16/08/2005
Os bons negócios estão verdes

Maria Aline Ladeira Rodrigues (*)


A busca pelo meio ambiente ecologicamente equilibrado finalmente deixou de ser discurso para virar ação. A conduta ambiental ultrapassou os livros escolares para ocupar papel preponderante na sociedade, nas discussões do poder público em geral e, principalmente, nos meios de produção e de consumo.


Os empreendedores estão cada vez mais conscientes que não basta o cumprimento das exigências de ordem legal, mas sim que haja atitude pró-ativa na implementação de técnicas e tecnologias mais limpas, na reciclagem de resíduos gerados nos processos produtivos e usando racionalmente os recursos oferecidos pela natureza.


De olho neste comportamento e cientes de sua responsabilidade sobre a concessão de empréstimos a atividades que envolvam passivos e danos ambientais, as instituições financeiras, públicas e privadas, assim como organismos internacionais, perceberam ser um bom negócio estimular as boas práticas, aumentar a capacidade empreendedora sustentável e sua competitividade em âmbito interno e internacional, viabilizando financiamentos a custo menos elevado e flexibilidade de prazo, tendo em vista a garantia de retorno sobre o investimento estar pautada na atuação responsável do tomador.


De fato, o financiamento verde virou uma nova categoria de negócios.


Prova disso, em decorrência da Declaração dos Bancos para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (1992), pôde se observar à assinatura do Protocolo Verde (1995), que visa induzir bancos à incorporação do vetor ambiental no procedimento de análise para financiamentos como critério indispensável, assim como demonstrar aos órgãos e autarquias seus correspondentes benefícios fiscais.


Esta foi, em termos de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável, uma das mais importantes iniciativas adotadas pelo governo brasileiro, priorizando-se a alocação de recursos públicos em projetos que apresentem maior capacidade de auto-sustentabilidade sócio-ambiental, bem como evitar o uso destes recursos em projetos que acarretem significativos prejuízos ao meio ambiente.


No rastro destes bons ventos, é interessante lembrar dos inúmeros empreendimentos e projetos que buscaram substituir energias geradas por combustíveis fósseis, desenvolver MDL (mecanismo de desenvolvimento limpo), implementar o tratamento de resíduos, entre outras atitudes sustentáveis, tais como as descritas a seguir:


(i)Programa de incentivo às Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) no Pantanal Mato-grossense criado em 24 de maio de 2005 para manutenção (R$ 35 mil) e criação (R$ 13 mil, condicionada à orientação especializada, responsável pela criação da área de preservação), sendo incentivados por meio de isenção de ITR (Imposto territorial Rural) da área; estímulo às pesquisas científicas; preferência na análise de créditos agrícolas e recebimento do ICMS Ecológico pela Prefeitura;


(ii) Programa Biodiesel - lançado em dezembro de 2004, visa incentivar plantio de mamona para produção de matriz energética mais limpa e renovável, objetivando a geração de 900 mil empregos, pelo investimento de R$ 16 milhões de reais, visando alcançar a posição de liderança internacional.


(iii)Mercado de Carbono - produto do Protocolo de Quioto assinado na Conferência das Partes da Convenção sobre Mudança do Clima (1997), almeja reduzir 5,2% das emissões de gases causadores do “efeito estufa” entre os anos de 2008 e 2012, tendo como base os níveis avaliados no ano de 1990. Os investimentos para esta mercado são obtidos, em sua maioria, junto ao Banco Mundial por meio de três fundos destinados para projetos de tecnologia limpa, com valores médios entre US$ 3 milhões e US$ 15 milhões, destacando-se o Fundo Protótipo de Carbono (Prototype Carbon Fund – PCF), composto por recursos de seis países e de 17 grandes empresas multinacionais, sendo o Brasil um dos líderes em oferta.


Por outro lado, se as instituições financeiras alcançaram, por bem ou por mal, a tal consciência ecológica, a falta de uma melhor articulação entre estas e os órgãos de atuação ambiental dificulta sobremaneira a fixação de critérios para projetos populares prioritários, de menor custo, impedindo a sintonia necessária entre cronogramas de análise e desembolso dos recursos, conjugados aos prazos mínimos necessários para a concessão das licenças ambientais.


Desta forma, podemos até concordar que está valendo à pena ter preocupação ambiental. Os negócios realmente estão verdes, só nos resta fazer com que se tornem e permaneçam maduros...


*Advogada e consultora de empresas, especialista em Gestão de Negócios  Sustentáveis com ênfase em Meio Ambiente.

 

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