11/09/2005
ENTREVISTA EXCLUSIVA: Pedro Ivo de Souza Batista

Mônica Pinto / AmbienteBrasil


Cearense, ex-bancário e sindicalista ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), da qual foi integrante da Executiva Nacional atuando como Coordenador Nacional de Meio Ambiente, Pedro Ivo de Souza Batista deixou o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) em Fortaleza para mergulhar definitivamente no movimento ambientalista.
Fundou e presidiu a ONG Instituto Associação Terrazul. Em 2003, foi convocado pela ministra Marina Silva para coordenar a Agenda 21 Brasil, no Ministério do Meio Ambiente. Em 2005, retornou a Fortaleza e assumiu, por indicação da prefeita eleita Luizianne Lins, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam).

Novamente convocado pelo MMA, assumiu em agosto a Assessoria Especial da ministra Marina Silva e a Coordenação Geral da II Conferência Nacional do Meio Ambiente. Pedro Ivo é também Coordenador da Rede Ecossocialista e integrante da Rede Justiça Ambiental.

Entre outras atividades, foi Conselheiro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), Secretário Executivo da Comissão de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável e Agenda 21, Coordenador Nacional do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) e Coordenador da Rede Brasil.

Nessa entrevista, ele fala sobre os resultados da I Conferência Nacional do Meio Ambiente, realizada em 2003, e das expectativas quanto a próxima edição do evento, em dezembro próximo.



AmbienteBrasil – A I Conferência Nacional do Meio Ambiente atingiu seus objetivos?
Pedro Ivo de Souza Batista –
Sim. Para uma primeira edição, a I Conferência Nacional superou a participação esperada e reuniu de cerca de 65 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. O objetivo era o de mobilizar a sociedade para discutir de forma ampla e democrática as políticas ambientais para o país. E essa expectativa, com certeza, foi correspondida, tendo em vista o nível dos debates, a relevância dos temas levantados e a participação efetiva dos diversos setores da sociedade ali representados.


AmbienteBrasil – Na prática, o que foi efetivamente implementado com base nas propostas levadas ao evento pela sociedade civil organizada?
Pedro Ivo –
A I Conferência Nacional produziu um total de 659 deliberações, das quais 323 são da competência do Ministério do Meio Ambiente e 336 correspondem a área de atuação de outros órgãos do Governo. No que diz respeito ao Ministério do Meio Ambiente, há informações sobre cada uma das deliberações da I Conferência Nacional no portal do MMA, onde é fácil observar que a grande maioria dessas deliberações ou já foi ou está sendo implementada. Podemos citar, por exemplo, as ações do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, que já  apresenta resultados bastante positivos, tendo em vista as estimativas para o índice de desmatamento no período 2004-2005, que pode apresentar redução significativa.
Uma das diretrizes apontadas pela CNMA contribuiu signficativamente para essa nova perspectiva de redução: “Criar novas unidades de conservação de proteção integral e ampliar as já existentes”. Hoje podemos afirmar que nunca se criou tanta Unidade de Conservação em apenas dois anos de governo. Foram mais de oito milhões de hectares de UCs criadas em todo território nacional.
Outra ação que também foi aprovada pela Plenária da I CNMA é a gestão compartilhada do meio ambiente. Com a criação das Comissões Tripartites, Estados, Municípios e Governo Federal começaram a articular ações e políticas integradas. Hoje, 25 estados já possuem suas comissões.
Nessa mesma linha de ação, um investimento inicial de quatro milhões de reais para o Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais e Conselheiros do Sisnama vai permitir que cada município crie um órgão, um conselho e um fundo de meio ambiente que vai habilitá-lo a licenciar e fiscalizar empreendimentos de impacto local. Houve avanços, também, na Agenda 21. A deliberação “promover a Agenda 21 nacional, estadual, regional e local” também está em fase de implementação. Serão formadas comissões para garantir a discussão, elaboração, implementação e monitoramento para a construção de agendas 21 locais.


AmbienteBrasil – Dentro do tema da II Conferência Nacional, o que seriam exatamente as “Políticas Ambientais Integradas”?
Pedro Ivo – Avaliamos
que, pela primeira vez no Brasil, as políticas ambientais deixam de ser executadas apenas pelo Ministério do Meio Ambiente. Vale citar novamente o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, que envolve 13 Ministérios, tem a coordenação geral da Casa Civil e a coordenação executiva do MMA. E como forma de garantir a transversalidade relativa à questão ambiental, várias agendas estão sendo discutidas e/ou implementadas com, por exemplo, o Ministério das Minas e Energia, Ministério da Integração Nacional, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério dos Transportes, Ministério dos Esportes, Ministério das Cidades, Ministério da Saúde, Ministério da Ciência e Tecnologia, entre outros.
Nossa expectativa, portanto, é de que a II Conferência Nacional avalie a Política Ambiental Integrada do Governo Federal, tendo em vista que a promoção do desenvolvimento sustentável não é atribuição exclusiva do MMA, bem como indique de que forma essas políticas integradas devem se desenvolver, pelo menos até a III Conferência Nacional. Foi com base nessas premissas que o organograma da II CNMA incorporou uma Comissão Interministerial de Acompanhamento, já instalada, que terá papel fundamental em todo o debate sobre as ações ambientais integradas.


AmbienteBrasil – Este ano, a II Conferência Infanto-Juvenil de Meio Ambiente tem quais metas?
Pedro Ivo –
A finalidade de todo o processo da conferência é a mobilização que acontece na escola e na comunidade. A Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente é um processo de mobilização para a formação de comunidades sustentáveis. Essa é a nossa grande meta. Em termos de mobilização, esperamos reunir, em Brasília, cerca de 700 delegados e delegadas de todos os estados brasileiros, para a II Conferência. Na última edição, foram realizadas conferências em 16 mil escolas de todo o país. A meta para este ano é de pelo menos dobrar esse número, chegando a 32 mil escolas. Esperamos, ainda, chegar a 56 mil escolas cadastradas para envolvê-las na implementação das deliberações.


AmbienteBrasil – Houve alguma continuidade no trabalho de educação ambiental despertado a partir da I Conferência nas escolas?
Pedro Ivo –
Sem dúvida. Está sendo implantado o Programa de Formação de Jovens e Professores. Temos, também, a Com-Vida – Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida -, proposta pelos participantes da I Conferência na área da Educação Ambiental. A Com-Vida é uma nova forma de organização na escola e se baseia na participação de estudantes, professores, funcionários, diretores e comunidade para preparar as conferências e implantar a Agenda 21 nas escolas.
De 3 a 11 de setembro, acontece o II Encontro da Juventude pelo Meio Ambiente, em Luiziânia, Goiás, que objetiva iniciar o processo de formação dos membros dos Coletivos Jovens e Pontos Focais do Geo Juvenil Brasil; contribuir para a instrumentalização inicial temática em educação ambiental, fortalecimento organizacional, educomunicação, empreendedorismo e participação política e promover momento de integração e de troca de experiências entre os participantes.


AmbienteBrasil – Por ocasião das reuniões preparatórias para a I Conferência Nacional, em alguns estados houve queixa quanto aos temas das discussões terem sido previamente determinados, em uma programação fechada, pouco adaptada às especificidades de cada região. Como será a metodologia desta vez?
Pedro Ivo –
A crítica relativa à I CNMA não se sustenta, pois as pautas da Conferência Nacional são construídas de forma plural, a partir da base. Necessário entender que a Conferência Nacional do Meio Ambiente compreende as Conferência Regionais, as Conferências Estaduais, as plenárias setoriais e a grande plenária nacional, cujo objetivo é concluir esse amplo processo de debate com a discussão da política ambiental nacional. Por isso o MMA, como órgão convocador da Conferência, define o tema nacional. A pauta pertinente aos estados é definida na própria Conferência Estadual. O que fazemos, posteriormente, é compatibilizar as pautas, no momento da consolidação do Documento Base da CNMA, já contemplando as contribuições e deliberações dos estados.
Além disso, os temas da pauta da CNMA estão sendo discutidos democraticamente no âmbito da Comissão Organizadora Nacional, que é representativa da sociedade civil, dos setores econômicos e do setor público, da comunidade científica, das comunidades tradicionais e dos povos indígenas, dos movimentos sociais, ambientalista e dos trabalhadores, dos municípios e do Parlamento brasileiro.


AmbienteBrasil – De modo geral, quais são suas expectativas em relação ao evento?
Pedro Ivo –
Nossa expectativa é de que a II Conferência Nacional se confirme como um amplo espaço de discussão democrática em que todos os setores da sociedade possam se manifestar e apresentar suas propostas e, dessa forma, contribuir com o Ministério do Meio Ambiente na implementação da política ambiental do país. Assim, esperamos que a II CNMA possa fortalecer o Sisnama, consolidando-se como a principal forma de controle social sobre o Sistema.


AmbienteBrasil – Fora a proposta da Conferência Nacional em si, em quais outros momentos o Governo Federal tem honrado a própria diretriz de garantir “controle e participação social” em sua política ambiental?
Pedro Ivo –
Com efeito, Controle e Participação Social é diretriz da Política Ambiental Integrada do MMA, uma premissa democrática para o desenvolvimento sustentável. Assim, toda política do Governo Federal pertinente ao Ministério do Meio Ambiente tem sido resultado de amplo diálogo com a sociedade civil.
E para assegurar a continuidade e o exercício desse diálogo permanente, além da realização da Conferência Nacional do Meio Ambiente, da qual estamos preparando a segunda edição, promovemos a reestruturação do Conselho Nacional do Meio Ambiente, do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, da Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21, a democratização do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, com a criação de espaço para representantes da sociedade civil, criamos a Comissão Nacional de Biodiversidade, a Comissão Coordenadora Nacional do Programa Nacional de Florestas, os GTs permanentes para implementação de políticas de conservação para a Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Zona Costeira, a Comissão Ramsar para áreas úmidas, o GT Araucárias, com participação dos governos dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e, por fim, a criação de comitês locais para os programas finalísticos Proambiente e Gestar.

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