04/09/2005
ENTREVISTA EXCLUSIVA: Fernando Almeida

Mônica Pinto / AmbienteBrasil


Os empresários que ainda guiam seus negócios exclusivamente sob a ótica do lucro estão, na verdade, colocando-os em risco de extinção. “A empresa que desprezar os preceitos de gestão ambiental correta e de responsabilidade social não sobreviverá no mercado, cada vez mais exigente”, prega Fernando Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – CEBDS.


Professor adjunto da UFRJ e do MBE da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia - COPPE -, na mesma instituição, ele é autor do livro “O bom negócio da sustentabilidade”, membro do World Business Council for Sustainable Development —WBCSD e do  Conselho do projeto Millennium Ecosystem Assessment. As entidades têm em comum o propósito de defender e buscar, na prática, um modelo de desenvolvimento em que economia e meio ambiente andem de braços dados, e não em confronto.


AmbienteBrasil - O CEBDS foi um dos realizadores do Congresso Ibero-Americano sobre Desenvolvimento Sustentável, em maio passado, evento cuja questão central foi “Desenvolvimento, qualidade de vida e ecossistemas podem conviver?”. Quais foram as respostas que emergiram dos debates?
Fernando Almeida -
O congresso, que ficou conhecido como Sustentável-2005, reuniu durante três dias cerca de duas mil pessoas. Estiveram presentes os maiores especialistas brasileiros e do exterior em desenvolvimento sustentável. Foi um marco em nossa caminhada rumo à mudança para um novo modelo de desenvolvimento que contemple de forma integrada, articulada e transparente as dimensões econômica, social e ambiental. Mais do que o conteúdo das palestras e dos debates a respeito de conceitos e práticas para chegarmos a este novo modelo, gostaria de destacar dois pontos fundamentais que ilustram o sucesso do Sustentável-2005.
O primeiro foi a presença marcante dos mais variados atores – governos, empresas, academia, ONGs de diversas áreas e representantes da sociedade civil organizada em geral. O segundo ponto tem ligação com o primeiro: foi o evidente processo de democratização do tema sustentabilidade, que começa a deixar o restrito círculo da elite de segmentos do setor empresarial e do setor acadêmico.
Em relação à questão dos ecossistemas, tivemos a grata satisfação de realizar um evento internacional pouco depois da divulgação do relatório do Millennium Ecosystem Assessment (Avaliação dos Ecossistemas do Milênio), definido pela ONU como o mais importante estudo científico já realizado nos últimos 50 anos, do qual eu tive a honra de participar como Conselheiro.


AmbienteBrasil – Do que ele trata?
Fernando -
Trata-se de um extenso relatório de dez mil páginas, contendo uma minuciosa avaliação desenvolvida por 1.360 cientistas do mundo inteiro sobre os impactos causados nos ecossistemas do planeta com a ação do homem, principalmente a partir da Revolução Industrial. Em linhas gerais, os cientistas constataram que os ecossistemas do planeja estão seriamente ameaçados caso sejam mantidos os atuais padrões de produção e consumo. Outro aspecto que merece ser destacado é que os ecossistemas foram definidos como provedores de recursos e como tal precisam ser utilizados de forma racional.


AmbienteBrasil* – No evento também foram lançadas as propostas da “Década ONU da Educação para o Desenvolvimento Sustentável”. Quais são elas?
Fernando -
O lançamento da década representa a compreensão de que sem educação, ou seja uma mudança radical da maneira de ver o mundo, não chegaremos a lugar nenhum. A UNESCO, como braço da ONU na área de educação, lançou no Brasil a década no âmbito da América Latina e fez uma exposição de seu projeto para disseminar a educação em desenvolvimento sustentável. Esse projeto, no entanto, depende da participação de outros atores, como empresas, governos e ONGs.


AmbienteBrasil – O CEBDS está envolvido nesses processos? De que maneira?
Fernando -
O CEBDS já está inserido nesse processo através da sua Câmara de Comunicação e Educação para a Sustentabilidade. A Década ONU foi justamente o tema central da primeira reunião da Câmara após a realização do Sustentável-2005. Nesta reunião, as empresas narraram suas experiências na área educacional e foi criado um comitê para apresentar uma proposta que seja capaz de viabilizar a parceria com a UNESCO. Temos que encontrar a melhor forma de responder a seguinte pergunta: como podemos trabalhar a década do ponto de vista corporativo?


AmbienteBrasil – Que futuros se pode vislumbrar para a proposta de desenvolvimento sustentável, nos cenários mais otimista e mais pessimista?
Fernando -
A visualização desses dois cenários tem sido tema recorrente em seminários, palestras, congressos sobre desenvolvimento sustentável principalmente a partir da Rio-92. Conceitualmente, temos avançado muito na compreensão de que só seremos capazes de garantir a sobrevivência para as futuras gerações por meio de ações integradas, éticas e transparentes, envolvendo os principais atores – empresas, governos e a sociedade civil organizada.
O cenário mais pessimista é previsível caso aceitemos passivamente a evolução ascendente das curvas de perda de biodiversidade, elevação da temperatura global, crescimento da miséria e da desigualdade social, da redução das reservas de água. Mas temos como reverter esse processo a partir da adoção de um novo modelo de desenvolvimento.
Todos nós devemos ter como perspectivas as Metas do Milênio aprovadas durante a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada na África do Sul, em 2002, que estabeleceram parâmetros minimamente aceitáveis para assegurar a sobrevivência do planeta e a construção de um mundo melhor.


AmbienteBrasil – O senhor é tido como um dos implantadores, no Brasil, do conceito de “Ecoeficiência”. Como ser “ecoeficiente”?
Fernando -
Em resumo, o conceito de ecoeficiência significa produzir mais, gastando menos insumos e matérias-primas. Este conceito tem sido aplicado com sucesso em grandes empresas instaladas no Brasil. Racionalizando os gastos com insumos e matérias-primas, estas empresas estão reduzindo o impacto produtivo no meio ambiente, tornam-se mais competitivas, eliminam áreas de atritos com grupos de interesse (stakeholders), reduzem a possibilidade de acidentes, melhoram sua imagem. Enfim, são ganhos tangíveis e intangíveis.
As micro, pequenas e médias empresas também estão inseridas nesse processo através da Rede Brasileira de Produção Mais Limpa, conduzida por uma parceria entre o CEBDS e o Sebrae. Não teria sentido pensar em ecoeficiência e desenvolvimento sustentável excluindo este segmento empresarial que representa 99% das 5,6 milhões de empresas do país e é a base da fonte de geração de emprego.
Hoje temos no país núcleos de PmL em 18 estados, faltando muito pouco para atingirmos todas as 23 unidades da Federação. O objetivo desses núcleos é mostrar aos pequenas empresários os benefícios da ecoeficiência e capacitar suas empresas a seguir este novo caminho.


AmbienteBrasil - “O bom negócio da sustentabilidade”, livro de sua autoria, parte da premissa de que “não existem bons negócios em sociedades falidas”. Mas até que ponto, nesse caso, . a sustentabilidade econômica está ligada àquela de ordem ambiental?
Fernando -
A frase citada na pergunta tem um espectro mais amplo, porque engloba as três dimensões da sustentabilidade – econômica, social e ambiental. A atividade econômica não sobrevive sem o chamado capital natural. O exemplo da sobrepesca da sardinha na costa do Rio de Janeiro é bastante significativo. As empresas faliram porque não respeitaram o ciclo de sobrevivência da espécie e a sardinha desapareceu.


AmbienteBrasil* – A responsabilidade social corporativa, outro conceito difundido pelo senhor, tem que efeitos imediatos sobre o desenvolvimento sustentável?
Fernando - Podemos recorrer
ao mesmo exemplo das fábricas de beneficiamento de sardinha do Rio de Janeiro. As empresas quebraram e muitos funcionários perderam seu emprego. O mesmo aconteceu com empresas que se envolveram em escândalos financeiros. Desapareceram totalmente ou perderam fatias importantes de mercado, o que também acabou se refletindo em perda de postos de trabalho, na redução da geração de renda e de pagamentos de impostos para investimentos públicos. A perda de emprego representa aumento da tensão social, que, por sua vez, afasta investimentos.
Unindo esta pergunta à pergunta anterior, podemos dizer que a empresa que desprezar os preceitos de gestão ambiental correta e de responsabilidade social não sobreviverá no mercado, cada vez mais exigente.


AmbienteBrasil* – Dentro do chamado Ecomarketing, as ações empresariais que, em qualquer nível, contribuem para a preservação da natureza estão se consolidando cada vez mais como estratégia para agregar valor às marcas. Mas há grandes diferenças entre os resultados práticos dessas iniciativas. Qual o melhor caminho?
Fernando -
Os índices de sustentabilidade criados para aferir o desempenho das empresas têm nos mostrado que há muitas variáveis para fortalecer a marca da empresa, como por exemplo a natureza da atividade empresarial, o local onde a empresa está instalada e o seu grau de comprometimento com os conceitos e práticas do desenvolvimento sustentável. O chamado “ecomarketing” é um componente importante nesse contexto, mas deve ser visto como resultado de uma ação concreta e pragmática da boa governança corporativa.
Os bens intangíveis – marca, reputação, capacidade de estabelecer parcerias e diálogos com diferentes grupos sociais – definem hoje de 75% a 90% do valor de uma empresa. Terrenos, máquinas, prédios e outros bens tangíveis correspondem a, no máximo, 25% do total. Essa constatação, feita com base em sólida pesquisa do Financial Times, é suficiente para indicar o melhor caminho para o setor empresarial.

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