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Mônica
Pinto / AmbienteBrasil
Os empresários que ainda guiam seus negócios exclusivamente sob a ótica do
lucro estão, na verdade, colocando-os em risco de extinção. “A empresa que
desprezar os preceitos de gestão ambiental correta e de responsabilidade
social não sobreviverá no mercado, cada vez mais exigente”, prega Fernando
Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento
Sustentável – CEBDS.
Professor adjunto da UFRJ e do MBE da Coordenação dos Programas de
Pós-graduação de Engenharia - COPPE -, na mesma instituição, ele é autor do
livro “O bom negócio da sustentabilidade”, membro
do World Business
Council for Sustainable Development —WBCSD e do Conselho do
projeto Millennium Ecosystem
Assessment. As entidades têm em comum o
propósito de defender e buscar, na prática, um modelo de desenvolvimento em
que economia e meio ambiente andem de braços dados, e não em confronto.
AmbienteBrasil - O CEBDS foi um dos
realizadores do Congresso Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável,
em maio passado, evento cuja questão central foi “Desenvolvimento, qualidade
de vida e ecossistemas podem conviver?”. Quais foram as
respostas que emergiram dos debates?
Fernando Almeida - O congresso, que ficou conhecido como Sustentável-2005, reuniu durante três dias cerca de duas
mil pessoas. Estiveram presentes os maiores especialistas brasileiros e do
exterior em desenvolvimento sustentável. Foi um marco em nossa
caminhada rumo à mudança para um novo modelo de desenvolvimento que
contemple de forma integrada, articulada e transparente as dimensões
econômica, social e ambiental. Mais do que o conteúdo das palestras e dos
debates a respeito de conceitos e práticas para chegarmos a este novo modelo,
gostaria de destacar dois pontos fundamentais que ilustram o sucesso do Sustentável-2005.
O primeiro foi a presença marcante dos mais variados
atores – governos, empresas, academia, ONGs de
diversas áreas e representantes da sociedade civil organizada em geral. O
segundo ponto tem ligação com o primeiro: foi o evidente processo de
democratização do tema sustentabilidade, que começa
a deixar o restrito círculo da elite de segmentos do setor empresarial e do
setor acadêmico.
Em relação à questão dos ecossistemas, tivemos a grata satisfação de realizar
um evento internacional pouco depois da divulgação do relatório do Millennium Ecosystem Assessment (Avaliação dos Ecossistemas do Milênio),
definido pela ONU como o mais importante estudo científico já realizado nos
últimos 50 anos, do qual eu tive a honra de participar como Conselheiro.
AmbienteBrasil – Do que ele trata?
Fernando - Trata-se de um extenso relatório de dez mil páginas, contendo
uma minuciosa avaliação desenvolvida por 1.360 cientistas do mundo inteiro
sobre os impactos causados nos ecossistemas do planeta com a ação do homem,
principalmente a partir da Revolução Industrial. Em linhas gerais, os
cientistas constataram que os ecossistemas do planeja estão seriamente
ameaçados caso sejam mantidos os atuais padrões de produção e consumo. Outro
aspecto que merece ser destacado é que os ecossistemas foram definidos como
provedores de recursos e como tal precisam ser utilizados de forma racional.
AmbienteBrasil* – No evento também foram
lançadas as propostas da “Década ONU da Educação
para o Desenvolvimento Sustentável”. Quais são elas?
Fernando - O lançamento da década representa a compreensão de que sem
educação, ou seja uma mudança radical da maneira de ver o mundo, não
chegaremos a lugar nenhum. A UNESCO, como braço da ONU na área de educação,
lançou no Brasil a década no âmbito da América Latina e fez uma exposição de
seu projeto para disseminar a educação em desenvolvimento sustentável. Esse
projeto, no entanto, depende da participação de outros atores, como empresas,
governos e ONGs.
AmbienteBrasil – O CEBDS está envolvido
nesses processos? De que maneira?
Fernando - O CEBDS já está inserido nesse processo através da sua Câmara
de Comunicação e Educação para a Sustentabilidade.
A Década ONU foi justamente o tema central da primeira reunião da Câmara após
a realização do Sustentável-2005. Nesta reunião, as
empresas narraram suas experiências na área educacional e foi criado um
comitê para apresentar uma proposta que seja capaz de viabilizar a parceria
com a UNESCO. Temos que encontrar a melhor forma de responder a seguinte
pergunta: como podemos trabalhar a década do ponto de vista corporativo?
AmbienteBrasil – Que futuros se pode
vislumbrar para a proposta de desenvolvimento sustentável, nos cenários mais otimista e mais pessimista?
Fernando - A visualização desses dois cenários tem sido tema recorrente
em seminários, palestras, congressos sobre desenvolvimento sustentável
principalmente a partir da Rio-92. Conceitualmente,
temos avançado muito na compreensão de que só seremos capazes de garantir a
sobrevivência para as futuras gerações por meio de ações integradas, éticas e
transparentes, envolvendo os principais atores – empresas, governos e a
sociedade civil organizada.
O cenário mais pessimista é previsível caso aceitemos passivamente a evolução
ascendente das curvas de perda de biodiversidade, elevação da temperatura
global, crescimento da miséria e da desigualdade social, da redução das
reservas de água. Mas temos como reverter esse processo a partir da adoção de
um novo modelo de desenvolvimento.
Todos nós devemos ter como perspectivas as Metas do Milênio aprovadas durante
a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada na África do
Sul, em 2002, que estabeleceram parâmetros minimamente aceitáveis para
assegurar a sobrevivência do planeta e a construção de um mundo melhor.
AmbienteBrasil – O senhor é tido como um
dos implantadores, no Brasil, do conceito de “Ecoeficiência”. Como ser “ecoeficiente”?
Fernando - Em resumo, o conceito de ecoeficiência
significa produzir mais, gastando menos insumos e matérias-primas. Este
conceito tem sido aplicado com sucesso em grandes empresas instaladas no
Brasil. Racionalizando os gastos com insumos e matérias-primas, estas
empresas estão reduzindo o impacto produtivo no meio ambiente, tornam-se mais
competitivas, eliminam áreas de atritos com grupos de interesse (stakeholders), reduzem a possibilidade de acidentes,
melhoram sua imagem. Enfim, são ganhos tangíveis e intangíveis.
As micro, pequenas e médias empresas também estão inseridas
nesse processo através da Rede Brasileira de Produção Mais Limpa,
conduzida por uma parceria entre o CEBDS e o Sebrae. Não teria sentido pensar
em ecoeficiência e
desenvolvimento sustentável excluindo este segmento empresarial que
representa 99% das 5,6 milhões de empresas do país e é a base da fonte de
geração de emprego.
Hoje temos no país núcleos de PmL em 18 estados,
faltando muito pouco para atingirmos todas as 23 unidades da Federação. O
objetivo desses núcleos é mostrar aos pequenas
empresários os benefícios da ecoeficiência e
capacitar suas empresas a seguir este novo caminho.
AmbienteBrasil - “O bom negócio da sustentabilidade”, livro de sua autoria, parte da
premissa de que “não existem bons negócios em sociedades falidas”. Mas até
que ponto, nesse caso, . a sustentabilidade
econômica está ligada àquela de ordem ambiental?
Fernando - A frase citada na pergunta tem um espectro mais amplo, porque
engloba as três dimensões da sustentabilidade –
econômica, social e ambiental. A atividade econômica não sobrevive sem o
chamado capital natural. O exemplo da sobrepesca da
sardinha na costa do Rio de Janeiro é bastante significativo. As empresas
faliram porque não respeitaram o ciclo de sobrevivência da espécie e a
sardinha desapareceu.
AmbienteBrasil* – A responsabilidade
social corporativa, outro conceito difundido pelo senhor, tem que efeitos
imediatos sobre o desenvolvimento sustentável?
Fernando - Podemos
recorrer ao mesmo exemplo das fábricas de beneficiamento de
sardinha do Rio de Janeiro. As empresas quebraram e muitos funcionários
perderam seu emprego. O mesmo aconteceu com empresas que se envolveram em
escândalos financeiros. Desapareceram totalmente ou perderam fatias
importantes de mercado, o que também acabou se refletindo em perda de postos
de trabalho, na redução da geração de renda e de pagamentos de impostos para
investimentos públicos. A perda de emprego representa aumento da tensão
social, que, por sua vez, afasta investimentos.
Unindo esta pergunta à pergunta anterior, podemos
dizer que a empresa que desprezar os preceitos de gestão ambiental correta e
de responsabilidade social não sobreviverá no mercado, cada vez mais
exigente.
AmbienteBrasil* – Dentro do chamado Ecomarketing, as ações empresariais que, em qualquer
nível, contribuem para a preservação da natureza estão se consolidando cada
vez mais como estratégia para agregar valor às marcas. Mas há grandes diferenças
entre os resultados práticos dessas iniciativas. Qual o melhor caminho?
Fernando - Os índices de sustentabilidade
criados para aferir o desempenho das empresas têm nos mostrado que há muitas
variáveis para fortalecer a marca da empresa, como por exemplo a natureza da atividade empresarial, o local onde a
empresa está instalada e o seu grau de comprometimento com os conceitos e
práticas do desenvolvimento sustentável. O chamado “ecomarketing”
é um componente importante nesse contexto, mas deve ser visto como resultado
de uma ação concreta e pragmática da boa governança
corporativa.
Os bens intangíveis – marca, reputação, capacidade
de estabelecer parcerias e diálogos com diferentes grupos sociais – definem
hoje de 75% a 90% do valor de uma empresa. Terrenos, máquinas, prédios e
outros bens tangíveis correspondem a, no máximo, 25% do total. Essa
constatação, feita com base em sólida pesquisa do Financial
Times, é suficiente para indicar o melhor caminho para o setor
empresarial.
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