobrevivência desta
população.
Mas, para compensar, a alimentação dos norte-americanos, após a segunda guerra
mundial, aumentou em 33% de laticínios, 50% mais carne bovina e 280% mais
frangos, sendo que esta dieta hiper-protéica é a razão para que a obesidade
tenha se tornado um problema de saúde pública. Mas, tudo bem, nós que estamos
abaixo da linha do Equador continuamos de dieta.
Na verdade deveríamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico
escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, carne
e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo neocolonial e a quem
beneficia.
Somos apreciados como exportadores de carne porque o nosso boi é
"orgânico", um boi "verde" que alimenta-se
no pasto. Mas quando exportamos 1 kg de carne devemos considerar os custos
sociais e ambientais, a destruição irresponsável da floresta e o fato de que
também estamos exportando mais de 10 mil litros de água virtual.
Este modelo exportador, ao destruir o Cerrado e a Amazônia, está comprometendo
o clima do planeta, interferindo com o regime de chuvas do Sul e Sudeste do
Brasil, esgotando recursos naturais, extinguindo biomas inteiros, alterando
rapidamente todo o clima da América do Sul e tudo isto para que e para quem?
Só para lembrar que o quanto agronegócio exportador é
patriota e não conhece ganância, no RS plantou soja transgênica
ilegal, enfrentou o governo e venceu. Colheu, vendeu, plantou novamente,
colheu, plantou novamente e em breve estará com nova safra.
Este foi um dos maiores e bem sucedidos casos de desobediência civil de nossa
história republicana. Pena que, na essência, ataque a
própria historia republicada.
Este é o preço que pagamos pela equivocada opção pelo pelos grandes produtores
e pelo agronegócio exportador, ou se preferirem uma
abordagem mais globalizada, pelos big players do agrobusiness. Pensando melhor, acho que o título deste
artigo deveria ser "os equívocos de uma opção equivocada"...
Mas chega de conversa, promessa, palanque, programas e projetos sem fim. Não
temos muito tempo. Devemos iniciar as discussões sobre esta herança colonial e
propor alternativas do que realmente seja desenvolvimento sustentável,
socialmente responsável e justo.
O que aí está não é e nunca foi sustentável. É apenas um
processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria
poderosa, rica e politicamente influente. Simples assim.
Henrique Cortez é ambientalista, subeditor do Jornal do Meio Ambiente e
coordenador de programas socioambientais da Câmara de
Cultura.